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terça-feira, 3 de março de 2026

The Frame of Life, de Renato Mello e Fabio Golfetti

 Alguém me viu, um abraço, ambos com máscara, decerto, em um vernissage, e disse: “Que legal te encontrar!” Não a via há uns três ou quatro anos. Conversamos como velhos amigos. Depois de nos despedirmos, algo me afligiu. Não lembrava do nome dela. Só fui lembrar no dia seguinte depois de ficar fazendo (muitas) associações aleatórias.

Amigos diziam que tinha uma memória prodigiosa. Posso dizer que sim, principalmente, na música. Por curiosidade, ao ouvir discos de minha preferência, sabia até quem tinha sido o engenheiro de som, muito pelo costume de ler encartes e contracapas. Agora tem o Google e não guardo mais nada na memória. Espero que esses esquecimentos banais não atinjam um nível preocupante.

Ao ouvir Frame of Life, álbum de Renato Mello e Fabio Golfetti, vejo o tanto quanto somos habitados por lembranças longínquas que perduram.

Renato, arquiteto por profissão, foi um dos membros de uma banda paulistana que alguns devem conhecer: Kafka. Lançaram dois discos LPs pelo selo Baratos Afins. Apresentaram-se em casas como Madame Satã, frequentada por uma juventude digamos, alternativa, que gostava de Sisters of Mercy, Bauhaus, The Smiths, Acho and the Bunnymen, The Cure e outras do gênero. Renato se distanciou do universo da música, mas nunca se desligou dela. Nunca deixou a guitarra e o saxofone alto e teclados, exercitando-se sempre, e compondo, enfim, a música sempre esteve presente.

A origem do título do disco está intimamente relacionado à formação de arquiteto de ambos. Vem de uma frase de Frank Lloyd Wright: “Architecture is the frame of life. It is the nature and substance of whatever is.”. 

A gravação de Frame of Life coincide com a época da pandemia da Covid. Foi feita entre setembro e dezembro de 2021, imagino que tenha sido remotamente com cada um dos músicos em suas casas. Além de Mello no sax alto, guitarra, teclados e vocais, e Golfetti na guitarra, tocam Gabriel Golfetti (teclados e baixo), Giovanni Lenti (bateria) e Gustavo Santhiago (flauta em Space Is the Key).

Future Past Mystery, que abre o disco, é uma faixa longa de quase dez minutos. Instrumental, bem climática, tem Fabio nos glissandos e Renato no sax. É impactante. Fica melhor ainda pela perfeita combinação com a próxima, mais tranquila, cheia de nuances: Starfish. Os vocais e a letra são de Renato. Fallingwater, a seguinte, a referência, evidentemente é Frank Lloyd Wright, arquiteto da Casa da Cascata, na Pensilvânia. Fruitless Park é outra não instrumental. Space Is the Key é a mais “complicada”, inspirada em Sun Ra, cultuado por Fabio e Renato. Tem uma estrutura circular, com flautas de Gustavo Santhiago em overdubs. End of Life encerra o disco.

Frame of Life 2, gravado entre o fim de 2022 e abril de 2023, vai na linha do anterior. Os títulos das músicas – Songs of Two Planets, Sounds Like Paintings, The Sky Above, Events in Calm Water, Daybreak, Night Sketch, Off White Shadows – dão uma pista clara para o tipo de som que ouvimos. Podemos descrever como paisagens sonoras, até na construção delas, lembrando vagamente Music for Films (EG Records, 1976), de Brian Eno, pelo menos nos títulos. São camadas superpostas, instrumentações em overdubs, guitarras em glissandos de Golfetti que funcionam, assim como os teclados, sugerindo pinturas impressionistas, paredes sonoras virtuais. Um destaque é Events in Calm Water. Como sugere o título, sobre a superfície da água, que são o baixo e um teclado discreto, sobressaem-se sons de saxofone, às vezes só, em outras em camadas sobrepostas, e um breve solo de guitarra, que nem chega a ser um solo exatamente. Na verdade são sons que dançam em uma superfície.

Nesse segundo disco, Fernando Alge participa das cinco faixas finais. Não posso dizer com certeza se os solos em Events in Calm Water são dele, assim como outro belíssimo solo em Day Break, que é a seguinte. A sétima, Night Sketch, com uma batida mais roqueira, com baixo e bateria bem marcados, ouvimos belíssimas intervenções de guitarra.

Ouça Frame o Life.

Ouça Frame of Life 2.

sexta-feira, 5 de março de 2021

The Song Remains the Same 2


 

Voltando à seara do rock, ao fazer o “The Memory Remains”, tive que fazer um “parte 2”.

1 Focus - Hocus Pocus
2 Cream - The White Room
3 Deep Purple - Lazy
4 Led Zeppelin - Babe I’m Gonna Leave You
5 Yes - Yours Is No Disgrace
6 Humble Pie - I’m Ready
7 Genesis - The Chamber of 32 Doors
8 Grand Funk Railroad - Footstompin’ Music
9 Emerson, Lake & Palmer - From The Beginning
10 Jethro Tull - My God
11 The Rolling Stones - Let It Loose




terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Meu playlist dos anos 1970

No tempo das fitas cassete (os com menos de 50 não devem ler isso), dificilmente, fazia playlists. Tinha preguiça. Mas quando surgiram os Mini Discs (MD), da Sony, fiquei fascinado. Comprei um MD Changer e adaptei ao meu toca CDs. Devo ser o único a ter comprado isso. Devo ter gravado quase 200 MDs, fazendo playlists temáticos. Voltei a ouví-los no meu MD player de mesa Sony, com o som passando pelo meu amplificador de válvulas e o som saindo nas B&W que ganhei do meu primo Luiz Carlos Miguita Junior. 
O título é “The Memory Remains”, inspirado, claro, em “The Song Remains the Same”, do Led Zeppelin. O playlist:

1. Alice Cooper - School’s Out
2. Eric Clapton & Steve Winwood - Presence of The Lord
3. Steppenwolf - Born to Be Wild
4. Gentle Giant - Wreck
5. Yes - Roundabout
6. King Crimson - Epitaph
7. Traffic - Low Spark of High Heeled Boys
8. Jimi Hendrix - Little Wing
9. Deep Purple - Highway Star
10. The Beatles - A Day in The Life
11. The Rolling Stones - Moonlight Mile
12. Crosby, Stills & Nash - Dejà Vu
13. Otis Redding - I’ve Been Lovin You Too Long (To Stop Now)



quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Terje Rypdal, como nos bons tempos

Acaba de ser lançado “Conspiracy”, do guitarrista Terje Rypdal. É uma volta do norueguês à sonoridade com que o conhecemos em seus primeiros álbuns pela ECM. Ele não pode ser classificado no gênero “jazz”, se formos mais ortodoxos. É um músico que privilegiou, desde o início da carreira, o instrumental. 

Se for necessário um rótulo, diria que tem o rock como fonte para as suas aventuras sonoras. Antes de passar a gravar pela ECM, aí considerando a mão de seu dono e produtor, Manfred Eicher, montou a banda The Vanguards, inspirado na inglesa Shadows e The Ventures. Curiosamente, estudou piano e trompete no Conservatório mas a guitarra, foi autodidata.

As portas para gravar na ECM se abriram por meio de sua cooperação com Jan Garbarek e Jon Christensen. Com sua formação em conservatório, Rypdal compôs a 1ª Sinfonia, comissionado pela Televisão Norueguesa. No mesmo ano de 1975, gravou “Odissey”, álbum com a sonoridade do jazz-rock fusion. O produtor e dono da gravadora alemã explorou bem esse ecletismo musical dele. Cada álbum lançado explorava um viés diferente. Um ano antes, pela ECM, lançou “Whenever I Seem to Be Far Away”, peça belíssima e soturna, com orquestra e instrumentos eletrônicos como o mellotron. Cada disco explorava um caminho diferente. O comum em todos eles era a voz única de sua guitarra. Era e é inconfundível, sendo suas composições de cunho erudito ou não.

“Conspiracy”, tem Ståle Storløkken nos teclados, Endre Hareide Hallre no Fender Precision e no baixo fretless e Pål Thowsen na bateria, lembra muito os primeiros álbuns dele na ECM. Nem tão roqueiras, sua guitarra é climática, evocando paisagens desoladas. São sons que criam atmosferas, em distorções com notas longas que criam uma tensão dramática, melancólicas e por vezes pungentes. É muito bom ver que certas pessoas não sucumbiram ao tempo. Continuam com suas energias vitais altas. E pensar que Elvis Presley, por exemplo, morreu com 42 anos e tinha se tornado uma caricatura de si mesmo. Rypdal está com 73 e ainda é capaz de nos emocionar. “Conspiracy” tem algo de nostalgia, decerto. Faz-nos lembra de uma música que nos emocionou há quase 50 anos. Não é qualquer um que nos resgata essa memória. 


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Um ser de outro planeta chamado David Sylvian

David Sylvian é estilo na música e no visual
Há muito tempo, empolgadíssimo por ter comprado na Music Box, uma pequena loja na Praça Villaboim, em Higienópolis, São Paulo, o álbum Brilliant Trees (1984), veio um amigo que supostamente era um conhecedor de música erudita, bem, até que entendia, mais que eu, naquela época. Conhecia David Sylvian como um dos membros do grupo Japan. O resultado não foi dos melhores. Disse algo como “que cara afetado” e ainda gozou de mim cantarolando algo imitando Sylvian. Como ele gostava e tocava piano até que bem, coloquei as partes em que Ryuichi Sakamoto, Steve Nye e Richard Barbieri tocavam piano ou sintetizador. Não funcionou. Não me afetou também pela razão de que tinha gostado muito do disco em que tinha músicos participantes como Jon Hassel e os citados antes, Holger Czukay e Kenny Wheeler.


Ouça a música título.



Uns anos depois, 1986, talvez, fui a Nova York e comprei meu primeiro tocador CD player. Além de cerca de 60 LPs comprei cerca de 20 CDs para estrear o aparelho. Um deles era Gone to Earth. Fiquei absolutamente hipnotizado e maravilhado desde a primeira audição. Ouço com emoção até hoje Laughter & Forgetting e Before the Bullfight, duas faixas em sequência antes da música título, com solos sublimes de Kenny Wheeler ao trompete e flugelhorn. O violão e a guitarra de Bill Nelson é outro destaque.

Nunca sabemos direito o por que de elegermos os nossos álbuns preferidos dentre os milhares que ouvimos. Existem questões sentimentais, conjunções de quando ouvimos pela primeira vez etc. Mas fato é que é um dos meus “desert island records”.

Tudo é muito perfeito em Gone to Earth, desde a bateria excepcional de Steve Jansen, as “atmosferas” de Richard Barbieri, as participações de Ian Maidman no contrabaixo e de Mel Collins no sax soprano.

Ouça Laughter & Forgetting, que fica perfeita com a seguinte (Before the Bullfight). A guitarra e o violão de Bill Nelson são destaques, junto ao solo de Kenny Wheeler.



terça-feira, 8 de março de 2016

Quando King Crimson é jazz

Cada fã fervoroso do King Crimson tem seu disco e sua época preferida. Tenho amigos que “descobriram” a banda chefiada por Robert Fripp com Islands, lançado em 1971. Sem ser unanimidade pelos crimsonmaníacos da época, era daquele tipo “ame-o ou odeie-o”.

Sons de contrabaixo no arco, o piano etéreo de Keith Tippett e a flauta melíflua de Mel Collins, a entrada da voz de Boz e a batida marcante do baixo, tudo trazia uma expectativa um tanto estranha do que poderia ser o resto do álbum. Sons esparsos do sax, cordas, percussão e vozes fantasmagóricas sob a a marcação do baixo, fazem de Formentera Lady uma canção inacabada que serve de ponte para o início de Sailor’s Tale, agora sob um mood jazzístico com solos do saxofone tenor de Collins, o baixo de Boz e um solo fenomenal de Robert Fripp a partir de uma súbita mudança de clima. Lá pelo quarto minuto sobressai a bateria de Ian Wallace e um colchão climático de mellotron. Tudo estranho, e para ser um tanto mais, a próxima é The Letter, delicadamente lúgubre na voz de Boz, meio barroca com o som que deve der o de uma celesta.

Não tenho o costume de prestar atenção em letras. Só se alguém disser algo como: “você viu que letra bonita!” Aí, sim. Quando comecei a gostar de música, tanto fazia que a letra fosse em inglês ou javanês. Tudo era som, simplesmente. Parece que a letra de Ladies of the Road, de autoria de Pete Sinfield, tem um conteúdo pouco simpático às mulheres. É o que dizem, mas não faz muita diferença. Importa que é boa. É a mais vigorosa do álbum. Para que ninguém fique muito animado, Song of the Seagulls é uma peça que pode ser classificada como sendo erudita. É um prelúdio para abrir uma das mais belas composições do King Crimson: Island. Uma crítica da época descreveu-a como a melhor canção para dormir do ano, acho que, na Rolling Stone. Soporífera? Nem tanto. É uma grande viagem por paisagens misteriosas como num sonho em que não conseguimos perceber se é um sonho mesmo ou um pesadelo . Hoje, ao contrário do que aconteceu ao ser lançado, tenho a certeza de que está reservado um lugar especial na discografia do King Crimson.

Tim Landers à esquerda, e Ian Wallace no centro
Crimson Jazz Trio
Island é o único disco em que Ian Wallace participa no King Crimson. O baterista resolveu formar um trio com o pianista Jody Sardine e o baixista Tim Landers, com o objetivo de realizar releituras de temas de sua ex-banda. Por que não King Crimson em formato mais próximo do jazz? Afinal, muitos dizem que o KC incorpora música erudita e jazz e que rotulá-los como art-rock ou rock progressivo é limitador.

Pouco tempo antes de Ian reunir o trio, alguém já tinha gravado uma composição da banda inglesa. É possível que tenha sido ideia de Tony Levin, ex-King Crimson, Rachel Z tocar One Time, já que era seu baixista em Everlasting, disco lançado em 2004. A pianista, em vez de clássicos antigos, é conhecida por tocar temas do rock e do pop, como Wild Horses, de Mick Jagge e Richards, Kiss from a Rose, de Seal, Red Rain, de Peter Gabriel, e Here Comes the Sun, de George Harrison.

Ian, Jody e Tim gravaram King Crimson Songbook volume One em menos de uma semana durante o mês de maio de 2005. Entraram em estúdio novamente em junho de 2006 para gravarem um segundo volume. Meses depois, em agosto, Ian Wallace teve diagnosticado um câncer no esôfago. Relatou a agonia em um blogue criado especificamente. Morreu em fevereiro do ano seguinte. Foi sua última gravação em estúdio. O KC3, durou dois álbuns.

O volume 1 começa com 21st Century Schizoid Man, talvez a canção mais conhecida do KC. As demais são Three of a Perfect Pair, Catfood, Starless, Ladies of the Road, I Talk to the Wind, Red e Matte Kudasai.

O volume 2 começa com outro clássico, também do primeiro disco do KC: The Court of the Crimson King. Segue com Pictures of a City, One Time, Frame by Frame, Inner Garden, Heartbeat, Island Suite (Press Gang, Zero Dark Thirty, Formentera Lady, Sailor’s Tale, The Plank) e Lament. Press Gang, Zero Dark Thirty e The Plank não são originais do KC. A primeira é de Ian Wallace, a segunda, de Jody Nardone, e a última, de Tim Landers. Curiosamente, na suite estão incluídas Formentera Lady e Sailor’s Tale e a música-título, não. A dominância é de temas dos álbuns Discipline, Beat, Three of a Perfect Pair e de Thrak, fase em que Adrian Belew fez parte da banda.

O primeiro volume é melhor, o primeiro é excepcional, o segundo, muito bom. São itens que todo “crimsonmaníaco” deve conhecer. Com isso, não digo que todos devam gostar. Eu gostei, e muito.

Um destaque é Three of a Perfect Pair.




Ouça Starless.




Ouça o volume I na íntegra.




Ouça o volume II na íntegra.




Veja também apresentação do trio, em 2006.




Um outro grupo toca o repertório do KC. Mas, fica para o próximo post.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

O novo Pink Floyd é só para os fanáticos pela banda

Bela capa do novo Pink Floyd
Com a saída de Sy Barrett, entrou David Gilmour Alguns podem dizer que o Pink Floyd piorou. Pode ser. Os dois primeiros álbuns são excepcionais. O próximo a sair foi Roger Waters. Na briga, ficou a questão de quem tinha direito à marca “Pink Floyd”. Waters se deu mal. Depois disso, alguns dizem que a banda ficou pior. Ficaram Richard Wright, Nick Mason e David Gilmour.

O álbum mais apreciado pelos fãs e não tão fãs é Dark Side of the Moon. Parece que é consenso ver Roger Waters como a “cabeça” intelectual de álbuns conceituais como o citado e The Wall. Pode ser. Mas a identidade musical, a marca do que percebemos como sendo a banda, se deve muito ao estilo da guitarra de David Gilmour e sua voz única, bem normal, mas de registro muito agradável, e aos teclados de Wright. Ficou evidente que os fãs continuaram fiéis aos membros remanescentes e menos ao baixista.

Como há um número enorme de fãs do Pink Floyd com menos de 50 anos, esses gostam da fase Gilmour e pouco conhecem os dois primeiros, ou até Ummagumma, já com David, o mais experimental da discografia deles.

Independentemente da idade, sejam aqueles que tiveram contato com a banda à época de Syd Barrett, ou depois, o Pink Floyd tem essa qualidade quase atemporal de ter fãs de todas as idades. Muitos devem ter ficado na expectativa com a notícia de que lançariam um álbum com inéditas. Inéditas sim, o que não quer dizer que estão apresentando novas composições.

Como Rick Wright morreu em 2008 em decorrência de um câncer, os Floyds são Gilmour e Mason. Eles dizem que é o último. Os nostálgicos da banda podem matar as saudades com os álbuns do guitarrista que, por sinal, de tempos em tempos, lança álbuns como líder, isso, até quando ainda o Pink Floyd encontrava-se na ativa. Mason gravou apenas um – Nick Mason's Fictitious Sports (1981) – e deve estar mais interessado em usufruir das milhões de libras que tem depositadas no banco. Aliás, seu único solo é bom e conta com o genial Robert Wyatt, que foi do lendária Soft Machine.

Ao anunciarem o novo álbum, disseram que era um tributo a Rick. Verdade. A maioria das composições é de sua autoria. Os remanescentes retrabalharam e remixaram a partir de registros de estúdio de Division Bell. Aquele climão tipicamente floydiano, viajante, com guitarras de ótimo gosto, está em cada trecho do álbum. Mas não é nada mais do que isso. Funciona bem para uma trilha sonora. É uma colcha de retalhos – ou de sobras –, belas, muitas vezes, mas retalhos. Enfim, é um disco para os seus fãs mais ardorosos. Uma última coisa: é o primeiro álbum deles depois de 20 anos. É apenas para afirmar que estamos ficando velhos.

Na maioria, as faixas são como vinhetas, pílulas da felicidade para o ouvinte. Ouça Alons-Y 1 e 2. São das melhores do álbum.




Belo órgão de Rick Wright em Autumn ’68.


Surfacing. Mais Pink Floyd, impossível.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Peter Gabriel: agora você coça as minhas costas

Peter Gabriel à época do Genesis
Uma banda chamada Genesis – nome um tanto pretensioso, não? – fez tremendo sucesso nos anos 1970. Além do som sofisticado, com instrumentistas da categoria de Steve Hackett, Mike Rutheford e Tony Banks, contavam com um vocalista excepcional, se não pela voz, ao menos por sua presença carismática. Peter Gabriel criava personagens, usando roupas extravagantes e estranhas. No tempo em que ainda tinha cabelos (hoje, passa máquina zero), raspava-os apenas na parte superior e usava maquiagens pesadas. Era muito diferente e a voz era especial, melancólica, mesmo em momentos mais eletrizantes.

O Genesis fez um tremendo sucesso. Vendeu milhões de discos. Suas letras não eram banais. The Lamb Lies Down on Broadway era uma obra conceitual e ambiciosa. Não eram os únicos a idealizar discos que tinham algum conceito. As bandas chamadas progressivas ambicionavam algo mais sofisticado do que o rame rame básico do rock. Às vezes se perdiam em suas pretensões. Quando dava certo, saíam coisas muito boas.

Peter Gabriel ficou grande demais em The Lamb e acabou por sair e seguir carreira solo. Os companheiros devem ter ficado muito felizes: eram eclipsados pela presença forte de seu cantor. Em vez de contratarem um cantor, elegeram o insosso Peter Collins para substituí-lo nos vocais. Aquela voz um tanto estridente, um sub Peter, fez bastante sucesso, mas, à essa altura, o público do Genesis já era outro.

Se nos palcos Gabriel era “excesso”, nos títulos foi minimalista: Peter Gabriel I, II, III e IV. Quando resolveu colocar um título, foi simplesmente So. Peter tinha muito a dizer. No primeiro que lançou tinha os hoje clássicos Solsbury Hill e Here Comes the Flood. Como nesse, no segundo conta com a presença do genial Robert Fripp, criador do King Crimson.

Peter tinha deixado as esquisitices visuais dos tempos do Genesis. As capas dos primeiros álbuns mostram um rosto que poderia ser confundido com qualquer outro. Existe uma dificuldade natural do público com discos sem título. Arruma-se sempre um jeito de “apelidá-los”; como o sem título dos Beatles: é o “álbum branco”. Dos de Gabriel, no primeiro é um pedaço de carro em um dia chuvoso. Virou o disco do “carro”; o segundo é “scratch” por causa dos rasgos da imagem feitas pelas unhas de Peter; no terceiro, metade do rosto dele está se derretendo, e por isso, “melt”. Este é um dos melhores. No Self Control, I Don’t Remember, Not One of Us e Biko são composições geniais.

Em So, Gabriel ficou pop. A primeira do disco, Sledgehammer, era mais comercial. Vendeu muito. Com várias faixas excepcionais, a melancólica Don’t Give Up, na qual divide os vocais com Kate Bush, é uma torch song emocionante.

Veja o clipe de Sladgehammer.




Gabriel, logo depois, compôs a trilha de A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. Enveredou pela tal da “world music”. Criou o selo Real World e ajudou a tornar conhecidos os nomes de Nusrat Fateh Ali Khan, Geoffrey Oryema, Farafina e Papa Wemba, dentre outros. Música de qualidade, fruto de pesquisa e bom gosto.

Em 2010, lançou Scratch My Back. Até pra gravar um simples disco de covers, Gabriel inovava. Gravou Paul Simon, Radiohead, Arcade Fire, Regina Spektor, Bon Iver, David Bowie e Lou Reed, dentre outros (leia: http://bit.ly/1cKUZ4X). Em contrapartida, a proposta era: agora vocês cantam as minhas composições.

Neste ano foi lançado And I’ll Scratch Yours. É o complemento de Scratch My Back. Gravar covers é meio caminho para o sucesso, pois já são canções conhecidas. Bem, não é tanto assim. Gabriel não é exatamente um fabricante de hits. É autor de grandes canções e conhecidas por um público mais específico, o que é meio caminho andado.

A primeira é I Don’t Remember, com David Byrne. Ouça.




Em Scratch My Back, Peter Gabriel gravou Listening Wind, dos Talking Heads.

Feist não gravou nada, mas está no CD mais recente com a bela Don’t Give Up. Veja apresentação dela com Gabriel.




Um dos melhores momentos é o de Arcade Fire interpretando Games Without Frontier.




Outro momento alto é de Lou Reed cantando Solsbury Hill. Em Scratch My Back, Gabriel cantou The Power of the Heart.




Veja Joseph Arthur cantando Shock the Monkey.




Quem fecha o disco é Paul Simon interpretando Biko. Escolha lógica: três faixas de Graceland (1986) contam com o grupo sul africano Ladysmith Black Mambazo.


quinta-feira, 9 de agosto de 2012

No que Rachel Z tem a ver com o King Crimson?

Dotes além dos musicais de Rachel Z
Quem diria, o rock progressivo virou jazz! Pensando bem, muito natural. Naquelas atmosferas viajantes, com letras idem, a parte instrumental tinha um papel importante. O tal do rock progressivo surgiu como uma reação àquele rock de três acordes. Dizia-se que bastava aprender a tocar três acordes para ser guitarrista de rock. Existe até uma certa verdade nessa afirmação. Muitos “instrumentistas” (as aspas são intencionais), ao formarem suas bandas mal sabiam tocar um baixo ou uma guitarra. Bastava ter energia, principalmente na época do punk rock. O melhor exemplo é Sid Vicious, do Sex Pistols.

O rock progressivo era mais elaborado e ganhou muitos fãs por essa razão. Seus admiradores se achavam mais inteligentes por gostarem de algo mais sofisticado, mais cabeça. Dessa seara despontaram bandas como o Yes, Van Der Graaf Generator, Premiata Forneria Marconi, Iron Butterfly e outros menos votados. Destes, cabe lugar especial à banda liderada por Robert Fripp, o King Crimson.

Rachel Z, antes de ser “Z”, era Rachel Carmel Nicolazzo, nome “difícil” para ser artístico. A moça passou por caminhos que milhares fizeram. Passou pelas melhores escolas de música e participou da banda Steps Ahead e tocou em High Life, disco de Wayne Shorter, e com Stanley Clarke e Lenny White, parceiros de uma das formações de maior sucesso do jazz-fusion – ou jazz-rock, como também era chamado – , o Return to Forever, de Chick Corea.

Como muitas da sua geração, não ficou imune ao poder avassalador do rock e do pop. Esse interesse sempre esteve presente no histórico de Rachel. O fato de ter gravado um disco chamado Moon at the Window: Jazz Impressions of Joni Mitchell (Tone Centre, 2002) é amostra do que Rachel buscava: bons temas da música popular e desenvolvê-los na linguagem do jazz. A “queda pop” deve tê-la levado a participar do tour Growing Up, de Peter Gabriel. Leio na Wikipedia, de que participa de uma banda de rock chamada Peacebox como cantora (nesse quesito, não convence).

A música dita popular sempre alimentou a música de improviso. Não é nada surpreendente Rachel procurar temas no repertório contemporâneo em vez de, como muitos, ficarem no terreno seguro dos standards. Mesmo um músico, que podemos considerar como sendo um velho – cronologicamente, devo ressaltar –, Herbie Hancock, lançou um álbum chamado The New Standard (1995), contendo composições de Kurt Cobain (Alll Apologies), Peter Gabriel (Mercy Street), Prince (Thieves in the Temple), e outros como Sade Adu, Simon & Garfunkel e Steely Dan. Esse disco é uma demonstração de que Hancock é um músico inquieto; sempre investiu em novas linguagens. (sobre este disco, leia http://bit.ly/NZVoq5)

Além de Hancock, Rachel Z não está só na exploração do repertório pop. Nesse quesito, os grandes mestres são Ethan Iverson (piano), Anderson (baixo) e David King (bateria), de The Bad Plus.

No CD The First Time I Ever Saw Your Face (Venus Records 2003), além do clássico conhecido na voz de Roberta Flack, interpreta Heart Shaped Box, de Kurt Cobain, e Fragile, de Sting. Em Everlasting (2205), a lista é mais extensa: Here Comes the Sun (Geroge Harrison), Kiss from a Rose (Seal. Sobre esta música, leia e ouça em http://bit.ly/QFdIGD), Wild Horses (Jagger & Richards), Ring of Fire (Johnny Cash, M. Kilgore), Black Hole Sun (Chris Cornell / Soundgarten), Fields of Gold (Sting), Kid Charlemagne (Steely Dan), One Time (King Crimson), Tonite Tonite (W.P. Corgan / The Smashing Pumpkins), Kiss of Life (Sade), e Red Rain (Peter Gabriel). O bom gosto de Rachel Z apenas valoriza canções bem conhecidas, quando executadas ao piano, em linguagem instrumental.

Fripp, um gênio da guitarra
Robert Fripp é o gênio atrás do King Crimson. No primeiro álbum – In the Court of the Crimson King(1969) –, a primeira faixa é um choque chamado 20th Century Schizoid Man. É uma música esquizofrênica, com a voz distorcida, de modo a torná-la mais “rough”, de Greg Lake e uma guitarra enlouquecida de Fripp, diferente de tudo o quanto tinha sido ouvido até então. Quando esperamos uma continuidade desse clima, a faixa seguinte – I Talk to the Wind – é uma canção evocativa e melancólica, perfeitamente combinada com a voz doce e segura de Lake, que depois sairia para formar outra banda emblemática do rock progresivo, o Emerson, Lake & Palmer. In the Court, até hoje, é impactante.

In the Wake of Poseidon, o disco seguinte, é quase uma continuação do primeiro. Essa sensação é reforçada pelos vocais de Greg Lake. Lizard, o álbum posterior tem um line up bem variado com uma seção de metais de primeira: Robin Miller (oboé e cor anglais), Marc Charig (cornet), e Nick Evans (trombone). Uma participação importante é a do pianista Keith Tipett, um dos ícones do jazz britânico.

O quarto álbum representa outra mudança de rumo. Island, apesar de não ter sido muito bem recebido é um disco excepcional e contém faixas muito diferentes entre si. Temos uma estranhíssima música chamada Ladies of the Road, seguida de uma faixa instrumental (Prelude: Song of the Gulls), mais assemelhada a uma peça erudita de câmara, lindíssima, por sinal, e é o perfeito prelúdio para a música-título, muito conhecida dos ouvintes da Rádio FM Eldorado. Apesar de ser uma gravação de 1971, vinte ou mais anos depois, ainda entrava na programação dessa rádio paulistana.

Não menos estranha que Ladies of the Road é a primeira faixa do álbum. Formentera Lady inicia com notas de contrabaixo no arco e depois entra a flauta de Mel Collins; aí é a vez da voz fantasmagórica de Bozz (Burrell), muito apropriada para a atmosfera, idem. Sailor’s Tale é uma composição tipicamente “frippiana”, com levadas de notas em repetição, em ritmo acelerado. É uma peça que lembra a banda inglesa Soft Machine. The Letters é uma música muito estranha e uma letra de Pete Sinfield tão escabrosa quanto a música. No início, se assemelha a um acalanto que é interrompido por sopros, baixos e acordes agudos da guitarra de Robert Fripp. Deu para perceber que Island é um dos meus preferidos da discografia do King Crimson?

Larks’ Tongues in Aspic (1973) e Starless and Bible Black (1974) representam outra guinada no som do King Crimson. A inclusão do baixista e vocalista John Wetton é a diferença; por onde passou, como no Asia, percebem-se suas digitais. Com David Cross no violino, viola e teclados, e Bill Bruford na bateria, além, é claro do grande cérebro Robert Fripp, essa formação produziu grande música. O box set Great Deceiver, com quatro CDs contendo apresentações ao vivo, lançado anos depois, mostra o quanto eram bons.

Demorei, mas estou quase chegando à formação que importa para o fecho da conexão Rachel Z – King Crimson. Após um hiato de mais de seis anos (o último tinha sido Red, em 1974), a banda “renasceu” com Adrian Belew nos vocais e na guitarra, Tony Levin no baixo e stick bass (aqui no Brasil, o único que andou tocando esse instrumento foi Akira da banda Akira S e As Garotas Erraram, que tinha no vocal Alex Antunes; grande banda de uma composição definitiva: Sobre as Pernas), e Bill Bruford na bateria. Gravaram Discipline (1981), Beat (1982), e Three of a Perfect Pair (1984). Um par de três perfeito. Pura energia, grandes músicas, vocal meio histérico de Belew, e guitarras (a dele e de Fripp) mais histéricas ainda. Robert Fripp, apesar de liderar a banda, mais parece um sideman com sua presença low profile, sempre sentado e produzindo os sons mais surpreendentes. É um dos gênios da música contemporânea.

A banda continuou por mais algum tempo com a inclusão de Trey Gunn tocando stick bass e Pat Mastelotto na percussão acústica e eletrônica. One Time, a música que Rachel Z gravou, está no álbum THRAK (1994). Uma das razões que podem ter contribuído para que Rachel se atentasse a One Time pode ter sido o fato de que Tony Levin, o baixista dessa época, tenha também sido membro da banda de Peter Gabriel. Chute.

Ouça a original, com King Crimson.




Ouça a de Rachel Z.