quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gustavo Pinheiro e o Art Ensemble of Chicago que não vimos

Eram raras as apresentações de músicos de jazz no Brasil antes da criação dos festivais. Mesmo assim, músicos do quilate de Miles Davis e Bill Evans estiveram por aqui. No I Festival São Paulo-Montreux, em 1978, em uma só leva vieram Benny Carter, Dizzy Gillespie, Frank Rosolino, Harry Sweets Edison, Zoot Sims, Milt Jackson, Jimmie Rowles, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine, Ray Brown, Mickey Rocker, George Duke, John McLaughlin, Hermeto Pascoal, Helio Delmiro, Luiz Eça, Etta James, Raul de Souza, Marcio Montarroyos, Stan Getz e Ahmad Jamal. Depois disso, entramos no primeiro mundo da música.

Em 1980, a antiga capital do Brasil montou o seu Rio Jazz Monterrey Festival. E as atrações não ficavam nada a dever à edição paulista de Montreux. Constavam da lista Weather Report, considerada a melhor banda do chamado jazz fusion, o “iniciante” Pat Metheny, o ex-pianista de John Coltrane, McCoy Tyner, e uma das mais conhecidas formações da avant-garde, o Art Ensemble of Chicago. Era um a programação menos mainstream do que a de São Paulo.

Não que a experiência de ver Gillespie, Frank Rosolino ou o pianista Ahmad Jamal, venerado por Miles Davis, não tivesse sido sublime. Aqui entra o Gustavo Pinheiro.

Meu amigo Domingos Darsie estudava arquitetura em Mogi das Cruzes. Por ele, conheci o Guga. Logo, por conta de gostos comuns – charuto e jazz –, ficamos amigos. Tínhamos duas paixões em comum: Ben Webster e Coleman Hawkins. Ficávamos ouvindo os discos que gravaram pelo selo Verve identificando os solos de cada um. O Guga era a única pessoa conhecida que possuía um Selmer Mark VI, o rei dos saxofones. Para a sua infelicidade, todo mundo queria “tocar” um pouco no Selmer. Ele colocava uma palheta Vandoren mais usada e deixava, fazendo cara de poucos amigos.

Ouça Rosita, com Ben Webster e Coleman Hawkins.




Ao sabermos do festival que aconteceria no Rio, combinamos de ir. O Domingos era uma peça chave na história: apesar de detestar pop e jazz e ter uma paixão doente por música erudita tinha que topar em ir conosco. Sua tia era dona de um pequeno quarto e sala na rua Barata Ribeiro. Bom, mas éramos três: eu, o Guga e o “dono”. No quarto havia uma cama de casal e um sofá na sala. O Domingos já foi falando que a cama de casal era dele. Como disse, era o “dono”. De três, passamos para cinco. A Marcia G, colega de turma dos dois na faculdade, estava no Rio e decidiu ficar conosco. A Marcia conhecia o Pipoca, diretor de TV dos shows musicais da TV Cultura, que não tinha onde se hospedar. Imagine cinco em 30 metros quadrados, se tanto. Mas tudo valia para ver o Weather Report no seu auge, com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Jaco Pastorius e Pater Erskine. Outra grande atração aguardada com ansiedade era o Art Ensemble of Chicago.

O Rio de Janeiro era (é) uma festa. O festival aconteceu no Maracanãzinho. A acústica era péssima. Shows mais pesados como a do Weather Report, tudo bem, ouvia-se. O de McCoy Tyner, um dos que aguardávamos com expectativa, foi um desastre. Não se ouvia nada. A maioria dos que estavam lá não estavam nem um pouco interessados em ver o grande pianista das melhores formações de John Coltrane. Ouvia-se mais aquele burburinho de muita gente falando alto. Aqueles paulistas branquelos queriam ouvir música. Mas compensou pelo número de gente bonita e bronzeada. Os patins estavam na moda. E as meninas deslizavam seus pares de pernas pelo Maracanãzinho. Nem precisava de música.


Pat Metheny e Weather Report
Zezé Motta subiu ao palco para apresentar um “gato” (na opinião dela, claro). Era o Pat Metheny. O quase garoto de pouco mais de vinte anos já era um sucesso, conhecido até no Brasil, em razão de terem sido lançados alguns itens da ECM. O álbum mais “roqueiro” dele – American Garage – tinha acabado de ser lançado. E foi sucesso mundial. Ficou conhecido como um dos guitarristas da banda de Gary Burton. O primeiro solo – Bright Size Life –, justamente, com Pastorius no baixo, hoje, é considerado um clássico. (sobre esse álbum, leia: http://bit.ly/1b8NRAH)

Ouça American Garage, de Pat Metheny.




O Rio foi uma das cidades que fez parte da turnê do Weather Report e resultou no álbum duplo 8:30. Com Pastorius, a apresentação foi antológica, como era de se esperar. Leia em http://bit.ly/18QHIDn.

Veja o solo de Jaco Pastorius no baixo Fender fretless. Foi um dos pontos altos do Festival do Rio.




Art Ensemble of Chicago

Adicionar legenda
A AACM – Association for the Advancement of Creative Musicians – é uma organização criada em Chicago pelo pianista Muhal Richard Abrams, Jodie Christian, Steve McCall e Phil Cohran. Uma verdadeira constelação do jazz moderno e do avant garde é egressa da associação. Passaram por lá Jack DeJohnette, Leroy Jenkins, Chico Freeman, Anthony Braxton e Wadada Leo Smith. Duas bandas importantes surgiram lá: o Air (Henry Threadgill, Fred Hopkins, Steve McCall) e o Art Ensemble of Chicago (Lester Bowie, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman, Famodou Don Moye, Malachi Favors).

Pouco antes do Festival tinham lançado Nice Guys, do AEC. Era um som de vanguarda mas sem a aridez de um Peter Brötzmann ou um Cecil Taylor. Era avant garde com humor, interessante. Diziam que suas apresentações eram acontecimentos. Roscoe Mitchell era o mais discreto. o trumpetista Lester Bowie apresentava-se invariavelmente vestindo um jaleco branco, iguais aos dos enfermeiros, e os três restantes vestiam roupas de inspiração africana e pintavam seus rostos. 

Dias antes ficamos sabendo que o Art Ensemble havia cancelado a vinda para o Rio, para nossa frustração. Estávamos ávidos por vê-los. Fora isso, a viagem ao Rio foi muito boa.

Ouça Nice Guys.



Veja um trecho de uma apresentação do AEC, de 1981.







quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Jim Hall une-se a Bill Evans

Duos são comuns no jazz, nem tanto quanto na música sertaneja. São encontros de ocasião e é comum resultarem em discos belíssimos. É claro também que o encontro de dois gênios não quer dizer que, necessariamente sairá algo genial. Mas é infindável o número desses encontros fortuitos com interpretações inesquecíveis. Pode-se citar alguns recentes: ‘Mehldau/Metheny’, do guitarrista Pat Metheny com o pianista Brad Mehldau, Live in Montréal, do baixista Charlie Haden com o brasileiro Egberto Gismonti, Frank and Wess, com o nonagenário genial, recentemente falecido, aos 92 anos, , Hank Jones e o flautista e saxofonista Frank Wess. Na formação piano/sax, um dos bons registros é do CD duplo People Time, com Kenny Barron e Stan Getz, gravação de uma performance no Café Montmartre, tradicional clube de Copenhagen, poucos meses antes da morte do saxofonista em decorrência de um câncer no fígado. Um bom duo em formação “heterodoxa”, genial, é o encontro do trompetista Don Cherry – que no disco toca percussão e teclados também – com o polirrítmico baterista Ed Blackwell em El Corázon, que saiu pela ECM.

Jim Hall e Bill Evans
Agora, genial mesmo é um dos álbuns gravados pelo pianista Bill Evans e o guitarrista Jim Hall. Intermodulation merece um lugar de honra na estante de qualquer um. Bill é responsável por uma das “guinadas” de estilo de Miles Davis ao introduzir o modal no jazz. Em oposição ao bebop, que privilegiava o ritmo sob a forma de progressões de acordes em repetição que serviam de base para os solos dos instrumentos, a forma modal se desenvolvia mais sobre a melodia. Miles admirava o jeito de tocar do pianista Ahmad Jamal, que tinha um estilo diferente dos demais da cena jazzística da época e estava iniciando um trabalho com o arranjador Gil Evans. Kind of Blue é consequência desses “interesses”. Marcou história e é considerado um melhores discos de todos os tempos. Bill Evans, egresso da banda de George Russell, merecia ter seu nome na capa como parceiro de Miles, pois é a alma do disco. A estrutura musical parece mais simples do que as do bebop, mas não é: são simplesmente diferentes. Os solos se sucedem um a um como uma “corrente evolutiva”, em que o tema vai sendo desenvolvido por cada solista. O disco é a oportunidade de ouvir John Coltrane no sax-tenor, Cannonball Adderley no sax-alto e Miles no trompete “cool” no ápice de suas formas, produzindo belos solos com a preciosa companhia de Evans, o baixista Paul Chambers e o baterista Jimmy Cobb. A essência do jazz modal está na bela composição de Evans – “malandramente” assinada por Miles –, Blue in Green, em que o piano é ouvido “meio longe”. São maravilhosos o solo do trompetista e a breve intervenção de Coltrane. No processo evolutivo desse estilo contribuiram depois, não apenas os trios de Bill Evans e o quinteto posterior de Miles, com Herbie Hancock nos teclados, mas também o quinteto de John Coltrane com o pianista McCoy Tyner.

Certamente, Evans é o maior nome do jazz modal. Os álbuns de Bill com o baixista Scott LaFaro, que morreu muito cedo num acidente de carro em 1961, e Paul Motian na bateria, até hoje na ativa, com quase 80 anos, são o ápice do formato trio piano/baixo/bateria. O álbum Live at the Village Vanguard é básico para quem quiser conhecê-los.

Em 1962, gravou o primeiro disco com o guitarrista Jim Hall, Undercurrent. O jeito econômico e quase acústico da guitarra combinava perfeitamente com o estilo melancólico de Evans. Mas é no álbum Intermodulation, de 1966, que essa parceria encontrou a mais perfeita simbiose. Na composição de Evans, Turn out the Stars, a guitarra de Hall é quase “invisível”. Após o solo do piano, Hall entra com uma guitarra bem discreto, solo de poucas notas, cada qual essencial para a construção da música. Hall é o contrário de John Scofield ou Al DiMeola, que pensam que quanto mais notas melhor é o guitarrista. Hall toca o essencial, é um minimalista. Apoiado ou sentado na banqueta dedilha sua Gibson ES 175. Em Angel Eyes as notas do piano e da guitarra são apenas as essenciais, suficientes para imprimir o “mood” da composição do austríaco Joe Zawinul. Tudo é perfeito no disco, mas se existe algo “mais que perfeito”, é o registro de My Man’s Gone Now, dos irmãos Gershwin. Aos acordes iniciais de Bill e as poucas notas das cordas, sucedem a apresentação do tema que vai se desenhando em progressão para o início do solo austero e rico de sugestões de Jim, em sutis mudanças de tempo. Jim Hall é o poeta do silêncio. É intimista, como Evans. Cada nota de Hall e de Evans representa um brilho dourado e fugaz como a produzida pelos raios de sol em fins de tarde sobre a água.

Obs.: Meu amigo Carlos alertou-me sobre Paul Motian. O texto é uma republicação, para lembrar da morte de Jim Hall. Por isso, Paul Motian “está vivo”. Ele morreu em novembro de 2011.

Ouça o álbum Intermodulation na íntegra aqui.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Nicky Shrire: três vezes África do Sul

Capa de Sapace and Time, Nicky Schire
No dia 5 passado aconteceram três coisas em série. Minha irmã enviou um e-mail avisando-me que iria para a África do Sul no sábado, dia 7, a trabalho. No mesmo dia ouvia pela primeira vez Nicky Shrire. Sempre gostei de coisas que me surpreendem, até negativamente. E ela me surpreendia pelo lado positivo. Querendo saber um pouco mais da moça, dei uma “googada” e percebi que ainda não é muito conhecida; afinal, nem possui um “wikipedia”. Em seu site oficial leio que nasceu em Londres, cresceu na África do Sul e, atualmente, mora em Nova York. Faz o périplo típico dos que querem ser reconhecidos no mundo da música.

Não existe exatamente uma tradição sul africana no jazz. São poucos os conhecidos. Lembro de Dollar Brand (hoje, Abdullah Ibrahim), sua mulher Sathma Bea Benjamin, cantora que ficou conhecida depois de ter impressionado Duke Ellington, e o saxofonista Hugh Masekela. Mas quem “explodiu” primeiro foi Miriam Makeba. Não era exatamente do gênero, apesar de ter sido casada com Masekela. O fato é que Makeba despertou olhares do ocidente para a absurda relação dos brancos com os negros na África do Sul. Não é casual que os holandeses tenham sido um dos principais colonizadores dos EUA e da África do Sul: a palavra “apartheid” é invenção deles.

Mais à noite leio notas de que Nelson Mandela acabara de morrer. Muita coincidência. Em minutos não há um site sem notícias e até textos mais elaborados sobre ele. Estava com 95, portanto, todos os veículos estavam com as matérias prontas. Jornalismo tem disso. Ruim é quando alguma personalidade morre de repente às 11 da noite.

Space and Time, lançado há pouco, é o segundo disco de Nicky Shrire. Há uma onda atual de cantoras bem originais como Becca Stevens (costuma apresentar-se tocando ukulele; leia em http://bit.ly/1blXHcn), Gretchen Parlato (leia: http://bit.ly/1brIQS7), Kat Edmonson (leia: http://bit.ly/1bnIKLu) e Rebecca Martin (leia http://bit.ly/1f3YZxI). Shrire se junta a essa turma, e no álbum recente, conta com a produção de Matt Pierson, um craque que trabalhou com Joshua Redman, Brad Mehldau, e cantoras como Sophie Millman (leia: http://bit.ly/18qlqs9) e a própria Rebecca Martin.

Nicky Shrire tem uma voz frágil e imprime marca própria em interpretações imaginativas e originais. Além das cinco composições de própria lavra, gravou standards como Someone to Watch Over Me e Say Isn’t So dos modernos, conhecida mesmo é Here Comes the Sun, de George Harrison. O destaque é uma interpretação originalíssima de Teardrop do Massive Attack. A “fragilidade” da voz de Nicky é realçada pelo acompanhamento solitário de um piano. Em vez de um a acompanhá-la em todas as faixas, são três pianistas diferentes: Gil Goldstein, Gerald Clayton e Fabian Almazan. Este último, cubano de nascimento, é mais “caliente”, mas não espere algo parecido aos teclados de um Chucho Valdés.

Ouça Teardrop, com Schrire acompanhada por Fabio Almazan.



Ouça a clássica Wish You Love.




Schrire canta Seliyana, em xhosa, língua falada no povoado em que Nelson Mandela nasceu.




Nicky Schrire canta Here Comes the Sun, no Blue Note.




Space and Time, acompanhada pro Josh Nelson.