Em 1980, a antiga capital do Brasil montou o seu Rio Jazz Monterrey Festival. E as atrações não ficavam nada a dever à edição paulista de Montreux. Constavam da lista Weather Report, considerada a melhor banda do chamado jazz fusion, o “iniciante” Pat Metheny, o ex-pianista de John Coltrane, McCoy Tyner, e uma das mais conhecidas formações da avant-garde, o Art Ensemble of Chicago. Era um a programação menos mainstream do que a de São Paulo.
Não que a experiência de ver Gillespie, Frank Rosolino ou o pianista Ahmad Jamal, venerado por Miles Davis, não tivesse sido sublime. Aqui entra o Gustavo Pinheiro.
Meu amigo Domingos Darsie estudava arquitetura em Mogi das Cruzes. Por ele, conheci o Guga. Logo, por conta de gostos comuns – charuto e jazz –, ficamos amigos. Tínhamos duas paixões em comum: Ben Webster e Coleman Hawkins. Ficávamos ouvindo os discos que gravaram pelo selo Verve identificando os solos de cada um. O Guga era a única pessoa conhecida que possuía um Selmer Mark VI, o rei dos saxofones. Para a sua infelicidade, todo mundo queria “tocar” um pouco no Selmer. Ele colocava uma palheta Vandoren mais usada e deixava, fazendo cara de poucos amigos.
Ouça Rosita, com Ben Webster e Coleman Hawkins.
Ao sabermos do festival que aconteceria no Rio, combinamos de ir. O Domingos era uma peça chave na história: apesar de detestar pop e jazz e ter uma paixão doente por música erudita tinha que topar em ir conosco. Sua tia era dona de um pequeno quarto e sala na rua Barata Ribeiro. Bom, mas éramos três: eu, o Guga e o “dono”. No quarto havia uma cama de casal e um sofá na sala. O Domingos já foi falando que a cama de casal era dele. Como disse, era o “dono”. De três, passamos para cinco. A Marcia G, colega de turma dos dois na faculdade, estava no Rio e decidiu ficar conosco. A Marcia conhecia o Pipoca, diretor de TV dos shows musicais da TV Cultura, que não tinha onde se hospedar. Imagine cinco em 30 metros quadrados, se tanto. Mas tudo valia para ver o Weather Report no seu auge, com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Jaco Pastorius e Pater Erskine. Outra grande atração aguardada com ansiedade era o Art Ensemble of Chicago.
O Rio de Janeiro era (é) uma festa. O festival aconteceu no Maracanãzinho. A acústica era péssima. Shows mais pesados como a do Weather Report, tudo bem, ouvia-se. O de McCoy Tyner, um dos que aguardávamos com expectativa, foi um desastre. Não se ouvia nada. A maioria dos que estavam lá não estavam nem um pouco interessados em ver o grande pianista das melhores formações de John Coltrane. Ouvia-se mais aquele burburinho de muita gente falando alto. Aqueles paulistas branquelos queriam ouvir música. Mas compensou pelo número de gente bonita e bronzeada. Os patins estavam na moda. E as meninas deslizavam seus pares de pernas pelo Maracanãzinho. Nem precisava de música.
Pat Metheny e Weather Report
Zezé Motta subiu ao palco para apresentar um “gato” (na opinião dela, claro). Era o Pat Metheny. O quase garoto de pouco mais de vinte anos já era um sucesso, conhecido até no Brasil, em razão de terem sido lançados alguns itens da ECM. O álbum mais “roqueiro” dele – American Garage – tinha acabado de ser lançado. E foi sucesso mundial. Ficou conhecido como um dos guitarristas da banda de Gary Burton. O primeiro solo – Bright Size Life –, justamente, com Pastorius no baixo, hoje, é considerado um clássico. (sobre esse álbum, leia: http://bit.ly/1b8NRAH)
Ouça American Garage, de Pat Metheny.
O Rio foi uma das cidades que fez parte da turnê do Weather Report e resultou no álbum duplo 8:30. Com Pastorius, a apresentação foi antológica, como era de se esperar. Leia em http://bit.ly/18QHIDn.
Veja o solo de Jaco Pastorius no baixo Fender fretless. Foi um dos pontos altos do Festival do Rio.
Art Ensemble of Chicago
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Pouco antes do Festival tinham lançado Nice Guys, do AEC. Era um som de vanguarda mas sem a aridez de um Peter Brötzmann ou um Cecil Taylor. Era avant garde com humor, interessante. Diziam que suas apresentações eram acontecimentos. Roscoe Mitchell era o mais discreto. o trumpetista Lester Bowie apresentava-se invariavelmente vestindo um jaleco branco, iguais aos dos enfermeiros, e os três restantes vestiam roupas de inspiração africana e pintavam seus rostos.
Dias antes ficamos sabendo que o Art Ensemble havia cancelado a vinda para o Rio, para nossa frustração. Estávamos ávidos por vê-los. Fora isso, a viagem ao Rio foi muito boa.
Ouça Nice Guys.
Ouça Nice Guys.
Veja um trecho de uma apresentação do AEC, de 1981.


