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| A bela Elias, por Bob Wofelson |
No fim dos anos 1970, aconteceu um grande evento artístico em Campinas, SP. Era um Salão de Artes Plásticas, como acontecia antigamente (havia, naquele tempo, em São Paulo – superprestigiado –, em Santos, Ribeirão Preto, Araraquara e em outras cidades paulistas menos importantes). Diversas atividades foram programadas pela cidade e, até uma apresentação da orquestra sinfônica, regida por Benito Juarez e shows de música popular em vários logradouros. Foi uma bela festa em um sábado ensolarado. À noite, no Museu de Arte Contemporânea aconteceu um debate em que estavam presentes Jean Boghici, conhecido marchand do Rio, Rubens Gerchman, o crítico Roberto Pontual e José Resende. Boghici e Gerchman usavam écharpe, apesar do calor; senti certa afetação, mas ok, o debate foi de alto nível. Numa certa hora, ocorreu a alguém tocar no assunto “provincianismo”. Foi a conta: o operador dos equipamentos – projetores de slides (há gente que nem sabe mais o que é isso), microfones etc. –, que estava apenas lá por acaso, começou a falar em altos brados dizendo que Campinas era uma grande cidade, tinha grandes artistas… algo assim. Deixou todos estupefatos pela reação destemperada. Bom, não tinha mais clima. Em minutos o debate se encerrou.
A segunda razão das reações ao texto – algumas bem grosseiras, como sói acontecer em comentários de pessoas que se escondem sob nomes e pseudônimos – foi a de eu ter dito que ela deveria mais tocar piano e cantar menos. Critiquei também essa coisa de se vender a imagem de “languidez”, a meu ver, decorrente do sucesso de Diana Krall. Elias não foi a única e também é coisa que vem de longe; não aconteceu com Sarah Vaughan, por exemplo, mas se era uma Lena Horne, algo além da voz era valorizada. Natural que aconteça essa “exploração”.
Por gosto, prefiro vozes nuançadas como as de Stacey Kent e Roberta Gambarini, as minhas preferidas atuais. Acho Jane Monheit perfeita, mas um pouco chata, e não me apetecem intérpretes que cantam mais “straight”, que é o caso de Elias. Vai, no entanto, uma grande distância em achá-las ruins. E é aí que está o ponto: podem sim, ser bem agradáveis de ouvir. Como parcial ato de remissão digo uma coisa: gostei muito de seu CD Light My Fire (Blue Note, 2011). Agora notei: que belos lábios! Que bela foto! Lânguida como sempre e, que título sugestivo! Elias é, agradavelmente, “warm”. Bela Rosa Morena abre o disco, cheia de balanço, batida brasileiríssima, mas a voz é pequena, afinada, no entanto. Mas é com um suave Aquele Abraço – terceira – que se acende, balançado, com Gilberto Gil, seu autor, dividindo os vocais. Depois da cirurgia, sua voz ficou um pouco mais rouca mas como o Rio de Janeiro, “continua linda”.
Uma guitarra distorcida, notas do baixo e da bateria abrem a música-título numa batida morna e sensual. Não é Jose Feliciano e nem incendiária como quando cantada por Jim Morrison. Breve e belo solo de Elias; a guitarra de Ross Traut geme. Em Isto Aqui, o Que É?, de Ary Barroso, soa intimista no violão e no tamborim. “Esquenta” com o piano – no “jeito nas ‘cadeira’ que ela sabe dar. Dá um pouco de saudades de João Gilberto. E por aí vai, em alternâncias “sambísticas” e clássicos pop (My Chérie Amour, de Stevie Wonder) e jazzísticos (Take Five, clássico de Desmond e Brubeck). Aliás, que belo Take Five, com o trumpete do ex-marido Randy Brecker. Confira.
E para não dizer que esqueci de Aquele Abraço.

