quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O balanço irresistível de Gilberto Gil e Eliane Elias

A bela Elias, por Bob Wofelson
Em texto de 1º de fevereiro de 2011 falei mal de Eliane Elias (9http://bit.ly/nU8rWb). O título era “O equívoco de Eliane Elias”. Quem cometeu o equívoco fui eu. Primeiro: falei mal de uma brasileira. A xenofobia mal-resolvida suporta que apenas se falel de conterrâneos. Relato um incidente para, de certo modo, exemplificar de como isso sucede.

No fim dos anos 1970, aconteceu um grande evento artístico em Campinas, SP. Era um Salão de Artes Plásticas, como acontecia antigamente (havia, naquele tempo, em São Paulo – superprestigiado –, em Santos, Ribeirão Preto, Araraquara e em outras cidades paulistas menos importantes). Diversas atividades foram programadas pela cidade e, até uma apresentação da orquestra sinfônica, regida por Benito Juarez e shows de música popular em vários logradouros. Foi uma bela festa em um sábado ensolarado. À noite, no Museu de Arte Contemporânea aconteceu um debate em que estavam presentes Jean Boghici, conhecido marchand do Rio, Rubens Gerchman, o crítico Roberto Pontual e José Resende. Boghici e Gerchman usavam écharpe, apesar do calor; senti certa afetação, mas ok, o debate foi de alto nível. Numa certa hora, ocorreu a alguém tocar no assunto “provincianismo”. Foi a conta: o operador dos equipamentos – projetores de slides (há gente que nem sabe mais o que é isso), microfones etc. –, que estava apenas lá por acaso, começou a falar em altos brados dizendo que Campinas era uma grande cidade, tinha grandes artistas… algo assim. Deixou todos estupefatos pela reação destemperada. Bom, não tinha mais clima. Em minutos o debate se encerrou.

A segunda razão das reações ao texto – algumas bem grosseiras, como sói acontecer em comentários de pessoas que se escondem sob nomes e pseudônimos – foi a de eu ter dito que ela deveria mais tocar piano e cantar menos. Critiquei também essa coisa de se vender a imagem de “languidez”, a meu ver, decorrente do sucesso de Diana Krall. Elias não foi a única e também é coisa que vem de longe; não aconteceu com Sarah Vaughan, por exemplo, mas se era uma Lena Horne, algo além da voz era valorizada. Natural que aconteça essa “exploração”.

Por gosto, prefiro vozes nuançadas como as de Stacey Kent e Roberta Gambarini, as minhas preferidas atuais. Acho Jane Monheit perfeita, mas um pouco chata, e não me apetecem intérpretes que cantam mais “straight”, que é o caso de Elias. Vai, no entanto, uma grande distância em achá-las ruins. E é aí que está o ponto: podem sim, ser bem agradáveis de ouvir. Como parcial ato de remissão digo uma coisa: gostei muito de seu CD Light My Fire (Blue Note, 2011). Agora notei: que belos lábios! Que bela foto! Lânguida como sempre e, que título sugestivo! Elias é, agradavelmente, “warm”. Bela Rosa Morena abre o disco, cheia de balanço, batida brasileiríssima, mas a voz é pequena, afinada, no entanto. Mas é com um suave Aquele Abraço – terceira – que se acende, balançado, com Gilberto Gil, seu autor, dividindo os vocais. Depois da cirurgia, sua voz ficou um pouco mais rouca mas como o Rio de Janeiro, “continua linda”.

Uma guitarra distorcida, notas do baixo e da bateria abrem a música-título numa batida morna e sensual. Não é Jose Feliciano e nem incendiária como quando cantada por Jim Morrison. Breve e belo solo de Elias; a guitarra de Ross Traut geme. Em Isto Aqui, o Que É?, de Ary Barroso, soa intimista no violão e no tamborim. “Esquenta” com o piano – no “jeito nas ‘cadeira’ que ela sabe dar. Dá um pouco de saudades de João Gilberto. E por aí vai, em alternâncias “sambísticas” e clássicos pop (My Chérie Amour, de Stevie Wonder) e jazzísticos (Take Five, clássico de Desmond e Brubeck). Aliás, que belo Take Five, com o trumpete do ex-marido Randy Brecker. Confira.



E para não dizer que esqueci de Aquele Abraço.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Arturo Sandoval ou quando o acaso não é por acaso

Em um hotel um tanto decadente, em Miami, na Avenida Collins, há um clube de jazz. Mal sabia disso. Foi onde fiquei hospedado por alguns dias. O nome do lugar? Hotel Deauville. Na programação dos dias próximos tinha Dee Dee Bridgewater e Roy Hargrove. Pena: já estaria de volta a São Paulo.

O cubano Sandoval no flugelhorn
Nesse hotel antigo fica o Arturo Sandoval Jazz Club. Sei que acabei nem entrando lá, provavelmente, por conta de alguma atração que teria achado desinteressante ou porque não era um programa que fizesse o gosto da minha namorada (na época), e depois, viajava conosco seu filho de dez anos. Lembro bem mesmo é que havia uma piscina e um bar e, passando o portão, dávamos para o mar aberto, verde, muito verde, naquele tom esmeralda dos mares caribenhos. Apesar de estarmos nos primeiros dias de janeiro, fazia sol e o calor era suficiente para podermos passear pela orla vestidos de bermuda e camiseta fina.

O que me faz lembrar dessa quase remota passagem por Miami – ao contrário de grande parte de brasileiros inteligentes e letrados, “levemente de esquerda”, como diria Antônio Prata, gosto muito da cidade – é por conta de um disco que ouço agora: A Time for Love, de Arturo Sandoval.

É quase praxe que instrumentistas acabem gravando um disco com orquestra. Desde Charlie Parker, Clifford Brown e tantos outros, como Branford Marsalis, Roy Hargrove, Steve Kuhn, fizeram o seu disco “with Strings”. O de Sandoval é mais um. São diferentes de discos de big bands porque não há um “revezamento” de solistas. São como concertos na acepção da música erudita: há a orquestra e um solista. É incrível como o trumpete funciona nesse formato, mais até que o saxofone.

Alguns são híbridos – temas de jazz misturados a temas eruditos –, alguns puramente eruditos, como Creation, de Branford Marsalis, e outros, como os de Parker e de Brown, apenas com standards. O de Sandoval alterna clássicos do jazz com peças de Fauré e Ravel, dois “campeões” desse formato, junto com Debussy. Essas gravações dependem bastante de bons arranjadores. No de Sandoval, o responsável é o argentino Jorge Calandrelli. De formação clássica, é um mestre. Arranjou para discos de Barbra Streisand, Luis Miguel, Ricky Martin, Barry Manilow, Celine Dion e Andrea Bocelli, além da notável colaboração na série dedicada à música latina com Ettore Stratta. Não é questão de torcer o nariz para alguns dos citados; significa apenas que é muito solicitado devido à sua excelência como arranjador de cordas.

É conhecida a contribuição de Dizzie Gillespie para a divulgação da música latina, principalmente, a cubana. Seu interesse pelos ritmos afro-cubanos data dos fins dos anos de 1940 quando conheceu a banda de Mario Bauza e a arregimentou o percussionista Chano Pozo à sua banda. Compôs a hoje clássica Manteca e também Tin Tin Deo.

A primeira vez que tomei conhecimento de Arturo Sandoval foi no documentário A Night in Havana: Dizzy Gillespie, realizado por John Holland, em 1989. Fora exibido, se não me engano, em uma das Mostras Internacionais de Cinema, organizada por Leon Cakoff. Dá para desconfiar, pelo título, do que se trata. A lembrança mais forte foi a participação de um trumpetista agilíssimo e articulado tocando com a “fera”. Outro instrumentista que participou do documentário foi Gonzalo Rubalcaba. Conhecia alguns discos do Irakere lançados pela gravadora americana Columbia, mas lembrava-me apenas de Chucho Valdés, seu líder, e o saxofonista e clarinetista Paquito D’Rivera; de Sandoval, não.

O documentário abriu as portas para Arturo. Adquiriu cidadania americana em 1990 e foi morar em Miami. Paquito saiu de Cuba bem antes: pediu asilo político em 1981, durante excursão que fazia na Espanha.

A característica mais marcante em Sandoval é a agilidade e clareza na emissão das notas agudas. Nossos ouvidos se acostumaram demais ao estilo cool de Miles Davis e seus seguidores, mas o trumpete, inicialmente, era instrumento de banda de rua, até pela potência do som. O trumpete tocado nas oitavas superiores sempre foi bem característico da música caribenha. Em A Time for Love, Sandoval é cool, contido, e uma demonstração de sua enorme versatilidade. Realizou um disco daqueles em que se pode ouvir com alguém não especialmente apreciador do jazz. Composto de standards consagrados como Speak Low, I Loves You Porgy, Everytime We Say Goodbye, Smile, All the Way, Smoke Gets in Your EyesWindmills of Your Mind (belíssimo), clássicos de Johnny Mandel como Emily e A Time for Love, uma composição de Astor Piazzolla – Oblivion –, cantada por Monica Mancini, e Estate, além de Après un rêve e Pavane, de Fauré, e Pavane pour une enfante défunte, de Ravel (veja mais Ravel no jazz em: http://bit.ly/qrFxH4), é um daqueles discos em que a qualidade se mantém num nível superior. É um daqueles discos que todos devem ter em CD ou em mp3 no seu iPod. É um daquelas joias que fazem companhia em quaisquer circunstâncias, na alegria, na tristeza e nos mais intimistas.

Sandoval toca A Time for Love.



Toca e canta Estate.



Monica Mancini canta  no disco de Sandoval.



Assista a uma performance de Sandoval com seu mestre e mentor Dizzy Gillespie.