A única razão para que Stacey Kent não estar entre as cinco mais votadas na classificação ‘female vocalist” é porque não mora nos Estados Unidos. Natural desse país, mudou-se para a Inglaterra por conta de uma pós-graduação em literatura comparada.
Além de ótima cantora, de voz pequena, em seus álbuns, pesa sua formação acadêmica. É amiga de Kazuo Ishiguro, o mais recente laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Grande fã de jazz, autor de artigos sobre o assunto na imprensa britânica, a aproximação entre os dois aconteceu de forma natural. Ishiguro é autor de várias letras, em parceria com Jim Tomlinson, marido e saxofonista/flautista de sua banda.
O interesse pela língua portuguesa aproximou-a do poeta António Ladeira, que virou seu professor e dividiu autorias de algumas canções.
A riqueza musical é evidente comparando-se com a trajetória da maioria de suas “concorrentes”. Seu repertório não se resume aos standards do cancioneiro americano. Além de composições de Tomlinson, seu parceiro musical e marido, Kent canta músicas em português e em francês com a perfeita compreensão do que interpreta. Tem o francês como segunda língua e tornou-se fluente em português.
Em suas inumeráveis estadas no Brasil, fez shows, apresentou-se com Marcos Valle, com o Trio Corrente e arrumou um parceiro fabuloso: Roberto Menescal. Com 80 anos completados, é uma referência não só pelo protagonismo na Bossa Nova, mas por ser um dos grandes difusores da música brasileira mundo afora. Em sua penúltima incursão no mercado fonográfico, Kent com ele. O violão e a guitarra dele é inconfundível e genial em “Tenderly” (Okeh/Sony 2015).
Ninguém captou tão bem como ela a alma do cancioneiro da música brasileira, e não se resume apenas à Bossa Nova. Em francês, é a mesma coisa: quando interpreta Léo Ferré ou Serge Gainsbourg, compreende exatamente os versos desses compositores.
É o que está mais que provado no recente “I Know I Dream | The Orchestral Sessions”, lançado em outubro do ano passado.
As orquestrações arranjadas por Tommy Laurence, e regidos por Richard Balcombe são discretas e nunca competem com a voz de Stacey, que se transforma como que um instrumento a mais. Para aquele que a conhece desde “Close Your Eyes” (Candid), lançado há 20 anos, à primeira vista, pode parecer mais do mesmo, pois Kent estava pronta desde a sua estreia fonográfica. O que se percebe é uma sofisticação cada vez maior na arte de interpretar, a buscar a perfeição por meio de detalhes e sutilezas.
As músicas constantes de “I Know I Dream”, quase todas cantadas anteriormente. A voz pequena salta aos ouvidos e a elegância na abordagem das brasileiras “Double Rainbow”, “Photograph”, “To Say Goodbye”, “Mais Uma Vez”, “The Changing Lights”, “The Ice Hotel”, “Bullet Train”, “I Know I Dream”, “Make It Up”, estas diuas, salvo engano, inéditas, de Jim Tomlinson em parcerias com António Ladeira, Kazuo Ishiguro e Cliff Goldmacher, “That’s All”, de Bob Haymes e Allan Brandt, “La rue Madureira”, de Nino Ferrari, Paule Zambernardi, em francês, como “Les amour perdue”, de Serge Gainsbourg, e “Avec les temps”, do grande Léo Ferré, fazem desse CD uma obra de arte. Não foi à toa que recebeu 5 estrelas pela Downbeat.
É por esta que começamos a ouvir Stacey.
Ouça “Les amour perdues”, de Serge Gainsbourg.
Ouça “Photograph”.
Ouça “Double Rainbow”.
