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quinta-feira, 6 de julho de 2017

A lista dos melhores álbuns do ano na Downbeat, segundo a crítica

Até hoje não entendo direito sobre a correspondência das datas que estão impressas nas revistas e a de quando é disponibilizada. Quando assinava a Downbeat, várias décadas atrás, elas vinham pelo correio e, como demoravam, essas datas coincidiam mais ou menos. Hoje, com a assinatura digital, recebo o link delas com mais de um mês de antecedência. Exemplo: no dia 25, recebi a notificação de que tinha disponível a edição de agosto. Estranho, não.

Pois, agosto, além de ser o mês do cachorro louco, é o de quando a Downbeat publica o seu “Annual Critics Poll”, sendo a de 2017, a sua 65ª. Como de costume, listo os dez mais bem votados, pela ordem, e algumas observações sobre outros que ficaram um pouco atrás.

1. Wadada Leo Smith, “America’s National Parks” (Cunneiform)
2. Henry Threadgill, “Old Locks and Irregular Verbs” (PI)
3. Fred Hersch, “Sunday Night at the Vanguard” (Palmetto)
4. Jack DeJohnette, Ravi Coltrane, Matthew Garrison, “In Movement” (ECM)
5. Nels Cline, “Lovers” (Blue Note)
6. Sonny Rollins, “Holding the Stage: Road Shows vol. 4” (Doxy/Okeh)
7. Gregory Porter, “Take Me to the Alley” (Blue Note)
8. Matt Wilson’s Big Happy Family, “Beginning of a Memory” (Palmetto)
9. Andrew Cyrille Quartet, “Declaration of Musical Independence” (ECM)
10. Branford Marsalis Quartet feat. Kurt Elling, “Upward Spiral” (Marsalis Music/Okeh)

Mesmo sendo resultado de seres que, teoricamente, são os bambans, quase nunca bate com o gosto da patuleia. Mais que natural. Neste ano, porém, a concordância com a quase totalidade, bate com a de um membro desse grupo: eu.

O rastafarian Wadada
Mais vanguarda, melhores
Natural que aqueles álbuns mais “cabeça”, ou seja, menos povão, tendam a liderar as listas. Afinal, é o crème de la crème que está escolhendo os melhores, e os melhores dos melhores estão elencando os melhores. Tanto que os dois primeiros são os mais “vanguarda” dentre os dez. Um terceiro, de outro nome ligado à vanguarda, ficou em nono: “Declaration of Musical Independence”, do baterista Andrew Cyrille. Aliás, poderia estar entre os cinco, facilmente. O ex-membro do fabuloso Air, do também Henry Threadgill, é um dos veteranos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians).

Leo Smith começou e passou a ser conhecido fazendo parte da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), grupo de vanguarda de Chicago. O nome é bem pretensioso. Tenho um pouco de reservas por isso até hoje. Apesar de tudo, impressionante o número de bons músicos que revelou: Anthony Braxton, Muhal Richard Abrams, Leroy Jenkins, Roscoe Mitchell, Steve McCall, George Lewis, Jack DeJohnette, Amina Claudine Meyers, Lester Bowie, Chico Freeman, Famoudou Don Moye e outros. É uma verdadeira seleção alemã, com direito a bons reservas.

Leo Smith nem era o mais prestigiado no tempo em que Braxton era uma das estrelas da cena avant garde. Agora veterano e depois de convertido à seita rastafari, incorporando o “Wadada” ao antigo nome, atualmente, é um dos mais incensados pela crítica. Gravou uma avalanche de discos, todos, sem exceção, elogiados: “Ten Freedom Summers” (2012), segundo melhor do 61st Annual Critics Poll, da Downbeat, “The Great Lake Suites” (2014), quarto melhor de 2015, no mesmo poll, “Celestial Weather” (2015), 17º no de 2016, e agora, primeiro, com “America’s National Park”. Merece? Se não em primeiro, entre os dez. Gosto é gosto, como diria um amigo. Nunca seria o meu primeiro.

Ouça trecho de “America’s National Park”



Outro que a cada lançamento está presente entre os melhores é Henry Threadgill. Era genial com o trio Air, e continuou com suas várias formações posteriores. É um dos músicos mais originais do jazz. É aquele que melhor tira partido de contrastes sonoros. O registro agudo ou médio do saxofone alto e da flauta é combinado com os mais graves, como do trombone e a tuba; em vez do contrabaixo, gosta de usar o violoncelo e a presença de guitarristas “diferentes”, como Brandon Ross e Liberty Ellman, resultam em algo bem original.

Depois do Air, montou as bandas Make a Move, Very Very Circus e a Zoid. A de “Old Locks and Irregular Verbs” é a Ensemble Double Up. Não toca no álbum; é apenas autor e arranjador. Em seu lugar, são dois saxofones alto (Roman Filiu e Curtis MacDonald), dois pianistas (Jason Moran e David Virelles), Christopher Hoffman no cello, José Davila na tuba e Craig Weinrib na bateria. Alto nível. A minha fase preferida é a da época do Make a Move.

Ouça a “Part IV”, faixa final.



Mainstream ou, quase
O álbum mais “fácil” da lista é o de Fred Hersch; foi gravado ao vivo no clube Village Vanguard, Nova York. Fred é acompanhado por John Hébert e Eric McPherson. Particularmente, acho que tem vários pianistas mais interessantes que ele, e “Sunday Night at the Village” é apenas outro bom disco no formato trio.

“In Movement”, de Jack DeJohnette, com Ravi Coltrane, Matthew Garrison, seria o meu preferido do ano. É brilhante. Funciona como uma espécie de tributo a John Coltrane. DeJohnette chegou a tocar com o saxofonista, Matthew é filho de Jimmy Garrison, e Ravi é filho do grande mestre.

Ouça “Serpentine Fire”.




Nels Cline é o exemplo do músico eclético. Irmão gêmeo do baterista Alex Cline, muitos o conhecem como membro da banda Wilco, mas Nels começou no jazz. Nos últimos anos, tem aparecido bastante nas publicações especializadas no gênero graças aos bons álbuns que tem lançado. Antes do duplo “Lovers”, saiu um duo com Julian Lage (“Room”, 2014), e “Initiate” e “Macroscope”, como The Nels Cline Singers.

Ouça o standard “Glad to Be Unhappy”, em versão bem interessante, diferente daquela que você deve ter ouvido com Billie Holiday e Frank Sinatra.




Sonny Rollins, com “Holding the Stage”, quarto da série “Road Shows”, e Gregory Porter, com “Take Me to the Alley” vêm em seguida. O primeiro é uma seleção de registros das turnês daquele que é considerado um dos melhores de todos os tempos no sax tenor. É raspa de tacho do veterano músico. Está entre os dez pela reverência dos críticos aos velhinhos. 

A tendência dos cantores que têm surgido nos últimos anos é a de distanciarem-se bastante do mainstream. José James, Theo Bleckman e Gregory Porter são os melhores exemplos. É uma tendência. James e Porter vão pelo caminho da tradição negra da música americana, abarcando o gospel, o rhythm’n’blues, soul, hip hop, tudo com o sabor ou sabedoria de mesclá-los. Bleckman segue por outra seara: é branco e alemão.

Veja Porter em “Take Me to the Alley”.



Na onda dos bateristas que gravam como líderes, Matt Wilson é um dos destaques da atualidade. Tem mais de uma dezena de títulos gravados, quase todos pelo selo Palmetto. Não é apenas baterista. É compositor de talento como demonstra em seus discos. “An Attitude for Gratitude”, de 2012, foi o último antes de “Beginning of a Memory”. Formou a Matt Wilson’s Big Happy Family para a gravação deste. Acaba de sair “Music Inspired by the Poetry of Carl Sandburg” com a nova formação, agora, Matt Wilson’s Honey and Salt.

Em décimo – para mim estaria entre os cinco melhores – os críticos elegeram “Upward Spiral”, de Branford Marsalis, “featuring” Kurt Elling. Como emergiu para a fama depois do irmão Wynton, sofreu um pouco pela comparação, mas, depois de todo esse tempo, nem é mais preciso se afirmar; é de fato um dos melhores saxofonistas da atualidade, tanto no soprano como no tenor. Elling, para mim, continua a ser o melhor cantor de jazz, apesar de ter perdido o posto, depois de quinze anos, justamente, para Gregory Porter. Ninguém consegue ser unanimidade nesse mundo tão pulverizado.

Elling estraçalha em “A Practical Arrangements”, de Sting. Nem é preciso dizer sobre o sax de Marsalis. Confira.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Saiu a lista dos melhores do ano 2016, pela Downbeat

Kamasi Washington, destaque na Downbeat
Como é tradicional, há 64 anos, no mês de agosto sai a lista dos melhores na Downbeat. Em razão de quase nenhum – ou todos – foi lançado no Brasil e pouco comentado aqui, vai aqui a lista dos des melhores discos do ano.

1. Kamasi Washington: The Epic (Brainfeeder)
2. Maria Schneider Orchestra: The Thompson Fields (Artistshare)
3. Cécile McLorin Salvant: For One to Love (Mack Avenue)
4. Henry Threadgill’s Zooid: In for a Penny, In for a Pound (PI Recordings)
5. Steve Coleman & The Council of Balance: Synovial Joints (PI Recordings)
6. Charles Lloyd: I Long to See You (Blue Note)
7. Tom Harrell: First Impressions (Hugh Note)
8. Christian McBride: Live at the Village Vanguard (Mack Avenue)
9. Michael Formanek’s Ensemble Kolossus: The Distance (ECM)
10. Charles Lloyd: Wild Man Dance (Blue Note)

O primeiro
O jovem saxofonista Kamasi Washington – nasceu em 1981 –, no ano passado, nem estava entre os melhores “rising star” e muito menos na principal. Como do nada, na Downbeat com a lista dos melhores de 2016, não apenas ficou em primeiro no item “saxofone tenor “rising star”, como teve seu disco The Epic em primeiro lugar, desbancando medalhões como Charles Lloyd, Henry Threadgill, Tom Harrell e Maria Schneider.

O título diz tudo. Soa épico.  Produzido pelo multitalentoso e eclético Flying Lotus, The Epic é um poema sinfônico ambicioso e surpreendente por suas dimensões. Kamasi une uma banda composta de saxofones, trompetes, teclados e base ritmica, acrescido de um coral e uma orquestra. E mais: tem aproximadamente três horas. Nas passagens iniciais lembra um pouco alguns álbuns de McCoy Tyner da década de 1970 em formações maiores, como Fly with the Wind. Os coros, por sua vez, lembram, de vez em quando, o Marvin Gaye de What’s Going On.

Veja a apresentação de The Epic na íntegra.




Se você preferir ouvir o registro em estúdio.




Na minha opinião, não é o melhor álbum de jazz do ano, mas confesso não ter um preferido absoluto entre esses dez. Devido a longa duração, é um tanto cansativo. É bom? Sim. Mas não é o que eu naturalmente buscaria ouvir.  Outros, como os de Charles Lloyd e de Tom Harrell, são mais prazerosos, talvez por serem mais palatáveis.

Os outros
Se você for um ouvinte desavisado como eu e ficasse curioso de ouvir ou comprar alguns dos dez melhor classificados, iria direto para os álbuns de Charles Lloyd. I Long to See You é mais interessante por ser um pouco diferente dos da fase ECM, como ainda é um pouco Wild Man Dance.

Com banda composta por Bill Frisell e Greg Leisz, I Long to See You é bem americano e essa é a diferença com o “Lloyd ECM”. Ouça Shenandoah, tema mais traditional americano, impossível.





No ano retrasado, Cécile McLorin Salvant foi a surpresa, como Washington está sendo desta vez. Surgindo do nada, emplacou como melhor cantora “rising star” e teve WomanChild como o melhor lançamento do ano. Continua prestigiada e o seu For One to Love ficou em terceiro agora. É inferior ao anterior. É mais intimista e já não conta com o impacto de ser uma estreante.

Alguns classificados são queridos pela crítica e assíduos frequentadores das listas não apenas da Downbeat. Maria Schneider é a campeã. Tudo o que lança é elogiado. Tem a melhor big band, junto a de Darcy James. Tom Harrell é outro. Não só grande trompetista, quase sempre apresenta composições próprias em seus discos, o que não é tão comum. O surpreendente em Harrell é que apresenta-se ativo e lançando álbuns regularmente, seja esquizofrênico e tenha tido problemas como espasmos musculares involuntários consequência dos medicamentos pesados que é obrigado a tomar.

De todos os listados, os álbuns de Henry Threadgill, Steve Coleman e Michael Formanek são a face mais avant garde do jazz. Os dois primeiros estão ligados à cena vanguardista de Chicago. Dos três, o de Steve Coleman (Synovial Joints) é o melhor. Threadgill é o gênio criador do Air (foi criada bem antes da banda eletrônica Air dos franceses Nicolas Godin e Jean-Benoît Dunckel) e do Very Very Circus, Make a Move e agora o Zooid. Com essa banda, gravou In for a Penny, In for a Pound. Com essa composição ganhou o 2016 Pulitzer Prize of Music. É o reconhecimento para um dos gênios da música atual.

Assista à apresentação de Threadgill no Library of Congress. Uma das características marcantes do som do saxofonista/flautista é a presença de instrumentos não tão usuais no jazz como o violoncelo e a tuba. Na atual formação, Liberty Ellman, bem conhecido na cena novaiorquina, é um dos destaques, pela sua forma peculiar de tocar o violão. Confira.



Formanek vem de uma ótima sequência de grandes álbuns pela ECM. Small Places foi considerado um dos melhores lançamentos de 2012. Neste, contou com o sax alto de Tim Bern, o piano de Craig Taborn e a bateria de Gerald Cleaver, enquanto em The Distance, montou uma big band com 19 membros em que estão incluídos Mary Halvorson, Thomas Fujiwara, Tim Berne e Ralph Alessi.

Veja o promocional com Formanek falando sobre o projeto.




Veja também Steve Coleman com o seu The Council of Balance, em Synovial Joints.




Por último, Christian McBride. É o melhor contrabaixista hoje, craque no acústico e quando pega o elétrico, é tão bom quanto. Live at the Village Vanguard é com o trio formado pelo pianista Christian Sands e Ulysses Owens. Não é dos melhores álbuns de trio, mas pelo jeito, os críticos gostaram.

Ouça Cherokee.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Os melhores da Downbeat de abril a junho

Dando continuidade a lista de janeiro a março dos melhores ranqueados pela Downbeat, vai a de abril até junho. É um pouco maior que a anterior. Natural, pois, passados os primeiros meses após o Natal, as gravadoras voltam a lançar. O grande lançamento é o álbum de José James, desde já um dos melhores do ano. Sobre ele, postei em http://bit.ly/1Are1GR.

Não ouvi Naked Lunch, o outro 5 estrelas. Dos que receberam 4 estrelas e meia, tem muita coisa boa. Dos vocais, dois são muito bons, e o de Sarah Elizabeth Charles, fora o que ouvi no preview da iTunes Store, que me fez não ficar muito interessado em comprar. O de Maureen Budway, você pode ouvir em http://bit.ly/1jR06b8. Chris McNulty é uma australiana, ótima cantora. O álbum chama-se Eternal. Vale a aposta. Um quarto é o do cult Theo Bleckman, adorado por alguns e, por outros, não muitos. O repertório de A Clear Midnight | Kurt Weill and America é de composições de seu conterrâneo Kurt Weill e três de Julia Hülsmann, a líder do quarteto que acompanha Theo, sobre poemas de Walt Whitman.

Dos instrumentais, a oferta de bons discos é farta, a começar pelo brasileiro Nilson Matta, com seu East Side Rio Drive e continuando com Imaginary Cities, do saxofonista Chris Potter, Gefion do ótimo guitarrista Jakob Bro (leia sobre seus álbuns anteriores em http://bit.ly/1jQZZwk), Balance 38-58, do russo emigrado Alex Sipiagin, e Messin’ with Mister T, do guitarrista David Stryker. Muito bom também, talvez melhor que todos os citados neste parágrafo é Expedition 2, do Wolff and Clark Expedition. Mike Wolff é o tecladista e Mike Clark é o baterista.

Ouça Gefion, de Jakob Bro.




Dos álbuns com 4 estrelas, são várias as recomendações, a começar pela brilhante Anat Cohen, com o seu Luminosa. Ouça Putty Boy Strut, de Flying Lotus. Sobre ela, leia em http://bit.ly/1Gft3Iq.



Bob Dylan, em sua investida nos standards de jazz, com Shadows in the Night, recebeu boa acolhida pela crítica. Desafina bem menos que habitualmente. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1LAfL62.

Veja o clipe de The Night We Called It a Day.




Coming Forth by Day, de Cassandra Wilson, é também um tributo a Billie Holiday. É muito bom, mas não melhor que seus álbuns do fim do século passado e início deste. Sobre o disco, leia http://bit.ly/1W3hDyr.

Ouça Good Morning Heartache.




Outros destaques são: Made in Chicago (Jack DeJohnette), Wild Man Dance, estreia de Charles Lloyd na Blue Note, NYC Sessions, do pianista Dave Bass, Take This! (Jacky Terrasson), e Live at the Monterrey Jazz Festival, de Joe Lovano e Dave Douglas.  Tem mais coisa boa, mas fico por esses, que ouvi melhor.

A lista

5 estrelas
José James - Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
Ornette Coleman, Howard Shore - Naked Lunch: Complete Original Soundtrack Remastered (Home Records)

4 ½ estrelas
Alex Sipiagin - Balance 38-58 (Criss Cross)
Chris Biesterfeldt - Phineas (Biest)
Chris McNulty - Eternal (Palmetto)
Chris Potter Underground Orchestra - Imaginary Cities (ECM)
Dave Stryker - Messin’ with Mister T (Strikezone)
Gary McFarland - This Is Gary McFarland (Century)
Georg Breinschmid - Double Brein (Preiser)
Jakob Bro - Gefion (ECM)
Jeff Hamilton Trio - Great American Songs: Through the Years (Capri)
Julia Hülsmann Quartet with Theo Bleckmann - A Clear Midnight: Weil and America (ECM)
Maureen Budway - Sweet Candor (MCG Jazz)
Nilson Matta - East Side Rio Drive (Kirianworld Blue)
Pat Martino/Jim Ridl - Nexus (HighNote)
Sarah Elizabeth Charles - Inner Dialogue (Truth Revolution)
Tomoko Omura - Roots (Inner Circle)
Wolff & Clark Expedition - Expedition 2 (Random Act)
Zhenya Strigalev’s Smiling Organizm - Robin Goodie (Whirlwind)

4 estrelas
Adam Birnbaum - Three of a Mind (Daedalus)
Alex Conde - Descarga for Monk (Zoho)
Anat Cohen - Luminosa (Anzic)
Bettye LaVette - Worthy (Cherry Red)
Bob Dylan - Shadows in the Night (Columbia)
Cassandra Wilson - Coming Forth by Day (Sony)
Charles Lloyd - Wild Man Dance (Blue Note)
Chris Lightcap’s Bigmouth - Epicenter (Clean Feed)
Christian Wallumrød - Pianokammer (Hubro)
Dafnis Pietro Sextet - Triangles and Circles (Dafnisonmusic)
Danny McCaslin - Fast Future (Greenleaf)
Dave Bass - NYC Sessions (Whaling City Sound)
David Chesky - Jazz in the New Harmonic - Primal Scream (Chesky)
David Rothstein, Larry Koonse - Conversations (Jazz Compass)
Emilio Solla y La Inestimable de Brooklin 0 Second Half (Self release)
Felice Clemente Trio - 6:35 AM (Crocevia di Suoni)
Fresh Cut Orchestra - From the Vine (Ropeadope Records)
Gebbhard Ullmann Basement Research - Hat and Shoes (Between the Lines)
Glenn Zaleski - My Ideal (Sunnyside)
Ibrahim Electric - Rumours from Outer Space (ILK)
Jack DeJohnette - Made in Chicago (ECM)
Jacky Terrasson - Take This (Impulse!)
James Singleton - Shiner (Lousiania Music Factory)
Jeremy Siskind - Housewarning (Brooklyn Jazz Underground)
Jim Snidero - Main Street (Savant)
Joe Lovano & Dave Douglas Sound Prints - Live at the Monterrey Jazz Festival (Blue Note)
John Fedchock Quartet - Fluidity (Summit)
John Stowell/Michael Zilber Quartet - Live Beauty (Origin)
Mark Helias Open Loose - The Signal Maker (Intakt)
Mark Wingfeld - Proof of Light (MoonJune)
Marshall Gilkes - Köln (Alternate Side)
Milford Graves/Bill Laswell - Space/Time • Redemption (Tum)
Myra Melford - Snowy Egret (Enja)
Omar Sosa - Ilê (Otá)
Oz Noy - Asian Twistz (Abstractology)
Pablo Held - The Trio Meets John Scofield (Pirouet)
Pascal Bokar - Guitar Balafonics (Sugo)
Phil Markowitz, Zach Broch - Perpetuity (Dot Time)
Pops Staples - Don’t Lose This (Anti)
The Renga Ensemble - The Room Is (Allos)
Roscoe Mitchell Trio - Angel City (Rogue Art)
Russell Malone - Love Looks Good on You (HighNote)
Ryan Truesdell Gil Evans Project - Lives of Color: Live at Jazz Standard (Blue Note)
Soft Machine - Switzerland 1974 (Cuneiform)
Steve Gadd Band - 70 Strong (BFM)
Steve Turre - Spiritman (Smoke Sessions)
Steve Wilson & Wilsonian’s Grain - Live in New York: The Vanguard Sessions (Random Act)

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Os estrelados da Downbeat de janeiro a março

Por um probleminha, a lista sumiu e saiu um post em branco. Percebi depois. Esta é a lista de janeiro a março. Proximamente, listo de abril até junho. Aconteceram vários acessos e não tinha nenhum texto. Assino a Downbeat há mais de 30 anos. É a minha preferida, mesmo com tantas outras publicações especializadas em jazz disponíveis. É uma forma de estar em dia com os lançamentos. A lista é apenas dos álbuns que receberam 4 ou mais estrelas, sendo 5 a máxima classificação.

5 estrelas
Keith Jarrett/Charlie Haden/Paul Motian - Hamburg ’72 (ECM)
Vijay Iyer Trio - Break Stuff (ECM)

4 1/2 estrelas
Aki Takase/Alexander von Schlippenbach - So Long Eric: Homage to Eric Dolphy (Intakt)
Annie Lennox - Nostalgia (Blue Note) http://bit.ly/1Q9cGx8
Ben Goldberg - Orphic Machine (Bag Production)
Chris Greene Quartet - Music Appreciation (Single Malt)
Friends & Neighbors - Hymn for a Hungry Nation (Clean Feed)
Kenny Wheeler - Songs for Quintet (ECM) http://bit.ly/1NoHlIY
Marcus Roberts and The Modern Jazz Generation - Romance, Swing and the Blues (J. Master)
Michael Blake - Tiddy Room (Sunnyside)
Peter Madsen’s CIA Trio - Elvis Never Left the Building (Playscape)
Rob Mazurek and Black Cube SP - Return the Tides: Ascension Suite and Holy Ghost (Cuneiform)
Sam Newsome - The Straight Horn of Africa: A Path to Liberation (self produced)
The Mike Longo Trio - Celebrates Oscar Peterson Live (Consolidated Artists)
Wadada Leo Smith - The Great Lakes Suite (Tum)

4 estrelas
Branford Marsalis - In My Solitude: Live at the Grace Cathedral (Marsalis Music)
Brian Lynch/Emmet Cohen - Questioned Answer (Holistic Musicworks)
Carmen Lundy - Soul to Soul (Afrasia)
Chad Eby Quartet - The Sweet Shel Suite (Music Lab)
Chris Walden Big Band - Full-on! (Origin)
Clarence Penn & Pen Station - Monk: The Lost Files (Origin)
Collina/Cervetto/Pellon/Bosso - Michel on Air (ITI)
Conrad Herwig - The Latin Side of Joe Henderson (Half Note)
Dan Zinn - Shangri La (Z Music)
Dana Stephens - Peace (Sunnyside)  http://bit.ly/1yxWuBy, http://bit.ly/1Q9d1jh
Darrell Katz - Why Do You Ride? (Leo)
Enrico Pieranunzi - Stories (CamJazz)
Evan Parker/Sylvie Courvoisier - Either or And (Relative Pitch)
Fred Frith - The Natural Order (Northern Spy)
Gary Dial/Dick Oatts - That Music Always Round Me (BCM-D)
Ivo Perelman/Karl Berger - Reverie (Leo Records)
Jan Harbeck Quartet - Variations in Blue (Stunt)
Jason Marsalis Vibes Quartet - The 21st Century Trad Band (Basin Street)
Jean-Michel Pilc - What Is This Thing Called Love (Sunnyside)
Kenny Barron/Dave Holland - The Art of Conversation (Impulse!)  http://bit.ly/1VFbLev
Mark Elf - Returns 2014 (Jen Bay)
Michael O’Neill/Kenny Washington - New Beginnings (Jazzmo)
Michel Reis Quartet - Capturing This Moment (Double Moon)
Nels Cline/Julian Lage - Room (Mack Avenue)
New Orleans Brass Bands - Through the Streets of the City (Smithsonian Folkways)
Paul Jones - Short History (Blujazz)
Peal Nilssen-Love Large Unit - Erta Ale (PNL)
Ron Miles - Circuit Rider (Enja)
Roseanna Vitro - Clarity: Music of Clare Fischer (Random Act)
Russ Johnson - Still Out to Lunch (Enja)
Spockfrevo Orquestra - Ninho de Vespas (Motéma)
Wooley/Rempis/Niggenkemper/Corsano - From Wolves to Whales (Aerophonic)
Yony Allen - Film of Life (Jazz Village)




Recomendações
Dos que ouvi – não são muitos –, recomendo:
Keith Jarrett/Charlie Haden/Paul Motian - Hamburg ’72
Vijay Iyer Trio - Break Stuff  
Aki Takase/Alexander von Schlippenbach - So Long Eric: Homage to Eric DolphyAnnie Lennox - Nostalgia
Kenny Wheeler - Songs for Quintet 
Wadada Leo Smith - The Great Lakes Suite
Branford Marsalis - In My Solitude: Live at the Grace Cathedral
Dana Stephens - Peace
Enrico Pieranunzi - Stories
Kenny Barron/Dave Holland - The Art of Conversation
Nels Cline/Julian Lage - Room 
Russ Johnson - Still Out to Lunch 
Spockfrevo Orquestra - Ninho de Vespas (Motéma)


Ouça Everything that Lives Laments, com Keith Jarrett, Charlie Haden e Paul Motian.



Ouça Peace, com Dayna Stephens.




Ouça Annie Lennox cantando Summertime.




Ouça Nonethless, com Kenny Wheeler.


 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os melhores álbuns pela Downbeat: do 11º pra frente

Adoro listas, como o protagonista de Alta Fidelidade (High Fidelity), de Nick Hornby. Presumo que não sou tão diferente de muitos que habitam este planeta. Tenho amigos que adoram fazer listas das mais variadas coisas. Como ouço música até para dormir – ou mal dormir –, nada mais natural que distrair-se com listas, vendo o meu ídolo por tantos anos no sax barítono e no soprano, John Surman, depois de ficar tanto tempo em primeiro, estar em 11º na primeira categoria e, na segunda, nem constar na “63rd Annual Critics Poll”, da Downbeat.

Antigamente, se não me engano, colocavam apenas os 10 melhores do ano. Foram aumentando e, na última, citam 42. Naturalmente, não ouvi todos. Vou relacionar apenas alguns que achei interessantes – outros menos –, que podem despertar a curiosidade de alguns.

Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (11º). O pianista é um bom arranjador e nesse álbum em que faz tributo à compositora e cantora, morta precocemente aos 49 anos. O álbum conta com várias participações especiais como a de Renée Fleming, a celebrada soprano americana, de conhecidas cantoras como Rickie Lee Jones, Lisa Fischer, Alison Krauss, Dianne Reeves e a emergente Becca Stevens e músicos como Esperanza Spalding (cantando), Wayne Shorter, Chris Botti, Chris Potter e a estrela erudita Yo-Yo Ma. Os álbuns de Childs são sempre instigantes pelos bons arranjos.

Ouca Map to the Treasure, com vocais de Lisa Fischer. Para quem não sabe, é a backing dos Rolling Stones.



Chris Potter, Imaginary Cities (12º). o saxofonista tenor, que tocou por muito tempo na banda de Dave Holland e é um bons (ficou em 4º lugar em seu instrumento pela Downbeat). É o segundo que grava pela ECM. Fez parte da Unity Band, com Pat Metheny, Ben Williams e Antonio Sanchez. Foi lançado um único álbum deles, em 2012.

Chris fal sobre Imaginary Cities.




Mark Turner, Lathe of Heaven (13º). Não está entre os meus saxofonistas tenor preferidos, mas isso quer dizer apenas que tudo é questão de gosto. Até por isso, Lathe of Heaven está em 13º. Sinal de que muitos não concordam comigo.

Ouça The Edenist.




The Cookers, Time and Time Again (14º). Os “cookers” são Billy Harper, Donald Harrison nos saxofones, David Weiss e Eddie Henderson, trompetse, George Cables, piano, Cecil McBee, contrabaixo, e Billy Hart na bateria. Não dá para ignorar uma formação dessa. É bem bom. Estaria na minha lista dos dez.

Veja os “cookers” em Sir Galahad. Nada como a experiência. David Weiss é o mais novo. Grande Billy Harper.




Anat Cohen, Luminosa (14º). Faz alguns anos que não tem ninguém para Anat, na clarineta. Na última votação teve exatamente o dobro do segundo, que foi o cubano expatriado Paquito D’Rivera. Há uma coisa em comum entre esses dois: são apaixonados pela música brasileira. A israelense tem sangue latino. Toca choros como ninguém. Sua paixão é tão grande que seu álbum tem esse título que tão bem combina com ela e sua música. Anat merece um texto separado. Só para adiantar, ela abre com Lília, de Milton Nascimento. Não para por aí. Tem K-Ximbinho, Edu Lobo e Severino Araújo. Na minha lista estaria entre os dez melhores.

Ouça Anat em In the Spirit of Baden.




Keith Jarrett/Charlie Haden, Last Dance (16º). Tudo o que os dois gravaram é, no mínimo bom. É o que é esse álbum. É o complemento de Jasmine. Todos os registros foram feitos na casa do pianista em 2007. Ouça e leia em http://bit.ly/1IuEue8. Leia também sobre os duos de Haden com outros grandes músicos em http://bit.ly/1LWaQ0u.

Ouça alguns trechos de Last Dance.




Sonny Rollins, Road Shows 3 (17º). Noutro dia (re)li uma história ótima sobre a imprevisibilidade do saxofonista. Na década de 1950, o saxofonista tenor era celebrado como um dos grandes, depois de lançar os hoje clássicos Saxophone Colossus e Tenor Madness. Antes, já tinha passado uma pequena temporada na cadeia por roubo e lutava contra o vício de heroína. Um certo comportamento errático, dando várias pausas na carreira, tornando-se muçulmano e depois abraçando seitas orientais, foi morar na Índia, e ficou por lá um tempo fazendo ioga e meditação. Max Gordon, dono do clube Village Vanguard, em certa feita, soube que ele estava em Nova York. Conseguiu falar com ele ao telefone. Sonny foi encontrar-se com Max vestido com uma túnica branca que ia até os pés e com a cabeça calva, com o cabelo desenhando uma cruz no topo. Este lhe ofereceu um drink. O saxofonista disse-lhe que não bebia mais. Naquela terça-feira de abril, em 1976, Sonny apareceu com sua banda. Estava em forma ainda. Arrebentou. Depois de um intervalo de meia hora, aconteceria a segunda parte do show. A banda voltou, mas Sonny tinha sumido, para a surpresa de todos.

Por excelência e por sua imprevisibilidade, Sonny é uma lenda viva. Tem 84 anos e ainda toca. É Road Shows 3, porque já foram lançados dois. O primeiro foi o disco do ano pela Downbeat em 2009. Este terceiro merece eatr entre os vinte melhores do ano, até pelo que Sonny fez pela música. Max Gordon considerava-o o melhor tenorista de sua geração, melhor que Billy Harper, Dexter Gordon e Johnny Griffin. Bom, Gordon é um dos meus preferidos. Rollins está abaixo na minha lista. Mas, o velhinho manda bem. Tem fôlego para fazer solos espetaculares ainda.

Ouça Biji, a primeira faixa.




Tony Bennett e Lady Gaga, Cheek to Cheek (19º). O que esperar de um ancião quase nonagenário e uma cantora que adora mostrar as suas nem tão divinas tetas? Bem, chamar Tony de ancião é um insulto. Impressionante como mantém a verve de grande cantor. E Lady Gaga, para a minha, a nossa e a sua surpresa, manda bem nos standards. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1MpEQpH.

Veja Tony e Lady Gaga cantando Anything Goes, Cheek to Cheek e They All Laughed.




Marc Ribot Trio, Live at The Village Vanguard (20º). Sem ser um virtuose, Marc se diferencia pelo som original que tira da guitarra. É o que faz, por exemplo Ry Cooder. Suas participações em álbuns de outros músicos são sempre interessantes. Deve ter tocado com todo mundo. Tocou em vários discos de Tom Waits. Este ao vivo é muito bom.

Ouça Sun Ship.

terça-feira, 30 de junho de 2015

Downbeat anuncia os melhores discos do ano 2014-2015

Bem entendido: os melhores da revista Downbeat são escolhidos por críticos de vários países e correspondem ao que acontece e é lançado de março, mais ou menos, presumo, até o março seguinte. Assim, alguns álbuns recentíssimos entram na lista com outros que saíram no ano passado.

A opinião da crítica nem sempre corresponde com a dos leitores. Imagina-se que os primeiros são mais “cultos” que a segunda turma. Estou neste grupo, portanto, menos informado, mas curioso. No texto de hoje, listo apenas os que foram considerados os 10 melhores álbuns do ano e alguns comentários..

Aos 10:
1.  Rudresh Mahantappa, Bird Calls (ACT)
2.  Steve Lehman Octet, Mis en abîme (PI)
3.  Jason Moran, All Rise: A Joyful Elegy for Fats Waller (Blue Note)
4.  Wadada Leo Smith, The Great Lakes Suites (TUM)
5.  Chick Corea Trio, Trilogy (Stretch/Concord)
6.  Kenny Barron/Dave Holland, The Art of Conversation (Impulse)
7.  Vijay Iyer, Break Stuff (ECM)
8.  José James, Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
9.  Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks (Blue Note)
10. Fred Hersch Trio, Floating (Palmetto)


A curiosidade – ou coincidência – é que Rudresh Mahantappa e Steve Lehman tocam saxofone alto. A música deles é sem concessões. Não é tão avant garde quanto Cecil Taylor, mas não é o tipo de som que vai agradar alguém que não está tão acostumado a ouvir música instrumental de improviso. O mesmo ocorre com as últimas incursões de Wadada Leo Smith. Com uma produção intensa, o trompetista anda compondo temas longos que podem ser consideradas “suites”. Esta última é até menos ambiciosa do que The Freedom Summers, composta de quatro CDs.

Ouça Lake Superior, de Leo Smith.




Ouça Segregated and Sequential, do octeto de Lehman.O vibrafone de Chris Dingman e alto de Steve nos lembra Eric Dolphy. A formação da banda, no entanto é diferente e conta com mais membros.



Entre os três, em terceiro na votação, está Jason Moran, considerado um músico também associado ao que designam genericamente como post-bop. Excelente compositor, não privilegia tanto composições próprias como os outros. É considerado um dos melhores pianistas da atualidade. Foi considerado “artista do ano” em 2011, e Ten foi eleito o melhor lançamento. Este All Rise é um tributo, e um complemento a um projeto em que está envolvido, ao grande Fats Waller. Como se percebe pelo título, Moran privilegia a alegria. Assim, a música é mais “fácil”. Não toca apenas o piano. Em várias faixas pilota um Fender Rhodes e também conta com vários cantores. E, para confirmar que o mundo é pequeno, Lehman é o saxofonista alto em All Rise.

Veja um pequeno trecho, em Montreal, relacionado ao Jason Moran's Fats Waller Dance Party.




O quinto lugar, para a nossa felicidade, ou seja, a de nós, menos “eruditos”, foi concedido a Trilogy, de Chick Corea. Com tanta coisa sendo lançada nos últimos anos deste pianista, ainda não ouvi este álbum. Aliás é o único que não conheço dos dez. Mesmo assim, acho que deve ser bom. Pelo que leio agora, toca com Christian McBride e Brian Blade, o que já é uma recomendação.

É deste baterista o álbum que ficou em nono lugar. A primeira vez em que me chamou a atenção foi em um show em DVD de Joni Mitchell. Fiquei fascinado com a sutileza do seu modo de tocar um instrumento em que, normalmente, privilegiam a força bruta e o barulho. Quando conheci seu primeiro solo – Brian Blade Fellowship (Blue Note, 1998) – fiquei mais impressionado ainda. A sua música é sofisticada e densa, rica em matizes sonoros. Um dos responsáveis por esse colorido é o pianista Jon Cowherd, muito bom. Blade nunca excede no volume. Deve ser a bateria mais tonal do planeta.

Ouça Friends Call Her Dot, de Landmarks.




Vijay Iyer é o pianista da vez. É o “artista do ano” de 2015 pela Downbeat. Merecido. Grande músico, é um dos xodós da crítica. Tem grandes discos no currículo: Raw Material, duo com Rudresh Manhatappa, Historicity (ACT, 2009), Solo (ACT, 2010), Accelerando (ACT, 2012), considerado por muitos críticos o melhor naquele ano, e os mais recentes Mutations, o primeiro na ECM, e Break Stuff, o mais recente, que ficou em sétimo.

Assista ao vídeo promocional da ECM.




Kenny Barron é um dos melhores pianistas atuais. Sem o protagonismo de Keith Jarrett e nem tão associado à avant garde como Jason Moran e Vijay Iyer, inscreve-se na história dentro da tradição que nos legou Hank Jones, Wynton Kelly, Ray Bryant e Hank Jones. O que não o torna tão incensado é o fato de preferir executar composições próprias e menos batidos standards.

Mesmo daqui a 50 anos, Dave Holland vai estar entre os dez grandes baixistas da história. É também grande compositor. Inglês, portanto, um pouco fora do circuito principal, tocou com Miles Davis, na mesma época de outro conterrâneo: John McLaughlin. Fora da banda elétrica de Miles, construiu sólida carreira com ótimos álbuns pela gravadora ECM.

Pois Barron e Holland se juntaram para fazer um dos grandes discos do ano: The Art of Conversation. Os dois juntam talento, elegância e beleza. A harmonia entre eles é algo especial. Na minha lista, estaria entre os três melhores do ano.

Veja uma apresentação deles no La Villette.




O álbum que ficou em oitavo, ficaria facilmente dentre os meus três melhores. José James é o melhor cantor da atualidade. Mais uma vez, a crítica não acha o mesmo. O primeiro foi, de novo, Gregory Porter (sobre ele, leia http://bit.ly/UjCi2R). Yesterday I Had the Blues é o melhor álbum lançado em homenagem aos 50 da morte de Lady Day. Sobre ele leia: http://bit.ly/1NHLW4i, http://bit.ly/1DkXQRS e http://bit.ly/1Are1GR.

Quer a prova? Ouça Body and Soul com ele.



Ouça Strange Fruit. Genial.




Ouça também Tenderly.




Bom, não posso deixar de falar do décimo. Fred Hersch é um sobrevivente. Literalmente. Portador do vírus HIV, em 2008, ficou dois meses em coma, e sobreviveu. Mesmo acometido pela doença, nunca parou de tocar. É um tanto impressionante ver aquela criatura frágil aproximar-se do piano. Fui espectador por uma vez. Mas quando senta-se e toca as primeiras notas, agiganta-se. É um dos bons acompanhantes de cantores da atualidade; e é craques no formato trio. A enfermidade é um detalhe na sua vida. Gravou quase uma centena de discos. Floating, que ficou em 10º, é o mais recente.


Ouça You and the Night and the Music.

terça-feira, 22 de julho de 2014

A lista dos melhores álbuns do ano na Downbeat, segundo a crítica

WomanChild, o álbum do ano
Como de costume, em julho, a lista dos melhores do ano.

1. Cécile McLorin Salvant - WomanChild (MackAvenue Records)
2. Ambrose Akinmusire, The Imaged Savior Is Far Easier to Paint (Blue Note)
3. Dave Holland & Prism, Prism (Dare2)
4. Gregory Porter, Liquid Spirit (Blue Note)
5. Pat Metheny Unity Group, Kin (Nonesuch)
6. Frank Wess, Magic 101 (IPO)[sobre o álbum, leia em http://bit.ly/1zVlcsM]
7. Kenny Garrett, Pushing the World Away (MacAvenue)
8. Jane Ira Bloom, Sixteen Sunsets (Outline)
9. The Bad Plus, The Rite of Spring (Sony Masterworks)
10. Terence Blanchard, Magnetic (Blue Note)
11. Dave Douglas Quintet, Time Travel (Greenleaf)
12. Keith Jarrett/Gary Peacock/Jack DeJohnette, Somewhere (ECM)
13. Eric Alexander, Chicago Fire (High Note)
14. Preservation Hall Jazz Band, That’s It! (Sony/Legacy)
15. Matt Wilson Quartet + John Medeski, Gathering Call (Palmetto)
16. Michele Rosewoman’s New Yor-Uba, 30 Years! A Musical Celebration of Cuba in America (Advance Dance Disques)
17. Chucho Valdés, Border-Free (Jazz Village)
18. Chick Corea, The Vigil (Stretch/Concord)
19. Wadada Leo Smith & TUMO, Occupy the World (Tum)
20. Craig Taborn Trio, Chants (ECM)

Liquid Spirit é o segundo álbum de Gregory Porter que fica em quarto, segundo os críticos. Veja-o interpretando música título.




The Imaged Savior Is Far Easier to Paint, de Ambrose Akinmusire ficou em segundo lugar. O trumpetista é outro novato que promete. Ouça As We Fight, a segunda faixa.




Frank Wess faleceu em outubro do ano passado, aos 92 anos. Manteve-se ativo até pouco antes da morte. Seu Magic 101, merecidamente, ficou em sexto lugar. Ouça The Very Thought of You.




Do 21º ao 30º. Os destaques, dentre os que ouvi, muito bom é a mais nova aventura orquestral de Darcy James Argue’s Secret Society (Brooklyn Babylon). Bons são também o da New Gary Burton Quartet (Guided Tour), com o pianista revelação Vadim Neselovskyi; o de Catherine Russell (Bring It Back), do qual escrevi em http://bit.ly/1p6sQLb; 3 Cohens (Tighrope) [ouça algumas músicas desse álbum em http://bit.ly/1zTUQYo]; de Tierney Sutton (After Blue), seu tributo ao disco Blue, de Joni Mitchell; de Bill Frisell (Big Sur); e, por fim, o de Fred Hersch com Julian Lage (Free Flying). Lage é um dos guitarristas que tem se destacado entre os novos.

O destaque do ano. Quem “explodiu” nessa votação foi Cécile McLorin Salvant. Em outro post comento mais sobre ela. Surpreendente para uma cantora que acabou de ter seu primeiro disco gravado nos Estados Unidos. Em 2010, venceu o Thelonious Monk Internationals Jazz Vocals Competition. Desbancou, nesse ano, outra intérprete em ascensão, a francesa baseada em Nova York, Cyrille Aimée. Coincidência que os dois nomes tenham raízes francesas.

Cécile veio como um tsunami. Ficou em primeiro como “rising star” e na principal na categoria  ”female vocalist”. Confundiu a cabeça dos críticos. É um caso especial. Ficou em primeiro como a “artista do ano” na categoria “rising star”. Fora isso, seu disco WomanChild foi considerado o melhor do ano. É para poucos. E conseguiu algo que parecia improvável: desbancar a eterna eleita Cassandra Wilson. Conseguiu o mesmo que Gregory Porter. O autor de Be Good (ouça em http://bit.ly/UjCi2R), o quarto melhor álbum de 2012, ficou em primeiro, tirando Kurt Elling, depois de um reinado de mais de uma década. Fora isso, foi eleito o “jazz artist” do ano. Pelo jeito, é o ano dos cantores. Há muito não acontecia isso.

Veja Cécile McLorin Salvant cantando I Didn’t Know What Time It Was, no Dizzy’s



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Alguns destaques da 61ª Critics Poll, da Downbeat

Maria Schneider, sempre entre as melhores
Já está sendo lançado o número de setembro da Downbeat e, com certo atraso, continuo a comentar sobre os melhores segundo a crítica. Lista são sempre interessantes. Que o diga o ficcionista inglês Nick Hornby. Em Alta Fidelidade, uma das personagens vive a fazer listas, de namorads, de músicas preferidas, etc. Algumas delas podem servir de orientação e também para discordar-se ou não das escolhas.

Faço aqui uma lista parcial.

1. Melhores “jazz group”. Wayne Shorter Quartet, Joe Lovano Us Five e Vijay Iyer Trio. Dos três, só Iyer não tem nenhum álbum na lista, mas seu Accelerando foi considerado o melhor no ano passado. Não lançou nada como líder depois. Sobre Accelerando, de Vijay Iyer, leia http://bit.ly/RG8H15.

2. Big Band. Empate, com 145 votos cada, da Darcy James Argue»s Secret Society e Maria Schneider Orchestra. Os dois grupos lançaram discos excepcionais. Serão assuntos no futuro. Nem Winter Morning Walks, em que Schneider toca com a mezzo soprano Dawn Upshaw, e nem Brooklyn Babylon, de Argue estão na lista dos 30 melhores. Injustiça. (Sobre Darcy James Argue, leia http://bit.ly/16yrhx8).

Veja e ouça Phobos, em apresentação no Lincoln Center.




3. Trompete. Dave Douglas, Wadada Leo Smith e Ambrose Akinmusire. Douglas lidera a lista há anos. Destaca-se como bom compositor e ótimo instrumentista. O disco de Smith ficou em segundo lugar na lista dos melhores. É muito bom.

4. Trombone. Wycliffe Gordon, Steve Turre e Trombone Shorty. A novidade é o surgimento de Shorty, bom trombonista e autor de uma música contagiante, na lista dos últimos anos.




5. Sax soprano. Wayne Shorter, Dave Liebman e Branford Marsalis. Todos velhos de guerra. Shorter ganha por antiguidade.

6. Sax alto. Rudresh Mahanthappa, Ornette Coleman e Tim Berne. Ornette, como Shorter, é uma lenda viva. Essa é a razão de estar melhor colocado que Tim Berne e Miguel Zenón.

7. Sax tenor. Joe Lovano, Sonny Rollins e Chris Potter. Aqui a lenda é Rollins, que está para fazer 83 anos e participou de vários momentos do jazz e até do rock: tocou até com os Rolling Stones. Lenda por lenda, prefiro Charles Lloyd, que em sua fase “pop” tocou com os Beach Boys, de Brian Wilson.

Ouça La Llorona, com Charles Lloyd.




8. Sax barítono. Gary Smulyan, James Carter e Ronnie Cuber. Três grandes saxofonistas. Durante anos o reinado foi do inglês John Surman. Ficou em nono.

9. Clarineta. Anat Cohen, Don Byron e Ken Peplowski. Anat está reinando. É ótima no sax tenor também. Don Byron entrou por uma vereda menos jazzística, mas é ótimo instrumentista. Peplowski é mais velho e mais mainstream. Técnica impecável.

Ouça Anat tocando a brasileiríssima Um a Zero. Sobre ela, leia http://bit.ly/1cutCgE.




10. Flauta. Nicole Mitchell, Charles Lloyd e Henry Threadgill. Mitchell é ótima flautista e lançou um belo disco: Aquarius. Lloyd vai por sua musicalidade. É melhor na sax tenor. Threadgill, além de ótimo na flauta, lança um disco ótimo atrás do outro.

11. Piano. Jason Moran, Vijay Iyer e Brad Mehdau. Qualquer um entre os dez melhores mereceria estar em primeiro. Vai mais pelo gosto de cada um.

12. Teclados. Robert Glasper, Chick Corea e Herbie Hancock. Os dois últimos lideram a lista sempre. A novidade é Glasper. Bom no piano e nos teclados eletrônicos. Seu Black Radio foi muito bem recebido pela crítica.

13. Orgão. Os Hammond B3 voltaram à moda. Depois da partida de Johnny Smith, não tem ninguém para Joey DeFrancesco. O grande, no tamanho também, Joey é um craque. O veterano Dr. Lonnie Smith está na ativa e lançou The Healer, um disco ao vivo muito bom. O terceiro, Larry Goldings, é bom organista com discos irregulares.

14. Guitarra. Bill Frisell, nos últimos tempos tem lançado bons discos e bem diversificados. O último foi Big Sur, em que conta com um trio de cordas – violino, viola e violoncelo – e um baterista. Pat Metheny é outro com projetos diferenciados. Além do álbum com seu quarteto, o Unity Band, desenvolve o que ele chama de Orchestrion (sobre isso, leia http://bit.ly/13NTY4W).

Veja a engenhoca do Orchestrion funcionando.




14. Contrabaixo. Aqui também, não tem ninguém para Christian McBride. É uma baixista excepcional e manda muito bem no baixo elétrico também. Dave Holland, o segundo, é outro instrumentista excepcional. Começou na cena inglesa e depois foi para a banda de Miles Davis. Lançou muitos discos como líder pela gravadora ECM e mantém um nívelde excelência. Ron Carter? Mesma coisa.

15. Baixo elétrico. Stanley Clarke, Marcus Miller e Christian McBride. Clarke começou com Chick Corea bem jovem. Miller tem um estilo peculiar de manejar o contrabaixo. É ótimo, apesar de não lançar grandes discos. McBride é o que disse no item anterior. O quarto, Steve Swallow, poderia muito bem ser considerado o melhor. Velho de guerra, marido e parceiro de Carla Bley, possui estilo único e seu mais álbum mais recente – Into the Woodwork – é ótimo.

16. Bateria. Há bom tempo Jack DeJohnette encabeça a lista. Merecido. Brian Blade é outro excepcional baterista. É um mestre nas sutilezas. É outro estilo. Eric Harland, que toca na banda de Charles Lloyd, merece estar entre os primeiros. Arrasou quando se apresentou, no ano passado, com o saxofonista, e neste ano, com o James Farm, de Joshua Redman, Aaron Parks e Matt Penman. (sobre a apresentação, leia http://bit.ly/15bIU0Q)

Veja James Farm interpretando Chronos.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os melhores álbuns de 2012/13, segundo a Downbeat

A votação dos melhores da crítica, na revista Downbeat, sai no meio do ano. no número de agosto. Por conseguinte, os lançados até o fim do ano anterior devem ter sido ouvidos. Vou listar os dez melhores álbuns melhores colocados neste primeiro post. No seguinte, escrevo sobre alguns intérpretes que se destacaram.

Without a Net, de Wayne Shorter é o melhor do ano

1. Wayne Shorter Quartet, Without a Net (Blue Note)
2. Wadada Leo Smith, Ten Freedom Summers (Cuneiform)
3. Sam Rivers/ Dave Holland/ Barry Altschull, Reunion: Live in New York (PI)
4. Joe Lovano, Cross Culture (Blue Note)
5. Charles Lloyd & Jason Moran, Hagar’s Song (ECM)
6. Ryan Tuesdell, Centennial: Newly Discovered Works of Gil Evans (ArtistShare)
7. Branford Marsalis Quartet, Four MFs Playin’ Tunes
8. Kurt Rosenwinkel, Star of Jupiter (WomMusic)
9. Christian Scott, Christian aTunde Adjuah (Concord)
10. Neneh Cherry/ The Thing, The Cherry Thing (Smalltown Supersound)

Dos 30 listados, alguns destaques:
Anat Cohen, Chiaroscuro (Anzic)
Fred Hersch Trio, Alive at the Village Vanguard
Pat Metheny, Unity Band (Nonesuch)
Lee Konitz, Bill Frisell, Gary Peacock, Joey Baron, Enfant Terribles (Half Note)
Chick Corea, Gary Burton, Hot House (Concord)
Chris Potter, The Sirens (ECM)
Return to Forever, The Mothership Returns (Egle Rock)
Theo Bleckmann, Hello Earth (The Music of Kate Bush) (Winter & Winter)

Without a Net é o primeiro álbum do retorno de Wayne Shorter à gravadora que o revelou, a Blue Note. É um registro ao vivo em que tem como parceiros Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade na bateria. Shorter gravou o primeiro solo em 1959 e passou por fases importantes do jazz. Fez parte do lendário quinteto de Miles Davis, que tinha Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Criou, com Joe Zawinul, uma das melhores bandas de jazz fusion da história. Depois do fim do Weather Report, como líder, gravou alguns álbuns pela Verve, mas nenhum é de fato marcante. O penúltimo, lançado em 2005, Beyond the Sound Barrier, é um disco meio estranho, apesar da crítica tê-lo recebido bem. Without a Net é meio parecido, no entanto, é mais coeso. Uma coisa é ser considerado o melhor do ano e outra é ser um dos melhores. No show, a plateia não sabe a hora que pode aplaudir, enquanto os músicos soltam “ais” e interjeições demonstrando prazer em tocar. Blade é um baterista diferenciado: menos percussivo é o baterista das sutilezas, de toques abstratos. Perez e Pattitucci são bons e com bastante estrada e Wayne, desse nem se fala: passou por grandes fases.

Há uma certa benevolência com músicos mais velhos que continuam na ativa. São muitos até: Charles Lloyd, Sonny Rollins, Houston Person, Phil Woods e Frank Wess (com 91 anos, atualmente, gravou seu último disco em 2009 com Hank Jones, falecido dois meses antes de completar 92), citando apenas os saxofonistas. É compreensível e, os citados acima, por exemplo, se têm menos fôlego, como Woods, são como os sábios. Esta é a razão, a meu ver, de Without a Net ter sido considerado o melhor.

Ten Freedom Summers, de Wadada Leo Smith, que ficou em segundo, é mais interessante que o disco de Shorter. É um álbum conceitual, um projeto ambicioso com mais de quatro horas de música; mesmo o que ficou em terceiro: a reunião estelar de Sam Rivers, Dave Holland e Barry Altschull, em Nova York. Mas é aquela história: lendas são lendas. Shorter ainda surpreende. Prestes a completar 80 ano, executa uma música quase free em interessantes improvisos. É difícil comparar o que faz agora com o que fez antes com tanta genialidade e criatividade. Outro muito bom, mesmo não sendo superior aos de sua banda, é Hagar’s Song, de Charles Lloyd, em duo com o pianista Jason Moran.

Do restante, até o décimo, muito bom é o do trompetista Christian Scott com seu Christian aTunde Adjuah (deve ser o novo nome dele). Tem uma instrumentação interessante, com a guitarra discreta e belos achados sonoros de Matthew Stevens e Lawrence Fields no piano, no cravo e no Fender Rhodes. Cross Culture, de Joe Lovano e seu US Five é bom, mas não tanto quanto o anterior Bird Songs. O mesmo se aplica a Four MFs Playin’ Tunes, do quarteto de Branford Marsalis. O de Ryan Tuesdell – Centennial: Newly Discovered Works of Gil Evans – é bom e é prato cheio para os fãs do arranjador que ficou célebre quando gravou com Miles Davis. O de Kurt Rosenwinkel – Stars of Jupiter – é meio chato, com vocalises um tanto irritantes. O guitarrista já fez coisa melhor. Finalmente, The Cherry Thing, de Neneh Cherry. O dado relevante é que Neneh tem esse sobrenome por ser enteada de Don Cherry, que se revelou na banda de Ornette Coleman. Nasceu na Suécia, e o pai biológico também era músico, natural de Serra Leoa. Tem a música no sangue. Ficou conhecida com o interessante Raw Like a Sushi. Apesar do pai e do padrasto, seguiu uma trilha mais voltada ao pop. Em The Cherry Thing, canta com músicos escandinavos. É um álbum com base jazzística – saxofone, baixo e bateria. O destaque é o saxofone barítono de Mats Gustafsson. Como o de Shorter, em primeiro, o de Cherry é o décimo, mas entre os que listei como destaques dos vinte restantes, muitos poderiam estar em colocação melhor do que o dela: Siren, de Chris Potter, e Chiaroscuro, de Anat Cohen são bem melhores.

Veja uma performance do quarteto de Wayne Shorter.



Ouça Plaza Real, composição da época do Weather Report.



Ouça Stary Night.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Patricia Barber é o máximo? Há controvérsias

Patricia Barber
Ouvi Smash (Concord Jazz, 2013), o álbum mais recente de Patricia Barber cerca de dez vezes. Sinal de que gostei. Para a minha surpresa, na revista Downbeat, Jim Macnie dá 2 estrelas e meia (o máximo é 5) e fala (bem) mal do disco. Um trecho: “A faixa-título é uma narração sussurrada de um caso de amor desintegrado que se inicia com uma silenciosa combinação de piano e voz e, depois de descrever um coração partido, explode em um bombástico anacronismo que evoca ‘Purple Rain’, de Prince, e ‘Repent Walpurgis’, do Procol Harum.” Não é lá muito elogioso, não. Fato: é muito diferente do que Patricia fez até hoje. Fã de carteirinha de Barber, só (ou)vi beleza nesse “bombástico anacronismo”..

Se o crítico tivesse lido o que Barber disse sobre essa composição, talvez tivesse entendido melhor o solo “roqueiro” de John Gregor. A canção trata do fim de um caso de amor descrito como “o desmoronamento de castelos altos construídos/ em beijos e sangue/ e os sonhos como areia.” Ninguém do lado de fora consegue decifrar a dor que experimentamos por uma grande perda. Certo? O som de um coração partido é o silêncio. “Você está sozinho. E eu achei que era uma interessante justaposição, desde que o som de um coração partindo deveria ser o mais alto, gritado, a combinação mais ruidosa de sons possível.” Está aqui explicitado o solo de guitarra, pelas palavras de Barber, além de boa pianista, excelente nas letras.

Ouça Smash.




Aliás, os solos de John Gregor são bem interessantes, como no toque funky que imprime em Devil’s Fool, ou no toque bossa nova em Redshift, e nas belas notas em duo com o piano em Missing.

A história dessa canção é interessante. Foi feita de “encomenda”. Uma mulher escreveu uma carta contando sua história e pediu-lhe que compusesse uma música. Nas palavras de Barber, “era uma espécie de pedido absurdo, mas aquilo me tocou e então a escrevi; foi minha a ideia de contá-la através das quatro estações do ano.”

Ouça Missing.





A levada funky de Gregor em Devil’s Fool combina com os bem humorados versos de Barber: “Boy meets boys/ girl meets girl / given any chance / to fall in love / they do . . . / like loves like / like devil's food / like chocolate twice / I'm in the mood / for you.” Nem é preciso dizer do que Barber trata nessa música..

Code Cool, a primeira faixa, também é um bom exemplo dessas mudanças repentinas de mood. Inicia com uma batida bem ritmada, marcada pela bateria e baixo e acordes do piano. “Estava dormindo, como que estivesse sonhando/ […]/ Inspiro como se estivesse pregando”, e voz de Barber se desvanece em clima fantasmagórico, em sons que lembram a psicodelia “pinkfloydiana” e “desperta” com os versos “I square dance slow/make love with my lips/read eyes like books/ read books like science/ I remember and fix/ citation to case/ case to form/ discombobulation and I/ can cook up a storm/ I’m Michelangelo’s David/tested and worn.”

Ouça Code Cool.




Há outro conceito importante na formulação de Smash. Em entrevistas e em vídeo disponível no YouTube, Barber diz que o disco nasceu com a intenção de ser uma série de canções silábicas. Reproduzo aqui parte do texto de João Marcos Coelho, publicado em O Estado de S.Paulo (3/2/2013), porque não vou tentar escrever o que está muito bem escrito: “ela se autoimpôs limites silábicos para cada verso. Há três exemplos destas experimentações no CD, em que ela trabalha com versos de duas, três e seis sílabas/palavras.Vejam The Swim, com duas: ‘So like/ goodbye/ with you/ at once/ too much/ too fast’. Spring Song, com três: ‘His absence/ fills the pail/ like water/ to the brim’. E The Wind Song, com seis: ‘Something suddenly cool/ something suddenly dearer/ someone wonderful who’ll/ appear suddenly nearer’. Mas Barber reconhece as limitações da letra nas músicas: “Estou tentando fazer poesia mais refinada. Mas ainda necessito de rima, porque a rima é ritmo, e ritmo é música” (a frase de cantora/compositora/pianista foi tirada do mesmo texto de JMC).

O prêmio para o curioso é a descoberta. Ir pelo faro. Um “sinal” é suficiente. Sem saber quem era, gostei da pose dela na capa. O título era mais que interessante: Café Blue. Na lista das músicas, a primeira que me chamou a atenção foi Manhã de Carnaval. É só ver que tem Manhã, compro. É uma das minhas preferidas de todos os tempos. Tenho na discoteca até uma interpretação em espanhol que poucos conhecem, a de Los Zafiros (clique no link). Um bom modo de conhecer alguém é ouvindo-se interpretações de standards, pelo menos no jazz. Tinha The Thrill Is Gone, Inch Worm e Nardis, de Miles Davis. Depois de conhecer Café Blue, comprei tudo o que ela lançou, menos o segundo, Distortion of Love, que nunca encontrei. Mesmo Split, seu primeiro disco, adquirido depois, de 1989, e difícil de encontrar por não ter tido a distribuição dos posteriores, pela Blue Note, é bom. Ao contrário do crítico da Downbeat, acho Smash um de seus grandes discos. É uma boa estreia em sua nova gravadora, a Concord Jazz.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Diferenças entre o gosto da patuleia e o da crítica, de acordo com a lista dos melhores de 2012

Radio Music Society, de Spalding é o melhor do ano
Com certo atraso, comento sobre a lista dos melhores, segundo os leitores da revista Downbeat.

Todo ano, pouco depois de publicada a lista dos melhores eleitos por uma junta de críticos convidados, a Downbeat envia aos seus assinantes, por e-mail, um link para que seus leitores votem nos melhores do ano. Para cada categoria são sugeridos alguns nomes, mas é possível se votar em algum outro. É inevitável uma certa contaminação pelo fato de se votar depois de se saber o que os críticos escolheram.

Na edição de dezembro, que é lançada logo no início de novembro, sai o resultado do Readers Poll. É normal que os críticos especializados sejam mais sofisticados e informados que o chamado povão, mesmo em gênero tão específico como o jazz.


A lista dos melhores CDs na opinião dos leitores
1. Esperanza Spalding, Radio Music Society
2. Ahmad Jamal, Blue Moon
3. Tony Bennett, Duets II
4. Vijay Iyer, Accelerando
5. Keith Jarrett, Rio
6. Brad Mehldau Trio, Ode
7. Sonny Rollins, Road Shows, Vol. 2
8. Arturo Sandoval, Dear Diz (Everyday I Think of You)
9. Corea, Clarke & White, Forever
10. Trombone Shorty, For True

Na dos melhores pela crítica, Accelerando (ACT 2012), do pianista Vijay Iyer, ficou em primeiro lugar com quase o dobro do segundo – Road Shows, vol. 2, de Sonny Rollins. Na do povão, em primeiro ficou Radio Music Society, de Esperanza Spalding. Como foi lançado em abril do ano passado, nem consta na lista dos 30 melhores da crítica. É o caso, provavelmente, de outros álbuns como Ode, de Brad Mehldau, e de Dear Diz (Everyday I Think of You), de Arturo Sandoval, lançado em junho. Spalding é nova, belo penteado black (lembra a ex-ativista Angela Davis), canta e toca um instrumento do seu tamanho – o contrabaixo acústico – e é talentosa, mas supervalorizada, devido ao seu carisma. Meu voto foi para Rio, de Keith Jarrett. Na lista dos críticos ficou em terceiro. É um dos melhores registros do pianista nos últimos anos. Leia e ouça em http://bit.ly/MF8xTA.

A divergência mais perceptível é a não classificação – entre os 30 melhores – do álbum Be Good, de Gregory Porter (ouça e leia sobre ele em http://bit.ly/TVkW98). Inexplicável. Merecidamente, Sonny Rollins e o “retorno” de Forever, de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White constam nas duas listas. Faz o gosto da patuleia e da crítica. Corea é sofisticado e pop ao mesmo tempo.

Os dez discos classificados devem ser ouvidos e cada um preenche um “pedaço” de prazer do fã do jazz. Não ouvi apenas os de Arturo Sandoval (leia sobre seu Time for Love, lançado em 2010, em http://bit.ly/VvMdf5) – mas tudo o que grava é bom –, e o de Tony Bennett, apesar de considerá-lo “the best” como cantor, não tenho a mínima curiosidade de conhecer. Esses “duets”, moda iniciada com Frank Sinatra no crepúsculo de sua carreira, em 1993, dividindo os vocais com Julio Iglesias, por exemplo, são um saco de gatos; se bem que dividiu também com Bennett, Bono, do U2, e Aretha Franklin. Têm cara de caça níqueis. Em Duets II, Bennett divide vocais com k d lang, Norah Jones, Andrea Bocelli, Amy Winehouse, o que não é mal, mas também com Lady Gaga e Mariah Carey.

Veja Body and Soul, com Amy Winehouse. Amy é Amy, ou melhor, foi. Era bem talhada para interpretar standards do cancioneiro americano. Basta ouví-la a cantar (There Is) No Greater Love, em Frank (2003). Foi uma de suas gravações derradeiras.




Os melhores instrumentistas
Apenas para registro (e poucos comentários) listo os melhores de alguns instrumentos.
Piano: Brad Mehldau (leitores) e Vijay Iyer (crítica)
Sax alto: Kenny Garrett (L), Rudresh Mahanthappa (C)
Sax soprano: Wayne Shorter (L), Branford Marsalis (C)
Trumpete: Wynton Marsalis (L), Ambrose Akinmusire (C)
Flauta: Hubert Laws (L), Nicole Mitchell (C)
Guitarra: Pat Metheny (L), Bill Frisell (C)
Trombone: Trombone Shorty (L), Wycliff Gordon (C)
Vocalista feminina: Diana Krall (L), Cassandra Wilson (C)

Em alguns instrumentos concordam em quem são os melhores: baixo acústico (Christian McBride), sax tenor (Sonny Rollins), bateria (Jack DeJohnette), sax barítono (Gary Smulyan; na lista dos leitores empatou com James Carter), clarineta (Anat Cohen), entre outros.

Pelas diferenças percebe-se o óbvio: os críticos adoram Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa, e os leitores ainda estão se acostumando com eles mas, no básico, não existe grande diferença entre o que eles gostam e nós, membros da patuleia.

Ouça duas interpretações de Ahmad Jamal, do CD Blue Moon (Jazz Village, 2012). Leia sobre esse CD em http://bit.ly/V6khVi.

Gypsy. Nesta e na próxima, Ahmad é acompanhado por Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria, e Manolo Badrena na percussão.



Laura.



Com Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White, ouça No Mistery.




quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os melhores discos do ano, segundo a revista Downbeat

O mês de agosto é quando sai, na Downbeat, a lista dos melhores segundo a crítica. Em dezembro sai o “Readers Poll”. Primeiro, vou listar os dez melhores discos:

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33



Vijay Iyer (© ACT / Jimmy Katz)
Com tantos lançamentos, é impossível acompanhar tudo, mesmo que meus ouvidos passem os dias a ouvir música. Dos dez listados, ouvi seis, e desses, o que mais gostei mesmo foi o de Keith Jarrett (escrevi sobre esse álbum duplo em http://bit.ly/MF8xTz). Sobre o disco de Chick Corea e seus companheiros do Return to Forever, faço menção quando da apresentação deles no BMW Jazz Festival, edição 2012 (http://bit.ly/SSSvGE). De vez em quando me enjoo de Corea, mas é gênio; acho que isso acontece um pouco por sua prolixidade e por, a cada hora, gravar discos de gêneros tão diferentes. No último ano (2011-2012) foram lançados seis discos, sendo dois com os companheiros do Return to Forever (Forever e The Motherships Returns), dois duos (Hot House, com Gary Burton – veja: http://bit.ly/L3cXmz –, e Orvieto, com o pianista Stefano Bollani), outro em trio, com Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations, 2012), e um último (The Continents, 2012), erudito, lançado pela Deutsche Grammophon.

Vijay Iyer é a bola da vez, assim como Jason Moran foi na votação do ano passado. Além de ter seu disco Accelerando considerado o melhor do ano, ficou em primeiro lugar nas categorias “Jazz Artist”, “Jazz Goup”, “pianista”, e foi até lembrado na categoria “Rising Star”, ficando em segundo lugar. Nessa categoria, ganhou, com 2% de votos a mais, Robert Glasper, possível candidato a ser a “bola da vez” em anos vindouros na categoria principal.

Accelerando é um bom disco. Está no nível dos anteriores. Filho de indianos, Iyer passou pela Yale University e pela Columbia, estudante de matemática e física, e o título de sua dissertação de mestrado era Microstructures of Feel, Macrostructures of Sound: Embodied Cognition in West African and African-American Musics. Alta cultura, não? Não é possível uma simples transposição do conhecimento científico para as habilidades musicais, no entanto, percebe-se uma tremenda sofisticação no que toca; e, para arrematar, seus discos são belamente ilustrados por obras de um dos melhores artistas atuais: Anish Kapoor. Quem mora em São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro deve ter visto a bela exposição promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2006.

Veja uma das obras de Anish Kapoor (Ascension), no CCBB. Kapoor é gênio. Veja também uma entrevista sobre Leviatan, exposta no Grand Palais, em Paris, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=12Ni0c4D27Y&feature=fvwrel). É uma obra impressionante. Pena que não estava em Paris em no segundo quadrimestre de 2011.





Ouça Mmmhmm (Steve Ellison, Stephen Bruner), do álbum Accelerando. Iyer toca com Stephen Crump no baixo e Marcus Gilmore na bateria. É uma das faixas mais interessantes. Vijay imprime uma melodia meio estranha em acordes repetitivos nos graves, com predominância de acordes nos médios e agudos em tons dramáticos, enquanto a “cozinha” parece tocar outra música.




Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Basicamente, o som de Iyer é tenso. Toca sempre em um ritmo em que há poucos espaços de respiração, quase sem silêncios, em ritmos quebrados.


O segundo melhor do ano

Rollins. Até no visual, inova
Coube a Sonny Rollins, com seu Road Shows, vol. 2, com, praticamente, metade dos votos. Este e o primeiro volume são de gravações de shows no Japão e do Beacon Theatre em comemoração aos seus 80 anos ocorridos em setembro de 2010. Esse mês é emblemático na vida do saxofonista. Rollins morava a quatro quadras do World Trade Center. No dia 11, em 2001, teve de sair às pressas de seu apartamento levando apenas seu saxofone. Tinha, na agenda, uma apresentação em Boston marcada para cinco dias depois. O show virou CD. O nome? Without a Song: The 9/11 Concert. Rollins nasceu em 7 de setembro de 1930.

A voz está fraca. Percebe-se quando fala para apresentar os músicos ou anunciar os temas. Quando começa a tocar, aí, é outra história; mantêm vigor invejável. Não parecem ser a mesma pessoa. Na votação dos críticos, no sax tenor, foi considerado o melhor do ano, com 20 % de votos a mais que Joe Lovano. Justiça? Deve ser mais por aquele sentimento de reverência aos mais velhos. Rollins é o último de uma geração posterior à de Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young. São seus contemporâneos, John Coltrane, Dexter Gordon, Stan Getz e Johnny Griffin. Todos estão mortos. Dos que estão vivos – Houston Person e Charles Lloyd –, ambos são mais novos que Rollins; nasceram, respectivamente, em 1934 e 1938.

O set de Road Shows vol. 2 consiste de temas conhecidos. Valorizam o disco convidados especiais como Jim Hall (In a Sentimental Mood), Ornette Coleman – com um longo solo –, e o baixista Christian McBride e o baterista Roy Haynes, em Sonnymoon for Two, e, finalmente, o trumpetista Roy Hargrove, em I Can’t Get Started e Rain Check. A música que fecha o CD é St. Thomas, o tema mais conhecido de Rollins. Dos músicos acompanhantes, o destaque mesmo é a guitarra delicada de Russell Malone.

Ouça Sonnymoon for Two.



Um gênio como o sax tenorista só deve ser reverenciado, mas é um exagero Road Shows vol. 2 ser considerado o segundo melhor do ano.

A carreira de Sonny Rollins passou por algumas oscilações, algumas provocadas por ele mesmo. Em 1950, foi detido por roubo à mão armada. Antes disso, já tinha tocado com Babs Gonzalez, Jackie McLean e Kenny Drew. Apesar de condenado a três anos de cadeia, Dez meses depois saiu e ficou em liberdade condicional. Violou-a ao ser preso por porte de heroína. No total, passou três anos detido. Conseguiu se livrar do vício por meio de tratamento à base de metadona. Foi a sua sorte.

Antes de fazer parte da legendária banda de Clifford Brown e Max Roach, havia tocado com Miles Davis e Thelonious Monk. Em 1956 lançou o disco que é considerado um dos melhores de todos os tempos, não dele, mas da discografia do jazz: Saxophone Colossus. Estava sendo considerado o melhor saxofonista tenor pela crítica, mas na mesma época John Coltrane começava a se firmar como líder. Foi eclipsado, porém não deixou de lançar discos muito bons, principalmente nos que era acompanhado apenas pela bateria e pelo baixo, sem piano.

A década de 1960 foi um tempo de grandes transformações sociais, e Rollins não iria ficar “fora” dessa”. Foi fazer ioga e ligou-se, como muitos, a certas práticas orientais. Na música, incorporou instrumentos eletrônicos como a guitarra e o baixo elétrico e também absorveu influências do R&B, do funk de Sly and The Family Stone e até do pop. Sonny não foi o único. O mesmo aconteceu com Charles Lloyd e muitos outros intérpretes do jazz.

Um solo de Rollins é reconhecível de longe. Waiting on a Friend é uma das faixas em que participa no disco Tattoo You (1981), dos Rolling Stones. As outras duas são Neighbours e Slave.