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terça-feira, 21 de julho de 2026

O amor brasileiro de Sarah Mckenzie

 

Quando Sarah McKenzie lançou seu primeiro álbum, We Could Be Lovers, em 2015, é bem possível que tenha passado pela cabeça dos diretores da gravadora Impulse de que ela poderia ser uma nova Diana Krall.

A canadense “descoberta” por Ray Brown estreou com Steppin’ Out pelo selo canadense Justin Time, em 1983, e o sucesso foi tão grande que a americana GRP Records lançou no mercado americano. Diana Krall era um daqueles talentos que surgem de tempos em tempos. Apesar da diferença de formatos – Nat “King” Cole foi introdutor do formato trio com a guitarra no lugar do contrabaixo – a banda, formada por Diana Krall, John Clayton e Jeff Hamilton lembrava as primeiras gravações em que Cole, pelo estilo da combinação piano/voz.

Em 2015, a canadense já era famosíssima, com fãs fanáticos mundo afora. Devido ao sucesso, depois de ter passado pela Impulse, nesse tempo era do cast do selo Verve Records. Para a Impulse, quem sabe, ao lançar Sarah McKenzie, como disse no primeiro parágrafo, podem ter pensado que tinham uma nova Diana Krall na mão. 

Sarah, depois da formação inicial na Australian Academy of Performing Arts mudou-se para os Estados Unidos e foi estudar na Berklee School of Music. Tal como Diana, era loura, bonita, compunha, tocava piano e cantava.

Sarah não estourou como Diana. De 2015, quando lançou seu primeiro álbum, Without You é o sexto lançamento na carreira. Desde 2017, quando foi convidada para se apresentar na inauguração do clube Blue Note, no Rio de Janeiro, fazia parte de seus planos um dia fazer um álbum “brasileiro”. Curiosidade: fez uma aparição no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo.

No início da pandemia da Covid entrou em contato com o violonista brasileiro radicado nos Estados Unidos Romero Lubambo, que já havia participado de Paris in the Rain (Impulse, 2017). Falou também com Jacques Morelenbaum, que tinha conhecido quando veio ao Brasil. Com os dois, em 2020, de forma remota, fizeram uma gravação de Corcovado e disponibilizaram no Facebook. Tiveram 1,7 milhão de acessos. Estava dado o primeiro passo para o álbum que se chamaria Without You, que é a oitava faixa, composição dela com letras de Lubambo. Nela temos uma das participações de Andy Sheppard, aqui fazendo um solo na flauta.

Com a adição do baixista Geoff Gascoine, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), o percussionista brasileiro Rogerio Boccato e a participação do saxofonista e flautista Bob Sheppard, o álbum tem um total de quatro composições de Sarah, com destaque para o suingado Quoi, Quoi, Quoi, Quoi e o resto com standards brasileiros, como Gentle Rain, faixa inicial, Corcovado, Fotografia, Once I Loved, Dindi, Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Bonita e Modinha, ou seja, Antônio Carlos Jobim, com uma pitada de Luiz Bonfá.

Além de Quoi, Quoi, Quoi, Quoi, as composições de McKenzie são “brasileiras”. The Voice of Rio é uma canção sessentista com o piano bem ao estilo da época e o violão de Lubambo. Mean What You Say vai na mesma toada. É meio uma samba bossa nova com um solo do violonista na medida exata. 

Ao som do violoncelo de Morelenbaum e o violão de Lubambo, Gentle Rain abre com majestade o disco. McKenzie, como Diana Krall, sabem combinar muito bem a voz, se acompanhando ao piano e fazendo solos de muito bom gosto. Corcovado, a seguir, começa com o solo de Morelenbaum. É impressionante como ele soube imprimir uma marca. É muito fácil reconhecer o seu violoncelo em suas participações, seja com Caetano Veloso ou Ryuichi Sakamoto. Fotografia e Once I Loved You seguem na mesma toada. Nesta última destaca-se o sensível acompanhamento de Lubambo, com um solo muito bonito. É voz e violão, que realçam a melancolia da música. Esses clássicos da bossa nova são atemporais mesmo. Podem ser interpretados pela milésima vez por cantores e músicos diferentes e sempre lembraremos de seu compositor. É o caso de Wave e Dindi. Nesta última, Sarah canta esplendidamente, acompanhada por seu piano de poucas notas. A entrada do violão e o som personalíssimo de Morelenbaum são o destaque, com o belíssimo solo de Sheppard. Há um certo frescor que são intrínsecos às criações dessas composições.

É difícil ser original com uma canção tão tocada. A Garota de Ipanema é uma das cinco mais executadas de todos os tempos. Bem que tentam. Na metade dela, é apenas o violão, a percussão de Rogerio Boccato, com acordes ao piano privilegiando as notas médias. Após um átimo de silêncio, entra o cello e Sarah repete algumas vezes “she doesn’t see”. A seguinte é aquele outro clássico que até os russos devem saber de cor: Chega de Saudade. Sarah canta a parte inicial em português, canta parte em inglês e volta para o português.

Não consigo ouvir Dindi e Bonita sem lembrar de Sarah Vaughan. As interpretações de Dindi que vou lembrar sempre são a da americana, um pouco pelo jeito que entoa o nome Dindi e a de Sylvia Telles, que acho primorosa. A de Sarah é esquecível. A faixa final, Modinha é uma daquelas “torch songs” clássicas. É preciso uma certa dramaticidade, como a de Elis Regina em Elis & Tom, e a campeã de todos os tempos, a de Nana Caymmi. A de McKenzie é cantada em português sem sotaque, apenas ela e o piano. Vamos dar um desconto: é um bom fecho para a sua aventura brasileira.

Ouça o disco:

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Joni Mitchell e o jazz

Joni Mitchell e Charles Mingua (foto: Sue Mingus)





Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley. 

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.




O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie Hate The Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com Blue, Hejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve Changed, You’re My Thrill, Comes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.




Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000. 



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.


Ouça a de Sarah Vaughan.







Um dos meus conjuntos vocais preferidos: The Singers Unlimited.



Ella, a mulher invisível



Ella, na língua portuguesa, tem uma característica que a torna única: a letra “L” dobrada. E, sem dúvida, é única. Não que seja a melhor de todos os tempos no jazz. Um número considerável de pessoas, sim, a consideram. Outras milhares preferem Billie Holiday e Sarah Vaughan. Alguns vão pensar em Carmen McRae… ou Anita O’Day? O certo é que nessa mania de listas de “melhores” que a humanidade gosta de fazer, as três primeiras são as mais lembradas. Por uma coincidência todas são negras. É difícil alguém colocar as brancas Anita, June Christy, Peggy Lee, Doris Day ou Chris Connor neste panteão, mas todas são ou foram ótimas. Essas unanimidades são estranhas. Então B.B. King é a maior figura do blues de todos os tempos? Há discordâncias!

Pouco se sabe da vida de Ella Fitzgerald. Que foi casada com Ray Brown por alguns poucos anos, sim. Eram dois pesos pesados. A anedota que corre é de que Brown estava acostumado com grandes volumes, já que tinha de empunhar e carregar seu baixo acústico. Em sua vida não aconteceram grandes tragédias como as de Billie, nem embrenhou-se em drogas, como Rosemary Clooney, ou emborcou-se na vodca, como Anita O’Day, e nem sofreu desgraças pessoais como casamentos tempestuosos e nem quebrou hotéis como astros de rock. Não deu muitas entrevistas. Ella ficou conhecida pela voz. Sem atrativos físicos especiais como os de Julie London, da platinada Peggy Lee, sem a beleza enigmática de Billie Holiday, parece que era conhecida por seu mau humor que nunca se desvelou em suas apresentações públicas. Sua carreira, afinal, foi acontecendo sem sobressaltos. Foi como se houvesse apenas a voz e seu corpo físico fosse algo abstrato, independente e pouco percebido. Seu canto sobrepujou em muito sua pessoa física, o que hoje seria inconcebível. O mundo é das celebridades que, junto do talento, como Amy Winehouse ou Janis Joplin — cantam ou cantavam e muito — mas têm suas vidas tempestuosas desnudadas ao público ávido por “muito barulho por nada”.

A carreira
Ella começou cedo, com menos de vinte anos. Descoberta pelo baterista Chick Webb, tornou-se crooner e nem a morte prematura de seu mentor foi obstáculo à sua ascensão. Antes de gravar pela Verve Records foi contratada da Decca. Alguns registros dessa época tornaram-se indissociáveis de Ella. Na Verve, sob a direção de Norman Granz, gravou uma série de songbooks com standards dos compositores como os irmãos Gershwin, Harold Arlen, Cole Porter e outros notáveis que revolucionaram a música americana do século 20.

Na Decca o repertório foi mais variado e, provavelmente, não era tão focado no jazz. Alguns dizem que era a mão do produtor e manager Milton Gabler. Existe, no entanto, mais de uma vez Ella disse ser uma cantora de baladas. E, realmente, nesse gênero era incomparável. Seu “My One and Only Love” é daquelas de amolecer até os corações dos broncos e brucutus.

Ella quando iniciou a carreira tinha uma voz de menina. E é uma das poucas que conseguiu mantê-la quase igual durante a carreira. As de Sarah Vaughan e Billie Holday ou mesmo da brasileira Leny Andrade, para o bem ou para o mal, sofreram transformações radicais. Compare-se aos registros de Holiday da gravadora Columbia, década de 1930 e os dos anos 1950 pela Verve. A limpeza da voz ainda não transformada pelos excessos fazem das gravações da Columbia, em que é acompanhada por luminares como Lester Young e Teddy Wilson, definitivas. Com o tempo, foi ficando pesada e sofrida. Com certeza, muitos preferem suas gravações tardias, pela dramaticidade ou por uma tendência natural do ser humano de emocionar-se — ou se extasiar-se — com a desgraça do outro. Com Sarah aconteceu a mesma coisa. Basta comparar as primeiras com as últimas registradas pela gravadora Pablo. Que força tem “Send in the Clowns”, de Stephen Sondheim, na voz espessa e rascante de Vaughan, às vezes incômoda pelo excesso de vibrato, mas, que qualidade!

Pois com Ella, cuja presença se devia, simplesmente, à voz, apesar de se dizer que teve duas uniões — fora a com Ray Brown — que não foram paradigmas de felicidade: o primeiro era traficante de drogas. Anos depois, dizem, teve um relacionamento com um norueguês que foi preso por roubar uma antiga namorada. Pelo que parece, não teve sua carreira afetada por esses episódios e nem foram notícias na época. É como se sua vida particular tivesse sido invisível.

Bom, falando menos de sua vida particular, o que importa e o objeto aqui são algumas canções que são só d’El(l)a. Uma é “A-Tisket, A-Tasket”, de 1938. Ella gravou e ninguém mais conseguiu cantá-la com aquele frescor e leveza. Dee Dee Bridgewater gravou no disco-tributo “Dear Ella” e existe outro registro no DVD “We All Love Ella”, com a filha de Nat King Cole, Natalie. Registro mais duas: “(I Love You) For Sentimental Reasons”, que canta com The Delta Rhythm Boys, e “If You Can’t Sing It) Mr. Paganini”, de Sam Coslow. De “Sentimental Reasons”, tem a de King Cole, claramente calcada na de Ella. “It’s Only a Papermoon” é outra que ele canta, não sei se é coincidência. “Mr. Paganini” é superlativa: lindo arranjo, belos scats, riffs de sopros, alternâncias de clima. Ouvir esta música é imaginar um mundo divino e maravilhoso.

Este texto era para ser uma introdução à mais duas preferidas que vão ficam para outra vez: “Stairway to the Stars” e “I’ve Got the World on String”.

Veja Ella cantando “Mr. Paganini”.




“A-Tisket, A-Tasket”.




 “(I Love You) For Sentimental Reasons”.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A graça toda de Andrea Motis


 Com 24 anos apenas, Andrea Motis pode ser considerada uma veterana. Com sete, tocava trompete. Com dez, foi estudar na Escola Municipal de Música de San Andreu, dirigida por Joan Chamorro. Este músico, saxofonista, trompetista, flautista e contrabaixista, com seus alunos, criou a San Andreu Jazz Band e tem sido responsável pela revelação de uma nova geração de músicos na Catalunha e, por extensão, Espanha.

Andrea é a sua revelação maior. Além de tocar trompete e saxofone, é dona de uma voz bem afinada, charmosa por seu registro, meio juvenil. Depois de ter gravado na Espanha alguns álbuns com seu mentor Joan, lançou “Emotional Dance”, pelo selo Impulse, ligado ao grupo Verve, o que ajudou-a bem para ser mais conhecida fora de seu país. Nesse disco é acompanhada por Ignasi Terraza ao piano e Chamorro no contrabaixo, e conta com participações de músicos conhecidos como Warren Wolf ao vibrafone, Gil Goldstein no acordeão, Joel Frahm no sax tenor, Scott Robinson no sax barítono e o brasileiro Café da Silva na percussão.

“Emotional Dance” é composto de standards do cancioneiro americano, o que é uma boa forma de ser conhecida, pois funciona como um “teste”, um“exame de aprovação” para ser aceita no mundo do jazz. Mas Andrea é uma moça de personalidade e talento ímpar. Fora cantar e tocar trompete, compõe também. Nesse álbum estão incluídas “If You Give More Than You Can”, “I Didn’t Tell Them Why” e “Save the Orangutan”, de sua autoria.

Em março deste ano, Andrea Motis lançou um novo álbum. Chama-se “Do Outro Lado do Azul”. Quem está do outro lado do azul, se a referência é a Europa, naturalmente, é o continente americano, mais exatamente, o Brasil, o que nos atiça mais ainda a curiosidade. Das treze, oito são originais brasucas, com escolhas que fogem do óbvio.

Com exceção de “Antonico”, “Pra Que Discutir com Madame” e “Dança da Solidão”, consideradas clássicos do cancioneiro brasileiro, a grande qualidade de “Do Outro Lado do Azul” está na escolha de músicas como “Filho de Oxum”, do baiano Roque Ferreira, “Saudades da Guanabara”, de Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, “Samba de Um Minuto”, de Roberta Sá e Rodrigo Maranhão, e até uma composição de José Miguel Wisnik e Luiz Tatit  — “Baião de Quatro Toques”.

Um dado surpreendente é Andrea cantar em português quase sem sotaque. É o que fica demonstrado logo no belo início, com “Antonico”, de Ismael Silva. As três seguintes — “Sombra de Lá”, “Brisa”, esta em parceria como brasileiro Sérgio Krakowski , e “Sense Pressa” — captam o espírito dos ritmos brasileiros, meio samba, meio bossa nova, são boas amostras do talento dela como autora.

Em todo o álbum, a brasilidade está no uso de instrumentos como o pandeiro, o bandolim, o cavaquinho e a clarineta. Em vários números Andrea canta em catalão, sem perder de vista a pegada brasileira, como em “Record de Nit”, de Joan Mar Sauqué, e em “Mediterráneo”, de Joan Manuel Serrat. Uma curiosidade, já que os músicos, em sua absoluta maioria” é de espanhóis — catalães, para ser mais exato — é o “ole” proferido no final da vibrante interpretação de “Saudades da Guanabara”, tão vibrante que até Beth Carvalho aprovaria. Essa energia presente em todo o álbum termina em grand finale ao incluir uma citação de “Aquarela do Brasil” em “Baião de Quatro Toques”, a canção que fecha o álbum.

Ouça o álbum.




Se não for possível entrar no Spotify pela janela acima, acesse por https://open.spotify.com/album/5RvZON3nk7EiYypuoFI4aQ?si=tJom_QHRQ3eqq1eSujGNdg

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Mais jazz que Jazzmeia Horn não há



Como dizia meu amigo: “É uma bela ‘tipa’!” Sempre com turbantes — ou lenços!, não sou um connoisseur de indumentárias femininas — coloridos e vistosos a realçar a beleza que Deus lhe deu, Jazzmeia Horn chama a atenção de qualquer ser normal. Além de ser uma “tipa”, é uma intérprete do jazz em sua expressão mais genuína. Não bastasse, tem esse nome. Não consegui saber se é de batismo ou apenas artístico. Se for de nascimento, seu pai tem o dom da premonição. Se “Horn” for seu sobrenome real, até nesse ponto, o foi sem querer ter sido. Afinal os instrumentos de sopro estão na alma do jazz. Sem o saxofone, raramente utilizado na música erudita, até por ter sido criado apenas no século XIX, por Adolphe Sax, o jazz não teria existido como o conhecemos.

Nascida em Dallas, Texas, desenvolveu interesse pelo jazz desde pequena e teve como ídolo e referência Sarah Vaughan. Estudou na Manhattan's New School for Jazz and Contemporary Music. Nesse período, foi agraciada com premiações da Downbeat Student Music Award. O prêmio maior, entretanto, que abriu-lhe as portas foi vencer o Thelonious Monk International Vocal Jazz Competition de 2015.

Horn é uma intérprete tipicamente do jazz, como Cécile McLorin Salvant, considerada a melhor vocalista da atualidade. Esta ficou em primeiro lugar em todas as categorias que podia concorrer, agora em 2019. Foi a “Jazz Artist” do ano, a melhor cantora do ano, desbancando as veteranas Diane Reeves, Dee Dee Bridgewater, Cassandra Wilson e Diana Krall, no “67th Annual Critics Poll”, da Downbeat. “The Window”, seu mais recente álbum, ficou como segundo melhor do ano, atrás apenas de “Emanon”, de Wayne Shorter.

Jazzmeia Horn foi considerada a sexta melhor cantora do ano. Nem aparece na lista das melhores “rising stars”. Na do ano passado, ficou em primeiro lugar nessa categoria. Sinal de que a crítica nem mais a considera um talento emergente, apesar de ter apenas dois discos lançados.

E é verdade. Horn mostrou personalidade desde a estreia, o que deve ter impressionado os críticos. Como era o primeiro, é provável que o produtor tenha sido preponderante na seleção das que iriam no disco.

Em “Social Call”, evidencia-se a influência de Betty Carter, a começar pelo título, que é um dos seus primeiros sucessos, além de “Tight”, a que abre o disco, ser de sua autoria. O resto consiste de clássicos, como a obra-prima de Jimmy Rowles — “The Peacocks” —, belamente terna na sua voz, “I Remember Ypu”, de Victor Schertzinger e Johnny Mercer, bem uptempo, em que Horn faz scats de gente grande, um medley (“Afro Blue- Eye See You - Wade in the Water”), e outras que servem bem como um showcase de suas capacidades.

Depois de ter ficado evidente seu talento como intérprete, Jazzmeia resolveu mostrar uma outra faceta, a de compositora, algo raro entre os cantores. Das doze, oito são de sua lavra, no segundo disco.Percebe-se que o ritmo do jazz está em seu DNA, não apenas no cantar, mas na construção de suas composições.“Love and Liberation” abre com “Free Your Mind”, puramente jazz. A próxima, nem tanto, mas “Out of the Wind”, outra dela, vai na mesma toada, assim como “When I Say”, a quinta, e a sétima, “Searchin’”. Lembra muito Betty Carter mesmo, sem demérito nenhum. É melhor ser comparada com uma gigante do que com uma qualquer. Jazzmeia intercala canções uptempo com outras lentas. Dentre elas, incluiu “Green Eyes”, de Erykah Baduh que, aliás, de vez em quando, usa uns turbantes vistosos, como Horn. Mesmo em um número pop como esse, predomina a improvisação tipicamente jazz, com um belo solo do pianista Victor Gould. A mistura que Horn imprime, mesclando um jazz fortemente calcado no hard bop, com pitadas de soul, blues e rhythm’n’blues, é poderosa. É o que Cécile McLorin Salvant vem fazendo também.

Só para terminar, um pouco fora desse espectro mais jazz, há um duo com Jamison Ross, romântico e belo. Ouça.





O número final é o clássico “I Thought Abot You”, de Jimmy van Heusen e Johnny Mercer. É bem jazz, com um belo contrabaixo e direito a floreios bem no estilo de Betty Carter. 





Horn é muito boa nos temas uptempo mesmo. Não é fácil alguém com sua agilidade de articular as palavras. Ouça “Searchin’”.


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Madeleine Peyroux, Anthem e Brasil



Agora, no mês de setembro, Madeleine Peyroux estará mais uma vez no Brasil, dessa vez, apresentando seu último álbum “Anthem”, lançado no ano passado. Começa em Porto Alegre, passa por Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

No início, ficou conhecida por ter uma voz muito parecida com a de Billie Holiday. Por esse fato, foi automaticamente associada ao gênero jazz, apesar de nunca ter sido de fato. É mais country-folk americana que qualquer coisa. Além da boa voz, talento, ficou bem conhecida pelas belas interpretações de algumas canções de Leonard Cohen.

Aliás, “Anthem” é de Cohen e um dos melhores números desse álbum. Ao contrário de “Secular Hymns”, o anterior, em que não há nenhuma de sua autoria, este é de uma maioria composta por ela, com David Baerwald, Brian MacLeod, Patrick Warren e Larry Klein, seus músicos. Este último toca contrabaixo é mais uma vez seu produtor. Klein comprovou a sua competência nesse mister em álbuns de Joni Mitchell, Luciana Souza, Herbie Hancock, Julie Fordham, Curtis Stigers, Norah Jones, Walter Becker, Till Brönner, Holly Cole, Tracy Chapman, Lizz Wright, Melody Gardot, dentre outros e outras.

Em relação à “Secular Hymns”, “Anthem” é um pouco inferior, na minha opinião. Mesmo assim, destaco algumas, além da música título, muito boa mesmo: “All My Heroes”, “Lullaby”, meio hipnótica, mas não exatamente uma canção de ninar,e “Liberté”, a partir de versos de Paul Éluard. Ela manda bem em francês e em inglês.

Ouça o disco via Spotify.




Caso você tenha dificuldade por esse compartilhamento, vá direto ao Spotify: https://open.spotify.com/album/3a6ln2VwpNL5Nve4QDyzRo?si=FdS3tGXqQuun6FmNdMgtxw


quinta-feira, 25 de julho de 2019

Boas razões para conhecer Lucy Yeghiazaryan



Quando conhecemos alguém, isso significa que no momento exatamente anterior, não a conhecíamos. Básico. A curiosidade me levou à Lucy Yeghiazaryan. Um fator despertou a minha vontade de saber quem era: de seu álbum “Blue Heaven” ter saído pelo selo Cellar Music. E, depois: adoro vozes femininas.

O Cellar Jazz Club foi fundado pelo saxofonista Cory Weeds, em Vancouver, Canadá. O melhor do jazz apresentou-se na casa desde a sua fundação. A ideia de um selo Cellar Live foi o segundo passo. Desde então foram lançados muitos bons álbuns e distribuídos pelo Reel to Real Recordings.

Nomes diferentes são outra fonte da minha curiosidade. Lucy, cujo nome original é Lucine, nasceu em um vilarejo da Armênia, e emigrou para os Estados Unidos em 2001. Estudou violino clássico. Entrou para o mundo da música com 10 anos, participando do grupo vocal YY Sisters, cantando coisas do repertório oriental e armênio.

Mas seu interesse pelo jazz, influenciada pelo gosto do pai, foi responsável por começar a participar do NJPAC's Jazz for Teens Program, em New Jersey, dirigido por Don Bradon, Mike Ledonne and Valery Panamarov. Focada em perseguir o seu sonho, participou do International Monk Jazz Competition e foi uma das finalistas, em 2014.

“Blue Heaven” é seu álbum de estreia. Já na primeira canção, “Sweet Pumpkin”, fica evidente que estamos frente a uma intérprete com pendores jazzísticos. Tem suingue, personalidade, é segura no seu cantar. Fiquei absolutamente encantado com sua versão de “That Ole Devil Moon”, menos um pouco com “Tenderly”, outro standard tão visitado. Em “Thou Swell”, a interpretação é afirmativa também. “Love Isn’t Everything’ é uma a capella, muito breve, que serve como introdução à bela “I Wish I Knew”.

“I Got a Feeling I’m Falling”, com instrumentação econômica, é excepcional, uma das minhas preferidas. Tem suingue, suas modulações vocais são sutis e marcantes. É falsamente despretensiosa. Sua beleza está nos detalhes. “Beautiful Moons Ago” é simplesmente maravilhosa. A guitarra de Greg Ruggiero é econômica: solar em uma noite enluarada. “Blue Heaven” fecha o álbum. Deu para perceber que adorei ouvir Lucy Yeghiazaryan?

Ouça “Beautiful Moons Ago”.




Veja Lucy cantando “Sweet Pumpkin”.




Veja-a cantando “Easy Living”.






Ouça o álbum no Sotify.



Se você não conseguir acessar, ouça em https://open.spotify.com/artist/4sXb22eyy3cbr6C2qNg6CB?si=6EV-fQPoRf-vNhynV4iJsQ

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O amor por Irene Kral

Uma vírgula faz muita diferença. Seria o meu amor por Irene Kral? Meu caso é muito antigo. Não sei precisar quanto tempo e nem quando começou. Quem me apresentou, acho, foi Alberico Cilento. Sabendo do meu interesse por vozes femininas, sempre colocava um CD de alguém que achasse eu não conhecer, quando ia à sua casa. Quem me acompanha aqui no blog, sabe que ouvi pela primeira vez Helen Merrill por seu intermédio. E acho que com Kral foi a mesma coisa.

Não são muitos os que a conhecem porque morreu jovem: nasceu em 1932 e morreu em 1978, em decorrência de um câncer na mama. Um deles é Clint Eastwood. Fã e profundo conhecedor de jazz, chegou a patrocinar eventos musicais em Carmel, cidade da Califórnia em que chegou a ser prefeito; e é pai do contrabaixista Kyle Eastwood. Dono de um gosto refinadíssimo, na trilha sonora de “The Bridge of Madison County” (1985), incluiu dois intérpretes considerados underrated: Johnny Hartman e Irene Kral. Assim, alguns mais tiveram o privilégio de conhecê-la.

Kral é aquele segredo que seus admiradores ciumentos receiam em contar. Outra grande admiradora sua é Stacey Kent. Leia o que escreveu no encarte de “Gentle Rain”, álbum de 1977, em que é acompanhada pelo brilhante Alan Broadbent: “Irene Kral é uma das maiores cantoras de todos os tempos. Minha primeira exposição a ela foi ouvir esse álbum, com Alan Broadbent e eu fiquei imediatamente hipnotizada. Ela tem um ataque, uma maneira de se aproximar de uma nota, que é clara e incisiva, mas tão suave e quente. Há uma sublime ressonância como um violoncelo na sua voz, um som que fala diretamente ao coração. As músicas desse álbum são todas perfeitamente compatíveis com a sua voz incomparável, e suas interpretações são, ao mesmo tempo, pungentes e sinceras, seguras e ainda assim passam a impressão de fragilidade.”

Seu sobrenome, àqueles que ouvem jazz, não é estranho: era irmão de Roy Kral, da dupla Jackie and Roy. Alguns, quando souberam da existência de Irene, pensaram que tinha parentesco com Diana Krall. Mas, não: além do “L” a mais no sobrenome, esta última é canadense, e ela, natural de Illinois, Chicago.

Bem menos conhecida que o irmão mais velho, Irene começou tocando piano. Depois de uma breve passagem na banda de Woody Herman, participou do grupo vocal The Tattletales. O impulso importante foi quando, por recomendação de Carmen McRae, passou a fazer parte da banda de Maynard Ferguson, em 1957. Nela, conheceu Joe Burnett, com quem casou.

Em 1959, virou vocalista do programa The Steve Allen Show. Gravou seu primeiro disco – “Steveireneo!” –, pela United Artists, apenas com composições do apresentador, com uma banda de estrelas: Al Cohn, Zoot Sims, Urbie Green, Jimmy Raney, Danny Banks, Eddie Cane e Hank Jones, dentre outros. No mesmo ano, saiu outro disco, com a big band de Herb Pomeroy – “The Band and I”. Depois que passou a morar na Califórnia, cantou na banda de Shelly Manne.

Pelo início de sua carreira, parecia que Irene estava talhada para ser uma cantora de big bands, como June Christy, Chris Connor e Anita O’Day, para citar suas mais ou menos contemporâneas. E parecia ser esse o seu maior desejo. Afirmou uma vez que tinha nascido na época errada. Suas preferências eram pelas big bands como a de Woody Herman e Stan Kenton. Mas o fim dos anos 1960 representou o fim delas, ou quase. Na nova era, quatro ou cinco cabeludos tinham mais público e fãs do que uma big band de Count Basie ou Duke Ellington.

Irene Kral, entretanto, adaptou-se maravilhosamente aos novos tempos, assim como Christy, Connor e O’Day. Em relação às três citadas, não ficou tão conhecida, provavelmente, por, mudando-se para um pequeno subúrbio de Los Angeles, com filho para criar, preferir apresentar-se apenas em clubes das proximidades. Mas, um dia, o casamento acabou. Até que durou bastante.

Arrumou um namorado, Dennis Smith, que lhe deu a maior força para retomar a carreira efetivamente. Em 1975, gravou “Where Is Love?”, pelo selo Choice, ela e Alan Broadbent ao piano. Na nova era, optou pelo formato mais minimalista. E assim, revelou-se a tremenda intérprete que era, uma voz cálida, intimista, levemente anasalada, suave, sedutora, num formato em que não é possível enganar.

Nas notas do encarte, Kral escreveu: “Deve ser ouvido apenas naquela hora tranquila do dia, de preferência com alguém que você ama, quando você pode afundar na sua poltrona favorita, fechar os olhos e deixar pensamentos externos de lado.” Foi, antes de mais nada, uma cantora de baladas. Dizia que preferia três vezes mais esse tipo de canção que as “up tunes”.

Antes desse álbum, o anterior foi “Better Than Anything”, em 1963, com Junior Mance, Bob Cranshaw e Mickey Rocker. Nesse, temas mais uptempo, como “Better Than Anything”, “Rock Me to Sleep”, “Passing By”, It’s a Wonderful World”, “Just Friends” e “Nobody Else But Me”, equilibram-se com “The Touch of Your Lips” e “Guess I’ll Hang My Tears out to Dry”. Belo disco!

Ouça “When I Look in Your Eyes”, de “Where Is Love?”




No álbum seguinte, “Kral Space”, de 1977, pela Catalyst, com o mesmo Broadbent, dessa vez acompanhada por um contrabaixo, bateria, percussão e vibrafone, é um pouco mais suingado. Matthew Ball, do site allmusic é só elogios quanto às qualidades vocais dela: “Sempre impecavelmente afinada, Irene Kral tinha um registro de contralto seco e ressonante que empregava com efeito devastador. Sua arte estava em seu fraseado, que foi ajudada pela dicção perfeita e marcada por sua tendência a alongar suas vogais.” Outra grande qualidade é a dela mesclar clássicos como “Everytime We Say Goodbye” e “The Song Is You”, com músicas dos cult Dave Frishberg (“Wheelers and Dealers”) e Bob Dorough (a belíssima “Small Day Tomorrow”) e “Star Eyes”, e um clássico nem tão conhecido de Gene De Paul e Don Raye. Pelos dois álbuns – “Where Is Love” e “Kral Space” – foi indicada no Grammy como melhor performance vocal.

Ouça “Small Day Tomorrow”




Não sei precisar qual foi o último que lançou em vida. Morreu em agosto de 1978. “Gentle Rain”, mais um disco com Alan Broadbent, foi gravado em 1977, mas não sei se saiu quando ainda estava viva. Nesse, além do clássico de Luiz Bonfá, tem duas de Dave Frishberg – “The Underdog” e “You Are There” – e standards como “Something to Live for”, Blue Gardenia”, “What’s New?” e “If You Could See Me Now”.

Ouça “Gentle Rain”.




Depois da morte
Quando Kral podia consagrar-se, veio um câncer. Lutou contra por cerca de seis anos. Uma pena. Por conta disso e o “afastamento” para cuidar dos filhos, gravou poucos discos. Depois que morreu, foram lançados vários, na maioria com apresentações ao vivo, com resultados desiguais.

Alguns dos CDs:
• “Live” (Just Jazz, 2000)
• “Just for Now” (Jazzed Media, 2004)
•  “Second Chance” (Jazzed Media, 2010)
• “You Are There (Audiophile, 1999) coletânea
• “Gentle Rain: Live in Tokyo” (Absord, 1977)
• “Irene Kral - In the Name of Love” (2015)





quinta-feira, 23 de maio de 2019

A trilha visual sonora de Tierney Sutton

Mais ou menos na mesma época, surgiram duas cantoras de vozes pequenas e afinadíssimas: Jane Monheit e Tierney Sutton. Eram o oposto das duas últimas grandes damas vivas do jazz: Carmen McRae e Sarah Vaughan, que tinham morrido uns dez anos antes delas gravarem seus primeiros álbuns, com vozes poderosas e marcantes.

Jane estreou em 2000 com “Never Never Land”. Tierney, dois anos antes, lançara “Introducing Tierney Sutton”. Esta última tinha 35 anos, 14 a mais que a primeira. Acostumado com a potência e expressividade de Vaughan e McRae, e do talento incontestável de Shirley Horn, outra veterana, “redescoberta” pela gravadora Verve, fiquei bem crítico com as duas novatas. Minha impressão era a de que eram afinadas e não muito mais que isso.

Vi por duas vezes Jane Monheit no Bourbon Street, em São Paulo. Minha maior lembrança é a de que, na primeira vez, estava bem magra, recém casada com o baterista da banda. Lembro também que a pianista era muito boa. Não guardei seu nome. Era japonesa, isso sei. Na segunda vez, Jane continuava linda. A diferença é que estava, no mínimo, uns dez quilos mais pesada, desculpe a frivolidade. Tierney, não sei, acho que nunca veio ao Brasil.

Para mim, o que mudou com o passar do tempo, foi a de que não tenho vontade de ouvir Jane, enquanto Tierney ainda me provoca curiosidade. A banda, que está com ela faz uns 20 anos, é um primor. Ela, inclusive incorporou-a ao seu nome. Não se apresenta com o seu nome, simplesmente, é The Tierney Sutton Band. Fazem parte dela Christian Jacob, bom pianista que se revelou tocando com Maynard Ferguson, os baixistas Trey Henry e Kevin Axt e o baterista Ray Brinker. Dois baixistas, isso mesmo. Seus últimos álbuns são muito bons, sempre concebidos a partir de um conceito, ou melhor, uma proposta.

“After Blue” (2013), adivinhe a referência? Joni Mitchell? Acertou. É uma pós-leitura, digamos. Não é com a banda. Tem participações do Turtle Island Quartet, Larry Goldings (belíssimo em “Court and Spark”), Serge Merlaud na guitarra,  Hubert Laws, Kevin Axt (este, da banda), Peter Erskine, Ralph Humphrey e Al Jarreau.

Ouça “Court and Spark”.




Ouça também ‘Blue”, com participação do Turtle Island Quartet.




Joni Mitchell não é a única homenageada. Outro foi Sting, com “The Sting Variations” (2016), este com o quarteto.  É interessante porque faz um mélange com temas do jazz nas composições de Gordon Summers, ou melhor, você sabem o nome verdadeiro do rapaz. Como uma cantora genuína do jazz, Sutton transforma temas conhecidos, como “Every Little Thing Is Magic”, “Sincronicity”, “Fragile” e outras.

Veja ela e o quarteto em “Driven to Tears”. “So What”, de Miles Davis serve de introitus para o tema do ex-Police.




Em 2016, Sutton e sua banda participaram da trilha sonora de “Sully”, filme de Clint Eastwood. Foi a ideia de fazerem um álbum com temas de cinema. O subtítulo, que não está na capa e sim no site é “19 songs in five acts”. O grande homenageado é a Alan, que com Marilyn Bergman, foram letristas de temas do cinema, como “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand. Aliás, aos 93 anos, Alan faz um belíssimo dueto com Tierney em “How Do You Keep the Music Playing”.

Ouça.




Um dos bons destaques é “The Sound of Silence”, de Paul Simon, com uma introdução bombástica e bela. E é belo o acompanhamento com o som de contrabaixo e tabla, com a voz de Sutton. Depois tem um solo de piano de Christian Jacob, muito bom, que lembra McCoy Tyner.




Outro que gosto muito, com um belo trabalho de baixo elétrico o acústico é “If I Only Had a Brain”, bem jazzy.




Bom, para fechar, “What Are You Doing the Rest of Your Life?”, de Michel Legrand e Alan e Marilyn Bergman.




Uma última: “Diamonds Are a Girl’s Best Friend”. Lembra-se de Marilyn Monroe cantando?




quinta-feira, 16 de maio de 2019

A subestimada e genial Doris Day


Quando Doris Day estrelou “Confidências à Meia Noite”, “Volta Meu Amor” e “Carícias de Luxo”, tinha cerca de 40 anos. Assi mesmo, ficou com o estigma de “virgem oficial do cinema”, ou a “namorada da América”. Esses e outros filmes, na maioria, estrelados por ela e o o galã Rock Hudson, que acabou morrendo de AIDS, na década de 1980, comédias leves em que sempre resistia aos ataques masculinos, marcaram a sua biografia. Lembram-se menos de que estrelou “Ama-me ou Esquece-me”, em que faz o papel de uma cantora, com um amante violento (James Cagney), que a surrava e a violentava, ou, “O Homem Que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock, com James Stewart, em que têm o filho sequestrado em uma trama de espionagem, ou “A Teia de Renda Negra”, em que tem uma vida de terror com o marido (Rex Harrison).

Antes de tornar-se a “virgem oficial do cinema”, perdeu a virgindade antes de completar 17, com um músico chamado Al Jordan, da banda de Les Brown. A vida de Day não foi um mar de rosas, ao contrário do que sugeriria seus filmes “cor de rosa”.

De cantora à atriz
Antes de tornar-se atriz, seu início foi como cantora. De múltiplos talentos – dançava muito bem, apesar do acidente que resultou em múltiplas fraturas na perna –, Deus lhe deu uma beleza radiante e doce. Aprendeu a dançar porque adorava Fred Astaire e Ginger Rogers. Resolveu ter aulas de canto com uma professora porque adorava ouvir “A Tisket-a-tasket” e “Mr. Paganini”, com Ella Fitzgerald.

Passou a cantar em uma rádio local. Bob Crosby, irmão de Bing Crosby, depois de ouví-la, levou-a para Chicago. nem tinha 17 quando entrou na orquestra de Les Brown. Foi bom para os dois. Revelava-se o talento como cantora, e a big band de Brown ficou mais conhecida ainda.

Doris acreditava no amor. Conheceu o trombonista Al Jordan, na orquestra de Brown. Logo ficou grávida. Era um psicopata. Foi um suplício. Vítima de surras homéricas, conseguiu divorciar-se. Al não viveu muito. Não se sabe se, intencionalmente ou não, morreu, despencando de uma ribanceira com o carro.

Depois de mais esse percalço, voltou à orquestra de Les Brown e explodiu cantando “Sentimental Journey”. Vendeu mais de um milhão de cópias.Mas Doris se apaixonava facilmente. Casou com outro músico, George Weidler, e deixou a big band de Brown novamente.

Em 1948, os compositores Jule Styne e Sammy Cahn a levaram para um teste na Warner.Foi contratada para atuar em um filme de Michael Curtiz. Doris brilhou cantando “It’s Magic”. Virou clássico; não o filme — “Romance em Alto Mar” —, a música. A partir daí, seu nome passou a brilhar nos letreiros dos cinemas.


A Warner não tinha a bala da MGM e da Fox. Não tinha dinheiro para produzir aqueles musicais luxuosos de suas concorrentes. Assim mesmo, Day brilhou. Livre, em 1955, do contrato, estrelou, com James Cagney, “Ama-me ou Esquece-me”, pela MGM. Sua interpretação de “Ten Cents a Dance” é considerada um clássico. E nunca esteve tão sensual como nesse filme.

Seu talento como cantora não pode ser muito aproveitado, pois a era dos musicais estava em declínio. Pena. Mesmo assim, era uma estrela de Hollywood. Ganhou muito dinheiro. O problema é que Doris tinha, como se diz por aí, a “mão podre” para escolher seus homens. Casou-se com Mary Melcher, um agente de atores que fazia “qualquer milhão virar um tostão”. Quando percebeu, estava falida.

Agora, 13 de maio, Doris morreu. Tinha 97 anos. Teve vida longa. Afastada das telas, criou a The Doris Day Animal Foundation e era dona de um hotel butique famoso em Carmel, California. Foi nessa cidade que veio a falecer.

Uma das melhores cantoras de jazz de todos os tempos
Em “Saudades do Século 20” (Companhia das Letras, 1994), livro no qual me baseio para escrever esse texto, Ruy Castro faz um perfil de doze nomes. Das três do sexo feminino, uma delas é Doris Day. Escreve que ela é “a mais subestimada das cantoras americanas”. “Ela era absoluta nos tempos médios e rápidos. […] para ser uma cantora de jazz, não é obrigatório fazer gargarejos com tabasco (como Dinah Washington), emitir sons parecidos com um corrupaco (como Nina Simone) ou escangalhar com as letras e melodias fazendo scats à menor provocação (Billie Holiday nunca fez um scat na vida e foi a maior de todas). A única prova dos nove é o swing. E Doris Day nasceu com esse, e de sobra.”

Ruy Castro ainda cita o grande crítico de jazz Will Friedwald, que a elege como um dos cinco maiores cantores americanos. Os outros: Louis Armstrong, Bing Crosby, Billie Holiday e Frank Sinatra.

Veja a cena em que canta “Love Me or Leave Me”.




Canta “Ten Cents a Dance”, de Richars Rodgers e Lorenz Hart.




Canta “It’s Magic”



Obs: sou fã de carteirinha. Tenho dois box set dela, lançados por uma gravadora alemã Bear Family Recors, comprados em Nova York. A primeira, “It’s Magic”, compreende o período de 1947-1950, a segunda “Que Será”, 1956-1959. Não tenho as outras porque não as achei.




quinta-feira, 21 de março de 2019

Nancy Wilson e o jazz na era rock’n’roll

Um dos melhores lugares para se ouvir música era na antiga casa de Alberico Cilento. Amante do jazz e bom conhecedor de música erudita e, contraditoriamente para alguns, de bolero, tinha uma extraordinária discoteca. Como bom colecionador, sabia onde estava cada título. Tinha um Steinway na sala e outro de um quarto de cauda também, de marca alemã, que não lembro, em uma segunda sala, que era onde ficavam os discos e (muitos) livros.

Tinha uma coleção incrível de DVDs e Laserdiscs. Na sala da frente, assistíamos aos vídeos, próximos ao belo Steinway, que era tocado apenas por amigos profissionais, como Moacyr Peixoto, João Donato e Michel Freidenson. Por isso tinha um segundo piano: o outro era para ele tocar, ou melhor, brincar de tocar.

Em um domingo qualquer, estávamos eu e o amigo Renato Mello vendo um show de Nancy Wilson. Nisso, entra o Bruno, seu filho. E diz: “Pô, ela sempre canta com o mesmo vestido?” Não tinha percebido. Acho que aquele longo amarelo era um dos seus preferidos. Era o mesmo de outro vídeo.

Quando fiquei amigo do Alberico, percebendo meu interesse por conhecer novos cantores e cantoras, sempre quando ia lá, colocava algum CD de alguém que eu não conhecia. Foi assim que ouvi Nancy Wilson pela primeira vez.

Comparando com o que ele ou o Carlos Conde tinham, minha coleção era um nada. Mas já causava inveja nos amigos. Virei até matéria de duas páginas na revista IstoÉ. No setor dos vocais tinha um número considerável de CDs: tudo de Bllie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, além de alguns de Anita O’Day, Doris Day, Dinah Washington, June Christy, Chris Connor, Carmen McRae. Helen Merrill veio depois; foi ele quem me “apresentou”.

Do começo à aposentadoria
Depois de vencer um concurso local, em Ohio, o WTVN-TV, aos 15 anos, entrou para a banda de Rusty Bryant. Conheceu logo depois Cannonball Adderley, que aconselhou-a a tentar a sorte em Nova York. Auxiliada pelo empresário do saxofonista, John Levy, assinou um contrato com a Capitol Records.

Tendo Billy May como arranjador e músicos do quilate de Benny Carter e Ben Webster a acompanhá-la, logo emplacou o primeiro sucesso: “Guess Who I Saw Today”. Seu LP de estreia foi “Like in Love” (1960), seguido de “Something Wonderful”. Depois, lançou um com seu mentor: “Nancy Wilson/Cannonball Adderley”.

Na década de 1960, com a “invasão” do rock, caíram as vendas de álbuns de jazz. Foi uma década difícil. Mesmo assim, Nancy, emplacou várias músicas nas paradas da Billboard. Sinal dos novos tempos, era um repertório com standards e coisas mas novas. Qualquer músico, se quisesse fazer algum sucesso, não poderia fechar os olhos para as novas tendências, inclusive para a emergente bossa nova. Nancy soube usar bem um meio novo, que a tornou ainda mais popular: os programas de TV. Teve até um seu por cerca de um ano: “The Nancy Wilson Show”. Fez também participações como atriz em séries como “I Spy”, “Hawaii 5”, “Room 222” e “The FBI”.

A intérprete que a revista Time escreveu que “é, ao mesmo tempo cool e sweet, ao mesmo tempo cantora e contadora de histórias”, seguiu uma carreira de sucesso, apesar das pressões comerciais como a de quando a Capitol queria que gravasse um disco com uma pegada mais soul, mais funky. Na era disco, continuou com seu repertório mais focado no jazz.

A partir dos anos 2000, começou a ter problemas respiratórios. Fez o último concerto em Ohio, sua terra natal, em 10 de setembro de 2011. Ofereceram 100 mil dólares para uma única apresentação, depois que retirou-se. Recusou.

Como Nancy Wilson não era tão conhecida no Brasil, não saiu uma linha quando morreu. Tardiamente, quando peguei a Downbeat de março deste ano, fiquei sabendo que morreu em 13 de dezembro do ano passado.

Ouça “The Masquerade Is Over”, do álbum “Nancy Wilson/Cannonball Adderley”. Se for possível uma comparação, sua voz lembra a de Dinah Washington.




Ouça também o “People”, de “Funny Face”, lançado em 1965. Fez um super sucesso.