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| A bela Julie |
Devo ter visto esse vídeo pela primeira vez há 25 anos, talvez. Marcou. Em certa feita, na casa do Alberico Cilento estava Flavio Mancini, baixista da primeira formação do Nouvelle Cuisine. Ao ver essa apresentação de Julie London, Flavio, simplesmente, enlouqueceu. É: as primeiras vezes podem ser chocantes ou traumáticas..
Julie, em 1947, casou com o ator Jack Webb. Em 1954, com dois filhos para criar, separaram-se. Ficou reclusa. Tempos depois, conheceu Bobby Troup (é ele o compositor de Route 66, sucesso com Nat King Cole e depois com os Rolling Stones) em um clube noturno de Los Angeles. Convém perguntar quem teve melhor sorte. Se Julie, por ter conhecido aquele que catapultou sua carreira como cantora, ou Troup, que se casou com uma das mais deslumbrantes do universo, pelo menos, daquele tempo. Esclarecimento: modelos de mulher eram Marilyn Monroe, Jane Mansfield e Kim Novak (lembro dela, aspirante à cantora, em Pal Joey, de George Sidney, deixando Frank Sinatra “de quatro”, Rita Hayworth com raiva e dor de cotovelo).
Cry Me a River é uma composição de Arthur Hamilton. É, praticamente, compositor de uma canção só, como eden ahbez (é assim mesmo, em minúsculas; saiba por que em http://bit.ly/Anuaym), autor de Nature Boy. Foi o suficiente. Como ahbez, fez um bem ao mundo compondo tão linda canção.
Há vinte e poucos anos, não existia internet e, muito menos, sites com todas as letras possíveis e inimagináveis disponibilizadas. A melhor solução, para músicas cantadas em inglês, era tentá-las decifrar na voz de Frank Sinatra. Pelo menos, essa era a opinião bem-humorada do Zeca Leal. E era verdade. Nunca existiu alguém com dicção tão perfeita. Os primeiros versos de Cry Me a River eram fáceis, mas, chegando na terceira estrofe, travava no verso “You told me love was too plebeian”. Quem me revelou o “plebeu” foi o Zeca. Ele tinha vários cadernos escritos à mão com letras de um número grande de standards e em songbooks dos autores mais conhecidos (Gershwin, Cole Porter, Sammy Cahn, Rodgers & Hammerstein II, Rodgers & Hart, etc.). Revistas antigas de variedades (fotonovelas, guias de programação de televisão, fofocas e notícias de artistas) sempre traziam letras de canções de sucesso. O normal era se copiar em um caderno: todo mundo tinha o seu de letras de música, e não era só coisa de mocinhas. Em tempos em que o que é chamado de xerox (é a “brahma” das cervejas) se chamava “fotocópia”, coisa surgida na década de 1960, não restava outro modo senão copiar letras e receitas de bolo no “caderninho”. Os mais jovens, hoje, quando fazem um cópia em papel, chamam-na de “print” ou “printer” (sic!) e já nem mais devem saber o que é uma “xerox”.
Bom, fiquei comentando outras coisas e estava quase esquecendo de Julie. Isso, no entanto, é impossível. Julie London se encaixaria perfeitamente no conhecido slogan do filme que consagrou Rita Hayworth: “Nunca houve mulher como Gilda.” Basta trocar o “Gilda” por “Julie London”.
A apresentação:
Julie em cores.
Veja um clip divertidíssimo em que, chegando bêbado, coloca um disco de Julie London e passa a vê-la pela casa.
Opções para ouvir Cry Me a River
Há centenas, com certeza. É clássica, também, com Ella Fitzgerald. Não irei me lembra agora das melhores. Vou citar apenas as que estão no iTunes da máquina que uso mais frequentemente, mais para mostrar como “todo mundo” gravou. Explicação: mudo sempre minha lista no iTunes (no meu iPod estão as minhas preferidas de sempre) de maneira que possa conhecer o maior número de interpretações possíveis. Não estranhe, portanto, a citação de nomes um tanto obscuros.
A lista:
• Archie Shepp (Blue Ballads)
• Barney Wilen (My Romance)
• Brad Mehldau (Progression. The Art of the Trio vol. 5)
• J.J. Johnson (First Place)
• Jaimee Paul (At Last)
• Marilyn Scott (Everytime We Say Goodbye)
• Nicki Parrott (Moon River)
• Nicole Henry (Teach Me Tonight)
• Sonji Kimmons (Fine & Mellow)
• Tierney Sutton (Desire)
Das citadas, minha preferida é a de Barney Wilen. Nada como um bom sideman. Kenny Barron é um craque.

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