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| Uma das imagens de O’Connor no encarte |
Em outra feita, vestindo jaqueta e calças pretas de couro, empunhando sua Gretsch, lembrava aquelas balzaquianas acompanhantes de motoqueiros gordos, barbados, sempre usando óculos vistosos e cafonas, apertados em suas calças justas e botas de cano longo, ao lado de possantes máquinas.
A estreia de Sinéad O’Connor no mercado musical foi explosivo. Mandinka, lançado como single primeiro e depois incluído em The Lion and the Cobra, era uma canção forte e surpreendente se associada à imagem de uma garota de cabeça raspada – um novidade então –, rosto e voz delicada. Nesse álbum, havia uma canção que mostrava seu lado doce e frágil, apesar da “ferocidade” que desejava mostrar: Troy.
Veja Sinéad em Mandinka e a seguir, Troy.
Em outubro do ano passado, Sinéad O’Connor entrou em outra controvérsia com a publicação de uma carta aberta em que alerta Miley Cyrus sobre possíveis consequências de um clipe de teor altamente apelativo para a música Wrecking Ball. Sinéad afirma: “Você tem talento suficiente e não necessita que o mercado da música faça de você uma prostituta.” Há uma relação direta com a pessoa de Sinéad. Miley havia dito que cortar o cabelo representou uma mudança em sua vida.”
Veja o clipe de Wrecking Ball, com Miley Cyrus.
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| Sinéad O’Connor, em 2011 |
A irlandesa, conhecida por provocações como a de ter rasgado a foto do Papa ou de se dizer lésbica, andava um tanto desaparecida da mídia. Pouco antes da carta aberta, virara notícia por conta do casamento com Barry Herridge, que durou apenas 18 dias. O’Connor botou a culpa na “danada” da maconha: “Três horas após o fim da cerimônia o casamento foi atrapalhado pelo comportamento de certas pessoas na vida do meu marido. E também para um dia mais selvagem eu fiz com que a gente procurasse um pouco de maconha para eu fumar no dia do casamento, já que não bebo.” Dias depois, reataram. Não sei a quantas anda o casamento.
Sinéad engordara um bocado e parecia mais uma devota, e ficara com aparência que lembrava uma celebridade instantânea: a caloura Susan Boyle. Essa transformação tinha cara de autodestruição.
Em 2012, lançara How about I Be Me (And You Be You)?, e era um belo álbum. Parecia ter emagrecido um pouco. Era o que se pode perceber quando apresentou-se no programa de Jools Holland para a divulgação do novo álbum. No festival de Glastonbury, em 2013, a camiseta justa de alças apenas destacava adiposidades depositadas na região abdominal.
Veja O’Connor no programa Later…, de Jools Holland, cantando Take Off Your Shoes, do penúltimo álbum, em 2012.
Há algo de autorreferente na crítica às atitudes provocadoras de Cyrus. Lembra um pouco, por suas ousadias, a Sinéad iconoclasta, se bem que a americana segue a via aberta por Madonna, que é a do exibicionismo físico. Pois a Sinéad modelo 2014 é a que surge esplendorosa na capa e no encarte de I’m Not Bossy, I’m the Boss, lançado oficialmente ontem. Abraçada a uma guitarra Gretsch, maquiadíssima, com uma peruca estilo Louise Brooks e uma bodysuit preto, brilhante, justíssimo, não fica nada a dever, em termos de sensualidade e beleza à cantora/atriz de Hannah Montana. A capa é o aviso de que está em uma nova fase. Com 47 anos, Sinéad ainda arrasa.
Sinéad havia anunciado que seu próximo disco se chamaria Vishnu Room. Sua imprevisibilidade é conhecida. Na última hora mudou para I’m Not Bossy, I’m the Boss. Mais que um trocadilho esperto, a ideia surgiu devido a Ban Bossy, campanha em favor do banimento da expressão “bossy” [mandona], por, na opinião de suas idealizadoras, ter efeito negativo em relação às mulheres jovens.
Quando teria sido natural que Sinéad tendesse a tornar-se aquela matrona que persistiria em usar roupas justas, apresentando-se nos palcos como aquelas velhas figuras decadentes do rock’n’roll, dá a volta por cima. Esse é o seu triunfo. Aquele ar de frescor juvenil deu lugar a uma beleza e sensualidade maduras. Seu trunfo é o que sempre teve na mão: o talento e a capacidade de ainda surpreender com boas composições. E ela tem muita segurança desse seu dom. É por isso que isso está registrado, indiretamente, no título. Afirma: “I’m the Boss.” E ainda mais: dedica o álbum a ela mesma (“This album is dedicated to me”). Está lá na quarta página do encarte.
O álbum mais recente tem tudo para colocar Sinéad nas paradas devido a qualidade das canções. As facetas doces e mais enérgicas estão distribuídas ao longo do disco. E, afinal, possui uma voz especial, é uma combinação de fragilidade emocional e melancolia. Entre as mais lentas, destacam-se a primeira (How About I Be Me), 8 Good Reasons e Streetcars, belíssima.
Veja o clipe oficial de 8 Good Reasons.
Outra boa faixa é Harbour, que começa lenta e progressivamente ganha instrumentação poderosa.
Veja o clipe oficial de Take Me to the Church.
Veja a performance de O’Connor de How Nice a Woman Can Be, faixa bonus track, do álbum, em Saturday Night Live.


