Stacey Kent é a encarnação da empatia (simpatia, para ser mais exato). No ano passado, prometera que, em sua próxima apresentação no Brasil, falaria em português para a plateia. Feito. Entre um número e outro conta que há três anos, ela e Jim se inscreveram num curso de língua portuguesa, e a premissa inicial do aprendizado era não conversarem em inglês durante as primeiras sete semanas (não lembro, exatamente, acho que eram sete semanas mesmo). No início, era “bom dia”, “como vai?”, “te amo”, mas, pouco a pouco o repertório de frases aumentou.
O que, inicialmente, muito por conta de que celebrada é ela e não ele, parecia que o propósito de aprender português era dela. Engano. O interesse foi de ambos, aparentemente, pela música, pelo menos. Jim gravou
Brazilian Sketches em 2003, até então, Stacey, que me lembre, nunca tinha registrado uma música brasileira em discos. Nos “desenhos brasileiros”, Jim gravou clássicos conhecidos de Jobim, Bonfá e Marcos Valle. Em
The Lyric, lançado em 2007 por uma gravadora chamada Token. e foi relançado agora em 2011 pela Blue Note, bem maior e melhor distribuição, o amor pela música brasileira persistiu. Trocaram só a capa e corrigiram o “manha de carnival” (leia em
http://bit.ly/m9Yu1j).
Mas Stacey não é a pioneira em cantar em português. Quem não se contorceu na poltrona ouvindo uma tonitruante “bonita” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald cantando
Corcovado? Velha “tchama”, é ”têrrr” tempo para amar, o Cristo “Redêntor” e outros achados “portuguesísticos” doem nos ouvidos brasileiros. E quando canta
Água de Beber? Veja, nada contra a grande dama do jazz que adoro (a propósito, tenho um texto sobre ela em
http://bit.ly/mimlrz).
Cantar em português deixou de ser um desafio para intérpretes da língua inglesa. Antes de Stacey, Fleurine (mulher do pianista Brad Mehldau, ambos “fregueses” do Brasil), Susannah McCorkle (leia
http://bit.ly/kRy8r2) e Karrin Allyson cantaram em português com muita propriedade.
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| O charme de Karrin Allyson é comparável ao de Diana Krall |
McCorkle, à semelhança de Kent, aprendeu a língua portuguesa (era fluente em italiano) e era ligada nas letras (publicou como escritora vários livros). Stacey foi morar na Inglaterra para fazer um mestrado em literatura comparada e é amiga do nipo-britânico Kazuo Ishiguro.
O gosto pela música brasileira de Allyson está estampado em dois álbuns: From Paris to Rio – lançado em 1999, há onze anos, portanto – e Imagina: Songs of Brasil (2008). Em Imagina, título escolhido em razão de ter sido a primeira composição de Tom Jobim, que depois recebeu letra de Chico Buarque (isso segundo o que Karrin Allyson escreve nas liner notes), canta a maioria das canções em português, competente, registre-se. E, pelas mesmas notas, ficamos sabendo que a “professora” de português foi a jornalista Lúcia Guimarães. As duas se conheceram numa fila de autógrafos após uma apresentação de Blossom Dearie. Mundinho, não? Veja como as coisas vão se ancaixando.
Como o assunto principal não é exatamente Stacey Kent, ouça Susannah McCorkle cantando Manhã de Carnaval (acho que é a canção que mais postei, em português, inglês, espanhol, instrumental, só falta em russo), e Só Tinha de Ser com Você por Karrin Allyson.