sexta-feira, 20 de maio de 2011

Parcimônia instrumental valoriza voz de Rebecca Martin

Noventa por cento do disco é constituído de standards do cancioneiro americano. O que torna When I Was Long Ago (2010) “diferente” são os arranjos e a voz incomum de Rebecca Martin. É difícil definir ou comparar sua voz à de outras conhecidas intérpretes no jazz. É afinadíssima e tem grande extensão vocal, mesmo assim, tem um registro agradável.

Acompanhada pelo baixo de Larry Grenadier (membro do trio de Brad Mehldau) e por Bill McHenry no saxofone (soprano, alto e tenor), lembra, pela predominância do contrabaixo, ao clássico Old Time Feeling (Muse Records, 1989), de Sheila Jordan e Harvie Swartz.

Lembra. As diferenças são mais de estilos de interpretação. Rebecca não é uma improvisadora vocal como Jordan, para a sorte dos ouvidos menos afeitos aos malabarismos “bebopísticos”. Sheila foi casada com o pianista Duke Jordan, um dos sidemen de Charlie Parker, dado importante à construção do seu estilo. Rebecca é bem mais nova (nasceu em 1969, quase 40 anos de diferença) e passou por outra formação, mas assim mesmo, tem o jazz no sangue e na parceria matrimonial com o baixista Larry Grenadier.

A discografia de Rebecca Martin é pequena. Lançou, no entanto, de 2000 para cá, por gravadoras representativas como a EMI/Toshiba, Fresh Sound, MaxJazz e Sunnyside. Foi convidada a participar do álbum On Broadway vol. 4 or the Paradox of Continuity (Winter/Winter 2006), do baterista Paul Motian. É um privilégio: é a única cantora a ter participado de algum disco dele.

When I Was Long Ago não é uma obra-prima, mas é agradável de ouvir. Veja Rebecca e o marido Larry cantando Tea for Two (essa não está no CD). Comou sem Brad Mehldau, Larry Grenadier é um grande baixista.


quarta-feira, 18 de maio de 2011

Mad about the Boy (ou, loucas pela mesma coisa)

Coward, Noel Coward. Sir.

Ao contrário de “The Man I Love”, clássico composto por George Gershwin, com letra do irmão Ira, desconheço se há uma versão para o sexo oposto de “Mad about the Boy”, e menos ainda, interpretada por alguém do sexo masculino. [sobre The Man I Love” versão para homens, leia: Homens amam “The Man I Love”. E, as mulheres também]

Nöel Coward foi um desses multitalentos a quem a história destinou um lugar especial no show business. Precoce, aos onze anos estreou na peça “The Goldfish”, em 1911. Em suas memórias relata sobre o debut no teatro: um anúncio no jornal Daily Mirror pedia por “um talentoso garoto de boa aparência” para uma peça infantil. Esse garoto por quem procuravam era ele.

A atuação em “The Goldfish” foi apenas o primeiro passo para uma carreira gloriosa no show business. De ator infantil, virou um dos maiores dramaturgos do Reino Unido. Nasceu no meio operário e virou “sir”, como John Lennon. A monarquia britânica sempre foi pródiga em reconhecer os talentos no campo das artes e da ciência.

Uma das composições mais conhecidas de Nöel é “Mad About the Boy”, de 1932. Virou standard e, como “The Man I Love”, interpretada por um time de primeira. A clássica é o registro de 1961 (no Wikipedia dão 1952 como data de gravação, mas devem estar enganados), por Dinah Washington, com belíssimo arranjo de Quincy Jones. Curiosamente, “explodiu” mesmo foi em 1969 por conta de um comercial da Levi’s. O anúncio feito para a televisão é um clássico. Inspirado no filme The Swimmer, estrelado por Burt Lancaster, que, por sua vez, foi baseado em um belo conto do americano John Cheever, tem como fundo musical a composição de Coward, na voz de Washington,. Essa bela peça publicitária alardeia as qualidades da clássica Levi’s 501.

Veja o comercial.




Mas composição tão clássica, evidentemente, não foi registrada apenas por essa cantora que morreu cedo em decorrência do abuso de remédios para emagrecer (os americanos morrem com remédios que parecem inofensivos, como analgésicos, caso de Michael Jackson e Heath Ledger). Ouça a de Helen Forrest (belíssima) e a de AnitaO’Day.

Grande Anita! Nem uma garrafa de vodca por dia acabou com ela.



Helen Forrest em clássica interpretação.


Jim Tomlinson é o homem por trás de Stacey Kent

Há um ditado em que se diz que “a mulher faz o homem”. Correto? Sim. Mais correto, talvez, fosse dizer que os gêneros se complementam. Tanto a mulher como o homem “fazem” seus pares. Como a parceria de Jim Tomlinson e Stacey Kent é anterior à consagração desta, muito da concepção sonora é do marido. O que faz parecer que a parceria na vida real é simbiótica com a carreira musical.

Kent se mudou para a Inglatera com o propósito de estudar. Conheceu Jim, que era músico. Esse dado contribuiu para que se revelasse a intérprete que, em princípio, seguiria uma carreira acadêmica com especialização em literatura comparada.

Desde o primeiro álbum solo, Kent é acompanhada pelo marido, não apenas como instrumentista, mas como seu produtor musical. E se observarmos um pouco mais, veremos que a formatação musical continua a mesma. Ao trio piano/baixo/bateria são acrescentados o saxofone de Jim e um guitarrista, que dão um molho especial à base sonora que acompanha a cantora. Não é uma banda de destaques; ninguém sobrepuja o outro em aventuras improvisativas. O sax é correto, o piano é belo, e acordes parcimoniosos de guitarra dão um colorido especial à voz pequena e afinada de Kent.

Aparentemente, Jim resolveu fazer o papel do coadjuvante, deixando que Stacey brilhe. Deve ser uma escolha e menos uma imposição. O que é belo nessa história toda, pelo menos para quem vê de fora, é a perfeita combinação entre eles, uma conjunção de interesses, tanto na vida pessoal como na profissional.

Foi bastante divulgada na imprensa brasileira, por conta das várias vindas do casal ao Brasil, o interesse de Kent em aprender a língua portuguesa. E vemos que essa curiosidade é comum e está estampada no repertório de Brazilian Sketches, de Jim Tomlinson. Antes de Kent ter registrado alguma canção brasileira nos seus discos solos, Jim o tinha feito anteriormente.

Percebe-se também, ao se prestar atenção na discografia de ambos, que, apesar de a estrela da casa ser Stacey, é notório que sem Jim não existirira a intérprete como a conhecemos. A conclusão é a de que ela não seria quem é sem ele. Por isso, vemos que o papel de coadjuvante dele é um pouco circunstancial.

Ouça a brasileiríssima Dreamer (Vivo Sonhando).


Tomlinson é um bom saxofonista. Possui influências de Stan Getz, outro “brasilianista”. Nessa apresentação fica claro que, mesmo que não tivesse conhecido Kent, teria destaque.

 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O interesse pela língua portuguesa não é só de Stacey Kent

Stacey Kent é a encarnação da empatia (simpatia, para ser mais exato). No ano passado, prometera que, em sua próxima apresentação no Brasil, falaria em português para a plateia. Feito. Entre um número e outro conta que há três anos, ela e Jim se inscreveram num curso de língua portuguesa, e a premissa inicial do aprendizado era não conversarem em inglês durante as primeiras sete semanas (não lembro, exatamente, acho que eram sete semanas mesmo). No início, era “bom dia”, “como vai?”, “te amo”, mas, pouco a pouco o repertório de frases aumentou.

O que, inicialmente, muito por conta de que celebrada é ela e não ele, parecia que o propósito de aprender português era dela. Engano. O interesse foi de ambos, aparentemente, pela música, pelo menos. Jim gravou Brazilian Sketches em 2003, até então, Stacey, que me lembre, nunca tinha registrado uma música brasileira em discos. Nos “desenhos brasileiros”, Jim gravou clássicos conhecidos de Jobim, Bonfá e Marcos Valle. Em The Lyric, lançado em 2007 por uma gravadora chamada Token. e foi relançado agora em 2011 pela Blue Note, bem maior e melhor distribuição, o amor pela música brasileira persistiu. Trocaram só a capa e corrigiram o “manha de carnival” (leia em http://bit.ly/m9Yu1j).

Mas Stacey não é a pioneira em cantar em português. Quem não se contorceu na poltrona ouvindo uma tonitruante “bonita” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald cantando Corcovado? Velha “tchama”, é ”têrrr” tempo para amar, o Cristo “Redêntor” e outros achados “portuguesísticos” doem nos ouvidos brasileiros. E quando canta Água de Beber? Veja, nada contra a grande dama do jazz que adoro (a propósito, tenho um texto sobre ela em http://bit.ly/mimlrz).

Cantar em português deixou de ser um desafio para intérpretes da língua inglesa. Antes de Stacey, Fleurine (mulher do pianista Brad Mehldau, ambos “fregueses” do Brasil), Susannah McCorkle (leia http://bit.ly/kRy8r2) e Karrin Allyson cantaram em português com muita propriedade.

O charme de Karrin Allyson é comparável ao de Diana Krall
McCorkle, à semelhança de Kent, aprendeu a língua portuguesa (era fluente em italiano) e era ligada nas letras (publicou como escritora vários livros). Stacey foi morar na Inglaterra para fazer um mestrado em literatura comparada e é amiga do nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

O gosto pela música brasileira de Allyson está estampado em dois álbuns: From Paris to Rio – lançado em 1999, há onze anos, portanto – e Imagina: Songs of Brasil (2008). Em Imagina, título escolhido em razão de ter sido a primeira composição de Tom Jobim, que depois recebeu letra de Chico Buarque (isso segundo o que Karrin Allyson escreve nas liner notes), canta a maioria das canções em português, competente, registre-se. E, pelas mesmas notas, ficamos sabendo que a “professora” de português foi a jornalista Lúcia Guimarães. As duas se conheceram numa fila de autógrafos após uma apresentação de Blossom Dearie. Mundinho, não? Veja como as coisas vão se ancaixando.

Como o assunto principal não é exatamente Stacey Kent, ouça Susannah McCorkle cantando Manhã de Carnaval (acho que é a canção que mais postei, em português, inglês, espanhol, instrumental, só falta em russo), e Só Tinha de Ser com Você por Karrin Allyson.