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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Martha Argerich, ou o que são e o que achamos que são

Temos o costume de colocar os gênios em panteões. Assim, tornam-se inatingíveis e guardamos uma distância respeitosa e, ao mesmo tempo, temerosa. E o medo faz coisa. Ninguém é deus e muito menos, inatingível. A revelação dos deslizes do ídolo do golfe Tiger Woods, em atitudes absolutamente humanas – traía intencional e determinadamente sua esposa com mulheres menos belas que ela e com profissionais do sexo –, fez com que, de quase deus virasse o que, no fundo, todos são: “ordinários”, no sentido da palavra em inglês, que significa “simples”. Sim, simples humanos.

Sim, gênios são peculiares e, incluídos nesse gênero, os prodígios. Em algumas especialidades as tendências manifestadas cedo são essenciais ao posterior desenvolvimento de suas características especiais. Mas não basta o prodígio. Mais que ele é preciso muita disciplina e treino. No tênis, para citar um caso célebre, temos o de Björn Borg, que, prematuramente, aos 26 anos abandonou as quadras para viver a “high life” a que todo milionário poderia se permitir. Descobriu que, além da férrea disciplina a que era submetido, “lá fora” existiam mulheres lindas, drogas e muita festa. Outro tenista, “muy” amigo, Vitas Gerulaits, foi um dos responsáveis por esse “desvio” em sua vida. E, afinal, não foi muito feliz nesse “novo mundo”. Gastou todo o dinheiro que ganhou, entrou em empreendimentos que lhe custaram a falência e tentou o suicídio uma vez.

Esse caso de desvio, por outros caminhos, aconteceu com o maior enxadrista brasileiro de todo os tempos, Henrique da Costa Mecking, o “Mequinho”, terceiro no ranking mundial. Conheceu o ocaso por conta de uma doença rara – a miastenia – e algumas excentricidades toleradas apenas nos gênios.

Argerich, grande virtuose, grisalha e feliz
No entanto, é na música que o pendor parece indispensável, principalmente no piano. A maioria dos grandes virtuoses deste instrumento mostrou seus talentos muito cedo, alguns com apenas três anos de idade. É o caso do brasileiro Nelson Freire. O mineiro, que grava pela Decca, uma das maiores do repertório clássico, é hoje um dos maiores pianistas vivos. Acontece o mesmo com sua grande amiga, a argentina Martha Argerich.

Dizem que genialidade não escolhe lugar para nascer. Pode sugir um gênio musical nos confins da mata amazônica? Pode ser? Improvável? E depois, nada acontece se não houver um pequeno “empurrão” do destino… ou do governo. Um caso exemplar – vamos ficar circunscritos à América Latina – é o de Claudio Arrau. Prodígio – fez sua primeira apresentação pública com cinco anos –, filho de família tradicional, com menos de dez anos, foi enviado junto com sua mãe – o pai morreu quando tinha um ano –, financiado pelo governo chileno, para estudar na Alemanha com Martin Krause. Isso se deu nos anos 1910.

Bom tempo depois, sucedeu-se algo parecido com outro prodígio: Martha Argerich. Juan Perón, presidente à época, subsidiou sua ida para a Europa para estudar com Friederich Gulda na Áustria, empregando seus pais em embaixadas. Até hoje, de uma geração de ouro em que se destacam Maurizio Pollini, Alfred Brendel, András Schiff, Stephen Kovachevich – que era Bishop e trocou o nome por causa de um astro de rock homônimo – e o brasileiro Nelson Freire, a argentina é pianista do primeiro time.

Está disponível em streaming na Prime Video o belo documentário Martha Argerich – Conversa Noturna, de 2003, direção de Georges Gachot, pelo selo EuroArts, que, desde o ano passado, está lançando uma série de títulos de música clássica no mercado brasileiro. Vemos os gênios como pessoas inatingíveis, como disse inicialmente. A Martha que imaginei, deveras, não existe. Aquela mulher que tinha um certo ar existencialista, com bastos cabelos negros, olhos levemente amendoados, fumante, era a “dama inatingível”. É possível que essa imagem tenha se sedimentado por conta do incidente em que, como protesto, abandonara o júri de um desses concursos de piano, quando um competidor, o croata Ivo Pogorelich, fora eliminado. Dizendo que Ivo era um gênio, foi embora. Parecia atitude de “prima-dona”.

No documentário de Gachot, essa impressão vai embora. Primeiro pelo seu jeito de “não estar nem aí” para a aparência visual. Em vez da senhora cheia de “pancake” no rosto, de cabelos cuidadosamente cofiados, estamos à frente de alguém que não se preocupa em tingi-los e muito menos de penteá-los mais cuidadosamente. Suas mãos – invariavelmente belas, produzem sons tão sublimes – carecem de nuanças que as enfeitem. Sem um traço de maquiagem, fala, e muito. É um susto. Achava até que não falava! Conta histórias engraçadas como a de Friederich Gulda que, ao conhecer o inexcedívell jazzista Erroll Garner, disse-lhe que seu piano lembrava a música de Ravel. Erroll respondeu: “Quem é esse cara?”. Mais ou menos assim.

O aparente “estrelismo” se explica pela timidez. Imagine-se uma menina de pouco mais de dez anos fora de sua terra natal, viajando sem parar, sem poder fazer amigos ou brincar como qualquer criança. É o sacrifício dos gênios. A quase criança, com dezessete anos sentia-se uma mulher solitária de 40. Argerich sobreviveu à disciplina a que se submeteu e parece feliz tocando piano. É o que passa o bom documentário de Gachot.

A naturalidade das mãos de Argerich passeia pelas teclas do piano em suave dança, enérgicas quando necessária, pelas composições mais difíceis de Liszt, de Prokofiev, por atmosferas diáfanas como a de Mamãe Gansa – que toca a quatro mãos com Nelson Freire –, de Ravel, são pura magia. Se o homem normal vir alguns objetos como inatingíveis, os gênios também. Martha, logo no início do documentário, fala de quando foi assistir a uma apresentação de Claudio Arrau, bem menina, com sua mãe: “Foi a emoção mais forte que senti com a música. Eu tinha seis anos, lembro-me bem. Foi com o 4º de Beethoven [4º Concerto para Piano e Orquestra, op. 58]… que eu não toco.” Pois é, Martha nunca tocará esse que, com o terceiro, são dos mais belos de todo o repertório bethoveniano.

Veja e ouça:
Ravel – Jeau d’eau.



O link para assistir ao vídeo é https://www.primevideo.com/-/pt/detail/Martha-Argerich---Conversas-Noturnas/0N31V4C0827WBDLSROLD4BNNFN

Publicado em 17/3/2010 pela primeira vez

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Sean Foran e a melancolia


Pelo dicionário de Antonio Houaiss, a melancolia pode ser um “estado afetivo caracterizado por profunda tristeza e desencanto geral”, e, por extensão, “sentimento de vaga e doce tristeza que compraz e favorece o devaneio e a meditação.” Tentemos ver então como um “sentimento de vaga e doce tristeza”. Bom, mas existe uma “doce tristeza”? A tristeza é quase sempre amarga. No máximo então, vamos considerar a melancolia como um estado que, não sendo antônimo efetivo de “alegria”, seja aquele em que entramos em “um sentimento de vaga e doce tristeza”, tristes até, mas não tanto como o jovem Werther, personagem de Goethe. Tentemos então como algumas das belas passagens das três últimas sonatas de Franz Schubert.

Permito-me a entrar em outra seara: artistas que nos levam à melancolia e à tristeza não são, necessariamente, melancólicos e tristes.Confunde-se comumente a obra com o autor. Não necessariamente um gênio é um bom caráter, boa gente. Fala-se bastante de que Pablo Picasso, além de misógino, foi um mau pai. A dramaticidade de um lied de Schubert, como em “Im Abendrot”, ou “Die liebe hat gelogen”, no melancólico “Andante con moto” do “Piano Trio no. 2, op. 100”, não combinam com a história do compositor austríaco, bon vivant, que vivia às custas dos amigos ricos, e teve a morte prematura em consequência da sífilis. Isso não combina exatamente com suas composições sublimes, ternamente melancólicas.
Essa breve digressão é em razão do início de “Room with a View”, primeira faixa de “Frame of Reference”, do australiano Sean Foran, lançado em 2016. Nessa canção, iniciada com arpejos de Foran ao piano, é seguida de timbres melancólicos do violoncelo de Ben Davis e da guitarra atmosférica de Stuart McCallum, que entra logo a seguir, enriquecida com a bateria de Joost Hendricks. No todo, é um tema em que os instrumentos interagem em perfeita harmonia, melodicamente rica, colorida, em que as luzes solares atravessam nuvens escuras.

Os arpejos de Sean Foran ao piano assemelham-se com a sonoridade do guitarrista Pat Metheny. A comparação não tem o propósito do demérito, pois ele mesmo citou o americano como influência musical. Lembro da época em que Pat tinha o tecladista Lyle Mays como seu parceiro musical. 

Uma boa imagem de como as composições de Foran evoluem — li em uma resenha não assinada e me permito citá-la — como o desabrochar de uma flor. Ao som de seu piano, entrelaçam-se a guitarra, o violoncelo e o saxofone de Julian Argüeles. Tudo é finamente construído, combinando lirismo, melancolia, climas cinematográficos — penso numa paisagem a percorrer o meu horizonte visual —, que encantam por sua beleza impressionista. “A Room with a View”, “Frame of Reference”, “A Fine Balance”, essas três, penso eu, combinam bem com o que tentei expressar nesse breve texto.


Ouça o álbum.


quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tony Bennett e Diana Krall, um par perfeito

Parece cada vez mais fácil chegar aos 100 anos, mas a que custo? O importante é estar inteiro e bem de saúde. É o caso de Tony Bennett, o maior cantor vivo da atualidade. Aos 92 anos, mesmo tendo passado por uma fase em que consumiu boas doses de cocaína, está forte e pimpão, como diria um amigo. E mais: canta muito ainda, mantendo a bela voz que o consagrou. E ainda gosta de pintar.

Confirma sua boa forma em sua mais recente empreitada, “Love Is Here to Stay”, com Diana Krall, com o repertório de George Gershwin. Bennett se rejuvenesce em suas parcerias com intérpretes de todos os espectros. Fez muito sucesso “A Wonderful World” (Columbia, 2002), com a canadense kd lang. Em “Duets: An American Classic” (Columbia, 2006), divide os vocais com os pop John Legend, Barbra Streisand, Celine Dion, Sting, Bono Vox, Billy Joel, Paul McCartney, James Taylor, Stevie Wonder e outros. Como os duos que Frank Sinatra cometeu em seus anos derradeiros, quando sua voz era uma sombra do que havia sido, sucumbe aos apelos comerciais. A diferença com os de Sinatra é a de que a voz de Bennett era a mesma. Gravou ainda “Duets 2” (2011) e “Viva Duets” (2012), aproveitando a onda.

Os puristas torcem o nariz para Diana Krall. Com um início fulgurante, arrombando a porta do mainstream do jazz, a ex-aluna de Jimmy Rowles e protegida de Ray Brown, a canadense tocava muito bem piano, e se quisesse, poderia seguir por essa seara. O aprendizado com Rowles e poderosa influência da maneira de tocar de Nat King Cole, foi logo notada pela gravadora Impulse, logo depois de tornar-se um sucesso instantâneo em seu país natal. Como o mestre Cole, cantava, e muito bem. A exemplo dele, consagrou-se mais como cantora do que pianista. De hoje em dia, apesar de apresentar-se sempre sentada à frente de um Steinway, mais canta que toca.

No caso de “Love Is Here to Stay”, deixa o pianista é Bill Charlap. Bom, nem precisa mesmo. O filho de Sandy Stewart tem um dos trios mais respeitados da atualidade. É mainstream, que se diga, mas sua banda está uma que chegou bem perto da perfeição.

A perfect pair
Depois de terem cantado juntos em ocasiões esparsas nos últimos 20 anos, “Love Is Here to Stay” é o primeiro álbum deles juntos. Gravado no ano passado, acaba de ser lançado. É a reunião que muitos esperavam. Bennett é a majestade, no alto de seus 92 anos; Krall é a dama do jazz da atualidade, em que pesem o valor das experientes Dee Dee Bridgewater ou Diana Reeves. Um pouco por preconceito, é criticada. Popularidade causa dor de cotovelo e críticos acham que cair no gosto de um público mais amplo é devido a concessões ao mercado. Evidente que King Cole fez concessões, mas que beleza de cantor que foi!

Tanto Bennett quanto Krall cansaram de cantar o repertório de George Gershwin, mas em “Love Here to Stay, ambos interpretam pela primeira vez em discos “My One and Only Love” e “I’ve Got a Crush on You”. É uma surpresa

Há um enorme respeito, como não poderia deixar de ser, de Diana por Tony. “Ele não apenas canta essas canções. Ele sabe o que está dentro e fora. Ele é uma pessoa profunda em muitos níveis – às vezes você pergunta sobre coisas e ele diz o que acha. É um belo fenômeno emocionalmente.” É o respeito que Krall tem pela sabedoria de um intérprete que sabe tudo de música, sabedoria que amealhou por todos os anos que o tornou um dos grandes cantores de todos os tempos na história do jazz.

Bem, se Bill Charlap é um dos grandes ao piano e Bennett e Krall craques absolutos, poderia de esperar uma obra-prima. Não é. É um álbum agradável, com algumas pérolas distribuídas, ora pelos bons achados do pianista, belas combinações da voz cálida dela e da qualidade interpretativa dele. Comparando-se, não é genial como, por exemplo, o de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim, ou o de Betty Carter e Ray Charles, Ray Charles e Cleo Laine, ou Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Acho que, como diria minha amiga baiana, faltou um pouco de borogodó, aquela simbiose fervente que acontece inexplicavelmente entre dois seres.

Veja o clipe promocional do álbum, com os dois e o trio de Charlap interpretando a canção título.




Ouça o álbum. Um destaque é a excepcional interpretação de Krall em “But Not for Me”, com uma introdução que normalmente é cantada. A “inédita”, para os dois, “My One and Only”, é outro, pela combinação do piano e o clima relaxado entre os dois intérpretes. “Love Is Here to Stay” e “I Got Rhythm” são outras que destaco.




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Um pouco mais sobre Jamie Saft

No texto sobre “Solo a Genoa”, inicio tecendo comentários sobre um estudo do Instituto Max Planck, sobre as diferenças da atividade cerebral do pianista que toca música erudita e o jazz. Este último tem a facilidade de improvisar sobre um tema, ao contrário de um virtuose como Nelson Freire ou Maurizio Pollini, muito mais focados na precisão e destreza para executar partituras complexas de um Schumann ou um Beethoven.

Não existem fronteiras, no entanto, quando se trata de música. Assim, autores eruditos como Gustav Mahler e Béla Bartók, inspiraram-se em temas folclóricos para as suas composições, a música popular se alimenta de formas mais e menos sofisticadas.Nos dias hoje, músicos de bandas conhecidas, como o Radiohead, The National e Arcade Fire, Jonny Greenwood, Bryce Dressner, Richard Reed Parry e Sarah Neufeld, têm desenvolvido trabalhos considerados crossover. Antes deles, bem antes, ouvimos várias bandas, classificadas como progressive rock ou art rock, que flertaram com a música erudita.

Na arte sem fronteiras, com o jazz é a mesma coisa. O movimento mais conhecido por incorporar elementos da música clássica chamou-se “Third Stream”, idealizado por Gunter Schuller. John Lewis, líder do Modern Jazz Quartet, fez algo semelhante, em razão, principalmente, por sua devoção ao compositor Johann Sebastian Bach. Em tempos atuais, pode-se citar Cyrus Chestnut, que acaba de lançar “Kaleisdoscope”, dedicado quase que todo ao francês Erik Satie. Aliás, é um dos preferidos dos que incorporam temas dos clássicos, como seus conterrâneos Maurice Ravel e Claude Debussy. Outro pianista que tem um álbum interessante abordando o repertório clássico é Steve Kuhn, em “Pavane for a Dead Princess” (Venus, 2006). Como Chestnut, faz releituras bem livres, tendo os temas como plot, dentro de uma linguagem essencialmente jazzística em formato trio piano/contrabaixo/bateria.

Nem um pouco do universo erudito
Jamie Saft é uma caso à parte.  Como muitos pianistas, passou por um aprendizado formal – estudou na New England Conservatory of Music –, mas sua música passa longe do universo erudito. Se comentei até agora dos cruzamentos do erudito com o jazz, o americano, incluído, por conveniência, neste último, percorre caminhos bem ecléticos que o aproxima mais do rock. Sua figura física, inclusive, não é a de um músico de jazz, se existe um estereótipo. A barba longa, que lembra a dos hassídicos, o faz parecer mais um rabino. É um judeu em um mundo estranho, como Matisyahu, um ortodoxo que preferiu o reggae para transmitir as mensagens de sua religião.

Saft poderia ser confundido com um rockeiro como Dusty Hill, do ZZ Top, por exemplo. Aliás, seu ecletismo musical pode ser associado a John Zorn, outro judeu que transita entre o erudito, o jazz e o rock, que, não por simples coincidência, acolheu-o em várias gravações em seu selo Tzadik.

Uma boa amostra de seu ecletismo está no álbum “Black Shabbis” (Tzadik, 2009): “Army Girl”.  Saft toca baixo elétrico, guitarra e teclados, com Trevor Dunn (baixo), Bobby Previte, Mike Pride e Dmitriy Shnaydman (bateria), e Mr. Dorgon (voz).




O novaiorquino tem os teclados – piano, Fender Rhodes, Hammond, moog e sintetizadores – como instrumento principal, mas toca contrabaixo e guitarra. Em sua discografia há álbuns, como “Serenity Knolls” (2017), com Bill Brovold, com ele tocando exclusivamente dobro e pedal steel guitar, muito interessante, com ambos fazendo algo que pode ser rotulado de “ambient country”.

Saft pode ser hard rock, reggae, country ou qualquer outra coisa, mas seu nome é citado como o de um músico de jazz. E como um pianista de jazz, na gravadora RareNoise, lançou dois álbuns com Steve Swallow e Bobby Previte: “The New Standard” (2014) e “Loneliness Road” (2017), este, com participação de Iggy Pop em algumas faixas. Neste ano, saiu “Blue Dream”, com Bill Henry, Bradley Christopher Jones, Nasheet Waits.

Ouça algumas faixas com Jamie Saft nesse playlist.






quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Katia e Marielle Labèque e suas raízes

Ganha um doce quem sabe o que as irmãs Katia e Marielle Labèque e Maurice Ravel têm em comum fora terem seus nomes ligados à música erudita. Os três nasceram na região basca da França, Mais conhecida é a parte espanhola, que constitui 90% de seu território, e presente nos noticiários no século passado, devido aos atentados violentos e sanguinários perpetrados pelo grupo terrorista ETA, em favor da autononomia dos territórios bascos. Hoje, é considerado Comunidade Autônoma, como é a Catalunha.

Bascos notáveis
Maurice Ravel nasceu em Ciboure, bem perto de Biarritz, em março de 1875. Basco por parte da mãe, Marie Delouart, cresceu em Paris, entretanto, parafraseando uma frase conhecida, “saiu de lá, mas os Países Bascos não saíram dele.”

Katia e Marielle Labèque, nascidas em Bayonne, como Ravel, começaram seus estudos de piano com a mãe Ada Cecchi, que tinha sido aluna de Marguerite Long e, posteriormente, fizeram o Conservatório de Paris. Ficaram conhecidas, inicialmente, executando compositores contemporâneos, com György Ligeti, Luciano Berio e Olivier Messiaen. É desse autor “Visões do Amém”, que gravaram na primeira incursão fonográfica.

Belas e talentosas, atraíram a atenção das gravadoras. A Philips chegou na frente, com elas executando “Rhapsody in Blue”, de George Gershwin, em versão para dois pianos. Venderam um milhão de cópias, fenômeno, em se tratando de música erudita.

O prestígio das irmãs não foi apenas pelas vendas. Compositores contemporâneos, a exemplo de Berio, Michael Nyman, Philip Glass e Osvaldo Golijov, compuseram especialmente para as Labèque tocarem em estreia mundial.

Depois de lançarem discos pelos melhores selos de música erudita, criaram o KML Recordings, focado em um repertório mais abrangente e heterodoxo, incluindo o rock experimental e a música mais tradicional, como a que gravaram com a espanhola Mayte Martin (“De Fuego y de Agua”, 2008).

Os álbuns mais recentes são demonstrativos do distanciamento do repertório mainstream. “Moondog” aborda a música de Thomas Hardin, cujo nome artístico intitula o disco. É algo muito diferente, algo impossível de ser rotulado.

No mais recente, “Amoria”, as irmãs Labèque fazem uma viagem pela música basca, do século 16 até nossos dias. É um tributo às suas origens, com um resultado que não decepciona. Seu início é animador. “Con amores, la mi madre”, de Joanes Antxieta, em arranjo para dois pianos e o contratenor Carlos Mena, é um grande início. As seguintes são também de autores pouco conhecidos, fora Pablo Sarasate, basco de Pamplona, e Maurice Ravel.

O amor de Ravel por seu país
Acho que não há ser humano no planeta que não conheça “Bolero”, popularmente chamada de “Bolero de Ravel”. Apesar de possuir uma obra de respeito, que não se resume ao tema que virou “carne de vaca” depois de ter feito parte da trilha sonora de “Retratos da Vida”, filme de Claude Lelouch. Ser basco foi um dado importante não apenas na música, como é possível perceber-se nessa afirmação, contida no encarte: “É sobre meu coração seco. Isso está errado. Mas sou basco e os bascos não se entregam aos poucos. Você pode não acreditar com o desgosto que eu deixei St. Jean de Luz. Eu realmente senti essa impressão nostálgica somente quando vi o oceano desaparecer primeiro, depois os Pirineus. Realmente, meu país é um dos mais belos e bonitos, eu diria. O mar está cheio de acácias. E essas suaves colinas verdes, de cima a baixo, caem das pequenas bolas de carvalho esculpidas no basco. E, acima de tudo isso, os Pirineus, a malva de terra das fadas. E então, há luz. Não é o sol implacável do outro meio-dia. Aqui, é um brilho excelente. As pessoas sentem isso; ele é ágil, elegante, e sua alegria não é vulgar. As danças são leves, de voluptuosidade, sem excesso. A religião em si, embora altamente observada, é mesclada de um grão de ceticismo.”

Bela declaração de amor, não? Por meio dele, amigos como Arthur Rubinstein, Alfred Cortot, Igor Stravinsky, Claude Debussy, Serge Prokofiev e Marguerite Long, conheceram esse belo país.

Destaques
Além de “Kaddisch”, das “Mélodies hébraïques”, e “Bolero”, executada por dois pianos e percussão com o grupo Hegiak, destacam-se a “Sarabanda”, de Bernardo Zala Gakdeano (séc. 17), “Agota”, deBalere Artxu (séc. 18). Como curiosidades, belas e singelas são “Haika mutil” e “Elurra iruñan”, compostas neste século.

Ouça o álbum no Soptify.




sexta-feira, 24 de agosto de 2018

O piano sublime de Jamie Saft

Jamie Saft em êxtase ao piano
Um estudo feito Instituto Max Planck para Cognição Humana e Ciências do Cérebro, em Leipzig, Alemanha, revela que a atividade cerebral de músicos eruditos e de jazz é bem diferente. Reside aí a razão de virtuoses do piano, como Arthur Rubinstein, Maurizio Pollini e Nelson Freire, por mais habilidosos que sejam, terem dificuldade em improvisar. Enquanto “aprendem a dar mais ênfase à técnica, visando a uma execução mais fiel à proposta do compositor”, o músico do jazz foca na harmonia e “na adaptação mais ágil nas mudanças musicais inesperadas.” No documentário dirigido por João Moreira Salles, Nelson Freire revela sua admiração pelo modo de tocar de Erroll Garner. É a prova das diferenças entre o erudito e o jazz.

O pianista, que procura transitar entre os dois terrenos, mais conhecido é Keith Jarrett. Além das gravações que  o ser médio conhece, pelo mesmo selo ECM, tem álbuns executando Bach (principalmente), Handel, Mozart, Samuel Barber e Shostakovich. Esquece porém de sua veia jazzística e incorpora o do virtuose erudito. Provavelmente, pianistas de jazz são os que mais se aventuram em explorar temas eruditos, por seus aprendizados iniciais em conservatórios musicais. Há exceções, como Garner, que conseguia tocar até peças clássicas sem sequer sabia ler uma partitura.

Bem, depois dessa explanação sobre a diferença entre pianistas eruditos e do jazz, entro no assunto de modo bem torto, pois o texto é sobre um que, apesar do aprendizado formal na New England Conservatory of Music, e ser considerado do jazz, preferiu olhar para o “andar de baixo”. Eclético, em sua música percebem-se elementos do reggae, da country music, do rock, até do heavy metal, como em seus discos com Bill Brovold e com Nick Millevoi.

Com uma extensa discografia, revela seu enorme talento em vários gêneros musicais, e em “Solo a Genoa”, seu álbum mais recente e seu primeiro solo ao piano. Nele, apresenta temas tradicionais do jazz, como “Naima”, de John Coltrane, e “Blue in Green”, de Bill Evans, mas também o repertório da música americana (Stevie Wonder, ZZ Top, Curtis Mayfield e Joni Mitchell), e até do erudito Charles Ives. Em tudo imprime sua marca, em acordes belos, harmonicamente ricos, em sonoridades ondulantes, pulsantes e de tons impressionistas. Merecidamente, John Ephland, deu quatro estrelas e meia de um máximo de cinco. Eu daria cinco. Sou fã incondicional de Jamie Saft.

Ouça “Solo a Genoa” pelo Spotify.


quinta-feira, 22 de junho de 2017

O brilho solitário do piano de David Benoit

David Benoit em gravação no Steinway Hall
A formação de David Benoit foi direcionada à música erudita. Estudou piano, teoria e composição e, mais tarde, regência e orquestração. Mas acabou no jazz.

Lançou cerca de 25 discos, mas não é tão reconhecido como pianista. O crítico Scott Yanow, do site allmusic, é um tanto crítico – ou maldoso – ao dizer que é “um dos performers mais populares num idioma de algum modo impreciso chamado jazz contemporâneo.” Cita outro crítico, Alex Henderson, que descreve “sua música de fundo melódico leve” como “new age with a beat”. Talvez seja um pouco injusto descrevê-lo assim.

Logo depois, Yanow dá uma suavizada e reconhece que Benoit é autor de bons álbuns, mas os que lançou na sua longa parceria com a GRP Records, buscam claramente as paradas, ou seja, são comerciais. Mas vamos combinar: não é pecado querer vender bem ou ser popular.

Bom, nem conheço bem a obra de Benoit. Confesso que não é dos que acompanho. Gostei, no entanto, de “2 in Love”, em que Jane Monheit canta com ele acompanhando-a ao piano. Com exceção da última faixa, as outras são de sua autoria, com letras de Lorraine Feather, Spencer Day e Mark Winkler. É um belo disco, com bons arranjos de sua lavra, e Jane está muito bem, até melhor do que em alguns de seus álbuns, sem exagerar em volteios musicais, um tanto afetados, na minha opinião.

Acabei por me interessar por Benoit, por meio de “2 in Love”, que ouvi por causa de Monheit, e não por ele. Por ter gostado, resolvi ouvir “The Steinway Sessions”, recém lançado.

“The Songs We Sang” (David Benoit, Mark Winkler) é um dos destaques.




É um solo, naturalmente. Como vários fabricantes de instrumentos, como a Gibson, Fender, Yamaha, Zildjian e outras, a Steinway tem os seus contratados. Sendo um dos exclusivos daquela que é considerada a melhor fabricante de pianos, Benoit foi convidado a gravar. Optou por fazê-lo no próprio Steinway Hall. No álbum constam algumas de suas composições e de outros, comoElton John e Dave Brubeck. Desvestindo-se de preconceitos, bom, nem tive como ser preconceituoso, por pouco conhecê-lo, achei que Benoit é um belo pianista, muito bom e constrói belas sonoridades. Confira a seguir.

“Strange Meadowlark”, se Dave Brubeck, a que eu mais gostei. Não é tão diferente do original, mas é belo assim mesmo.




“I Remember Bill Evans”. Belíssimo.




Com “Kei’s Song”, de sua autoria, abre o disco.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Edward Simon, bem longe de Maduro

A Venezuela não é pródiga em apenas produzir grandes dirigentes políticos como Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Há algo de especial nesse país. É a terra das mais belas misses. Tiveram não sei quantas beldades dentre as cinco melhor colocadas no prestigiado concurso de Miss Universo, outrora controlado pelo distinto magnata Donald Trump.

Mas é na música que a Venezuela mostra o seu diferencial em relação aos outros países da América Latina. Sem desconsiderar o Brasil varonil, que produziu Heitor Villas-Boas, Nelson Freire e revolucionou – e convulsionou – o mundo da música ocidental com a Bossa Nova. O país de Chávez tem o seu grande representante na música erudita o compositor Reynaldo Hahn, nascido em Caracas em 1847; naturalizou-se francês mais tarde. Eles possuem um dos mais revolucionários e eficazes órgãos de aprendizado musical, cujo temerário nome é “El Sistema”. Antes que o mais apressado leitor ache que foi criado pelos governos revolucionários bolivarianos, é bom que se esclareça que nasceu em 1975, ideia de José Antonio Abreu. Passou por vários governos e, reconheça-se que no período Chávez, o programa avançou bastante. Ele é dirigido à população mais carente e utiliza a música como uma via de desenvolvimento intelectual e inclusão social. Segundo a Wikipedia, atende a cerca de 350 mil jovens. É o tipo de coisa que deveria ser implantado no Brasil e em outros países que antigamente eram classificados como “Terceiro Mundo”.

Dos egressos de ‘El Sistema”, o maior nome é o de Gustavo Dudamel. É um dos maestros mais famosos da atualidade. Rege as melhores orquestra, é diretor musical da Los Angeles Philharmonic, sucedendo Esa-Pekka Salonen, seu diretor musical por cerca de dezesseis anos. Comanda também a Orquestra Sinfónica Símon Bolívar, formada por membros, em sua maioria, que cursaram o El Sistema. Dudamel é carismático, competente e vibrante, e, sinal de prestígio, grava pela Deutsche Grammophon, a mais tradicional da música erudita.

Outro nome conhecido é Gabriela Montero. Pianista, prestigiada por Martha Argerich, morando atualmente em Los Angeles, é ferrenha inimiga de Dudamel. Sua crítica é quanto ao silêncio dele em relação à atual crise do governo chavista. Mas isso são coisas da política.

Jazz na América Latina
Se na música erudita se destaca, natural que em outros gêneros menos superiores, como o jazz, a Venezuela tenha bons instrumentistas. Os pianistas Silvano Monasterios, Luis Perdomo e Edward Simon são bons exemplos.

Devido a proximidade com os Estados Unidos, por capilaridade, os primeiros músicos de países de língua hispânica a se destacar foram os da América Central e proximidades. Além de bananas, “exportaram” os ritmos “calientes”, que chegaram pelas mãos de Mauro Bauza e Machito. Cuba é o país campeão exportador, principalmente, pianistas. De memória, posso citar Bebo Valdés, Chucho Valdés, Gonzalo Rubalcaba, Omar Sosa, Roberto Fonseca, Aruán Ortiz, Alfredo Rodriguez e Harold López-Nussa. Dos citados, os quatro últimos são da novíssima geração. Nos outros, temos Danilo Pérez (Panamá), Edsel Gomez (portorriquenho, que passou uma temporada no Brasil), Arturo O’Farrill (mexicano de nascimento, filho do cubano Chico O’Farrill) e Michel Camilo (República Dominicana).

Edward Simon “for export”
Todos têm em comum o fato de, para ficarem conhecidos, tiveram de ir para centros maiores. É o caso de Edward Simon. Jovem ainda mudou-se para os Estados Unidos e estudou piano na Philadelphia Performing Arts School e na Manhattan School of Music, com Harold Danko. Com 46 anos, é um músico respeitado e, antes de seus álbuns como líder, gravou com Paquito D’Rivera, Bobby Hutcherson, Bobby Watson, Terence Blanchard e Greg Osby. Seus dois últimos discos foram lançados pela prestigiada Sunnyside. Simon saiu da América Latina, mas o latinismo não saiu dele. O de 2013, chama-se “Venezuelan Suite”, o mais recente, “Latin America Songbook”. Aliás, a maioria de sua discografia é composta de títulos hispânicos.

“Venezuelan Suite” é composta de cinco movimentos, e é uma peça ambiciosa, com belos arranjos executados por Mark Turner (sax tenor), Marco Granados (flauta), John Ellis (clarineta baixo, mas primeiras quatro faixas), o colombiano Edmar Castañeda (harpa, primeira faixa), contrabaixo, bateria, Jorge Glem (quatro, instrumento venezuelano de quatro cordas, dimensões entre o o violão e o cavaquinho), Leonardo Granados (maracas), e Luis Quintero (percussão).

“Latin American Songbook” segue uma estrutura mais simples, em formato trio piano (ele), Joe Martin (contrabaixo) e Adam Cruz (bateria). A escolha das canções é o diferencial. É o melhor do melhor da música latino-americana, a começar por “Libertango”, de Astor Piazzolla. Fica melhor ainda com o clássico “Afonsina y el mar”, de Ariel Ramirez. As outras são “Capullito de Aleli” (Rafael Hernández), “Volver”, de Carlos Gardel, “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, “En la Orilla del Mundo”, de Martin Rojas, e o nosso “Chega de Saudade”, do mestre Jobim.

“Alfonsina y el Mar”, de Ariel Ramirez, é muito conhecida na voz de Mercedes Sosa, aqui no Brasil. É um daqueles clássicos sublimes. Veja Simon interpretando-a.




Veja Simon e seu trio em “Double Rainbow”, conhecida por nós como “Chovendo na Roseira”.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Hampton Hawes, antes e depois da cadeia

Hawes na capa de “The Sermon”
O amigo Zeca Leal gostava de dizer que nos anos 1950/60 a melhor banda americana de jazz era a do presídio de San Quentin. Era um tremendo piadista e foi quem mais comprou discos de Frank Sinatra no Brasil (sobre isso, leia o Caso 1 do post “Frank faz 100 anos”).

Hampton Hawes nasceu em Los Angeles, em 1928, para manter um pouco a escrita dos músicos, filho de pastor presbiteriano e mãe pianista da Igreja. Autodidata, sem formação acadêmica, foi um pianista dos grandes. Com 19 anos, estava tocando com Howard McGhee. Serviu o exército, no Japão, de 1952 a 1954. Logo depois, formou um trio com Red Mitchell e Chuck Thompson. Com eles gravou três álbuns intitulados “The Trio” pelo selo Contemporary. No ano seguinte, com o acréscimo do guitarrista Jim Hall e Bruz Freeman no lugar de Thompson, lançou “All Night Sessions” em três volumes separados. Tornou-se a sensação da Costa Oeste. Foi o “New Star of the Year” pela Downbeat e o “Arrival of the Year” pela Metronome. O futuro que se apresentava róseo, pretejou com a prisão por porte de heroína. A pena foi dura: dez anos de cadeia.

A promessa foi encarcerada, como tantos músicos que tiveram o mesmo destino. Pouco antes, gravou “Mingus Three”, com o baixista Charles Mingus, e “The Sermon”, com spirituals. Saiu graças a um indulto pedido e aceito pelo presidente Kennedy, em 1963. Retomou a carreira. Em 1967, fez uma longa excursão pela Europa e viu que tinha fãs ardorosos pelo mundo. Seu estilo, segundo os críticos, influenciou Oscar Peterson, Horace Silver, Claude Williamson e Toshiko Akiyoshi. Não é pouco.

Movimento inverso

Como não sou da geração do Zeca, o primeiro disco que ouvi do pianista foi “As Long As There’s Music” (1976), duo com o Charlie Haden. Tinha conhecido alguns álbuns de Keith Jarrett e, por tabela, fiquei fã de Dewey Redman, Paul Motian e Haden, e foi por meio dele, conheci Hawes.

Ouça “Irene”, a primeira faixa.



Ouça “Turnaround”, de Ornete Coleman, ídolo de Haden.



O segundo álbum que conheci de Hawes foi “Live at The Montmartre”, de apresentação no famoso clube de Copenhagen, em 1971, adquirido ainda na época em que não existiam os CDs. Mais uma vez, a admiração era pelas linhas sinuosas e enérgicas ao piano. O início do disco, com o trio composto por Henry Franklin no baixo e Michael Carvin na bateria, é o perfeito exemplo em “The Camel”, de autoria do último. Como é uma gravação ao vivo, os dois últimos registros estão um tanto abafados e devem ter sido feitos em noites diferentes. A última, por sinal – “Dexter’s Deck” –, conta com Dexter Gordon no sax tenor.

Ouça o álbum na íntegra.



O Zeca, sendo de outra geração, trinta anos mais velho que eu, sendo da era dos LPs, não tinha muitos CDs. LPs pioram a cada audição por conta do atrito de uma agulha com o vinil. Agora, imagine o estado dos LPs do Zeca comprados ainda nos anos 1950 e início dos 1960. Deviam estar um chiado só.

Ele passou a vir com frequência à minha casa para gravar os seus álbuns preferidos em fitas cassete, outro formato que caiu em desuso, mas comum em carros, mesmo depois do advento dos CDs.

Nessas visitas, conheci muitos músicos antigos, com direito a muitas histórias. Tinha também cadernos com letras de tudo quanto é standard do cancioneiro americano. Ele emprestava, eu copiava em xerox. Minha coleção foi sendo formada em sentido inverso de tempo. Comecei comprando Chick Corea, Herbie Hancock, Keith Jarrett e os mais recentes de Miles Davis. À medida que ia me aprofundando na linguagem do jazz, fui atrás de álbuns antigos de Miles, Thelonious Monk, Duke Ellington, Count Basie, Art Tatum e Billie Holiday, dentre outros, para depois conhecer aqueles um pouco menos conhecidos como Phineas Newborn Jr. (era um dos que o Zeca admirava) e Hampton Hawes. Aprendi a admirar alguns que não faziam do meu panteão do piano, como Oscar Peterson, Dick Farney e Dave Brubeck. Gostava e conhecia bem o popular “Time out”, mas não outras coisas mostradas pelo Zeca.

Em uma dessas vezes em que esteve na minha casa, perguntou-me se tinha algo de Hampton Hawes. Feliz, mostrei os dois CDs comentados acima. Esses, nunca tinha ouvido. Coloquei o ao vivo em Montmartre. Não pareceu muito animado ao ouví-lo. Nem interessou-se em gravar. Contou-me que ele tinha passado uma boa temporada na cadeia e que as melhores coisas dele eram dessa época. Como bom colecionador, fui atrás. Aprendi muito com o Zeca. Foi um dos meus mestres.

Ouça “The Blues Most”, do primeiro “The Trio”.




Ouça também o que faz na balada “So in Love”, de Cole Porter.




Ouça a tradicional “Nobody Knows the Troubles I’ve Seen”, de “The Sermon”.




quinta-feira, 7 de abril de 2016

Bill Charlap, próximo da perfeição

É só olhar qualquer foto de Bill Charlap para se concluir: Bill nasceu velho; isso, apesar da cara de eterno adolescente. Parece que Bill nasceu vestindo terno. Não deve ter cometido alguma travessura quando menino. Com a sua aparência, é difícil imaginá-lo endemoniado como Cecil Taylor ou Hermeto Pascoal.

Na vida real, parece que vive em outro tempo. Há dez anos, não possuía nem um computador em casa. Seu empresário vivia a reclamar  da dificuldade de encontrá-la por ele não ter um telefone celular. A única pessoa que sei não possuir um celular, fora o nosso ex-presidente Lula, é o meu amigo Takashi Fukushima. Quando ganhou um de presente de Natal dos filhos, recusou-se a recebê-lo.

Por ser essa a sua imagem, Charlap é visto por muitos como o epítome do jazz careta, ou melhor, mainstream. Mas, olhando-se um pouco além da superfície, podemos ter algumas surpresas. Bill é a música em si e é um tremendo pianista. Filho de Sandy Stewart, cantora veterana com quem chegou a gravar dois álbuns – Love Is Here to Stay e Something to Remember – e do compositor de musicais da Broadway, Moose Charlap, primo distante de Dick Hyman, é ainda casado com a também pianista Renee Rosnes. Juntos, gravaram Self-Portrait (Blue Note, 2010).

O que parece e não é
Julgando um pouco pelas aparências, não me interessei em ouvir Bill. O que me fez mudar de ideia era o entusiasmo de Carlos Conde, dono de um programa semanal de jazz na rádio Cultura, e de seus amigos por ele. Fã do formato trio piano, baixo e bateria, comprava tudo o que era lançado pela Venus Records. Apesar da preponderância de álbuns nesse formato, com pianistas do primeiro time como Kenny Barron, Roland Hanna, Stefano Bollani e Steve Kuhn, constam em seu catálogo outros instrumentistas, como Barney Wilen, Nikki Parrott, Peter Bernstein e Archie Shepp, mas com repertório mais orientado ao chamado mainstream. Em sua maioria, por esse selo, são creditados como sendo do New York Trio, liderado por ele, mas que tiveram baixistas e bateristas diferentes ao longo da sua existência.

A imagem do “certinho” não funciona muito no meio da música. Virou senso comum de que o artista tem de ser um maluco. Criativos são doidões, drogados e imprevisíveis. Mas nem tudo é assim. O mito do artista maluco, que parecia ser a norma, que morria cedo e Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison são os exemplos, foi rareando. É certo que que, de tempos em tempos, surge alguém para rememorar o mito, como foi o de Amy Winehouse. Existe um preconceito contra esses certinhos, até na política, como estamos vendo por esses tempos. Certinho é o “coxinha”, termo inventado pelos paulistas, e, por conseguinte, de direita, o que é uma tremenda bobagem. Para parecermos “moderninhos” ou joviais devemos amar o rebelde. É uma atitude que se reflete até no jazz. Quando surgiu Wynton Marsalis, logo o reconheceram como grande instrumentista, mas muitos torceram o nariz, principalmente por suas declarações em favor de resgates de valores do jazz tradicional e pelo seu jeito de certinho, sempre de terno e gravata. Para piorar, os músicos que o rodeavam também eram assim, pelo menos, por fora. Quando emergiu outro membro da família, o irmão Branford, este representou o oposto, apesar de vestir-se do mesmo modo. Com a cabeça mais aberta, foi tocar com o pop Sting e ainda montou a banda Buckshot LeFonque. Eu preferia Branford, até porque prefiro o som do saxofone ao trumpete.

O reconhecimento
Nas listas dos melhores pianistas que saem anualmente, Bill Charlap é pouco lembrado. Vendo as duas últimas da Downbeat, estão os “emergentes” Vijay Iyer, Jason Moran e os veteranos Keith Jarrett, Kenny Barron e Ahmad Jamal. Na de 2014, ficou em 18º, e na de 2015, em 11º lugar.

Em 2015, Charlap lançou, com Tony Bennett, The Silver Lining. A crítica foi unânime em classificá-lo como um dos melhores do ano. Recebeu cinco estrelas pela Downbeat.

Agora, no mês passado, saiu Notes from New York. Tendo seus últimos álbuns lançados pela Blue Note, este é o primeiro pela Impulse!, selo conhecido por ter tido Bob Thiele como diretor e John Coltrane, Charles Mingus e McCoy Tyner no seu plantel. Esta é a terceira vez, se não me engano, que o selo é reativado. Dessa vez, estão caprichando. Lançaram discos Jim Hall, Charlie Haden, Gonzalo Rubalcaba, John Scofield, Dave Holland, Kenny Barron e Ran Blake, mas estão investindo em novos talentos como o de Sarah McKenzie, Indra Rios-Moore e Sullivan Fortner. 

O trio de Bill Charlap é completado por Peter Washington no contrabaixo e Kenny Washington na bateria. Não é exatamente uma nova fase de Bill. É apenas a continuação de seu trabalho cada vez mais refinado no gênero trio. Allen Morrison, em recente crítica, em que deu cotação máxima, é só elogios. Toca na questão do termo “mainstream”: “O termo mainstream deixa de ter significado quando alguém considera a maestria técnica de Charlap, sua sutileza e incansável invenção melódica – ou deveria dizer, reinvenção.” Diz ainda que o disco é um “masterclass” e diz ainda que I’ll Remember April, a primeira faixa já vale o preço dele. Outra coisa boa é a de que Bill gosta de standards, mas não fica só em temas batidos.

Ouça I’ll Remember April, a faixa que vale o preço pago.



A minha preferida é outro conhecido standard. Ouça Too Late Now.



On the Sunny Side of the Street, a faixa de encerramento, é excepcional também. É um solo ao piano em que Bill subverte a melodia, tocando em andamento bem lento.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Paul Bley, o homem que amou suas mulheres

Já notaram como acontecem mortes em dezembro? Nada acaba senão o ano e inicia-se outro, mas o mês é marcado por alguma força simbólica que faz com que as pessoas fiquem mais estressadas, caiam em depressão, planejem fazer diferente a partir do mês seguinte. 

Uma significativa foi a de Cassia Eller em 29 de dezembro de 2001. Em pleno clima de festa, entre o Natal e a passagem do ano, morre subitamente. Em certo momento, passei a prestar atenção. Músicos como Dave Brubeck (5), Cesária Évora (17), Sam Rivers (26), Bob Brookmeyer (16), Ravi Shankar (11), Kurt Masur (19), Natalie Cole (31), atores, como Sérgio Brito (17), Rodolfo Bottino (11), artistas plásticos, como Helen Frankenthaler (27), Elsworth Kelly (27), Mário Gruber (30), arquitetos, como Oscar Niemeyer (5), jornalistas e escritores como Christopher Hitchens (15), Daniel Piza (30), Christa Wolf (1), e o cartunista Ronald Searle (30, todos morreram em dezembro. É mais traumático ainda quando acontece bem próximo às festas de fim de ano.

Como a temporada de chuvas, que, às vezes, se antecipa, ou atrasa, dessa vez, foram poucos os nomes conhecidos a falecer no mês: dos citados, apenas o maestro Kurt Masur, a cantora Natalie Cole e o pintor Elsworth Kelly; mas, iniciado o ano, temos os falecimentos do maestro e compositor Pierre Boulez (5), David Bowie (10) e Paul Bley (3). Cada qual em sua área, foram protagonistas, principalmente os dois primeiros.

O pianista Paul Bley é mais conhecido apenas por aqueles que têm um conhecimento acima do básico no jazz. É uma figura importante e esteve na vanguarda das transformações que ocorrem a partir de meados dos anos 1950s. Teve seu primeiro disco lançado em 1953, ou seja, há mais de 60 anos. E não foi um início qualquer. Introducing Paul Bley saiu pela Debut Records e completavam o trio nada menos que Charles Mingus e Art Blakey. Nos anos formativos, tocou ainda com Charlie Parker, Lester Young e Ben Webster.

O free jazz estava sendo gestado na banda em que fez parte com Don Cherry, Ornette Coleman, Charlie Haden e Billy Higgins. Participou também de outra formação importantíssima nas mudanças que aconteciam. Foi o pianista da banda formada por Jimmy Giuffre, Jim Hall e Steve Swallow. O nome do canadense está também associado ao Jazz Composers Guild, movimento de vanguarda novaiorquino que teve como expoentes Roswell Rudd, Cecil Taylor, Archie Shepp, Carla Bley, Michael Mantler e Sun Ra.


Annette Peacock e Carla Bley

As melhores performances de Paul, na minha opinião, são as da década de 1960. Três álbuns da Arista Freedom, em formato trio, são excepcionais: Touching (1965), Blood (1966) e Live in Harleem (1966). Com Kent Carter ou Barry Levinson no baixo, Barry Altschull na bateria, sua música é pura energia, com improvisos bem no espírito do free jazz. Compositor também, privilegiou obras de Karen Borg, conhecida com o nome artístico de Carla Bley, sua mulher desde 1957, e de Annette Peacock, com quem se casaria em 1966.

Enquanto muitos dos músicos dessas vanguardas estavam a explorar novas sonoridades por meio de instrumentos acústicos, nos últimos anos dos 1960, os interesses de Paul Bley se direcionaram para um novo instrumento, o Moog, o primeiro sintetizador a surgir, ainda analógico, inventado por Robert Moog.

Com Annette sobrenome de seu ex-marido Gary Peacock, amigo e companheiro de Paul nas aventuras musicais, sua mulher então, lançou Dual Unity, em 1970. O disco é cheio de experimentações com sintetizadores Moog, piano acústico e elétrico. É interessante por isso, mas é um tanto datado, ouvido agora.

Já a fase elétrica em que Paul é líder sem Annette, é menos radical. Os destaques são Paul Bley & Scorpio, pela gravadora Improving Artists Inc, criada por ele e Carol Gross, com quem casaria em 1980, e Jaco (IAI 1974), com Jaco Pastorius e Pat Metheny em início de carreira.


Ouça Donkey, deste álbum. Foi composta por Carla Bley.




Em 1970, Paul Bley passou a lançar discos pela ECM. Provavelmente, são os trabalhos mais conhecidos do pianista pela penetração que esta gravadora conseguiu nos mercados europeu e americano. Prolífico, concomitantemente gravou na italiana Soul Note, na dinamarquesa SteepleChase, na francesa Owl, e na canadense Justin’Time. O que há em comum em todos os discos de Bley, e o que era fato, desde meados da década de 1960, sua preferência pelo repertório das ex-mulheres Carla Bley e Annette Peacock. Repetindo indefinidamente clássicos de Carla como Vashkar, Ida Lupino, Seven, Olhos de Gato e Ictus, dentre outras, e El Cordobés, Blood, Cartoon, Mister Joy e Touching, de Annette Peacock, Paul demonsstrou o grande amor musical que nutriu por suas ex-mulheres. É uma obra prima atrás da outra.

Ouça Olhos de Gato, Carla.




Outro grande clássico é Seven, de Carla.




De Annette, ouça Blood, do álbum Jaco.




Os primeiros álbuns na ECM ainda eram inquietantes, diferentes. Aos poucos, entrou no espírito ECM, o que não quer dizer que tenha ficado chato. Mas aí é outra história: Bley resolveu, como diria o poeta, “ser eterno”. Mas nunca perdeu a excelência.



quinta-feira, 21 de maio de 2015

O pianista prodígio Joey Alexander

Herbie Hancock e Joey Alexander
Um garoto de calça jeans, vestindo uma camiseta com uma imagem do Joy Division desliza sobre patins no Central Park em uma tarde ensolarada. Perguntam-lhe se gosta da banda de Ian Curtis. “Sei pouco dela – admite –, mas gosto da camiseta.” Os óculos um pouco grandes para o rosto de menino impúbere, de aros grossos, lhe dão um ar levemente nerd.

Com seis anos começou a dedilhar no piano da família. Uma das primeiras coisas que conseguiu tocar foi Well You Needn’t, de Thelonious Monk. Era uma das canções de que tinha gostado da coleção de CDs de jazz do pai, que tinha adquirido gosto pelo gênero quando estudou finanças na Pace University, em Nova York. Logo o colocaram em uma escola de música.

Percebendo o talento do menino, saíram de Bali, e mudaram-se para Jacarta. Em pouquíssimo tempo, participava de jam sessions com outros músicos, que o convidavam. Josiah Alexander Sila era um fenômeno. Com poucas aulas, sua evolução era surpreendente e revelava uma intuição musical que extrapolava o simples aprendizado. A reviravolta na vida de Josiah, agora chamado Joey, aconteceria quando foi convidado para tocar com Herbie Hancock em um evento patrocinado pela Unesco.

A vida da família Sila passou a girar em torno do pequeno Joey. Depois de ter se apresentado em festivais de jazz em Jacarta e Copenhagen e ter recebido calorosa acolhida, mudaram-se para Nova York. No pouco tempo em que está na cidade, tocou no Lincoln Center, ganhou elogios de Wynton Marsalis, foi convidado a apresentar-se em agosto no Festival de Jazz de Newport, e assinou contrato com a gravadora Mótema Music, pela qual acaba de lançar o álbum My Favorite Things.


Meninos prodígios
Na música erudita, são conhecidos muitos casos de garotos (ou garotas) prodígios, como os de Mozart e dos pianistas Nelson Freire, Claudio Arrau e Martha Argerich – para ficarmos apenas nos exemplos de latino americanos. Mas no jazz isso também não é tão incomum. Conhecidos, temos o guitarrista Biréli Lagrène, o menino cigano que foi revelado com sete anos, e o saxofonista alto Francesco Cafiso, que gravou seu primeiro álbum com 15 anos. Mas Joey Alexander é um caso especial, não apenas pela facilidade em tocar o piano, tornando-se desnecessário até aulas no conservatório, mas pela facilidade de improvisar sobre os temas, coisa que quase nenhum prodígio da música erudita consegue. Uma boa mostra dessa limitação é a admiração que Nelson Freire tem por Erroll Garner, revelada no documentário dirigido por João Moreira Salles. É a admiração pelo dom que Nelson não tem: a capacidade de improvisar.

Quem ouve o piano de Joey sem vê-lo, nunca imaginará que tem apenas 13 anos. Isso não acontece apenas pela técnica, apesar dos poucos anos de aprendizado, mas pela sua capacidade de improviso. São poucos os que têm o dom de criar dinâmicas sonoras a partir de um tema. Pelo que demonstrou, é um gênio. Talvez seja precoce dizer que é. Se não evoluir e tornar-se um fracasso, não será o primeiro. No jazz, um bom exemplo é Elgar Djangarov. Descoberto no Quirquistão, participou do programa de Marian McPartland quando tinha 12 anos, e revelou uma técnica fenomenal. Mas técnica não é o suficiente. Aparentemente, não está vingando. É a minha opinião, esclareço. Quando o vi, em um festival em São Paulo, achei muito chato. De instrumentistas habilidosos estamos cheios.

A prova de que Joey Alexander possui essa inteligência musical que extrapola a técnica, basta ouví-lo executando Giant Steps, de John Coltrane, faixa de abertura de My Favorite Things.






Veja Alexander executando Lush Life, de Billy Strayhorn, em um programa de televisão, na Indonésia. Essa canção é a segunda faixa do álbum, nesta apresentação, com outros músicos.





Outra composição incluída no CD é ’Round Midnight. Veja-o tocando a mesma música no Lincoln Center, quando tinha 10 anos.





Ma Blues é uma das melhores faixas do álbum. Ouça.Veja-o tocando Ma Blues com seu trio indonesiano.






Ninguém imaginaria que um tema da Disney se tornasse um standard do jazz. Ouça Joey em My Favorite Things, clássico consagrado por uma versão matadora de John Coltrane no saxofone soprano.





Over the Rainbow é o tema que fecha o álbum.

terça-feira, 12 de maio de 2015

O “criacionismo” de Keith Jarrett

Aquele 24 de janeiro de 1975 tinha tudo para dar errado. Estava marcada uma apresentação de Keith Jarrett, à noite, no teatro Köln Oper. Tradicional, fundado no século XIX, severamente destruído na Segunda Guerra, a nova Ópera fora projetada por Wilhelm Riphahn e reinaugurada em 1957.

Por algum mal entendido, o piano Bösendorfer 290 Imperial não estava no teatro. Havia apenas um da mesma marca, de modelo inferior, usado apenas para os ensaios. Técnicos passaram a tarde tentando afiná-lo e constataram deficiências nas notas mais altas e graves. Keith tinha acabado de chegar de Zurique, Suiça, de carro. Ao saber da situação, disse que não se apresentaria. O staff da gravadora ECM estava com os equipamentos para registrar o show e a produtora estava à beira do desespero. Com muito custo, convenceram o americano.

Aquele dia 24 tornou-se histórico. Jarrett sentou-se ao piano e começou a improvisar do “nada”. O teatro lotado caiu aos seus pés com a apresentação antológica. O prenúncio de que seria um desastre, por milagre, foi glorioso. Deus devia estar por lá.

Apesar de ter feito o mesmo em outras ocasiões, registradas no álbum Bremen-Lausanne, o álbum que dele resultou – Köln Concert – tornou-se o disco de jazz mais vendido de todos os tempos.

Ouça a Part I do concerto, a melhor.



Keith, antes e depois
No início da carreira, Jarrett tocou nas bandas de Charles Lloyd e Art Blakey. Por breve período, esteve com Miles Davis também. Montou um trio com Charlie Haden e Paul Motian, com quem gravou o primeiro solo, em 1967. Seus primeiros são pela Vortex e, a seguir, pela Atlantic, Impulse e Columbia. Quando passou a lançar seus discos pela ECM, montou seu “quarteto europeu” com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen. Era o contraponto ao seu “quarteto americano”, composto por ele, Haden, Motian e Dewey Redman.

Jarrett já era bem conhecido quando Köln Concert foi lançado. Mas foi a sua consagração como compositor e pianista. A sólida formação e o interesse pela música erudita fê-lo enveredar por várias vertentes. Estimulado por Manfred Eicher, dono da ECM, registrou álbuns diferenciados. Dessa época do disco do recital de Colônia, destacam-se Arbour Zena, com orquestra, Haden e Garbarek, Ruta & Datya, um interessante duo com Jack DeJohnette, quando tocou pela última vez algum instrumento elétrico. Gravou também clássicos de Johann Sebastian Bach, Shostakovich, Handel e Mozart.

Ouça You Know, You Know, com ele no piano Fender.


Ouça o belíssimo álbum Arbour Zena, com Charlie Haden, Jan Garbarek e orquestra, na íntegra.



Gravou, no início dos anos 1980, dois álbuns intitulados Standards I e II, no formato mais tradicional do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. Ficou afastado um tempo do piano em razão da CFS, a síndrome de fadiga crônica que o acometeu no fim dos anos 1980. Após o restabelecimento, passou a gravar solos com maior frequência que seguiam o modelo de Köln Concert, na maioria, tiradas de apresentações ao vivo.

O solo novo
De hoje em dia, tudo se grava, tudo se fotografa e tudo se registra por meios mais simples. Basta um telefone celular ou um iPad. Ficou fácil gravar, com qualidade. Como as horas de estúdio são caras, óperas e concertos são captadas “ao vivo”. E vamos combinar: “improvisos” são espontâneos. É mais fácil ‘inspirar-se” com gente ouvindo do que na solidão de um estúdio.

Quase todos os álbuns do pianistas lançados nos últimos anos são registros de shows, inclusive os de seu trio com Peacock e DeJohnette. As exceções são The Melody at Night, With You (1998) e os duos Jasmine e Last Dance, com Charlie Haden, gravados na casa de Jarrett. Os últimos solos são Radiance (2002), Carnegie Hall Concert (2005), Paris/London: Testament (2008) e Rio (2009). São todos de qualidade superior. Tudo o que sai de suas mãos é muito bom, tão bom que parece que está sempre fazendo mais do mesmo, e assim mesmo, original.

Acaba de ser lançado mais um. O título é um pouco pernóstico: Creation. Mas, perdoa-se, se é a música de Jarrett. Desta vez, as músicas não fazem parte de uma cadeia de “inspirações”, normalmente intituladas Part I, Part II etc. Bem, os títulos são esses, mas cada parte foi tirada de apresentações em Toronto (Roy Thomson Hall), Paris (Salle Pleyel), Tóquio (Kioi Hall e Orchard Hall) e Roma (Auditorium Parco della Musica), mas mesmo assim, a escolha de cada trecho apresenta uma unidade.

A Parte I se inicia em tom menor, dramática, e não faltam os grunhidos característicos de fundo. Jarrett exige que a plateia fique em silêncio e já chegou a interromper apresentações por causa de gente tossindo. Só ele pode fazer os seus “barulhos”. Não é o pioneiro em “cantar” junto. Thelonious Monk é um que fazia isso, assim como Charles Mingus e Massabumi Kikuchi. Os “grunhidos”, no entanto, mais célebres são os do pianista erudito Glenn Gould.

É difícil destacar alguma parte. Pelo meu gosto, prefiro as do meio para a frente, a partir da Part VI, que é uma das minhas preferidas. A seguinte é muito boa também. A mão direita faz a base e boa parte da melodia flui nas notas médias com a mão esquerda.

Nota: Tentei disponibilizar o áudio de uma das “partes” no YouTube, mas não foi possível por razões de direitos autorais. Era apenas uma forma de divulgar e não era por razões comerciais.


Ouça um sample de Creation.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

As vidas de Leon Fleisher

Se é bom ou não ter mãe judia, é uma questão de ponto de vista. A mãe de Leon Fleisher deu-lhe duas opções para ser quando crescesse: ser o primeiro presidente judeu dos Estados Unidos ou ser um grande concertista de piano. Não era pouco. Leon ficou com a segunda opção, pois foi o que a vida lhe permitiu.

Hoje, com mais de 80 anos, reconhece: a busca pela perfeição lhe trouxe “grande desespero, autopiedade, infelicidade aliada à imensuráveis êxitos.” Movido pela ambição da mãe e guiado por um talento natural, perseguiu seus objetivos com tenacidade e boas escolhas. Estudou piano desde os quatro anos e mais tarde Arthur Schnabel, aquele que por alguns é considerado o melhor intérprete de Beethoven de todos os tempos, foi seu professor. Estava com 16 anos quando apresentou-se pela primeira vez com a New York Philharmonic, sob regência do lendário Pierre Monteux. Foi uma estreia de ouro. Assinou contrato como artista exclusivo da Columbia. Seu gênio ficou evidenciado com as gravações dos cinco concertos para piano de Beethoven e os dois de Brahms realizadas com a Cleveland Orchestra, regida por um dos grandes maestros da história, o húngaro George Szell.

Ouça os cinco concertos para piano e orquestra com Leon Fleisher.




Um pequeno acidente. Sua mãe devia estar radiante. Mas tem sempre o imponderável. A carreira de grande concertista sofreu um revés. Por um desses golpes do destino, aconteceu um problema com sua mão direita. Pianistas são “ambidestros” por força da necessidade. Como concertista seus dias tinham chegado ao fim. Fosse pelo desejo materno, sobrara a opção de ser o primeiro presidente judeu.

“Eu estava me preparando para a mais importante turnê da minha vida, quando sofri um pequeno acidente doméstico. Cortei meu polegar numa peça de mobiliário barato de jardim e tive dar um par de pontos. Quando voltei a praticar novamente, não sentia direito o lado direito da minha mão direita. Meu quarto e quinto dedos pareciam querer virar para baixo. Pratiquei mais e mais, sem ouvir que meu corpo, por meio da dor, dizia para eu parar. As coisas foram piorando tanto que em menos de um ano aqueles dois dedos ficaram completamente curvados para baixo. Não podia mais tocar piano.”

Como bom filho de mãe judia, não ia desistir. Foi atrás do que fosse possível tocar apenas com a mão esquerda. Quem gosta de musica clássica conhece o Concerto para Mão Esquerda, de Maurice Ravel; e deve saber que fora composta por encomenda de Paul Wittgenstein, pianista austríaco que teve o braço direito amputado na Primeira Guerra Mundial. Wittgenstein encomendou obras no mesmo formato também para Richard Strauss, Korngold, Hindemith, Prokofiev e Britten.

O problema com a mão não trouxe percalços apenas à carreira. Acabou o casamento, pensou em suicídio, deixou a barba e o cabelo crescerem e comprou uma Vespa (hoje esse tipo de veículo é chamado de Scooter; naquela época, era conhecido como lambreta). Sua vida tinha perdido a direção. Reencontrou-se parcialmente como professor de música e como regente.

Fleisher tentou de tudo. Consultou-se com médicos, psiquiatras, acupunturistas, fez hipnose e tentou outros procedimentos alternativos. Nada feito. Em vez de resolvê-lo, teve outro problema regendo. O esforço de segurar a batuta e movimentar o braço causou-lhe uma neuropatia, que hoje chamam de L.E.R., conhecida como síndrome do túnel do carpo. Teve de fazer uma cirurgia para minorar o problema. Por uma dessas incongruências, após a operação, os dois dedos voltaram a ficar retos. Depois de 18 anos, e já com mais de 50, poderia voltar a tocar com as duas mãos. Programou uma serie de concertos para anunciar o seu “comeback”. Percebeu, no entanto, que sua capacidade de encarar qualquer peça do repertório clássico, como os concertos de Brahms, estava comprometida. Voltou a apresentar-se privilegiando o repertório para a mão esquerda.

Precisou mais de dez anos para que descobrisse que sofria de uma doença neurológica chamada distonia focal, mal comum em jogadores de golfe e sopradores de vidro. Se não tivesse sido acometido desses problemas, é provável que Leon hoje fosse incensado como Sviatoslav Richter, Emil Gilels, e seu mestre Arthur Schnabel. Mesmo não podendo usar a direita, continuou grande músico. Quando a gravadora Philips organizou a coleção Greatest Pianists of the 20th Century, Fleisher foi um dos escolhidos. Sinal da sua importância, mesmo depois de seu problema com a mão.

Quando ainda eram incipientes os experimentos com o botox, e antes que as madames passassem a usar para disfarçar rugas em volta da boca e dos olhos, descobriu-se que uma aplicação na mão a cada quatro meses, dirimia seu problema dos dedos.

Com 75 anos, em 2004, lançou pelo selo Vanguard Classics, o álbum, convenientemente, intitulado Two Hands. Foi um sucesso. É um disco de “encores”. É composta de peças curtas, em que incluem-se peças conhecidas como Jesus, Alegria dos Homens (Bach), Clair de lune (Debussy), Noturno no.2 (Chopin), dentre outras, e uma de maior fôlego, a Sonata em Si maior D.960, de Franz Schubert. Esta última é uma das peças essenciais do piano solo e prova de fogo para os virtuoses. E a interpretação de Fleisher está entre as melhores, à altura de Alfred Brendel, Radu Lupu, Sviatoslav Richter, Murray Perahia e András Schiff.

Veja Leon Fleisher executando o Noturno no. 2, de Chopin em www.youtube.com/watch?v=iBBVmlyHq48


Ouça Clair de lune, de Debussy.




Veja Fleisher executando um trecho da Sonata D.960, de Franz Schubert.




Leon toca Jesus Alegria dos Homens, de Johann Sebastian Bach.




Ainda na ativa. Leon Fleisher nasceu em 23 de julho de 1928, o que quer dizer que, mais três anos e pouco estará com 90. Apesar das dificuldades, nunca abandonou a música. Ainda neste ano lançou All The ThingsYou Are. Executa várias peças para mão esquerda de autores americanos como Dina Koston e George Perle, além de Jerome Kern, autor da música título, e George Gershwin, com The Man I Love, brilhante, em uma adaptação de outro brilhante pianista americano, Earl Wild. Completam o CD lançado pela Bridge Records o Prelúdio no. 6 de Mompou, a Chacona da Partita para violino em ré menor, de Johann Sebastian Bach, transcrita por Johannes Brahms para a mão esquerda, e uma de sua autoria (L.H.). São números, na maioria, para a mão esquerda.

Para sair do terreno mais erudito, vamos ouvir The Man I Love.




Veja um trecho de um workshop com Leon Fleisher e Yo-Yo Ma do ano passado.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Belo duo de piano com Bill Carrothers e Marc Copland

Carrothers (esq.) e Marc Copland. Foto: Cecile Mathieu
Se um piano é chato, imagine dois ao mesmo tempo. Essa teria sido a frase de Carlos Conde, um dos meus professores e grande aconselhador quando o assunto era jazz. Ele detestava discos e shows de piano solo. Duas histórias são exemplares. Uma aconteceu comigo.

Tínhamos ido a um dos festivais de jazz que aconteciam no Auditório Ibirapuera no mês de outubro. Em cada noite, eram três ou quatro atrações. Nesta, em que estava com o Conde e o Alberico Cilento, a grande atração era Brad Mehldau… em apresentação solo. A certa altura, ele disse: “Coitado desse rapaz. Ele é muito triste.” Os solos densos, algo cerebrais, influenciados pelo romantismo de Franz Schubert e Robert Schumann, decididamente não faziam a sua cabeça. Sem bateria não existia bom jazz, na sua opinião.

Em outra feita, contou-me o Alberico, seu companheiro em várias viagens para os EUA, quase que exclusivamente para verem apresentações em clubes de jazz e comprarem discos, estavam em Washington e viram que Keith Jarrett estaria se apresentando lá. Muito em cima da hora, os ingressos estavam esgotados. Fizeram uma venda extra permitindo que alguns ficassem sentados no chão nos cantos do palco. Acomodaram-se bem perto do piano. Em uma hora, o Alberico percebeu que alguém próximo ressonava. Era o Conde dormindo no show de Jarrett. Dá para imaginar?

Comigo, ao contrário, uma das coisas que mais gosto é de um piano solo. Não apenas no terreno do jazz, em que despontam Mehldau e Jarrett, mas, principalmente na música erudita, em que há uma infinidade de virtuoses geniais como Nelson Freire, Helène Grimaud, Paul Lewis, Angela Hewitt, András Schiff, Martha Argerich, Maria João Pires, bom, paro por aqui, tocando as minhas peças favoritas de Chopin, Schubert, Schumann, Bach e Beethoven.

Se um piano é bom, imagine dois ao mesmo tempo, repetindo a primeira frase com uma pequena diferença. Pensando bem, nem sempre dá certo. Alguns podem discordar, mas o de Herbie Hancock e Chich Corea, dois dos maiorais do jazz, estou dizendo de An Evening with Herbie Hancock & Chick Corea (CBS, 1978), é chato.

Ouvi há poucos dias um em que a fórmula funciona, e bem: No Choice (2006), de Bill Carrothers e Marc Copland. O problema mais comum desse tipo de disco é de não conseguirmos definir quem é quem. As melhores soluções são sempre as mais simples: você ouve Carrothers no canal esquerdo e Copland no direito.

O início do CD é primoroso. A escolha também é feliz. Lonely Woman, de Ornette Coleman, é um daqueles standards modernos que vieram para ficar. Ouça.




No repertório escolhido por ambos incluem-se standards tradicionais como You and the Night and the Music, Take the “A Train”, Blue in Green e Bemsha Swing, de Thelonious Monk. Mais dois temas completam No Choice: Masqualero, de Wayne Shorter, e uma surpresa. Os fãs do canadense Neil Young reconhecerão rapidamente The Needle and the Damage Done, canção incluída em Harvest (Reprise 1972). Este álbum foi o álbum mais vendido em 1972, nos EUA.

Ouça The Needle and the Damage Done.



Se você quiser conhecer outro bom álbum de duos jazzísticos de piano, acesse http://bit.ly/1qXeJa6. Brad Mehldau e Kevin Hayes, em Modern Times, são perfeitos. Por coincidência, tocam Lonely Woman, também. Ouça.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Patricia Barber é o máximo? Há controvérsias

Patricia Barber
Ouvi Smash (Concord Jazz, 2013), o álbum mais recente de Patricia Barber cerca de dez vezes. Sinal de que gostei. Para a minha surpresa, na revista Downbeat, Jim Macnie dá 2 estrelas e meia (o máximo é 5) e fala (bem) mal do disco. Um trecho: “A faixa-título é uma narração sussurrada de um caso de amor desintegrado que se inicia com uma silenciosa combinação de piano e voz e, depois de descrever um coração partido, explode em um bombástico anacronismo que evoca ‘Purple Rain’, de Prince, e ‘Repent Walpurgis’, do Procol Harum.” Não é lá muito elogioso, não. Fato: é muito diferente do que Patricia fez até hoje. Fã de carteirinha de Barber, só (ou)vi beleza nesse “bombástico anacronismo”..

Se o crítico tivesse lido o que Barber disse sobre essa composição, talvez tivesse entendido melhor o solo “roqueiro” de John Gregor. A canção trata do fim de um caso de amor descrito como “o desmoronamento de castelos altos construídos/ em beijos e sangue/ e os sonhos como areia.” Ninguém do lado de fora consegue decifrar a dor que experimentamos por uma grande perda. Certo? O som de um coração partido é o silêncio. “Você está sozinho. E eu achei que era uma interessante justaposição, desde que o som de um coração partindo deveria ser o mais alto, gritado, a combinação mais ruidosa de sons possível.” Está aqui explicitado o solo de guitarra, pelas palavras de Barber, além de boa pianista, excelente nas letras.

Ouça Smash.




Aliás, os solos de John Gregor são bem interessantes, como no toque funky que imprime em Devil’s Fool, ou no toque bossa nova em Redshift, e nas belas notas em duo com o piano em Missing.

A história dessa canção é interessante. Foi feita de “encomenda”. Uma mulher escreveu uma carta contando sua história e pediu-lhe que compusesse uma música. Nas palavras de Barber, “era uma espécie de pedido absurdo, mas aquilo me tocou e então a escrevi; foi minha a ideia de contá-la através das quatro estações do ano.”

Ouça Missing.





A levada funky de Gregor em Devil’s Fool combina com os bem humorados versos de Barber: “Boy meets boys/ girl meets girl / given any chance / to fall in love / they do . . . / like loves like / like devil's food / like chocolate twice / I'm in the mood / for you.” Nem é preciso dizer do que Barber trata nessa música..

Code Cool, a primeira faixa, também é um bom exemplo dessas mudanças repentinas de mood. Inicia com uma batida bem ritmada, marcada pela bateria e baixo e acordes do piano. “Estava dormindo, como que estivesse sonhando/ […]/ Inspiro como se estivesse pregando”, e voz de Barber se desvanece em clima fantasmagórico, em sons que lembram a psicodelia “pinkfloydiana” e “desperta” com os versos “I square dance slow/make love with my lips/read eyes like books/ read books like science/ I remember and fix/ citation to case/ case to form/ discombobulation and I/ can cook up a storm/ I’m Michelangelo’s David/tested and worn.”

Ouça Code Cool.




Há outro conceito importante na formulação de Smash. Em entrevistas e em vídeo disponível no YouTube, Barber diz que o disco nasceu com a intenção de ser uma série de canções silábicas. Reproduzo aqui parte do texto de João Marcos Coelho, publicado em O Estado de S.Paulo (3/2/2013), porque não vou tentar escrever o que está muito bem escrito: “ela se autoimpôs limites silábicos para cada verso. Há três exemplos destas experimentações no CD, em que ela trabalha com versos de duas, três e seis sílabas/palavras.Vejam The Swim, com duas: ‘So like/ goodbye/ with you/ at once/ too much/ too fast’. Spring Song, com três: ‘His absence/ fills the pail/ like water/ to the brim’. E The Wind Song, com seis: ‘Something suddenly cool/ something suddenly dearer/ someone wonderful who’ll/ appear suddenly nearer’. Mas Barber reconhece as limitações da letra nas músicas: “Estou tentando fazer poesia mais refinada. Mas ainda necessito de rima, porque a rima é ritmo, e ritmo é música” (a frase de cantora/compositora/pianista foi tirada do mesmo texto de JMC).

O prêmio para o curioso é a descoberta. Ir pelo faro. Um “sinal” é suficiente. Sem saber quem era, gostei da pose dela na capa. O título era mais que interessante: Café Blue. Na lista das músicas, a primeira que me chamou a atenção foi Manhã de Carnaval. É só ver que tem Manhã, compro. É uma das minhas preferidas de todos os tempos. Tenho na discoteca até uma interpretação em espanhol que poucos conhecem, a de Los Zafiros (clique no link). Um bom modo de conhecer alguém é ouvindo-se interpretações de standards, pelo menos no jazz. Tinha The Thrill Is Gone, Inch Worm e Nardis, de Miles Davis. Depois de conhecer Café Blue, comprei tudo o que ela lançou, menos o segundo, Distortion of Love, que nunca encontrei. Mesmo Split, seu primeiro disco, adquirido depois, de 1989, e difícil de encontrar por não ter tido a distribuição dos posteriores, pela Blue Note, é bom. Ao contrário do crítico da Downbeat, acho Smash um de seus grandes discos. É uma boa estreia em sua nova gravadora, a Concord Jazz.