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quinta-feira, 15 de agosto de 2019
A imersão no sonho de Dan McCarthy
O sonhar acordado, por mais breve que seja, assemelha-se mais a um pesadelo. Breve. Na continuidade do sono, sonhamos. É a primeira coisa em que penso ao ouvir “A Dream Awake”, a primeira de “Fugitive Epoch”, de Dan McCarthy, lançado neste ano. É um dos mais belos inícios que ouvi nos últimos tempos, e olhe que ouço música o dia inteiro!
Às primeiras notas do vibrafone, escuta-se os sons fantasmagóricos do violino de Mark Feldman e, nervosos, da guitarra de Ben Monder. Nossa, McCarthy montou uma banda de sonhos; com eles, toca o excepcional Steve Swallow, baixista que optou pela versão eletrificada há muito tempo, mesmo sendo músico mais associado ao jazz.
Sem sair do clima de sonhos, “Fugitive Epoch” é uma continuação. A instrumentação econômica de McCarthy, de poucas notas e breves e ostinatos que ajudam a criar um clima mais onírico ainda, um solo espetacular de Monder, sobre o contrabaixo com notas repetidas, estão perto do sublime.
Os títulos são sugestivos do clima sugerido desde o início. A terceira se chama “Softly She Sings Her Song”, “Desert Entrance”, “Strange Medicine on the Desert”. A última, “A Dream, Asleep”, funciona como uma continuação do início: o sonho acordado e o sonho desperto.
Ouça o álbum no Spotify.
Caso não consiga por aqui, acesse o link: https://open.spotify.com/album/0qJ9vIpy5QOLulvIUql9Dx?si=-5cx1kWSRpu88jqOXEMRNg
quinta-feira, 14 de junho de 2018
O vibrafone de Lewis Wright, em perfeita sintonia com Kit Downes
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| Lewis Wright e Kit Downes |
Outro genial, é Milt Jackson. Diferentemente do primeiro, pura energia ritmica, este privilegiou a melodia de sonoridades hipnotizantes, em combinação perfeita com a concepção “third stream” do pianista John Lewis, no Modern Jazz Quartet.
Um dos vibrafonistas geniais, depois deles, é Gary Burton. Surgiu na cena musical nos anos 1960 e é até hoje a grande referência, junto com Bobby Hutcherson. Mais novos que ele, muito bons, são Stefon Harris, Steve Nelson e Jason Adasiewicz.
Apesar de Donald Trump, os Estados Unidos continuam sendo o centro de propagação do jazz, em prejuízo de países fora do continente americano. Por essa razão, o inglês Lewis Wright desponta entre os melhores rising stars, ocupando um modesto 20º lugar, pela revista Downbeat. O rapaz promete – recebeu um belo elogio de Gary Burton –, a começar por seu talento como compositor.
Pessoas que possuem seus cartões de idosos, para poderem estacionar em vagas especiais de mercados, bancos e shopping centers, podem viajar gratuitamente de metrô, trem ou ônibus, e que gostam de música, devem ter ouvido em alguma ocasião a grande parceria de Chick Corea e Gary Burton. Apresentaram-se no Brasil, depois de terem lançado “Crystal Silence” (ECM, 1979), “Duet” (ECM, 1979) e “In Concert, Zürich, October 28, 1979”. Quem viu sabe do quanto foi antológico o encontro.
O selo Signum Classics – a princípio, imaginei que fosse de música erudita – acaba de lançar o álbum “Duets”, com Lewis Wright e Kit Downes. Sem saber dele, “farejando” apenas por conhecer Downes, pianista e organista de enorme talento, resolvi arriscar. É uma bela surpresa. Lembra os de Corea e Burton. As composições são todas de Wright. Olha, vou ficar atento aos próximos que gravar. “Duets” é seu primeiro lançado. “Fortuna” e “Satis” são as minhas preferidas, por enquanto.
Por sorte, essas duas faixas estão disponíveis no YouTube.
“Fortuna”.
“Sati”.
Sobre Kit Downes, leia em Um grande início de 2018 da ECM
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
O encontro mágico de Gary Burton e Eberhard Weber
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| Gary Burton e Eberhard Weber juntos |
O vibrafone, como o piano, é um instrumento percussivo. E são muito diferentes. A invenção do vibrafone é mais recente que a do xilofone e a marimba. A razão de seu som parecer um tanto etéreo (a palavra pode não ser a mais adequada, mas na falta de outra…) se dá pelos trêmolos resultantes do funcionamento do motor elétrico que abre e fecha rapidamente. Tubos verticais de diferentes diâmetros e comprimentos produzem as notas. A marimba era muito comum em bandas latinas que se apresentavam nos clubes norte americanos e isso deve ter contribuído para que o vibrafone, bem menor em tamanho, passasse a ser incluída nas bandas de jazz.
O primeiro grande nome a surgir no vibrafone foi Lionel Hampton. É um dos músicos mais importantes da história do jazz, não somente por isso, mas por sua orquestra, que revelou, dentre outros, Dinah Washington, Charles Mingus, Johnny Griffin, Dizzy Gillespie, Wes Montgomery, Jimmy Cleveland e Illinois Jacquet.
Outros bem conhecidos são Milt Jackson, Red Norvo e Cal Tjader. Em gerações posteriores destacam-se Bobby Hutcherson e Gary Burton, e mais agora, Stefon Harris, Steve Nelson e Jason Adasiewicz.
Gary Burton não tinha 20 anos quando lançou New Vibe in Town (1961). E era um “new vibe” mesmo. Desde então, é um dos nomes mais importantes do instrumento, não só pela excelência técnica, mas por sua capacidade de se renovar criativamente.
Dois eventos foram responsáveis de uma geração de jovens que estavam na faixa dos 20 anos se interessar pelo jazz mais contemporâneo. Um foi a criação dos primeiros festivais direcionados (não exclusivamente, por motivos comerciais) ao gênero. Isso propiciou-os a conhecer novas gerações, como Chick Corea e John McLaughlin, assim como as mais velhas, por meio de Dizzy Gillespie, Zoot Sims, Stan Getz e Benny Carter, e também serviram para que tomasse contato maior com a música instrumental de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Outro evento foi o lançamento de itens do selo ECM. Keith Jarrett, Chick Corea e Pat Metheny ficaram conhecidos aqui quando eram raros os lançamentos de jazz.
Nessas primeiras levas saíram três álbuns que tinham participação de Gary Burton. Dois deles eram com Chick Corea, e outro, Ring. Era diferente e muito interessante, como vários outros discos da ECM, que nos mostravam um som que não era muito parecido com o jazz americano. Era o “the most beautiful sound next to silence”. O pessoal mais chegado ao mainstream odiava.
Em Ring, Burton montou um quinteto dos sonhos, aliás sexteto, pois contou com a participação especialíssima de Eberhard Weber. Com Burton no vibrafone, dois guitarristas – Pat Metheny e Mick Goodrick –, Bob Moses na bateria, Steve Swallow no baixo elétrico e Weber no contrabaixo elétrico, derivado do acústico, o chamado “upright bass”, pois é tocado na vertical, foi um sexteto dos sonhos.
Ouça Intrude.
Ouça The Colous of Chloe, composição de Weber. Ele abre tocando com o arco e depois sola.
O primeiro grande nome a surgir no vibrafone foi Lionel Hampton. É um dos músicos mais importantes da história do jazz, não somente por isso, mas por sua orquestra, que revelou, dentre outros, Dinah Washington, Charles Mingus, Johnny Griffin, Dizzy Gillespie, Wes Montgomery, Jimmy Cleveland e Illinois Jacquet.
Outros bem conhecidos são Milt Jackson, Red Norvo e Cal Tjader. Em gerações posteriores destacam-se Bobby Hutcherson e Gary Burton, e mais agora, Stefon Harris, Steve Nelson e Jason Adasiewicz.
Gary Burton não tinha 20 anos quando lançou New Vibe in Town (1961). E era um “new vibe” mesmo. Desde então, é um dos nomes mais importantes do instrumento, não só pela excelência técnica, mas por sua capacidade de se renovar criativamente.
Dois eventos foram responsáveis de uma geração de jovens que estavam na faixa dos 20 anos se interessar pelo jazz mais contemporâneo. Um foi a criação dos primeiros festivais direcionados (não exclusivamente, por motivos comerciais) ao gênero. Isso propiciou-os a conhecer novas gerações, como Chick Corea e John McLaughlin, assim como as mais velhas, por meio de Dizzy Gillespie, Zoot Sims, Stan Getz e Benny Carter, e também serviram para que tomasse contato maior com a música instrumental de Hermeto Pascoal e Egberto Gismonti. Outro evento foi o lançamento de itens do selo ECM. Keith Jarrett, Chick Corea e Pat Metheny ficaram conhecidos aqui quando eram raros os lançamentos de jazz.
Nessas primeiras levas saíram três álbuns que tinham participação de Gary Burton. Dois deles eram com Chick Corea, e outro, Ring. Era diferente e muito interessante, como vários outros discos da ECM, que nos mostravam um som que não era muito parecido com o jazz americano. Era o “the most beautiful sound next to silence”. O pessoal mais chegado ao mainstream odiava.
Em Ring, Burton montou um quinteto dos sonhos, aliás sexteto, pois contou com a participação especialíssima de Eberhard Weber. Com Burton no vibrafone, dois guitarristas – Pat Metheny e Mick Goodrick –, Bob Moses na bateria, Steve Swallow no baixo elétrico e Weber no contrabaixo elétrico, derivado do acústico, o chamado “upright bass”, pois é tocado na vertical, foi um sexteto dos sonhos.
Ouça Intrude.
Ouça The Colous of Chloe, composição de Weber. Ele abre tocando com o arco e depois sola.
Em 2007, Eberhard Weber gravaria um outro álbum com Burton: Passengers, não tão bom quanto o anterior.
Ouça Sea Journey.
Ouça Nacada.
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