quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O sublime e o inusitado com Richard Galliano e Thierry Escaich

Thierry Escaich e Richard Galliano
Depois de tanto ouvir música nessa vida, o que você mais quer? Algo que te surpreenda, como quando você ainda era um adolescente? Ao acabar de ouvir “Aria”, diante do inusitado e da beleza, acho que ainda há espaço para boas surpresas.

Galliano é bem conhecido no universo do jazz, tido o melhor acordeonista da atualidade. Parente do bandoneon e mais difundido, não é popular como o piano ou a guitarra. Os que assistiram Federico Fellini devem lembrar-se do acordeonista cego em “Amarcord”.

Lembro bem de uma senhora que sempre tocava acordeão depois dos almoços dominicais que aconteciam em ranchos – em Minas Gerais, pelo menos, assim eram chamadas as chácaras –, fazendas ou casas com quintais enormes. Era um costume bem interiorano e comum em Minas e em São Paulo. São as duas coisas que me fazem lembrar do acordeão: Fellini e almoços dominicais. E também por isso, associo-o a um estado de melancolia, pois não eram reuniões muito aprazíveis para mim, pelo menos.

Depois que mudei-me para São Paulo conheci o “outro lado” do acordeão. Muito popular no Nordeste, por meio dele, executava-se música para dançar em salões de forró e baião. Nomes populares como o de Luiz Gonzaga e Dominguinhos me fizeram ver que a tal da sanfona – mais popular com esse nome – podia ser um instrumento “para cima”, apesar de “Assum Preto” (Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira) ou “Lamento Sertanejo” (Dominguinhos, Anastácia).

Semelhanças
O órgão tradicional, considerado o rei dos instrumentos, pela capacidade de gerar uma variedade impressionante de sonoridades, é uma das invenções mais antigas. Associamos à música de igreja. Tanto é que os mais completos e de qualidade são os de locais de culto, católicos, em geral. Por suas dimensões, necessita de espaços grandes como catedrais ou salas de espetáculos. Surgiu depois o órgão elétrico, hoje usados em igrejas e em cultos evangélicos. O Hammond, a mais conhecida o melhor, é o preferido por músicos de jazz, como Dr. Lonnie Smith, Jimmy Smith, Larry Goldings e Joey DeFrancesco. Antes de sua invenção, o harmônio foi o instrumento que fez a ponte entre o antigo e o atual. É o instrumento que tem o som mais parecido com a do acordeão e o da harmônica de boca, a popular gaita, e ainda é tocado em algumas igrejas.

O acordeão é uma invenção do século 19, posterior à do harmônio. É capaz de gerar uma gama enorme de sons. Em uma comparação não muito razoável, diria que é a ”versão de bolso” do órgão e do harmônio.

Não lembro de alguém ter tentado anteriormente juntar os dois instrumetos, como fizeram Galliano e Escaich.

Grandiosidade e melancolia
Thierry Escaich não é muito conhecido pois faz parte do universo da música erudita. Além de organista, é compositor. Lançou no ano passado “Baroque Song”, pelo selo Sony Classical. Não compõe apenas para o órgão. No álbum recente, há uma obra para clarineta e orquestra, uma para cordas (“Erinnerung, pour orchestre à cordes”, 2009) e outras duas para orquestra – “Baroque Song” (2007) e “Suite symphonique de «Claude»” (2014).

Richard Galliano é conhecido no universo jazzístico, porém, nos últimos tempos tem se aventurado pelo “crossover”. Gravou pela Deutsche Grammophon álbuns dedicados a Bach, Mozart e Vivaldi e um quarto ao italiano Nino Rota, autor de muitas trilhas de cinema. O genial de Galliano é não apenas ser um grande instrumentista. Os arranjos nesses discos, em sua grande maioria, são de sua autoria. Faz mágica com um quarteto de cordas e ele a tocar o acordeão ou os seus parentes, a accordina e o bandoneon.

“Aria” não tinha como não ser considerado crossover. Mas essa classificação será sempre dúbia. Nela estão incluídos trabalhos dos “pops” Sting, Paul McCartney e, em sentido inverso, dos eruditos Anne Sofie von Otter, Gidon Kremer e uma infinidade de músicos. É genérico demais. Porém, está combinado: é crossover porque mistura o erudito com o popular. Há obras como “Siciliano” (Bach), “La Folia” (Arcangelo Corelli), “Adagio”, do “Concerto para oboé” (Alessandro Marcello), “Slovanské Tance” (Dvórak) e “Vocalise” (Rachmaninov), assim como composições dos dois, e duas de Astor Piazzolla (“Oblivion” e “Tanti Anni Prima”).

Impressionante a riqueza cromática na combinação dos dois instrumentos. Ouça o clássico “Caruso”, de Lucio Dalla. O órgão utilizado para as gravações foi a da Igreja Francesa de Berna. Construída em 1726, foi reformada em 1991, e totalmente concluída em 2012. Confira.




Publico pelo YouTube apenas para divulgação e não ganho dinheiro com o meu canal. Mesmo assim, fui notificado por infringir a lei de direitos autorais e posso ser suspenso. Ouça “Caruso”, antes que o retirem. Publico a seguir apenas os que já estão disponíveis.

Veja Galliano e Escaich na Igreja Saint-Etienne-du-Monde, Paris.




Outro trecho.