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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A beleza dramática do piano de Mal Waldron

Waldron e seu inseparável companheiro, o cigarro
Uma amiga, faz tempo, quando soube que eu ia viajar, pediu-me que trouxesse um produto da Clinique chamado “Dramatically Different Mosturizing Lotion”. Achei o nome um tanto forte e sugestivo, Ela não estava “dramaticamente estragada” e nem hoje está. O nome ficou na lembrança. Fato é que lembrei disso ouvindo o pianista Mal Waldron.

No início da carreira, tocou com o baixista Charles Mingus e com Billie Holiday em seus últimos dois anos. Rotulam-no como um representante do free jazz, mas não dá para classificá-lo nesse gênero particularmente. Quando ele passou a tocar profissionalmente, dominavam o cenário musical novaiorquino o bepop e o hard bop e é natural que tenha absorvido parte dessas linguagens.

Waldron, por excesso de trabalho e pelo consumo de algumas drogas ilícitas, sofreu um colapso nervoso e ficou afastado da cena musical de 1963 a 1969. O primeiro disco da “retomada” – Free at Last’ – foi também o primeiro da gravadora ECM, do alemão Manfred Eicher, que se tornaria conhecida por abrigar Keith Jarrett e por revelar talentos europeus “vindos do frio“, principalmente, da Escandinávia. Mal, a partir daí, gravou bastante, muita coisa em parceria com cantoras – Jeannie Lee, Abbey Lincoln, Judie Niemack –, e instrumentistas como David Murray, o avant-garde Steve Lacy e o baixista David Friesen, quase sempre com resultados muito bons. Seu piano começou a aparecer mais, em comparação às gravações das décadas de 1950/60: seus parceiros, geralmente, apareciam mais que ele. No belo disco The Quest, mesmo sendo as músicas de sua autoria, destacavam-se mais os solos do saxofonista e clarinetista Eric Dolphy e de Ron Carter tocando cello – quem tocava baixo era Joe Benjamin.

Não se pode considerar Waldron um improvisador por excelência, como Oscar Peterson ou Art Tatum são ou eram. Sua importância como intérprete se vale menos de “pirotecnias improvisatórias” e mais pelo modo personalíssimo de tocar e desenvolver os temas. Willow Weep for Me, que não é de sua autoria e está em Free at Last, é um bom exemplo: Waldron fica quase que tão somente na melodia, sem desdobrá-la em improvisos. Sua qualidade maior está em criar sonoridades diferentes. Um pouco como os “bops”, a tônica não está na melodia. A repetição dos motivos, a forma percussiva que ataca as teclas, sem floreios e o uso de poucas notas, dão um tom sombrio, “dramaticamente diferente”. Waldron “martela” nervosamente o teclado, porém, quando a música pede, toca com enorme delicadeza, sugerindo climas de paz, melancolia e um certo “lirismo impressionista”.

Foi lançado no meio de 2008 pela JustinTime um CD que é, provavelmente, a última gravação de Mal. Silence – duo do saxofonista David Murray e o pianista – foi gravado em Bruxelas, última morada de Mal, em 2001. Ele, depois do colapso nervoso, mudou-se para a Europa, vivendo, inicialmente na Alemanha e depois fixou residência em Bruxelas, onde morreu em dezembro de 2002. Dois anos anos antes apresentara-se no Chivas Jazz Festival. Ficara hospedado num flat na região dos Jardins e, no dia seguinte a sua apresentação, almoçava tranquilamente com outros músicos que estavam no Brasil, no Esplanada Grill. Um deles era Don Byron que, pela “cara-de-pau” de meu amigo Takashi Fukushima, viemos a conhecer. Mal fumava toneladas de cigarros. Uma amiga, fumante também, viajou no mesmo voo em que voltava para Bruxelas. Coincidência: em Roma, uma das escalas, encontraram-se… na área dedicada aos fumantes.

Murray tornou-se conhecido tocando no grupo “quase free” World Saxophone Quartet. Antes disso, em 1976, tinha lançado Low Class Conspiracy . Em seu primeiro disco sob seu nome, apresentava maturidade surpreendente para um jovem de vinte anos. Desde então, gravando solo, duos, trios, quintetos, octetos e bigbands, tem perto de uma centena de discos lançados. Mais surpreendente que a prolixidade é a de como consegue manter um bom nível de qualidade e a facilidade com que transita nos estilos jazzísticos, dos mais tradicionais aos mais experimentais.

A primeira faixa de Silence é uma antiga composição de Waldron em parceria com o baterista Max Roach – Free for C.T. –, em que David toca clarinete baixo. Nesse instrumento é capaz de atingir desde as notas mais graves às mais agudas com precisão impressionante e uma “alma” apenas comparável à do gênio Eric Dolphy, falecido precocemente em 1964. Murray, no sax-tenor, seu principal instrumento, sem dúvida, é um dos grandes virtuoses da atualidade. O início de Free… é uma pequena amostra das características de Waldron: notas e acordes que se intercalam entre os graves e médios, que se repetem e “potencializam” a força desta composição. O acompanhamento para o clarinete baixo é “seco” de acordes que se destacam mais pela forma sincopada que toca. O piano é majestoso, não é um simples acompanhante. Ele e o clarinete têm o mesmo peso até quando o solo é de Murray.

O “mood” do disco é de interpretações que realçam as características do piano de Mal: à exceção de Silence, composição de Murray – que é um belo “showcase” de seu estilo no sax-tenor – e Jean-Pierre, da última fase de Miles Davis, o restante é de baladas. Delas, a mais bela é a do clássico de Waldron – Soul Eyes –, também a faixa mais longa do CD, em que o pianista executa um solo belíssimo. É a outra, além de Free for C.T., em que Murray toca clarinete baixo. Inicia-se com um solo de quase sete minutos e é uma bela amostra da maestria de Murray como improvisador. Nos dois standards, I Should Care, de Sammy Cahn, Alex Sttordahl e Paul Weston, e All Too Soon, de Duke Ellington, os dois “arrasam”; a primeira, principalmente, é “dramaticamente” impecável.

Ouça o piano dramático em sua Seagulls of Kristiansund, aqui acompanhada pela fantástica Jeanne Lee.


Publicado pela primeira vez no meu outro blog (Da lata), em 26/72011.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Ralph Towner (1/3/1940 – 18/1/2026)

Um dos mais geniais violonistas da atualidade faleceu em 18 de janeiro de 2026, em Roma. Em 1º de março faria 86 anos. Associado ao gênero jazz, suas composições podem ser classificadas num contexto mais amplo. Músico com formação clássica, era bom pianista (a mãe tocava piano), trompetista razoável (o instrumento que seu pai tocava) e genial violonista. Estudou piano na Universidade de Chicago, e depois violão na Academia de Música de Viena.

Em uma entrevista feita pelo pianista alemão Pablo Held, ou melhor, uma conversa, em 2022, no YouTube, parecia que sua memória falhava. Em um certo momento queria citar o nome de um pianista italiano e a memória falhava. Era o de Arturo Benedetti Michelangeli. Foi apenas um lapso, como qualquer um de nós pode ter. No resto da conversa mostrou-se bem lúcido, conversando basicamente sobre música, em vários momentos usando o violão para exemplificar sobre o que falava. Pouco tempo antes fizera uma apresentação em Lugano, no Auditório Stelio Molo RSI, cujo registro foi gravado e tornou-se seu último disco: At First Light (ECM, 2023).

A paixão por Bill Evans foi determinante para seu interesse pelo jazz. No início dos anos 1970 tornou-se membro da Paul Winter Consort, banda com um viés “crossover“, mesclando a linguagem de improviso do jazz com música indiana e a folclórica. Glen Moore, Colin Walcott e Paul McCandless, que eram do Consort, resolveram montarem um grupo, o Oregon.

O primeiro álbum, em 1970, foi lançado por um selo pequeno, com pouca repercussão. Foi relançado dez anos depois, quando já eram bem conhecidos, com o título Our First Record. O segundo,  Music of Another Presente Era (1972) pode ser considerado o de estreia, pois tem uma distribuição decente, contratados pelo selo Vanguard. Ao longo da longeva carreira, que prosseguiu mesmo depois da morte do percussionista e citarista Colin Walcott, aos 38 anos em um acidente do ônibus que os transportava em uma turnê na Europa, lançaram cerca de 40 discos. Algumas participações dessa época, fora do Oregon devem ser citadas: I Sing the Body Electric (Columbia, 1972), segundo disco do Weather Report, The Restful Mind (Vanguard, 1975), de Larry Coryell, e In the Light (ECM 1973), de Keith Jarrett. 

A longa e profícua parceria. Convidado por Manfred Eicher, grava seu primeiro LP pela ECM Records em 1973: Trio / Solos. É um álbum de Ralph Towner – todas as composições são suas com exceção de Re: Person I Knew, de Bill Evans) – com a participação de seus companheiros do Oregon.

Não foi Manfred Eicher, dono e produtor do selo ECM, o pioneiro em montar formações diferentes com seu casting. Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, Norman Granz, fundador dos mais prestigiados selos voltados ao jazz, como a Norgran, Clef, Verve e, bem mais tarde, a Pablo, teve a ideia de reunir músicos em apresentações ao vivo com o espírito de serem uma espécie de jam sessions. Esses encontros eram gravados e depois lançados e intitulados Jazz at The Philharmonica (JATP).

Dentro desse espírito de reunir músicos convidados em combos inéditos, Eicher montou, por exemplo, um quarteto com o americano Keith Jarrett e músicos europeus (Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen). Eicher deu a oportunidade de Jarrett aventurar-se por outros formatos, como os piano solos (The Koln Concert foi o primeiro e tornou-se o disco de jazz mais vendido no mundo), concertos em formato de orquestra e câmara, duetos incomuns como o dele ao piano e Jack DeJohnette na percussão (Ruta and Daytia), álbuns dele tocando órgão e até cravo, executando a obras de Bach, Handel, Shostakovich e Arvo Pärt. Fora tudo isso, foram dezenas de álbuns no formato mais clássico do jazz, o trio, com Gary Peacock e Jack DeJohnette. 

Depois do álbum Trio / Solos, citado acima, há dezenas de belos registros com John Abercrombie, Gary Burton, Eberhard Weber, Jon Christensen, Gary Peacock e Egberto Gismonti, dentre outros.  


Ouça Oceanus e Nimbus, do disco Solstice, e Palácio de Pinturas, de Sol do Meio Dia, de Egberto Gismonti.



Existem vários registros solo, como Diary (ECM, 1973), Solo Concert (ECM, 1980), Blue Sun (ECM, 1983), Anthem (ECM, 1981), Ana (ECM, 1997), Time Line (ECM, 2006), My Foolish Heart (ECM, 2017) e At First Light (ECM, 2023). O meu preferido é Solo Concert, registros de apresentações em Munique (Amerika Haus) e em Zurique (Limathaus). São quatro composições dele, duas de John Abercrombie (Timeless, a última faixa, é sublime) e Nardis, de Miles Davis.

Ouça.


Ouça também At First Light.



quinta-feira, 25 de março de 2021

Grazing Dreams, de Collin Walcott, um dos dez melhores da ECM


Minha amiga rica voltou de San Francisco com vários LPs: “Mysterious Traveller” (Weather Report), “Bundless” (Soft Machine), “Closeness” (Charlie Haden), “Shakti” (John McLaughlin),“In Concert” (Oregon), “Low Class Conspiracy” (David Murray) e o primeiro do World Saxophone Quartet. Não consigo lembrar nomes de pessoas, não guardo um número de telefone, mas para algumas coisa a minha memória é ótima, principalmente se são inúteis.

Esses discos representaram um guinada no meu gosto musical, ou melhor, ampliaram meu horizonte sonoro. Na década de 1970, os Rolling Stones estavam lançando “Exile on Main Street” e logo mais estavam flertando com o glam-rock, os Beatles estavam em fase terminal, resultado do cisma Lennon x McCartney, e vinham novas ondas como a do rock mais pesado, com Led Zeppelin, Black Sabbath, Grand Funk Railroad, Humble Pie e alguns outras bandas, e a do que passaram a chamar de rock progressivo. As formações mais conhecidas foram King Crimson, Yes, Genesis, Gente Giant, Jethro Tull e Emerson, Lake & Palmer, que surgiram entre o fim e o início da década. Muitos embarcaram nessa onda que, grosseiramente, poderia ser considerada rock com alguns traços de inteligência, ou uma abordagem menos visceral e mais cerebral, mais “inteligente” e culta, flertando até com a música erudita. Keith Emerson incorporava Aaron Copland e Mussorgsky, Jethro Tull, Bach, Beethoven e Schubert. 

Lembro de que os primeiros LPs que comprei foram “Led Zeppelin III”, “Pictures at an Exhibition” (Emerson, Lake & Palmer), “In the Court of the Crimson King” (King Crimson) e “The Yes Album” (Yes). A balança pendeu para o chamado rock progressivo. Mais ambiciosos – ou pretensiosos, dependendo da ótica –, as composições eram mais elaboradas, menos 4 x 4. 

Dos LPs citados no primeiro parágrafo, os que me impressionaram foram “Mysterious Traveller”, o do World Saxophone Quartet, surpreendente, apenas com sopros (saxofones, clarinetas e flauta), sem bateria e contrabaixo, e “Closeness”, o primeiro de Charlie Haden como líder, em duos, com Keith Jarrett, Alice Coltrane, Ornette Coleman e Paul Motian. Outro foi “In Concert”, da banda Oregon: transformou-se em paixão. Posteriormente, comprei todos os que foram lançados, até a morte de um de seus membros: Collin Walcott.

“Low Class Conspiracy” foi o primeiro como líder de David Murray, saxofonista que formou o World Saxophone Quartet, com Oliver Lake, Hamiet Bluiett e Julius Hemphill. Sou fã de Murray até hoje. Estava naquela fase em que estava comprando livros sobre arte e estética da turma da Escola de Frankfurt – Walter Benjamin principalmente –, Georg Lukács e “Literatura e Revolução”, de Leon Trotsky. O título do LP de Murray era, por isso, um chamariz.

Achei “Bundless” meio chato. Mas despertou-me a curiosidade de conhecer melhor o Soft Machine. Ouvindo os anteriores, quando Robert Wyatt era ainda um dos membros da banda, virei fã de carteirinha, como se dizia antigamente. Ouço até hoje os “III”, “IV” e, até mesmo, o “V”.

Nem rock, nem jazz
Paul Winter é considerado um dos pais da world music. Influenciado por Villa-Lobos – morou um ano no Brasil na década de 1960 – e amante da música inglesa do século 17, criou a Paul Winter Consort. Ralph Towner, Paul McCandless, Glen Moore e Collin Walcott, que participaram da banda, formaram o Oregon em 1970. Pela Vanguard lançaram em 1972, “Music of Anther Present Era”. Rapidamente ficaram conhecidos e o álbum que tinham saído por uma pequena gravadora, a Increase Records, em 1970, foi relançado.

Dos quatro, o que mais se destacou foi Ralph Towner, violonista de formação erudita, talentosíssimo e autor um dos melhores discos da ECM, o ao vivo “Solo Concert”, registrado na Alemanha e Suiça, em 1979. 

Tempos depois, já conhecendo outros álbuns do Oregon, acho que, em razão de uma crítica positiva na revista Downbeat de “Grazing Dreams” (ECM), acabei comprando o LP, importado, no Rio de Janeiro. Já estava gastando todo o meu dinheiro em discos. Aconteceu um festival de jazz na ex-capital do Brasil com várias atrações imperdíveis: Weather Report, Pat Metheny, Mccoy Tyner e o Art Ensemble of Chicago. Fomos eu e mais dois amigos. Ficamos no apartamento da tia de um deles. O imóvel ficava a dois quarteirões das duas melhores lojas de LPs importados: a Modern Sound e a Billboard.

“Grazing Dreams” e “Sophisticated Giant” (CBS, 1977), de Dexter Gordon, outro que comprei na mesma ocasião, estão entre os meus discos preferidos por duas razões. Uma é a de que são ótimos e a outra é porque foram os dois primeiros importados de jazz que comprei. É pouco? A vida da gente é marcada por simbolismos.

Como era – e é ainda – costume de Manfred Eicher, dono e produtor da maioria dos discos da ECM, unir os músicos do seu plantel –, nesse que é o segundo solo de Walcott pela gravadora, tocam Don Cherry, John Abercrombie, Palle Danielsson e o brasileiro Dom Um Romão, que participara de “I Sing the Body Electric”, “Sweetnighter” e “Mysterious Traveller”, do Weather Report.

Acho que “Grazing Dreams” é para quem tem uma abertura para o que é chamado de world music, a começar do fato de que os instrumentos principais de Walcott são a cítara e a tabla. Soma-se a isso a ligação de Don Cherry com instrumentos africanos como o doussn' gouni. A cuíca e o berimbau, tocados por Dom Um Romão, são “exóticos” para os não-brasileiros e, portanto, “world”. 

O disco é único por vários fatores. O que se ouve é diferente de qualquer coisa. Um bom exemplo é "The Swarm". Seu início é de sons desconexos de trompete, flauta, cítara e guitarra. Repentinamente todos os sons se conectam e, guiados pelo trompete e a cítara, vai ficando dramática e, pronto. Termina. Começa então “Mountain Morning”. Curtíssima. É um prelúdio para a ondulante e hipnótica “Jewel Ornament”. Com a tabla servindo de base rítmica, Cherry sola na flauta, mas o que se sobressai é a guitarra discreta de Abercrombie. Depois da música título, tem “Samba Tala”, um duo ótimo com Dom Um Romão e Walcott. E termina com a belíssima “Moon Lake”. O início dela, com ele na cítara, é sublime. 

Confira.




A parceria de Walcott com Cherry frutificou. Com Naná Vasconcelos, formaram a Codona – cada sílaba são as duas primeiras letras de seus nomes. Sobre eles, leia “O mundo ‘world’ de Naná Vasconcelos”. 

Muitos nem devem conhecer Collin Walcott por uma razão simples. O ônibus que transportava o Oregon em uma excursão na antiga Alemanha Oriental colidiu. Estava no primeiro banco e cochilava. Bateu a cabeça e morreu. Tinha 38 anos. Foi em 1984. Fazem mais de 36 anos que aconteceu.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Enrico Rava e o meu gosto pela escolha dos títulos

Com um bigode de respeito, na foto de perfil da capa de “Ah” (ECM, 1979), ficava a dúvida: fazia parte do trompete ou dele mesmo? Quarenta e um anos depois, continua com um bigode de respeito, agora, branco. Natural. Tem 81 anos. Impressionante como certos músicos, principalmente os de sopros, conseguem manter essa energia. Agora, aposentado, Sonny Rollins é a prova disso. Até 2012, com 82 anos, estava se apresentando. Minha teoria é a de que a saúde dos pulmões é tudo na vida de alguém, sendo músico ou não.

Por considerar que tudo da ECM era bom, simplesmente, fui comprando tudo o que era lançado pelas gravadoras brasileiras. Não foram muitos. Jazz nunca vendeu aqui. Todo o resto do que tenho do selo é importado, três vezes mais caro, se bem que, na era dos LPs, a qualidade da prensagem fazia valer a pena. Mas foi assim que conheci Enrico Rava: “Ah” saiu no Brasil. Nem fazia ideia de quem era.

Foi o primeiro músico italiano de jazz italiano que conheci. Imagino que seja pouco conhecido no Brasil, apesar de ter se apresentado aqui em um desses festivais de jazz. Se não me engano, foi o único título dele lançado aqui. Todos os que tenho, fora “Ah”, são importados. 

Com o passar do tempo, fui conhecendo melhor o jazz italiano, ouvindo Paolo Fresu, Enrico Pieranunzi, Stefano Battaglia, Franco D’Andrea, Danilo Rea, Enzo Pietropaoli, e outros mais. Fui descobrindo muita música boa por meio de selos como Splasc(h) Records e o CAM Jazz. No início da década de 1980, comecei a me interessar pelo jazz de vanguarda, feito por músicos como Anthony Braxton, Art Ensemble o Chicago, Air, composto por Henry Threadgill, Fred Hopkins e Steve McCall. Desse modo, acabei descobrindo que uma das principais gravadoras que lançava esse tipo de música, era italiana. A Black Saint e a Soul Note, se não me engano, são hoje do grupo CAM Jazz.

Atração por títulos. Ouço música até dormindo. Tenho equipamentos de som espalhados pela casa. Meu quarto abriga uma caixa de som Altec Lansing, com entrada específica para os antigos iPods. Acoplo um dos meus de140 mb. É o fundo musical para o início do meu sono. Com ele posso calcular a minha insônia. Considerando-se que cada álbum tem entre 40 a 70 minutos, se depois de terminada a audição do título escolhido, e não peguei no sono, sei que a noite vai ser longa. Se durmo na segunda ou terceira música, bom sinal. Vou levantar melhor disposto.

Ultimamente tenho ouvido os álbuns de Enrico Rava do iPod que está conectado. Um que me chamou a atenção, por causa do título, foi “The Pilgrim and te Stars” (ECM, 1975). É com essa composição, de sua lavra, que começa. Tocam com o italiano John Abercrombie (guitarra), Palle Danielsson (contrabaixo) e o Jon Christensen (bateria). Quem acompanha o que a ECM lançou até hoje, conhece bem os dois últimos. Faziam parte do quarteto europeu de Keith Jarrett, e, mais tarde, do quarteto de Bobo Stenson. Gosto bastante da primeira, da terceira (“Bella”), e minha preferida é “By the Sea”, bem vigorosa, com John Abercrombie na guitarra, minimalista e essencial na música, com forte marcação do contrabaixo de Palle Danielsson. Ouça as três pelo playlist que fiz no Spotify.

Outro título que atraiu a minha atenção, pelo título, também, foi “The World and the Days” (ECM, 2007). Nem é tão original, mas me soa bonito. Penso no termo “world” sem o “L”. O “mundo”, o “universo”, e a “palavra”. A linguagem constrói o mundo. Neste, todos os que tocam com ele são seus conterrâneos:\ Gianluca Petrella (trombone), Andrea Pozza (piano), Rosario Bonaccorso (baixo) e Roberto Gatto (bateria). A música título é de sua autoria. Os destaques são o clássico “The Wind”, de Russ Freeman, “Tutù” e “Todamor’, essas, dele. Há uma diferença bem grande entre os sons de 1975 e o de 2007, afinal, são mais de trinta anos entre os dois. As energias são diferentes. O que se mantém é o seu sopro sem vibrato, firme, às vezes, dramático, ondulante. Ele e Paolo Fresu são os grandes no trompete e no flugelhorn, na Itália.

Uma discografia apressada. A maioria de seus álbuns foi lançada pela ECM. Lançou outros por selos italianos e também pelo Label Bleu, francês. Na lista abaixo, destaco alguns, os que saíram depois do início deste século.

Cito, sem ordem cronológca, alguns. O primeiro é “Tati” (ECM, 2005). O diferencial é a ausência de um contrabaixo. É um trio com o piano de Stefano Bolani e bateria de Paul Motian/ Meus destaques são “The Man I Love”, grande clássico dos irmãos Gershwin, espetacular, e “E lucevan le stelle”, a belíssima ária da “Tosca”, de Gioacomo Puccini. Esta, me conecta à gravação do “Concierto de Aranjuez”, por Miles Davis, com arranjos de Gil Evans. As citadas estão no playlist abaixo.

O próximo é “The Third Man” (ECM, 2007), novamente com o jovem pianista — em comparação a Rava, um octogenário — Stefano Bollani, um dos grandes talentos da atualidade, com formação erudita — gravou “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, com regência de Riccardo Chailly. É um duo com momentos sublimes, como nas versões de “Estate”, “Retrato em Branco e Preto”, de Antônio Carlos Jobim, e na a canção título, composição dos dois.

“New York Days” (ECM, 2009) é belíssimo, melancólico, seguindo o famigerado padrão ECM — tem gente que odeia —, novamente, com o brilhante Bollani, que arrasa, com discrição, leveza e muita poesia emanando de seus dedos. Os outros componentes são americanos, o, às vezes frio, muito bom nesse seu estilo contido, Mark Turner, Larry Grenadier, baixista que tocou bastante com Brad Mehldau, craque, e o sempre  genial Paul Motian. São destaques “Lulù”, “Interiors”, longa faixa em que Turner brilha, “Lady Orlando”, é tão soturna quanto a citada antes e, na mesma toada, “Biancasnow”, todas de autoria de Rava.

Termino com “Easy Living” (ECM, 2005), gravado com seu quinteto italiano. Em “Cromossomi”, inicia o álbum com uma longa introdução ao flugelhorn. Em seus álbuns, sempre, na maioria deles, as composições são suas, mas, eventualmente, inclui um clássico. Neste, é a música título. Rava é ótimo em standards de tons menores. Outra a se destacar é “Drops”.

Os últimos álbuns de Rava — “On the Dance Floor” (ECM, 2012) e “Wild Dance” (ECM 2012) — são medianos. Está com novo pianista, o jovem talento Giovanni Guidi. Agora, em 2020, saiu um ao vivo, com o saxofonista Joe Lovano — “Roma” —, registrado no Auditorium Parco della Musica, Roma, em 2017. É uma demonstração de que está muito bem ainda.

Ouça as músicas selecionadas.


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A primeira vez de Miroslav Vitous com John Surman

Em um dos posts anteriores comentei sobre o impacto da criação do selo ECM, por Manfred Eicher. Foi tão significativo que, se não me engano, a PolyGram, apressou-se em lançar alguns títulos no Brasil. Assim, pudemos conhecer músicos hoje consagrados, como Pat Metheny, Gary Burton, John Surman, Jan Garbarek, Carla Bley, Steve Swallow e muitos outros.

Um dos músicos virou um caso de amor, de minha parte; dele, com certeza, não. Depois de décadas, alimentado por essa paixão, pude vê-lo ao vivo em uma noite fria de São Paulo, no Teatro Sesi-SP, eu mais uns gatos pingados, 50 ou 60 espectadores. Era um dia chuvoso, além de gélido, fora que o show foi pouco divulgado. John Surman veio para divulgar “Invisible Threads” (ECM, 2028), com o brasileiro Nelson Ayres e o vibrafonista americano, radicado em Oslo, Noruega, Rob Waring. Dei uma de tiete, puxei um papo envergonhado depois do show e ainda aproveitei para tirar uma foto com ele.

Foram dois os LPs com participação de Surman lançados no Brasil: “Upon Reflection” (1980), solo dele em overdubs nos sopros e teclados, e “First Meeting” (ECM 1980), de Miroslav Vitous, com ele, o pianista Kenny Kirkland e Jack DeJohnette na bateria. “Miroslav Vitous Group” (1981) foi o segundo, com a mesma formação, e ainda um terceiro: “Jounrey’s End” (1983)). Neste, John Taylor substitui Kirkland.

John Surman, na minha opinião, é o melhor no sax barítono e na clarineta baixo de todos os tempos. Menos presente na cena musical, hoje, morando em Oslo, perdeu o posto de melhor saxofonista barítono, que manteve por décadas, pela revista Downbeat. O terceiro instrumento no qual se destaca é o sax soprano, além da competência em criar climas sonoros nos teclados eletrônicos. Seu estilo é inconfundível. Por essa razão, logo identifiquei onde o tinha ouvido antes: em “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin. Comentei isso com ele na noite em que apresentou-se em São Paulo. Disse que muitos de seus fãs falam o mesmo. Sua presença é marcante neste álbum. No ano em que saiu “Extrapolation” já tinha lançado na Grã Bretanha seu primeiro disco como líder.

First meeting. É a primeira reunião de Miroslav Vitous e John Surman. Ao piano, o talentoso Kenny Kirkland — quem conhece a obra de Sting sabe que foi membro de sua banda, junto com outro músico do jazz, Branford Marsalis — e Jack DeJohnette na bateria. Todas as composições são de Vitous, com exceção da música-título, uma criação coletiva.

Pelo começo, iniciada com o piano de Kenny Kirkland, “Silver Lake” é uma preparação ao que ouviremos. É um número com um colorido excepcional, e solos bem distribuídos: o piano discreto mas essencial, solos dramáticos de Vitous com o arco, Surman no saxofone soprano e a bateria politonal do grande DeJohnette. O breve solo de Kirkland no final da faixa é uma preciosidade. Pena que tenha morrido tão cedo, em consequência do consumo de drogas ilícitas.

“Beautiful Place to”, bem melancólica, sem a bateria, é inteira com solo de Surman no soprano e Vitous tocando com arco em uníssono em vários trechos, sobre acordes discretos de Kirkland. A próxima, “Trees”, não entra na minha seleção das preferidas. 

“Cycle” é a primeira em que Surman toca clarineta baixo. O início é com ele e o, mais uma vez, o belíssimo piano de Kirkland. Vitous e DeJohnette entram logo depois. O tcheco é um mestre no arco. Tem um estilo único, inconfundível. DeJohnette também tem um estilo original. Por tocar piano também — e bem — sua capacidade de criar sonoridades na bateria o diferencia da maioria dos bateristas. Outros que têm essa capacidade de produzir sons polifônicos por meio de suas baquetas são Paul Motian e Thomas Strønen.

A seguir vem a música título. Destaca-se aqui o sax soprano de Surman nos solos. A seguinte, sem dúvida, é um dos destaques. “Concerto in Three Parts” é um solo de Vitous. É, com certeza, um dos que melhor tira partido do arco no contrabaixo. “You Make Me So Happy” é uma boa conclusão para esse primeiro encontro desses grandes músicos.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Terje Rypdal, Miroslav Vitous e Jack De Johnette

Jack DeJonhette, Miroslav Vitous e Jack DeJohnette (esq. para a direita)
 

Logo no início da década de 1970, começaram a surgir menções a uma gravadora alemã chamada ECM. Tendo lançado o primeiro disco em 1969 — “Free at Last”, do pianista Mal Waldron —, Manfred Eicher causava um pequena revolução no mundo fonográfico. Primeiro: não era um selo americano, mas gravava americanos, além de europeus, evidentemente. 

O ano de 1975 foi o da consagração da ECM ou quando o mundo a descobriu. “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, foi o álbum solo mais vendido da história no jazz. Além de Jarrett, Eicher trouxe Chick Corea para o seu selo e acreditou em um jovem talento, o guitarrista Pat Metheny, que estreou tocando na banda de Gary Burton.

Um dos grandes feitos do alemão foi dar espaço aos músicos do continente europeu, outrossim. Uma coisa que deu certo foi a de juntar músicos de seu plantel, que nunca tinham se reunido antes. Foi assim que Jarrett passou a ter seu quarteto “versão européia”, com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen, além do americano, composto por Dewey Redman, Charle Haden e Paul Motian.

Essas formações “móveis” eram como as cirandas brasileiras: Paul Bley gravava com John Surman, que gravava com Miroslav Vitous, que gravava com Jack DeJohnette, que gravava com Keith Jarrett, que gravava com Charlie Haden, que gravava com Don Cherry, que gravava com Naná Vasconcelos, que gravava com Jan Garbarek, que gravava com Egberto Gismonti e, assim por diante.

Desses grupos transitórios, um dos meus preferidos foi o que reuniu Terje Rypdal, Miroslav Vitous e Jack DeJohnette. O sucesso da ECM ecoou no Brasil e o disco dos três, intitulado apenas com os nomes deles foi um dos que saiu em versão nacional, não me lembro se na primeira ou segunda leva de lançamentos. Assim tivemos contatos com a música que seu criador usou como slogan “o mais belo som depois do silêncio”. 

No álbum em que tocaram juntos pela primeira vez, de 1979, duas composições são de Rypdal, duas de Vitous e as duas últimas, dos três. Os destaques são “Den Forste Sne” (Rypdal), “Believer” (Vitous) e Seasons (Rypdal, Vitous, DeJohnette). A combinação do som da guitarra tensa e inttensa combina muito bem com o estilo meio dramático, em alternâncias abruptas de andamento. Jack DeJohnette é um daqueles bateristas que se adequa em qualquer formação.

Em 1981 reuniram-se novamente e resultou no álbum “To Be Continued”, não tão bom quanto o primeiro, mas com dois títulos excepcionais: “Maya” e ‘Toplue, Votter & Skyerf”, ambas de Rypdal. Neste, o norueguês, além da guitarra toca flauta, Vitous, o contrabaixo elétrico, e Jack DeJonhette, vocais, na última faixa.

Ouça os destaques nessa playlist.


quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Terje Rypdal, como nos bons tempos

Acaba de ser lançado “Conspiracy”, do guitarrista Terje Rypdal. É uma volta do norueguês à sonoridade com que o conhecemos em seus primeiros álbuns pela ECM. Ele não pode ser classificado no gênero “jazz”, se formos mais ortodoxos. É um músico que privilegiou, desde o início da carreira, o instrumental. 

Se for necessário um rótulo, diria que tem o rock como fonte para as suas aventuras sonoras. Antes de passar a gravar pela ECM, aí considerando a mão de seu dono e produtor, Manfred Eicher, montou a banda The Vanguards, inspirado na inglesa Shadows e The Ventures. Curiosamente, estudou piano e trompete no Conservatório mas a guitarra, foi autodidata.

As portas para gravar na ECM se abriram por meio de sua cooperação com Jan Garbarek e Jon Christensen. Com sua formação em conservatório, Rypdal compôs a 1ª Sinfonia, comissionado pela Televisão Norueguesa. No mesmo ano de 1975, gravou “Odissey”, álbum com a sonoridade do jazz-rock fusion. O produtor e dono da gravadora alemã explorou bem esse ecletismo musical dele. Cada álbum lançado explorava um viés diferente. Um ano antes, pela ECM, lançou “Whenever I Seem to Be Far Away”, peça belíssima e soturna, com orquestra e instrumentos eletrônicos como o mellotron. Cada disco explorava um caminho diferente. O comum em todos eles era a voz única de sua guitarra. Era e é inconfundível, sendo suas composições de cunho erudito ou não.

“Conspiracy”, tem Ståle Storløkken nos teclados, Endre Hareide Hallre no Fender Precision e no baixo fretless e Pål Thowsen na bateria, lembra muito os primeiros álbuns dele na ECM. Nem tão roqueiras, sua guitarra é climática, evocando paisagens desoladas. São sons que criam atmosferas, em distorções com notas longas que criam uma tensão dramática, melancólicas e por vezes pungentes. É muito bom ver que certas pessoas não sucumbiram ao tempo. Continuam com suas energias vitais altas. E pensar que Elvis Presley, por exemplo, morreu com 42 anos e tinha se tornado uma caricatura de si mesmo. Rypdal está com 73 e ainda é capaz de nos emocionar. “Conspiracy” tem algo de nostalgia, decerto. Faz-nos lembra de uma música que nos emocionou há quase 50 anos. Não é qualquer um que nos resgata essa memória. 


quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Daniel Herskedal. Com a boca na tuba

Daniel Herskedal e a tuba

Numa cena de um dos primeiros filmes de Woody Allen, ele é o violoncelista de uma “marching band”, aquelas tradicionais que se exibem em público pelas ruas em datas comemorativas. A parte cômica é da impossibilidade de se tocar tal instrumento em pé. Executa um trechinho, interrompe, vai em frente, senta e toca mais um pouco.

A parte da instrumentação de base, o que dá consistência rítmica e espaço para os solos, é constituída pelo contrabaixo e a bateria, chamada de “cozinha” pelos músicos do jazz. Nas bandas de rua, os dois são substituídos por uma grande variedade de instrumentos percussivos, o sousafone — tem esse nome por ter sido criado justamente por um dos pioneiros das “marching bands’, John Philip Sousa — e a tuba.

Pouco representado no jazz, tem, entre seus poucos destaques Howard Johnson, Bob Stewart, o francês Michel Godard — que toca também um instrumento conhecido como serpente —, o jovem Theon Cross e Daniel Herskedal, tema dessa postagem.

Um novo polo
Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o interesse pelo jazz cresceu bastante na Europa. Abriu-se um mercado para os músicos americanos por várias razões: uma, o racismo arraigado na cultura americana. Podiam ser talentosos ou brilhantes, mesmo assim eram segregados, proibidos de frequentar os mesmos lugares que os brancos — hotéis ou restaurantes. A outra foi a de que vários músicos, por terem sido presos por problemas com drogas ilícitas, tiveram suas licenças cassadas, necessárias para apresentações públicas. Encontraram um ambiente receptivo.

A França foi o primeiro país a recebê-los com o respeito que mereciam. Um exemplo foi a a acolhida dada a Miles Davis. Os clubes eram frequentados por intelectuais como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Boris Vian. O jovem cineasta Louis Malle, aproveitando a sua estada, convidou-o para fazer a trilha sonora de “Ascenseur pour l'échafaud” (1958). Miles, de quebra, namorou com Juliette Gréco.

No final da década de 1950 e início dos 60, Dexter Gordon, Kenny Drew, Ben Webster, Bud Powell, Mal Waldron, Chet Baker e Stan Getz estavam tocando ou morando na Europa.

O fenômeno da cultura do jazz espalhou-se para outros lugares, como a Holanda, Bélgica e Dinamarca — onde até hoje existe o Café Montmartre, em Copenhaguen — e a Suécia, país que abrigou Stan Getz, Don Cherry e Bebo Valdés. Até em países que viviam sob ditaduras como a Espanha e Portugal, o jazz foi ganhando público crescente.

O interesse pelo gênero jazz cresceu para os outros países da Escandinávia e até para os da Cortina de Ferro. Um deles foi a antiga Tchecoslováquia, além da Polônia e Hungria em menor escala. Gábor Szabó e Miroslav Vitous, dois artistas formados nesses países emigraram e fizeram bastante sucesso no mercado americano.

O som que vem do frio
O produtor Manfred Eicher, dono e produtor da ECM Records foi um dos responsáveis pelo lançamento de inúmeros músicos escandinavos. O primeiro a ficar conhecido foi Jan Garbarek, quando este fez parte do quarteto europeu de Keith Jarrett. Junto com ele, emergiram na cena musical seus conterrâneos Arild Andersen e o brilhante guitarrista Terje Rypdal. Fizeram parte de sua banda os suecos Jon Christensen e Palle Danielsson. A outra gravadora que revelou bons nomes da Escandinávia e dos países do Leste Europeu foi a ACT Records. Aproveitando do título de um livro conhecido de John Le Carré, era o “jazz que veio do frio”.

Como Garbarek, Daniel Herskedal é norueguês. Nasceu em 1982, em Molde. Estudou na tradicional Conservatório de Trondheim. Começou tocando trompa (french horn) e passou para a tuba, instrumentos da mesma categoria. Seu caminho natural seria o de toacar em alguma orquestra, mas acabou por direcionar-se à música de improviso e à composição. Classificado no gênero erudito, o norueguês tem um álbum com sua música executada por Elin Torp Meland (oboé), Kjell Magne Robak (cello) e Gro Merete Hjertvik (piano): “Behind the Wall” (Naxos, 2019).

Tem seis álbuns sob seu nome. O mais recente é “Call for Winter” (2020), em gravação com overdubs dele tocando tuba e trompete baixo. Merece ser ouvido em sua íntegra. É brilhante.

Ouça.




quinta-feira, 16 de julho de 2020

O solo mais bonito de Joe Farrell

Joe Farrell no saxofone soprano. Foto: Jan Perssons

Alguns músicos nunca foram considerados os melhores do planeta, geniais como Miles Davis e John Coltrane e, mesmo assim, em algum momento, deixaram suas marcas. Até o mais comum dos humanos, em algum lugar, na perfeição em que pintou uma parede, nas palavras que podem ter significado muito para alguém, em uma atitude de bondade que nunca imaginou ter, pode tê-la deixado. Qualquer um é capaz de um ato de grandeza, mesmo sendo o mais mesquinho e miserável ser da Terra, sem perceber. Sim, podemos ser geniais, sem, de fato, sermos.

Joe Farrell, sem ser genial, foi um saxofonista e tanto; e bom flautista. Morreu jovem: 49 anos. É, por isso, pouco conhecido e um estranho para aquele com menos de 50. Brasileiros que ouviram Airto Moreira e Flora Purim sabem de quem escrevo, ou, quem ouviu o álbum “Return to Forever”, de Chick Corea, lançado em 1972, com o casal brasileiro, Farrell e o baixista Stanley Clarke.

No mesmo ano, em outubro, gravaram o LP “Light As a Feather”, que acabou saindo em 1973. Os álbuns seguintes, a partir de “The Hymn of the Seventh Galaxy”, Chick Corea consolidou o que ficou conhecido como “jazz progressivo”, usando outros teclados além do piano elétrico Fender Rhodes, na esteira da eletrificação do jazz, cujo pioneiro foi Miles Davis, e intitulou o grupo com o nome do disco citado no parágrafo anterior.

Mas o assunto aqui é Joe Farrell e de sua brilhante interpretação de “Crystal Silence”, de “Return to Forever”. Ouça.




Veja Joe Farrell em uma apresentação ao vivo, na flauta transversal, com Chick Corea.




Chick Corea, além da banda elétrica, seguiu gravando sob o seu nome. Um dos álbuns é “The Leprechaum” (Polydor, 1976), e o outro foi o duplo “My Spanish Heart”. Foi, num certo sentido, uma forma de abrir espaço para a cantora Gayle Moran, com quem acabou casando. Em “The Leprechaum”, Joe Farrell participou. Apresentaram-se na época, no Free Jazz Festival, no Brasil. Eu estava lá. Foi a única vez em que vi Joe Farrell.





terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Lyle Mays morre

Lyle Mays e Pat Metheny, quando pareciam ter vindo diretamente de “Wayne’s World”.

Há tempos não ouvia falar de Lyle Mays. Quando ouço — ou melhor, leio no zap por meio de um amigo —, é para saber que morreu. Segundo os noticiosos, sucumbiu a uma "longa batalha contra uma doença recorrente", em 10 de fevereiro, em Los Angeles.

Lyle ficou conhecido depois que passou a participar da banda de Pat Metheny. Este último, depois de ter tocado com Gary Burton em dois álbums pela ECM, lançou o primeiro como líder “Brigth Size Life”, em brilhante formação jazz trio, com o ainda pouco conhecido Jaco Pastorius e Bob Moses. Logo depois, em 1977, foi a vez de “Watercolors”, outro grande disco, com Eberhard Weber, Dan Gottlieb e Lyle Mays. Foi a primeira vez que ouvi falar dele. Este, menos jazz que o primeiro, enveredava por paisagens sonoras erigidas por violões e guitarras, o contrabaixo lúgubre de Eberhard Weber e o piano discreto de Mays. Todas as composições eram de Pat. A sonoridade de sua guitarra influenciou muitos, inclusive o brasileiro Toninho Horta, que chegou a contar com sua participação em um disco de 1990, em “Manoel, o Audaz” e “Prato Feito”.

Depois de “Watercolors”, em que Mays tem uma participação discreta, Metheny formou um quarteto com ele, Mark Egan e o mesmo Gottlieb. É de 1978 “Pat Metheny Group”. Juntos, lançaram mais um: “American Garage” (1979). Bem roqueiro, foi quando Pat tornou-se super conhecido. Tive a felicidade de vê-los no festival de jazz que aconteceu no Rio de Janeiro, em 1990, se não me engano. O jazz rock estava no auge. Na mesma ocasião assisti a uma apresentação inesquecível do Weather Report, com Jaco Pastorius arrasando.

Entre um e o outro, Pat e Lyle fizeram um disco primoroso: “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”. Lyle toca piano, órgão, sintetizadores, todos os teclados. Acho que deve ter sido a melhor coisa que fez. E de Pat, uma das melhores. É uma música climática, de momentos intensamente belos e dramáticos, de poesia pura. Que pianista foi Lyle! Contando com a preciosa e criativa percussão de Naná Vasconcelos, esse é um disco que nunca vou cansar de ouvir.

Pela ECM ainda, em 1982, o Pat Metheny Group lançou “Offramp”, em 1983, o ao vivo “Travels”, e em 1985, “First Circle”. Os dois continuaram juntos, já em outro selo, a Geffen Records:  “Still Life (Talking) (1987), “Letter from Home” (1989), “We Live Here” (1985), “The Road to You” (1993), “Quartet” (1996), “Imaginary Day” (1997), “Speaking of Now” (2002) e “The Way Up” (2005). Os dois, ainda, são autores da trilha sonora de “The Falcon and the Snowman” (1985). 

De Lyle, como líder, ouvi apenas “Fictionary” (Geffen 1983). Nunca mais soube dele, fora como membro do grupo de Pat Metheny. Só agora. Estou a ouvir todos os que gravou com Pat, no meu amplificador valvulado, com muitas saudades das sensações que tive à época em que ouvi esses discos pela primeira vez, e de lembranças de um tempo em que achei que era mais feliz do que hoje. E isso me causa uma certa dor. Acho que não tem melhor homenagem que dizer isso sobre aquele magrelão de cabelos rebeldes que vi um dia tocar no Rio de Janeiro.

Nesse momento, gostaria que todos estivessem fazendo o mesmo que eu. Ouvir Lyle com Pat. Ouça o álbum “As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls”, no Spotify.







quinta-feira, 20 de junho de 2019

O belo e o insólito com Near East Quartet


Definitivamente, a língua da música é universal. Seja cantada em esperanto, grego ou turco, as palavras se convertem em sons e não existem mais fronteiras. Mesmo desconhecendo outras línguas, fonemas se transformam em sons. É o que me veio à mente ao ouvir o álbum “Near East Quartet” da banda formada por Sungjae Son no saxofone tenor e clarineta baixo, Suwuk Chung, guitarra, Soojin Suh na bateria, e Yulhee Kim nos vocais.

É o primeiro que lançam por um selo de prestígio como a ECM, o que para o mundo ocidental representa muito. No site da gravadora, registra-se que existem desde 2010. É tempo suficiente para terem um conceito sonoro consolidado. Pelo que apresentam nesse disco, fica claro que a qualidade da música que executam não se circunscreve ao universo da música coreana, por mais que a desconheçamos. É uma demonstração clara da universalidade da música, em um tempo em que não existem mais barreiras entre nações, e qualquer informação está disponível no ponto mais longínquo dos principais centros. Regionalismos, para o bem ou para o mal, diluem-se sob o poder avassalador das culturas mais ricas.

Vamos combinar: a Coreia do Sul não é mais terceiro mundo há um bom tempo. Após o domínio japonês sobre a Coreia, que iniciou-se em 1919 e findou com a derrota dos súditos do rei Hiroíto e, posteriormente, dividida em dois, cresceu muito e está na vanguarda da tecnologia. E, culturalmente, sempre levaram a sério a música. Na música erudita, despontam muitos pianistas e violinistas excepcionais.

Tanto o líder Sungjae Son, como Suwuk Chung e Soojin Suh estudaram nos Estados Unidos. A conexão com a música coreana não é tão clara, mesmo que três das composições do álbum sejam temas tradicionais, e cantadas na língua original. Pode ser um pouco inconsequente afirmar isso, já que acho que nunca ouvi uma canção tradicional coreana e muito menos esse tal de k-pop, que faz tanto sucesso no ocidente.

Por isso, escuto Near East Quartet com ouvidos de um ocidental. E imagino que uma formação com saxofone — ou clarineta baixo — e guitarra dentre os principais instrumentos não seja tão coreana de raiz. Na percussão, talvez, sim. A batida de Soojin Suh é bem original. No genérico, a associação automática é com “som ECM”.

O álbum começa de forma impactante. “Ewha”, composição de Son, tem introdução com bateria, sax tenor e uma guitarra com bastante efeito, que lembra um pouco a de Ben Monder em seus últimos álbuns que lançou pela ECM, como líder. “Ewha” é climática e tensa na batida vigorosa de Soojim Suh. “Mot” é um tema tradicional coreano. Novamente, o que dá o clima é a guitarra de notas longas e efeitos hipnóticos e o sax tenor de tons graves que acompanha o lamento de Yulhee Kim. Bela canção.

Os sons iniciais da guitarra de Chung lembram mais uma vez Ben Monder na outra composição original de Chung, “Baram”. Notas de clarineta baixo, a bateria marcial de Suh, praticamente, são uma continuidade da anterior, reforçada pela voz de Kim. Sempre gostei dessas guitarras etéreas. Suwuk Chung é um nome que devo guardar.

No tema tradicional “Galggabuda”, as emoções se moldam em um solo contemplativo de Chung, sem a pirotecnia que sempre imaginamos de um músico formado no jazz. Mas, não, ele simplesmente almeja o belo, e o belo não precisa de profusão de notas. Ele pode estar no silêncio ou na simplicidade, como na minimalista “Garam”.

Perto do que ouço até agora, “Pa:do” é a faixa “heavy metal”, pelas guitarras sobrepostas, a mudança abrupta de andamento, e a bateria ótima de Suh. Final abrupto. “Ebyul” é um pouco decepcionante perto do que ouço até então. Mas é o que acho e nem tanto o que outros podem achar. “Jinyang” é a última e, funciona como uma conclusão. É apoteótica e breve, quase tão “heavy metal” como “Pa:do”. É um disco com pouco mais de 36 minutos. Poderia ser mais longo.


Ouça o álbum.




quinta-feira, 13 de junho de 2019

Ben Monder, só ou acompanhado


Pense em alguém tocando violão em uma pequena reunião de amigos. Mas não: é Ben Monder tocando guitarra solo em seu álbum mais recente, “Day After Day”. Dividido em duas partes, a primeira, é composta de sete músicas, com alguns standards — “Emily”, “Never Let Me Go” e“Dreamsville”. Na segunda, Monder é acompanhado de Matt Brewer e Ted Poor.

São dois momentos, mais ou menos opostos. Com seu trio, o guitarrista explora alguns temas, que, se não são standards, são hits, como “Only Yesterday”, dos Carpenters, “Goldfinger”, tema de um dos James Bond, consagrada na voz de Shirley Bassey, “Just Like a Woman”, de Bob Dylan, e “Guitar Man”, da banda Bread.

E são momentos bem diferentes dos álbuns mais recentes que gravou pela ECM. , como “Absence” (2018) e “Amorphae” (2016). Nestes, a guitarra de Monder se presta a momentos mais climáticos, bem ao estilo da gravadora de Manfred Eicher. O primeiro é em formato trio, com o pianista estoniano Kristjan Randalu e o baterista Markku Ounaskari. Em “Amorphae”, tocam com ele Pete Raede nos sintetizadores e os bateristas Andrew Cyrille e Paul Motian. Não. Não há nenhuma música em que Cyrille e Motian tocam juntos. Este último e Monder planejavam fazer um álbum em duo. Mas Motian morreu em 2010. Ficaram dois registros, “Oh, What a Beautiful Morning”e “Triffids”, que estão nesse álbum. Ben foi um dos três guitarristas da Paul Motian Band, em “Garden of Eden” (ECM 2006). Os outros: Steve Cardenas e Jakob Bro.

Guitarristas nascidos depois dos anos 1950, naturalmente, sofreram uma influência bem grande do rock. Saem um pouco do modelo de um Jim Hall ou Wes Montgomery. Monder teve um aprendizado formal sólido, estudando em conservatório e universidade de música. O rock é uma linguagem subjacente no seu modo de tocar, como, provavelmente, na grande maioria dos guitarristas com menos de 50 anos. Apesar de não ser o modelo “what can a poor boy do/ Except to sing (play) for a rock’n roll band”. 

Tocou e acompanhou músicos do jazz, como Jack McDuff, Lee Konitz e foi também da orquestra de Maria Schneider. Seu lado, digamos roqueiro, está na participação em “Blackstar”, derradeiro álbum de David Bowie. Melhor seria dizer que Bowie pendeu ao jazz ao optar por tocar com o saxofonista Donny McCaslin, o tecladista Jason Lindner e o baterista Mark Giuliana, e não o contrário.

Além de “Amorphae” e “Absence”, na ECM, o americano está presente em “Elegy”, de Theo Bleckmann, de quem tem sido parceiro frequente desde os anos 1990. T

Volto ao recente “Day After Day”. A parte solo, como disse no parágrafo inicial, tem esse clima de “descompromisso”. É como se Monder tivesse se sentado em seu estúdio e colocado o gravador em funcionamento para registrar o que resolvesse tocar. Ao contrário das guitarras de “Amorphae” e “Absence”, aqui, é uma guitarra sem efeitos.

Na segunda parte, continua “descompromissado”, só que com um baixista e um baterista que, de certo modo, são apenas coadjuvantes, sem executarem solos, como é de costume entre trios de jazz. Os efeitos, em que Monder é um mestre incontestável, apresentam-se em alguns poucos momentos, como em “Goldfinger”, de John Berry, que merece essa “espetacularidade”, e no tema final “Day After Day”. Nesse exemplos, lembra o guitarrista dos mil efeitos, principalmente neste, um solo espacial, com overdubs. Final maravilhoso.

Ouça algumas faixas dos álbuns citados. As três primeiras da playlist são de “Amorphae”, as duas seguintes, de “Absence”, e as restantes, de “Day After Day”.

 



quinta-feira, 11 de abril de 2019

A bateria única de Thomas Strønen

Dentre as atrações da edição de 2018 do Sesc Jazz, um dos destaques foi Thomas Strønen. Como sempre, generoso na diversidade, trouxe músicos veteranos (Archie Shepp e Charles Tolliver), atrações de bom apelo comercial (a espanhola Buika e Omar Sosa), estabelecidos (Renee Rosnes), o razoavelmente jovem e bem conhecido no Brasil, Stefano Bolani, avant garde (Henry Threadgill e James Blood Ulmer), rising stars (Melissa Aldana e Lourenço Rebetz, autor do excepcional “Corpo de Dentro”), e Vijay Iyer, considerado pela crítica, o melhor pianista da atualidade. Foram muitos atrações e acabei não citando Fred Frith, Mike Moreno e Itiberê Zwarg. Por preguiça, vi poucos, mas Strønen foi um deles, em razão de ter gostado muito de “Lucus”, seu álbum mais recente pela alemã ECM.

Ele se apresenta com um arsenal percussivo. Não é um baterista ao estilo de Art Blakey ou Max Roach. Mais no estilo ECM, privilegia-se o melódico em vez do ritmo. Influencia para o som original da banda a inclusão de um trio de cordas: Håkon Aase ao violino, Leo Svensson no violoncelo, no lugar de Lucy Railton, e Ole Morten Vågan no contrabaixo, e a excelente Ayumi Tanaka, que extrai belos sons ao piano, em prefeita consonância com a proposta de Strønen. É praticamente um conjunto de câmera, o que o aproxima da música erudita.

Os que acompanham as carreiras dos músicos nórdicos, percebem que existe uma linguagem muito característica. Há uma associação, não sei se real, de que, por viverem em regiões muito frias, o som que, fazem também é. Há uma lógica, imagino, como quentes são os ritmos caribenhos ou africanos.

Não é a primeira vez de Strønen no Brasil. É mais um que vem ao Brasil que, por falta de divulgação, nem ficamos sabendo. O baterista/percussionista interage com o público, sempre fazendo uma introdução explicativa de cada música. Assim, ficamos sabendo que o título de seu álbum anterior – “Time Is a Blind Guide” – foi tirado de uma frase de um romancista canadense, que agora não lembro seu nome. Tem algo a ver com a sonoridade da banda. O tempo é uma “blind guide”. É uma forma poética de dizer que somos guiados pelo acaso, e nos leva a um mundo desconhecido, por uma lógica chamada destino.

Destaco os dois últimos álbuns por apresentarem perspectivas semelhantes. Em “Time Is a Blind Guide” (ECM, 2015), o trio de cordas é composto por Håkon Aase (violino), Lucy Railton (violoncelo) e Morten Vågan (contrabaixo), acrescido do piano de Kit Downes, e a participação de Øyunn Kjenstad e Steiner Mossige na percussão, em algumas faixas. Nesse álbum, a última faixa se chama “Simples”. É uma palavra em português. Imagino que a ideia do nome tenha surgido depois de ter conhecido o Brasil. É um chute, ou, uma hipótese.

Em “Lucus”, lançado em 2018, participam os mesmos três nas cordas, com a pianista Ayumi Tanaka, claro, além de Strønen. Na minha opinião, é melhor que o anterior, em razão de os músicos, fora Tanaka, estarem a tocar juntos há mais tempo. Afinal, o tempo é um bom guia.


Assista à banda, em “Lucus”, um dos destaques do útimo álbum.




Fiz uma playlist no Spotify com algumas das minhas preferidas. Começa com a bela “Pipa”.


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Gary Burton é famoso faz tempo

Com 75 anos hoje, Gary Burton, tornou-se conhecido entre os da minha geração ao gravar, com Chick Corea, o fabuloso “Crystal Silence” (ECM, 1972).

Com 18 anos completos,  em 1961, lançou seu primeiro álbum solo: “New Vibe in Town”, com Gene Cherico e Joe Morello. Em 1962, foi a vez de “Who Is Gary Burton?”. Quem era esse rapaz? Tendo Lionel Hampton e Milt Jackson, como os grandes nomes do vibrafone, Burton era o “new talk of the town”. Revelava-se aquele que é até hoje um dos melhores de todos os tempos nesse instrumento. Neste último, tinha as companhias de Clark Terry, Bob Brookmeyer e Phil Woods, um trio de sopros de respeito, além Tommy Flanagam ao piano.

Os títulos de seus primeiros discos eram um anúncio da grande novidade. O terceiro, o melhor deles, foi “Something’s Coming”. Neste, contou com a brilhante guitarra de Jim Hall, o talento revelado na célebre banda de Jimmy Giuffre.

Ouça “On Green Dolphin Street”, com Jim Hall na guitarra.




Praticamente um auto-didata no vibrafone e na marimba, Burton, resolveu aprender piano aos 16, estudando depois na Berklee School of Music. Excursionou com George Shearing, tocou com Stan Getz, Larry Coryell e Steve Swallow. Em 1968 foi considerado o “Jazzman of the Year”, pela Downbeat, o mais jovem a ser laureado com tal título.

Depois de “Crystal Silence”, além de alguns duos com Corea, gravou belíssimos discos pela ECM. Um deles é “Ring” (1974), com uma superbanda composta por Eberhard Weber e Steve Swallow nos contrabaixos, Pat Metheny e Mick Goodrick nas guitarras, e Bob Moses na bateria. Como Burton, que foi revelado jovem ainda, foi a oportunidade para Metheny ficar conhecido e logo depois estrear com o solar “Bright Size Life” (ECM, 1976). Como é costumeiro na ECM, os músicos participam de vários projetos com outros do cast da gravadora. Além dos álbuns com Chick Corea, com seu quinteto e quarteto, tem outros com Ralph Towner (“Matchbook” e “Slideshow”), Steve Swallow (“Hello Hotel”), e por outras gravadoras, Stéphane Grappelli, Paul Bley e Keith Jarrett.

A partir de 1988 passou a gravar pela GRP, Concord Jazz e Mack Avenue. Os destques dessa fase mais recente são “Ástor Piazzolla Reunion: A Tango Excursion” (1998), “Libertango: The Music of Ástor Piazzolla” (1990) e “For Hamp, Red, Bags, and Cal” (2009) e “Quartet Live” (2009), com Pat Metheny, Steve Swallow e Antonio Sanchez. A parceria Corea-Burton manteve-se ativa, mesmo fora da ECM, com “Native Sense - New Duets” (1997), “The New Crystal Silence” (2008), e “Hot House” (2012).

Ouça algo de Gary Burton a seguir.


quinta-feira, 29 de março de 2018

O melhor está na ECM – lançamentos de fevereiro

Em relação aos primeiros lançamentos do ano da ECM, iniciei com comentários sobre álbuns em que bateristas aparecem como líderes. Era uma introdução para “Lucus”, de Thomas Strønen. Na segunda leva, um dos álbuns, novamente, é de um baterista, este, uma novidade para mim, a começar por ser de um japonês. Bom, para início de conversa, orientais têm a fama de serem péssimos ritmicamente. Não têm samba no pé, diriam os brasileiros. É um pouco injusto. Orientais podem ter dificuldades de captar a batida de um samba, mas é bem conhecida o taikô, do folclore japonês; é uma outra cultura da percussão.

Shinya Fukumori
, que faz sua estreia na ECM, pode ser inserido mais até dentro da tradição ocidental. A maioria dos temas é de autoria de Fukumori e quatro de conterrâneos seus, mas é impossível associar-se à música tradicional japonesa. Mais ou menos na linha de Thomas Strønen e Paul Motian, é um baterista menos pirotécnico, que prefere explorar as sutilezas sonoras do instrumento. É um álbum surpreendente: 4 estrelas e meia, na minha opinião; a Downbeat deu 3 e meia.

A banda é composta por Matthieu Bordenave (belo sax tenor), Walter Lang (piano) e Fukumori na bateria.

Veja o teaser. A animação é muito boa também.




Norma Winstone
Existem alguns pontos em comum entre o pacote de janeiro e fevereiro. Uma é dos bateristas. A outra, que pode ser apenas uma coincidência, é quanto aos títulos. Se no anterior, o nome do álbum de Bobo Stenson é “Contra la Indecisión”, neste, o novo de Norma Winstone chama-se “Descansado: Songs for Films”. O trio Norma, Klaus Gesing e Glauco Venier lançou “Distances” (2008), “Stories to Tell” (2010), e “Dance Without Answer” (2014), todos sublimes. No mais recente entrou um percussionista (Helge Andreas Norbakken) e um violoncelista (Mario Brunello).

Composto por temas de filme, como “The Thomas Crown Affair”, “Vivre sa vie”, “Malena”, “Amarcord”, “Il Postino”, e outros, decepciona um pouco, se comparado aos anteriores. É um disco “descansado”, meio carente de contrastes. Mesmo um tema romântico e dramático como o de “Romeu e Julieta”, de Nino Rota, soa um tanto frio. Mas é uma boa introdução para quem não conhece o trabalho da cantora veterana inglesa.

Como a ECM não disponibilizou algum teaser, para você conhecer a música do trio, veja-os em “Dance Without Answer”, de 2014.




Nicolas Masson
As capas dos discos da ECM são quase sempre de paisagens invernais, que de certo modo, representam visualmente o som produzido pelo cast de Manfred Eicher. “Travelers”, de Nicolas Masson, não foge à regra. É a excelência da pureza do som, tendo ao lado de seu sax ou a clarineta, Colin Vallon como pianista, Patrice Moret no contrabaixo e Lionel Friedli na bateria. Para quem gosta até de bolero e tango, como eu, sente falta de um pouco daquela “emoção”, da surpresa de descer uma duna em curva e em velocidade. Masson nos proporciona a beleza vista pela janela em um dia de inverno severo.

Veja o clip de “Gagarine”, a que abre o disco.

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Andy Sheppard
Como sempre, deixo por último o melhor do pacote. O inglês é um veterano da cena europeia, mais conhecido por ter participado de várias bandas de Carla Bley. Gravou o primeiro para a ECM “Movements in Colour” (2008), “Trio Libero” (2010), com Michel Benita e Sebastian Rochford, “Surrounded by Sea” (2015), e “Romaria”, que acaba de ser lançado. Nos dois últimos, que são os melhores, o quarteto é complementado por Elvind Aarset, na guitarra e efeitos eletrônicos, e os mesmos Benita, no baixo e Rochford, na bateria. Em “Trio Libero”, a não participação de Aarset representa uma boa diferença no conceito do som.

Bom, o título “Romaria” remete a alguma lembrança? Pois é a clássica composição de Renato Teixeira. Todas as restantes são do inglês. Não poderia deixar de ser um dos destaques do álbum. Ouça aqui. É muito bela. No álbum, houve uma inversão dos títulos, e a terceira é a quarta, e esta é a terceira. Muitos ouvintes vão pensar que chama-se “Pop”, inclusive quem postou no YouTube.




Sua apresentação na Fnac de Lisboa, que fica no Chiado é razoavelmente longa, com Sheppard solando com ele mesmo. Mais ou menos no minuto 15, toca “Romaria”. Bem interessante.

quinta-feira, 15 de março de 2018

Um grande início de 2018 da ECM

A bateria e o contrabaixo formam a “cozinha” de uma banda. Sob essa expressão que, hoje, pode ser considerada politicamente incorreta, por relegá-los ao segundo plano, ou por comparação, “lugar de mulher é na cozinha”, são dois instrumentos que seguram a “onda” rítmica, tão vital para a arquitetura da música, como as fundações, essenciais para que um prédio fique em pé. O que seriam do piano, do saxofone ou do trompete, sem eles?

Em razão de sua natureza, são poucas as bandas lideradas por bateristas. A mais conhecida foi a de Art Blakey. Em outra escala, Gene Krupa e Buddy Rich tiveram as suas, mas nunca com o brilho de Blakey e seus Jazz Messengers. Em suas fileiras, contou com instrumentistas brilhantes como Wynton Marsalis, Horace Silver, Lee Morgan, Wayne Shorter, Hank Mobley, Branford Marsalis, Bobby Timmons, Woody Shaw, Curtis Fuller e Cedar Walton, dentre outros. É uma seleção de melhores de todos os tempos. É mais ou menos como a observação de Marília Gabriela, quando em um programa na TV a cabo, a atriz Sonia Braga revelou vários nomes de homens com quem tinha se relacionado sexualmente, que incluía vários jogadores famosos. “Daria uma seleção brasileira de futebol”, observou a entrevistadora.

Em tempos entre Blakey e o atual, convém citar Chico Hamilton, Shelly Manne, Max Roach, Billy Higgins, Roy Haynes, Kenny Clarke (com Francis Boland), Mel Lewis (com Thad Jones), Elvin Jones e sua Jazz Machine e Andrew Cyrille. No último quarto de século, alguns bateristas brilharam com bons discos como líderes: Jack DeJohnette, Tony Williams e Paul Motian.

Ao citá-los, a impressão é que a tese não se sustenta. Porém, em comparação com outros instrumentos, é ínfimo. Nos últimos anos, contudo, parece que há um bom número de bateristas a lançar discos como líderes. Não estão no time dos figurões, mas em média, são muito talentosos, como compositores e líderes: Brian Blade, com sua Fellowship, Matt Wilson, Terri Lynne Carrington, Jaimeo Brown, Adam Nussbaum (veterano que acaba de lançar o ótimo “Lead Belly Project”), Bobby Previte (outro veterano que tem surpreendido), Thomas Fujiwara, Antonio Sanchez…

Thomas Strønen
Há tempos no plantel da ECM, com o duo Food, ele e o saxofonista Iain Ballamy, lança seu segundo disco sob seu nome. “Lucus” saiu agora em janeiro, sucedendo “Time Is a Blind Guide”, título que é o agora o nome de sua banda, formada por um violino, um violoncelo, um contrabaixo, e ele na bateria. A formação resulta em uma sonoridade única. Não sei se é possível afirmar que é gélido e melancólico por ser de um norueguês. Mas é fato: gélido, melancólico e belo. Todas são em andamento lento, com uma bateria que nunca se sobrepõe ao resto dos instrumentos, à exceção de uma ou outra.

Assista ao vídeo promocional.





Kit Downes
Por um tempo achei que era uma tecladista do sexo feminino. Descobri que é homem e inglês. É sua primeira incursão na ECM e deve ter sido convidado por Manfred Eicher depois de ter participado de “Time Is a Blind Guide”, de Strønen. Em “Lucus”, deu lugar a Ayumi Tanaka. Lançou o primeiro solo em 2009. É uma promessa prestes a se consagrar com este belíssimo e original “Obsidian”. Downes gravou-o em três igrejas da Inglaterra: Snape Church of John the Baptist, Bromeswell St Edmund Church, ambas em Suffolk, e na Union Chapel Church in Islington, Londres. É um solo órgão, à exceção de “Modern Gods”, em duo com o saxofonista Tom Challenger.

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Ouça “Rings of Saturn”, inspirada no livro do mesmo título, de W.G. Sebald.





Bobo Stenson
O outro escandinavo (é sueco) do pacote de janeiro é velho conhecido dos que acompanham a ECM desde sua fundação. Bobo Stenson era o pianista do quarteto que incluía Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen. Dois álbuns dessa formação são clássicos imprescindíveis ao que gosta de música: “Witchi-Tai-To” (1973) e “Dansere” (1975). Estão entre os melhores de Garbarek também. Até os que se incomodam com a estridência de seu sax darão o braço a torcer.

Quando Jarrett montou o seu quarteto europeu, para gravar na ECM, seus componentes foram Garbarek, Danielsson e Christensen. São partes que se formam, com a diferença de que Stenson e Jarrett são as “partes móveis”. 

Stenson participou de uma série bem grande de álbuns, gravando com vários músicos do plantel da ECM e tem lançado regularmente em formato trio. Toca há cerca de 40 anos com o baixista Anders Jormin. A terceira parte, Paul Motian, que foi do quarteto de Jarrett nos anos 1970, faleceu em 2011, e, agora o trio é completado pelo newcomer Jon Fält.
Como Jarrett, Stenson é melodioso, no entanto, mas cada qual tem o seu estilo. Os títulos dos álbuns-trio são curiosos – viagem minha – pela raiz latina, pelo menos em três: “Cantando” (2003), “Indicum” (2005), que, segundo alguns dicionários, é a união de “in”, da etimologia inglesa, e “dicum”, do latim, que quer dizer “algo dito” ou “fazer algo tornar conhecido”, e, agora, “Contra la indecisión”, tirada de “Canción contra la indecisión”, do cubano Silvio Rodriguez. Os temas são compostos por Anders Jormin, Stenson, uma é do trio, e as restantes são a de Rodriguez, “Wedding Song from Poniky”, de Béla Bartók, “Elégie”, de Erk Satie, e “Canción y Danza VI”, do catalão Frederic Mompou. Seu estilo é lacônico, um tanto melancólico e melódico. E, por serem melódicos, na minha opinião, os destaques são as leituras dos eruditos Bartók e Mompou. O álbum recebeu quatro estrelas pela Downbeat.


John Surman
Agora, vem a cereja do bolo, por duas razões, pelo menos. A primeira é a de que qualquer novo lançamento de John Surman é auspicioso. A segunda, porque o pianista de “Invisible Threads” é Nelson Ayres.

O brasileiro é um dos melhores pianistas da música instrumental, ao lado do mais jovem André Mehmari. Foi um dos primeiros a estudar na prestigiada Berklee School of Music, em Boston, junto com Victor Assis Brasil. Voltou ao Brasil e tornou-se um dos arranjadores mais requisitados. Não tem a fama merecida, quem sabe, por ser discreto e retraído. É tão bom que chamou a atenção de John Surman, o que não é pouco. É uma pena ser tão underrated aqui. Há mais dados sobre ele em publicações e sites internacionais que em português Na wikipedia em português são três ou quatro linhas, e é o mesmo no dicionário Cravo Albim.

Mais uma vez, recorro ao meu guru Matias José Ribeiro, autor dessa informação. Surman, em sua excursão pela América do Sul, no Brasil, participou de “Fala de Bicho, Fala de Gente”, de Marlui Miranda, com Nelson Ayres, Rodolfo Stroeter e Caíto Marcondes. Bom, nem fiquei sabendo que o inglês esteve no Brasil e estou até agora querendo me matar por ter perdido uma ocasião de ver um dos meus ídolos no sax soprano, barítono e clarineta baixo.

Surman não lançava nenhum álbum desde ‘Saltash Blues” (2012), pela ECM. É mais uma razão para ouví-lo com atenção. Qualquer coisa dele, mesmo como sideman, é reconhecível desde o início. Tem um som inconfundível. É o melhor clarinetista baixo e o melhor no saxofone barítono desde os anos 1970. É também um compositor abençoado e possui uma concepção sonora única. Basta escutar seus discos em que toca sozinho em overdubs, com sopros e teclados, como“Upon Reflection” (ECM 1979) e “Road to Saint Ives” (ECM 1990).

Depois da excursão pela América do Sul, Surman chamou Ayres e Rob Waring, vibrafonista americano radicado na Noruega. Juntaram-se em um estúdio de Oslo e gravaram essa maravilha chamada “Invisible Threads”, com todos os temas compostos por ele, com exceção de “Summer Song”, de Nelson Ayres.

Ouça “Autumn Nocturne”, segunda faixa, antes de ser bloqueado.




Outras dessa álbum foram bloqueadas.

quinta-feira, 8 de março de 2018

As grandes novidades da ECM, em 2018, mas antes…

Enquanto as majors , como diria um sambista, nem despertaram ao raiar do novo ano, a ECM está pisando fundo no acelerador. Nem se inicia o terceiro mês do ano e temos novos álbuns de grandes músicos como John Surman, Andy Sheppard, Norma Winstone e Bobo Stenson, bem conhecidos por quem acompanha a gravadora de Manfred Eicher. Fundada em 1969, é ainda um selo inovador. O alemão não dorme no ponto.

Ainda, como diria um locutor de futebol, no “apagar das luzes de 2017”, saíram quatro  álbuns que, se não fazem o gosto mais popular, deve-se reconhecê-los pela qualidade e variedade. São eles:
Anouar Brahem – Blue Maqams
Maciej Obara Quartet – Unloved
Django Bates’ Belovèd - The Study of Touch
Jon Balke - Nahnou Houm

O tunisiano Brahem, mestre no oud, similar ao alaúde, toca com Djando Bates, Dave Holland e Jack DeJohnette. É o tipo de som que não é para todos. Este, até pelos músicos que tocam com ele, é menos melancólico do que a maioria de seus discos.

Assista ao vídeo promocional.




Eicher gosta de fazer troca-troca com o seu plantel. O mesmo Bates aparece em “The Study of Touch”. O inglês, que fisionomicamente lembra vagamente Flea, o baixista do Hot Chili Pepppers, gravou dois álbuns com a banda First House, pelo selo, e algumas participações de outros músicos. Não é meu pianista preferido.

Assista ao vídeo promocional.




O tecladista e percussionista Jon Balke é outro bem conhecido dos “ecmemaníacos”. Gravou mais de uma dezena de álbuns por esse selo. A estreia na ECM foi fazendo parte do combo do baixista Arild Andersen em “Clouds in My Head”. Seu nome está associado a várias bandas, cada qual a seguir uma direção: Masqualero, com Arild Anderson e Jon Christensen, Magnetic North Orchestra, Batagraf e Siwan. Em comum, é seu gosto pela música étnica, principalmente pelos ritmos africanos, árabes e a andalusa, calcada na tradição moura, de quando dominaram a Península Ibérica.

Seu mais recente é “Nahnou Houm”, vai pela seara da música espanhola, com a formação que ele nomeia como Siwan. No disco de 2009, cujo título foi esse, contou com Amina Alaoui. A marroquina é o ponto fora da curva. Depois de “Siwan” (2009), gravou como líder “Arco Íris” (2011). Em “Nahnou Houm”, um dos músicos é iraniano, outro é turco, e os outros, noruegueses contrrâneos dele, e a a voz é da argelina Mona Boutchebak. É menos interessante que o de 2009, o que não quer dizer que não seja bom. Mas é meio monótono.

Ouça “Castigo”., de Balke.




Deixei “Unloved”, de Maciej Obara, porque é o melhor dos quatro. Em sua estreia, o polonês não faz feio. Para quem gosta do “som ECM”, é um prato cheio. É bem o estilo. Obara prioriza o melódico ao uptempo. Provavelmente gravará outros pela ECM. Quem chama a atenção é o pianista. Quase certeza que Dominik Wania, polonês também, ganhará a chance de ter seu álbum solo. Ele é muito bom.

Veja o promocional de “Unloved”.