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| Daniel Herskedal e a tuba |
Numa cena de um dos primeiros filmes de Woody Allen, ele é o violoncelista de uma “marching band”, aquelas tradicionais que se exibem em público pelas ruas em datas comemorativas. A parte cômica é da impossibilidade de se tocar tal instrumento em pé. Executa um trechinho, interrompe, vai em frente, senta e toca mais um pouco.
A parte da instrumentação de base, o que dá consistência rítmica e espaço para os solos, é constituída pelo contrabaixo e a bateria, chamada de “cozinha” pelos músicos do jazz. Nas bandas de rua, os dois são substituídos por uma grande variedade de instrumentos percussivos, o sousafone — tem esse nome por ter sido criado justamente por um dos pioneiros das “marching bands’, John Philip Sousa — e a tuba.
Pouco representado no jazz, tem, entre seus poucos destaques Howard Johnson, Bob Stewart, o francês Michel Godard — que toca também um instrumento conhecido como serpente —, o jovem Theon Cross e Daniel Herskedal, tema dessa postagem.
Um novo polo
Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o interesse pelo jazz cresceu bastante na Europa. Abriu-se um mercado para os músicos americanos por várias razões: uma, o racismo arraigado na cultura americana. Podiam ser talentosos ou brilhantes, mesmo assim eram segregados, proibidos de frequentar os mesmos lugares que os brancos — hotéis ou restaurantes. A outra foi a de que vários músicos, por terem sido presos por problemas com drogas ilícitas, tiveram suas licenças cassadas, necessárias para apresentações públicas. Encontraram um ambiente receptivo.
A França foi o primeiro país a recebê-los com o respeito que mereciam. Um exemplo foi a a acolhida dada a Miles Davis. Os clubes eram frequentados por intelectuais como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Boris Vian. O jovem cineasta Louis Malle, aproveitando a sua estada, convidou-o para fazer a trilha sonora de “Ascenseur pour l'échafaud” (1958). Miles, de quebra, namorou com Juliette Gréco.
No final da década de 1950 e início dos 60, Dexter Gordon, Kenny Drew, Ben Webster, Bud Powell, Mal Waldron, Chet Baker e Stan Getz estavam tocando ou morando na Europa.
O fenômeno da cultura do jazz espalhou-se para outros lugares, como a Holanda, Bélgica e Dinamarca — onde até hoje existe o Café Montmartre, em Copenhaguen — e a Suécia, país que abrigou Stan Getz, Don Cherry e Bebo Valdés. Até em países que viviam sob ditaduras como a Espanha e Portugal, o jazz foi ganhando público crescente.
O interesse pelo gênero jazz cresceu para os outros países da Escandinávia e até para os da Cortina de Ferro. Um deles foi a antiga Tchecoslováquia, além da Polônia e Hungria em menor escala. Gábor Szabó e Miroslav Vitous, dois artistas formados nesses países emigraram e fizeram bastante sucesso no mercado americano.
O som que vem do frio
O produtor Manfred Eicher, dono e produtor da ECM Records foi um dos responsáveis pelo lançamento de inúmeros músicos escandinavos. O primeiro a ficar conhecido foi Jan Garbarek, quando este fez parte do quarteto europeu de Keith Jarrett. Junto com ele, emergiram na cena musical seus conterrâneos Arild Andersen e o brilhante guitarrista Terje Rypdal. Fizeram parte de sua banda os suecos Jon Christensen e Palle Danielsson. A outra gravadora que revelou bons nomes da Escandinávia e dos países do Leste Europeu foi a ACT Records. Aproveitando do título de um livro conhecido de John Le Carré, era o “jazz que veio do frio”.
Como Garbarek, Daniel Herskedal é norueguês. Nasceu em 1982, em Molde. Estudou na tradicional Conservatório de Trondheim. Começou tocando trompa (french horn) e passou para a tuba, instrumentos da mesma categoria. Seu caminho natural seria o de toacar em alguma orquestra, mas acabou por direcionar-se à música de improviso e à composição. Classificado no gênero erudito, o norueguês tem um álbum com sua música executada por Elin Torp Meland (oboé), Kjell Magne Robak (cello) e Gro Merete Hjertvik (piano): “Behind the Wall” (Naxos, 2019).
Tem seis álbuns sob seu nome. O mais recente é “Call for Winter” (2020), em gravação com overdubs dele tocando tuba e trompete baixo. Merece ser ouvido em sua íntegra. É brilhante.
Ouça.

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