Mostrando postagens com marcador Romero Lubambo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Romero Lubambo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de julho de 2026

O amor brasileiro de Sarah Mckenzie

 

Quando Sarah McKenzie lançou seu primeiro álbum, We Could Be Lovers, em 2015, é bem possível que tenha passado pela cabeça dos diretores da gravadora Impulse de que ela poderia ser uma nova Diana Krall.

A canadense “descoberta” por Ray Brown estreou com Steppin’ Out pelo selo canadense Justin Time, em 1983, e o sucesso foi tão grande que a americana GRP Records lançou no mercado americano. Diana Krall era um daqueles talentos que surgem de tempos em tempos. Apesar da diferença de formatos – Nat “King” Cole foi introdutor do formato trio com a guitarra no lugar do contrabaixo – a banda, formada por Diana Krall, John Clayton e Jeff Hamilton lembrava as primeiras gravações em que Cole, pelo estilo da combinação piano/voz.

Em 2015, a canadense já era famosíssima, com fãs fanáticos mundo afora. Devido ao sucesso, depois de ter passado pela Impulse, nesse tempo era do cast do selo Verve Records. Para a Impulse, quem sabe, ao lançar Sarah McKenzie, como disse no primeiro parágrafo, podem ter pensado que tinham uma nova Diana Krall na mão. 

Sarah, depois da formação inicial na Australian Academy of Performing Arts mudou-se para os Estados Unidos e foi estudar na Berklee School of Music. Tal como Diana, era loura, bonita, compunha, tocava piano e cantava.

Sarah não estourou como Diana. De 2015, quando lançou seu primeiro álbum, Without You é o sexto lançamento na carreira. Desde 2017, quando foi convidada para se apresentar na inauguração do clube Blue Note, no Rio de Janeiro, fazia parte de seus planos um dia fazer um álbum “brasileiro”. Curiosidade: fez uma aparição no programa “Encontro com Fátima Bernardes”, da TV Globo.

No início da pandemia da Covid entrou em contato com o violonista brasileiro radicado nos Estados Unidos Romero Lubambo, que já havia participado de Paris in the Rain (Impulse, 2017). Falou também com Jacques Morelenbaum, que tinha conhecido quando veio ao Brasil. Com os dois, em 2020, de forma remota, fizeram uma gravação de Corcovado e disponibilizaram no Facebook. Tiveram 1,7 milhão de acessos. Estava dado o primeiro passo para o álbum que se chamaria Without You, que é a oitava faixa, composição dela com letras de Lubambo. Nela temos uma das participações de Andy Sheppard, aqui fazendo um solo na flauta.

Com a adição do baixista Geoff Gascoine, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), o percussionista brasileiro Rogerio Boccato e a participação do saxofonista e flautista Bob Sheppard, o álbum tem um total de quatro composições de Sarah, com destaque para o suingado Quoi, Quoi, Quoi, Quoi e o resto com standards brasileiros, como Gentle Rain, faixa inicial, Corcovado, Fotografia, Once I Loved, Dindi, Garota de Ipanema, Chega de Saudade, Bonita e Modinha, ou seja, Antônio Carlos Jobim, com uma pitada de Luiz Bonfá.

Além de Quoi, Quoi, Quoi, Quoi, as composições de McKenzie são “brasileiras”. The Voice of Rio é uma canção sessentista com o piano bem ao estilo da época e o violão de Lubambo. Mean What You Say vai na mesma toada. É meio uma samba bossa nova com um solo do violonista na medida exata. 

Ao som do violoncelo de Morelenbaum e o violão de Lubambo, Gentle Rain abre com majestade o disco. McKenzie, como Diana Krall, sabem combinar muito bem a voz, se acompanhando ao piano e fazendo solos de muito bom gosto. Corcovado, a seguir, começa com o solo de Morelenbaum. É impressionante como ele soube imprimir uma marca. É muito fácil reconhecer o seu violoncelo em suas participações, seja com Caetano Veloso ou Ryuichi Sakamoto. Fotografia e Once I Loved You seguem na mesma toada. Nesta última destaca-se o sensível acompanhamento de Lubambo, com um solo muito bonito. É voz e violão, que realçam a melancolia da música. Esses clássicos da bossa nova são atemporais mesmo. Podem ser interpretados pela milésima vez por cantores e músicos diferentes e sempre lembraremos de seu compositor. É o caso de Wave e Dindi. Nesta última, Sarah canta esplendidamente, acompanhada por seu piano de poucas notas. A entrada do violão e o som personalíssimo de Morelenbaum são o destaque, com o belíssimo solo de Sheppard. Há um certo frescor que são intrínsecos às criações dessas composições.

É difícil ser original com uma canção tão tocada. A Garota de Ipanema é uma das cinco mais executadas de todos os tempos. Bem que tentam. Na metade dela, é apenas o violão, a percussão de Rogerio Boccato, com acordes ao piano privilegiando as notas médias. Após um átimo de silêncio, entra o cello e Sarah repete algumas vezes “she doesn’t see”. A seguinte é aquele outro clássico que até os russos devem saber de cor: Chega de Saudade. Sarah canta a parte inicial em português, canta parte em inglês e volta para o português.

Não consigo ouvir Dindi e Bonita sem lembrar de Sarah Vaughan. As interpretações de Dindi que vou lembrar sempre são a da americana, um pouco pelo jeito que entoa o nome Dindi e a de Sylvia Telles, que acho primorosa. A de Sarah é esquecível. A faixa final, Modinha é uma daquelas “torch songs” clássicas. É preciso uma certa dramaticidade, como a de Elis Regina em Elis & Tom, e a campeã de todos os tempos, a de Nana Caymmi. A de McKenzie é cantada em português sem sotaque, apenas ela e o piano. Vamos dar um desconto: é um bom fecho para a sua aventura brasileira.

Ouça o disco:

terça-feira, 22 de abril de 2014

Romero Lubambo, só e bem acompanhado

Romero Lubambo é só sorriso em Só
Na única vez em que tive oportunidade de ver Romero Lubambo tocando foi quando apresentou-se com Dianne Reeves no Bourbon Street. Não tem nada de estranho um brasileiro tocando com a cantora. Para quem não sabe, Dianne começou fazendo vocais na banda de Sergio Mendes. Romero é um sujeito simpático, expansivo, e sua forma de tocar tem a ver com isso.

Lubambo estudou música na adolescência, mas na hora do “vâmu vê”, foi cursar engenharia na PUC-Rio. Mas a música deve ter falado mais alto. Tomou coragem e foi tentar conquistar a América. Está lá desde 1985, ou seja, há quase trinta anos. Mas o Brasil, como aquela maldosa piada de que os nordestinos saem de lá, mas o nordeste não sai deles, Romero não traiu suas raízes.

Com Nilson da Matta e Duduka da Fonseca, todos com pés firmemente ficados em solo americano, formam o Trio da Paz. Romero tem parcerias importantes com Yo-Yo Ma e o cubano Paquito D’Rivera, aliás, homenageado em “Paquito en Bremen”, em seu álbum mais recente, do qual passo a falar daqui por diante: “Só: Brazilian Essence”.

Romero é um músico requisitado; além de Reeves, tocou com Michael Brecker, Jane Monheit, dentre outros, e é participante frequente quando brasileiros como Ivan Lins, Leny Andrade e Luciana Souza gravam ou apresentam-se além das nossas 200 milhas.

Contamos com ótimos violonistas locais como Marco Pereira, João Rabello, Rogério Caetano e Yamandu Costa, que poderiam muito bem estarem se destacando fora do Brasil. Outros, como Laurindo de Almeida, Los Indios Tabajaras (Natalício e Antenor Lima), Luiz Bonfá, Baden Powell, Oscar Castro-Neves, Carlos Barbosa-Lima, os irmãos Assad… bom, acho que estou esquecendo de alguns, mas, realmente, é um contingente bem grande, preferiram emigrar.

Não faltam clássicos da bossa nova na incursão solitária de Lubambo. Suas escolhas recaem em um belo “Insensatez”, “Brigas Nunca Mais”, “A Felicidade” (Jobim), e dois originais de Carlos Lyra (“Você e Eu” e “Coisa Mais Linda”). Completam a sua incursão solitária a óbvia “Aquarela do Brasil”, “Paquito in Bremen”, “Pedra Bonita”, de Mario Adnet, “Song for Kaya”, “Luísa”, “Samambaia”, “By the Stream” e “Laura”. O “só” do título é bom, porque é um álbum solo. O único momento em que está acompanhado, é com ele mesmo. Em “Coisa Mais Linda” é seu violão e ele cantando. E não é que nesse quesito, o rapaz se dá bem? Poderia até gravar um com violão e voz. Seria melhor que Eliane Elias, desculpe a ousadia de não gostar dela como cantora.

Ouça o álbum.