quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tony Bennett, mais vivo do que nunca

Com 89 anos completados em agosto, Tony Bennett continua mandando bem. É um exemplo de longevidade sem insanidade. Nunca houve alguém como Frank Sinatra, mas este, aos 80, estava um trapo, um fio de voz, o que Tony, até hoje mantém a potência e afinação impecável. Aliás, Frank era fã de Bennett.

Nunca houve ninguém como Bill Evans. Seu xará, de sobrenome Charlap, filho da cantora Sandy Stewart e do compositor Mose Charlap, é um tremendo pianista, com muitos admiradores no meio do jazz. E é esse outro Bill que toca com Tony, revivendo a grande parceria de Evans com o cantor em dois clássicos – The Tony Bennett/Bill Evans Album e Together Again. Em relação ao primeiro – o segundo é de 1977 –, são 40 anos para o lançamento de The Silver Lining: The Songs of Jerome Kern.

E é incrível que 40 anos depois e com quase 90 anos, Tony esteja cantando tão bem. No ano passado, em parceria surpreendente, lançou Cheek to Cheek, com Lady Gaga (leia em http://bit.ly/1MpEQpH). E o que anunciava ser um desastre, saiu ótimo. Até que a moça, em um gênero que não é seu, faz bonito. O disco foi até elogiado pela crítica e vendeu muito bem.

Se os dois álbuns eram voz e piano, em The Silver Lining, apesar de ser no formato duo, sete faixas contam com o baixista Peter Washington e o baterista Kenny Washington, e em quatro, com o acréscimo da também ótima pianista Renee Rosnes, aliás, mulher de Bill. São três músicos que apenas abrilhantam o disco. É tão bom que o fã de Bennett pode curtir a voz de um dos melhores cantores do século passado, que continua firme entre os primeiros neste, fazendo de conta que o pianista pode ser um qualquer, e os admiradores de um bom piano podem só prestar atenção nas linhas extraordinárias que Bill executa no instrumento. Juntando os dois, é o que ouvimos em simbiose perfeita. É um dos melhores lançamentos do ano. Jerome Kern deve estar feliz.

Bill e Tony na música que dá título ao disco.




A melhor faixa do álbum é “They Didn’t Believe Me”. Aqui são acompanhados por Peter Washington e Kenny Washington. Confira.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Theo Bleckmann canta Kurt Weill

Theo e Julia, lado a lado
Tenho o costume de sempre dar uma olhada em um site cujo nome revela ao que veio – “musica degradata” (http://musicadegradata.blogspot.com.br) –, e outro, chamado “jazz boot experiment” (http://jazzbootexperiment.blogspot.com) – por neles encontrar gravações não lançadas em CD. Geralmente são registros tirados de transmissões radiofônicas ou gravações piratas mesmo. Na era digital, são de ótima qualidade, ao contrário dos que eram lançados antigamente, os chamados “bootlegs”, em sua maioria péssimos. O bom nesses dois sites é a chance de se ouvir encontros de músicos que só acontecem em shows.

Nessa garimpagem, achei um show de Theo Bleckmann com o quarteto da pianista e compositora Julia Hülsmann, em um festival de jazz em Bonn, que aconteceu em 28 de maio deste ano. Julia é uma jazzista alemã bem conhecida, e Theo já foi chamado de “local cult favorite” pelo New Yorker.

Pelo “cult” fica claro que Bleckmann não é aquele cantor que vai agradar a todos. “Cult” é uma expressão entojada e elitista, por natureza. Pois a própria pessoa que fez o post para o download escreveu o seguinte: “O pior cantor da redondeza. Espero que Manfred Eicher nunca lance um álbum com ele.” Pelo jeito, o dono da gravadora ECM não pensa o mesmo: meses depois foi lançado A Clear Midnight – Kurt Weill and America. E é isso mesmo: Beckmann é para poucos, seja isso um elogio elitista ou uma crítica. Como comparativo, na votação da Downbeat, ficou em terceiro como melhor vocalista masculino, segundo a crítica; na votação dos leitores, ficou em sexto, abaixo de Michael Bublé, que apenas tem o mérito de ser boa pinta e bom vendedor de discos. A crítica já o descreveu como “de outro planeta” (New York Times), “mágico, futurista” (AllAboutJazz) e “transcendente” (Village Voice).

Theo Beckmann é um cara diferente mesmo. É o caminho que escolheu. Basta observar com quem já trabalhou: Meredith Monk, Phillip Glass, Dave Douglas e Anthony Braxton, dentre outros. Seus projetos também possuem essa marca. Seu disco I Dwell in Possibilities foi inspirado no Art Povera, movimento artístico italiano dos anos 1960; Hello Earth! é uma releitura do álbum conceitual do mesmo nome de Kate Bush; e um outro chama-se Twelve Songs by Charles Ives with Kneebody. Com trabalhos assim, impossível ser apreciado por muita gente. Os álbuns que podem ser considerados mais “pop” são Schumann's Favored Bar Songs, duo com o pianista Fumio Yasuda (Winter & Winter, 2010), sua participação em Songs I Like a Lot, de John Hollenback (2013) e seus álbuns com Ben Monder, que mesclam o avant garde com standards.

A Clear Midnight

O álbum, cujo subtítulo é Kurt Weill and America, faz uma ponte do que foi composto depois que o alemão mudou-se para os EUA, fugido da guerra e de Hitler. Além de clássicos como Mack the Knife (a única exceção), Speak Low, September Song e Alabama Song, e outros menos populares, como Your TechniqueBeat! Beat! Drum! e River Chanty, em parceria com letristas como Ogden Nash, Ira Gershwin, Ann Ronnell, Langston Hughes e Maxwell Anderson, o álbum tem alguns números compostos por Julia sobre poemas de Walt Whitman.

Certamente, o álbum concebido por Julia não é do gosto de todos, mas é um bom diferencial, uma ilha no meio de tantos intérpretes que pouco se aventuram.


Veja Theo com Julia em Beat! Beat! Drum!, no Festival de Jazz de Bonn.




Assista ao vídeo oficial da ECM apresentando o álbum.