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terça-feira, 9 de junho de 2015

Surpresa dupla com Avi Avital

Um bom programa para amanhã, 10 de junho, é a apresentação de Avi Avital, na Sala São Paulo. É parte da programação da Série TUCCA de Concertos Internacionais. Esta entidade existe há 15 anos e dedica-se à pesquisa e à assistência de crianças e adolescentes carentes com câncer.

Fora o belo trabalho que desenvolvem, essa associação é responsável por um dos melhores programas de concerto do Brasil, mais interessantes até do que o da Osesp, por ter um foco também em outros gêneros, além da música erudita. Para se ter uma ideia, depois de Avi Avital, estão programadas apresentações de Miloš Karadaglić (9 de setembro), um dos melhores violonistas da atualidade, Alice Sarah Ott e Francesco Tristano (14 de outubro), pianistas que acabam de lançar o belo Scandale (Deutsche Grammophon, 2014), e, em 11 de novembro, a do quarteto de Gerald Clayton, com Cyrille Aimée e Sachal Vasandani, dois cantores “rising stars”.

É evidente que o foco dos programadores da série da TUCCA é outro, pois o da Osesp é mais específico. Essa liberdade propicia ao público conhecer novos nomes. Avital, Karadaglić, Ott e Tristano não são estranhos àqueles que acompanham a música clássica, pois são contratados de Deutsche Grammophon, que há muito vem apostando em repertórios mais ecléticos, misturando o popular com o erudito.


Avi Avital  O mandolin – ou bandolim, como é conhecido no Brasil – surgiu por volta de 1750 e, apesar de razoavelmente popular, nunca foi muito utilizado na música erudita. Do pouco que se conhece, a obra mais conhecida que o utiliza, é o Concerto de Mandolin, RV 425, de Antonio Vivaldi. Conforme publicações especializadas, foi usado também, nunca como solista, por Beethoven, Mahler, Schoenberg e Mozart. Na conhecida Canção da Terra (Das lied von der Erde), de Mahler, o bandolim é utilizado brevemente.

Na esfera do popular, ele e suas variantes, como o banjo e o mandolim elétrico, são populares nas músicas country e folk americanas e acredito que também na Europa Central. No Brasil é o instrumento muito usado no choro. Cooperaram para a sua popularidade Jacob do Bandolim, Joel Nascimento e Déo Rian. Dentre os atuais, o grande nome é Hamilton de Holanda. É um dos músicos brasileiros com maior prestígio internacional atualmente. O Que Será?, com o italiano Stefano Bollani, lançado pela ECM, mereceu elogios empolgados tanto dos críticos como do público apreciador da música instrumental. (leia e ouça em http://bit.ly/1MgoefE)

O israelense Avi Avital, nascido em Beersheba, cidade do sul do país, começou a tocar o bandolim com sete anos e logo foi estudar em Jerusalém e depois, em Pádua, escolha lógica, pois a Itália é o berço desse instrumento. Em razão de poucas peças compostas para ele, seus estudos voltaram-se às transcrições, principalmente de obras para o violino.

Seu primeiro álbum lançado pela Deutsche Grammophon, intitulado, simplesmente, Bach, é composto por três concertos e duas sonatas do alemão. São transcrições muito interessantes e perfeitamente adaptadas ao bandolim. Ouça o Concerto BWV 1052R.





Veja Avital executando o Primeiro Movimento da Cello Suite nº1. Acho que não há nenhum registro em disco dessa peça.




Ano passado, Avital lançou o álbum Vivaldi, dedicado ao veneziano, compositor das peças mais conhecidas da música clássica e também autor de uma das poucas para o bandolim, o Concerto em Dó maior, RV 425. E nada melhor do que ser acompanhado pela Venice Baroque Orchestra ao homenagear o “il prete rosso”.

Pode-se dizer que Avi é uma estrela, guardando-se as proporções e não se comparando aos ídolos do rock. É jovem, carismático e transita pelo crossover, algo entre o clássico e o pop. Ser indicado ao Grammy atesta o quanto é conhecido. Ser popular tocando música erudita significa que você está no nível de um André Rieu? Errado. Em muitos casos, o aumento da popularidade está relacionada a um empobrecimento musical. Mas não é esse o caso, nem de Avi, nem de outros como Daniel Hope. O perigo, no entanto, pode estar próximo.

Veja Avi com a Venice Baroque Orchestra no Concerto para Bandolim.




Um destaque, devido a sua popularidade, é Quatro Estações. Ouça um dos movimentos de Verão.




Pelo mundo  O álbum mais interessante, no entanto, considerando-se que a seara de Avital é o crossover, até por conta de o bandolim não ser um instrumento de concerto muito utilizado, é Between Worlds (DG, 2014). Ele explora o repertório erudito, tocando composições de Manuel De Falla, Vittorio Monti, Heitor Villa-Lobos e Béla Bartók. Mais interessante, no aspecto “world”, são as execuções de composições da Geórgia, Bulgária, não deixando de incluir uma composição de sua conterrânea Ora Bat Chaim. Dos “exemplares” étnicos, uma bem interessante é a búlgara Bučimiš.





Avital fala sobre Czárdás, de Vittorio Monti, que é executada com Richard Galliano.

terça-feira, 20 de maio de 2014

As Quatro Estações, recompostas por Max Richter

André de Ridder, Richter e Daniel Hope, unidos por Vivaldi
É quase impensável imaginar Johann Sebastian Bach esquecido ou Antonio Vivaldi, autor de uma das obras mais conhecidas da música erudita, ter, em vida, passado por dificuldades financeiras em virtude de não ter mais sua obra apreciada pelo público contemporâneo. Um dos responsáveis de tirar o alemão do ocaso foi outro compositor: Felix Mendelssohn.

Vivaldi, deprimido e endividado, nunca imaginaria que suas peças tornariam-se tão populares e por tanto tempo. Se royalties pudessem ser enviados post mortem e usufruídos no paraíso ou no inferno, ótimo. O fato de ter sido padre, certamente, não deve ter sido garantia para a abertura das portas do céu.

O fato de Max Richter ter menos de 50 anos é uma boa pista para o tipo de música que compõe. Percebem-se influências dos mais velhos minimalistas como Philip Glass e Steve Reich e neoclássicos como Arvo Pärt e até da “ambient music” de Brian Eno.

A releitura que faz das Quatro Estações no álbum intitulado Recomposed by Max Richter, lançado em abril pelo selo Deutsche Grammophon é Vivaldi que passou por esses compositores incorporando elementos da linguagem tonal contemporânea.

O compositor. O nome de Max Richter pode não ser muito conhecido, até pelo público amante da música erudita. É, no entanto, autor de trilhas de filmes visto por milhares de pessoas, como Valsa para Bashir, de Ari Folman, e A Chave de Sarah, de Gilles Paquet-Brenner. Tendo como referência dois álbuns de Richter lançados pela Deutsche Grammophon – Songs from Before (2006) e 24 Postcards in Full Colour (2008) –, percebe-se a sua preferência por sons climáticos, bem apropriados para o cinema. As Quatro Estações não foram compostas para algum filme, evidentemente, mas funcionam muito bem para esse propósito. Essa é uma das razões do tremendo acerto na “recomposição” empreendida por Max Richter. Um dos destaques é Summer 3 pela energia e maestria do violinista Daniel Hope.

Confira.




Veja a íntegra de Vivaldi Recomposed by Max Richter, com o próprio nos teclados eletrônicos, Daniel Hope e orquestra.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Leituras de Vivaldi por Richard Galliano

Comentei antes sobre o álbum de Richard Galliano com a música de Johann Sebastian Bach, lançado pela Deutsche Grammophon, em 2010. Deve ter feito sucesso, pois o francês ataca novamente o repertório do período barroco. O compositor da vez é Vivaldi. É um autor mais popular que o alemão. Até o cara da esquina conhece o veneziano. Quem nunca ouviu, mesmo inadvertidamente as Quatro Estações, ou melhor, Il cimento dell'armonia e dell'inventione. Os quatro concertos são parte de um conjunto de oito.

O acordeon não é usado (nunca diga “nunca”, pois sempre existe algum exemplo) na música erudita. É um instrumento essencialmente popular, pelo que parece, fadado ao desaparecimento. Hoje, existem poucas fábricas. O bandoneón, uma variação, tão popularizada por Astor Piazzolla, é quase exclusivo da Argentina. Como acontece com o acordeon, poucas são as fábricas que o produzem. Li em algum lugar que na Argentina estão disponíveis apenas recondicionados. No Brasil, como disse, é até popular. É forte na tradição nordestina o acordeão e suas variantes, assim como no Rio Grande do Sul.

O acordeon um instrumento quase completo, com muitos recursos. É uma pequena orquestra. Mal comparando, há um certo parentesco com o órgão tradicional. Aos pedais, que produzem os sons graves, no acordeon, a botoneira faz o mesmo.

O primeiro álbum de Richard Galliano pela Deutsche Grammophon foi dedicado a Bach, comentado na publicação passada. No próximo, o escolhido foi Nino Rota, autor de trilhas de filmes de Federico Fellini, Francis Ford Coppola, Luchino Visconti e Franco Zefirelli.

Pode ser uma surpresa ouvir Galliano substituir os solos de violino pelos do acordeon, combinando com a seção de cordas. Em muitos momentos poderíamos jurar que Vivaldi poderia ter composto As Quatro Estações nesse formato.

Completando o álbum, foram escolhidos temas das óperas Arsildo Regina di Ponto e Il Giustino. Evidentemente, são menos conhecidas, no entanto belas. Ouça uma delas: Il Giustino - 'Vedro con mio diletto' (Larghetto).




E, claro, não poderia faltar as “estações”. Confira.