A primeira vez em que Paul Motian me chamou atenção foi em um disco de Keith Jarrett. Nos anos 1970, o pianista formou um quarteto de respeito, com Dewey Redman (saxofone), Charlie Haden (contrabaixo), Motian (bateria). Uma amiga trouxe El Juicio (Atlantic, 1973), alguns anos antes de o americano ficar conhecidíssimo, pelo menos no Brasil, com seu solo The Köln Concert (ECM, 1975).
A batida de Motian era diferente, cheio de pausas, um ritmo que não associaria ao mainstream. Tomei gosto pela música instrumental e meus primeiros interesses se direcionaram ao jazz-rock, ou jazz progressivo, como você preferir. Minhas primeiras aquisições foram I Sing the Body Electric e Mysterious Traveller, do Weather Report, No Mystery, da banda de Chico Corea, Extrapolation, de John McLaughlin, e Third, da banda inglesa Soft Machine. Keith Jarrett entrou na história porque tinha tocado com Miles Davis, outra referência seminal. Um amigo de meu pai trouxe Agharta, Get Up with It e Big Fun, do trompetista de quem fã mor. Cheguei a ter cerca de 70 LPs dele. Depois de conhecer seus discos de sua fase elétrica, comprei os da década de 1960, quando a banda era com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. “Regressivamente” fui comprando os seus primeiros gravados na Prestige Records. Em algum momento Bill Evans entrou na história, por causa de Kind of Blue. Esse maravilhamento pelo estilo de Evans fez com que comprasse tudo o que encontrava dele. Em Sunday at the Village Vanguard (Riverside 1960), além de impressionado com o baixista Scott LaFaro, descubro que baterista era Paul Motian. Pois então: era mainstream e ao longo do tempo foi criando o “estilo Motian”.
Vi duas vezes, o que considero um privilégio, como morador do Brasil, uma vez aqui em São Paulo, e outra no Village Vanguard, Nova York, apresentando-se com Joe Lovano e Bill Frisell. Os três têm registros na ECM, JMT e Winter & Winter.
Além do trio, o que acho mais me interessou foram as formações heterodoxas, em que “dobrava” alguns instrumentos, como dois saxofonistas, dois ou três guitarristas. Alguns fui conhecer justamente em seus álbuns: Kurt Rosenwinkel, Ben Monder, Steve Cardenas e Jakob Bro.
Nessas formações “dobradas” acho especialmente bons Paul Motian on Broadway III (JMT, 1993) e Garden of Eden (ECM 2006). No primeiro, os dois saxofonistas são um exemplo da arte da improvisação. A riqueza das linhas sonoras de ambos em seus solos são para pensarmos que paraísos existem, com sonoridades transcendentais. Sempre tive uma admiração imensa por Lee Konitz. Tocou com deus e o mundo. Ele é o mestre da beleza calma, apolínea no sue modo de tocar. Joe Lovano é um tenorista e soprano que foi revelado um pouco mais tarde. Quando passou a ser mais conhecido já tinha uma experiência que o jogou no topo das listas dos melhores. É outro com uma sofisticação enorme nos seus solos.
No “jardim do paraíso”, Motian escolhe um repertório com composições próprias, de Steve Cardenas, um dos guitarristas – os outros são Ben Monder e Jakob Bro –, de Chris Cheek, um dos saxofonistas – o outro é Tony Malaby –, clássicos de Jerome Kern, Charlie Parker e Charles Mingus, Thelonious Monk. Este último foi gravado pelo baterista de origem armênia em muitas ocasiões. Aliás, é de se pensar nas semelhanças de estilo. São duas sonoridades que se distinguem pelos seus modos idiossincráticos de executarem seus instrumentos.
Pense em alguém tocando violão em uma pequena reunião de amigos. Mas não: é Ben Monder tocando guitarra solo em seu álbum mais recente, “Day After Day”. Dividido em duas partes, a primeira, é composta de sete músicas, com alguns standards — “Emily”, “Never Let Me Go” e“Dreamsville”. Na segunda, Monder é acompanhado de Matt Brewer e Ted Poor.
São dois momentos, mais ou menos opostos. Com seu trio, o guitarrista explora alguns temas, que, se não são standards, são hits, como “Only Yesterday”, dos Carpenters, “Goldfinger”, tema de um dos James Bond, consagrada na voz de Shirley Bassey, “Just Like a Woman”, de Bob Dylan, e “Guitar Man”, da banda Bread.
E são momentos bem diferentes dos álbuns mais recentes que gravou pela ECM. , como “Absence” (2018) e “Amorphae” (2016). Nestes, a guitarra de Monder se presta a momentos mais climáticos, bem ao estilo da gravadora de Manfred Eicher. O primeiro é em formato trio, com o pianista estoniano Kristjan Randalu e o baterista Markku Ounaskari. Em “Amorphae”, tocam com ele Pete Raede nos sintetizadores e os bateristas Andrew Cyrille e Paul Motian. Não. Não há nenhuma música em que Cyrille e Motian tocam juntos. Este último e Monder planejavam fazer um álbum em duo. Mas Motian morreu em 2010. Ficaram dois registros, “Oh, What a Beautiful Morning”e “Triffids”, que estão nesse álbum. Ben foi um dos três guitarristas da Paul Motian Band, em “Garden of Eden” (ECM 2006). Os outros: Steve Cardenas e Jakob Bro. Guitarristas nascidos depois dos anos 1950, naturalmente, sofreram uma influência bem grande do rock. Saem um pouco do modelo de um Jim Hall ou Wes Montgomery. Monder teve um aprendizado formal sólido, estudando em conservatório e universidade de música. O rock é uma linguagem subjacente no seu modo de tocar, como, provavelmente, na grande maioria dos guitarristas com menos de 50 anos. Apesar de não ser o modelo “what can a poor boy do/ Except to sing (play) for a rock’n roll band”.
Tocou e acompanhou músicos do jazz, como Jack McDuff, Lee Konitz e foi também da orquestra de Maria Schneider. Seu lado, digamos roqueiro, está na participação em “Blackstar”, derradeiro álbum de David Bowie. Melhor seria dizer que Bowie pendeu ao jazz ao optar por tocar com o saxofonista Donny McCaslin, o tecladista Jason Lindner e o baterista Mark Giuliana, e não o contrário. Além de “Amorphae” e “Absence”, na ECM, o americano está presente em “Elegy”, de Theo Bleckmann, de quem tem sido parceiro frequente desde os anos 1990. T Volto ao recente “Day After Day”. A parte solo, como disse no parágrafo inicial, tem esse clima de “descompromisso”. É como se Monder tivesse se sentado em seu estúdio e colocado o gravador em funcionamento para registrar o que resolvesse tocar. Ao contrário das guitarras de “Amorphae” e “Absence”, aqui, é uma guitarra sem efeitos. Na segunda parte, continua “descompromissado”, só que com um baixista e um baterista que, de certo modo, são apenas coadjuvantes, sem executarem solos, como é de costume entre trios de jazz. Os efeitos, em que Monder é um mestre incontestável, apresentam-se em alguns poucos momentos, como em “Goldfinger”, de John Berry, que merece essa “espetacularidade”, e no tema final “Day After Day”. Nesse exemplos, lembra o guitarrista dos mil efeitos, principalmente neste, um solo espacial, com overdubs. Final maravilhoso. Ouça algumas faixas dos álbuns citados. As três primeiras da playlist são de “Amorphae”, as duas seguintes, de “Absence”, e as restantes, de “Day After Day”.
Masabumi Kikuchi com o seu grande parceiro Paul Motian
Como Keith Jarrett, Masabumi Kikuchi, enquanto tocava “cantava” junto à melodia, ou melhor, para ser mais exato, “grunhia”. Por essa característica, minha primeira impressão ao ouví-lo em um álbum com Gary Peacock e Paul Motian, pensei: “Esse cara quer imitar Keith Jarrett.” Mas não era bem assim. Esses ruídos me incomodam até hoje, mas por atroz coincidência, alguns desses pianistas estão entre os maiores da história. Antes de Jarrett, quem tinha o costume de “cantar” junto a música, era Bud Powell. Outro gênio que fazia o mesmo era Glenn Gould. Essa é a primeira observação quanto ao japonês.
Fora algum exagero nessa observação, o japonês foi um bom pianista e tem a sua importância, apesar de alguém mais preconceituoso possa achar que o jazz não é um gênero que combine com orientais. Estão aí Toshiko Akiyoshi, Aki Takase, Tiger Okoshi, Terumasa Hino, Junko Onishi e alguns outros para quebrar a escrita.
O último álbum de Kikuchi, “Black Orpheus”, lançado pela ECM no começo deste ano, é o seu primeiro póstumo. Foi retirado de uma apresentação de 2012 no Tokyo Bunka Kaikan Recital Hall, na cidade em que nasceu, em 1939. Dependendo do ponto de vista, pode ser uma homenagem póstuma que Manfred Eicher faz a Kikuchi, morto em junho de 2015.
Quando seu ídolo era Miles Davis
Kikuchi tinha nove anos quando Tóquio foi severamente bombardeada. Depois da rendição do Japão, a família mudou-se para Fukuoka. O conhecimento e o encanto pelo jazz deu-se por meio dos discos que comprados de segunda mão trazidos pelos soldados americanos. Seus ídolos da juventude, Duke Ellington e Thelonious Monk, o levaram a escolher o piano.
Em seus primeiros anos como profissional, tocou na banda de Lionel Hampton, quando este esteve excursionando no Japão, e com Toshiko Akiyoshi e Charlie Mariano. Participou também dos discos de Sadao Watanabe, um dos primeiros japoneses a realmente tornar-se sucesso de público e de vendas no ocidente. Como sideman, tocou com Gil Evans, Mal Waldron, Sonny Rollins e um time de peso pesados.
O primeiro disco com seu nome foi “Hino-Kikuchi Quintet”, em parceria com o trompetista Terumasa Hino, em 1968, sucesso no Japão. Nesses anos formativos Kikuchi explorou um amplo espectro de estilos, desde a vanguarda erudita, participando de uma trilha sonora composta por Toru Takemitsu, o pós-bop, fusion music e a música oriental.
O primeiro álbum seu a ter distribuição internacional, foi “Poo-Sun”, em 1970. Estava bem clara a origem das influências sofridas por Masabumi. “Dancing Mist”, a primeira, tem passagens que lembram muito bem “Spanish Key”, de “Bitches Brew”. Como os dois álbuns foram lançados no mesmo ano, é difícil supor se o japonês já conhecia o disco. É mais previdente imaginar que já conhecesse as experiências eletrônicas de “In a Silent Way” e “Filles de Kilimanjaro”. A semelhança com “Bitches Brew” para por aí.
Ouça “Dancing Mist”.
Mas, certamente, pode-se dizer que Poo, como era chamado pelos amigos, guiou-se pelos mesmos caminhos de Miles Davis. Tanto é que em vários álbuns da dessa época teve entre músicos a acompanhá-lo os saxofonistas Dave Liebman e Steve Grossman, o baterista Al Foster, o percussionista M’tume e até o guitarrista Reggie Lucas, todos, que, em horas diferentes, foram membros da banda do mago negro.
Miles e os músicos que o acompanham, com Kikuchi ao fundo
Durante o período em que esteve afastado, Miles chegou a gravar com Kikuchi, mas nada foi lançado. Ficou amigo do trumpetista no início da década de 1970. Era um dos poucos, além de Pete Cosey e Jack DeJohnette que Miles recebia em seu apartamento.
Em 1977, Davis tentou montar uma banda com o japonês, Pete Cosey, Sly Stone e Jack DeJohnette. Sly nem apareceu. Um problema no joelho que obrigou Miles a ser submetido a uma cirurgia abortou de vez o projeto de retorno.
No início de 1978, Davis foi convencido por Julie Coryell a passar uma temporada em Connecticut. Miles no órgão, com o marido de Julie, Larry, Kikuchi e George Paulis nos teclados, T.M. Stevens no baixo, Al Foster na bateria, entraram no estúdio e gravaram alguma coisa. Nunca foi lançado.
No “youtube” tem de tudo. Alguém disponibilizou essas sessões que não chegaram a virar um álbum.
Do elétrico ao acústico
Em “Hollow Out” (1976), estão presentes alguns elementos da nova direção que iria tomar. Em formato trio bateria, baixo e piano, “Little Abi” é uma composição tocada em andamento menos nervoso, lembrando um pouco Bill Evans. “Bell” tem um andamento “quase parando”, característica que foi se tornando dominante em seu estilo com o passar do tempo.
Ouça “Little Abi”
O baixista Gary Peacock tinha participado de vários álbuns de Poo gravados no Japão. Com ele e Paul Motian formaram o trio Tethered Moon. A forma absolutamente pessoal de tocar a bateria de Motian encaixou-se perfeitamente aos novos rumos de Kikuchi. É possível dizer-se que, depois que passou a tocar com ele, deixou para trás as antigas influências. Ethan Iverson, pianista do trio The Bad Pjus, definiu bem o estilo nas liner notes de “Black Orpheus”: “distante, sutil, preciso, opaco”.
Entre 1990 e 2004, lançaram seis álbuns pelas gravadoras Evidence e Winter & Winter. O repertório era variado, desde composições próprias, como jazz standards de Miles Davis, Thelonioius Monk e Cole Porter, além de terem lançados álbuns mais centrados em autores, como “Tethered Moon Plays Kurt Weill” (1995), “Chansons de Edith Piaf” (1999) e “Experiencing Tosca” (2004). Há números mais agitados, mas não é o que predomina.
Ouça “September Song”.
A relação entre o pianista e o baterista foi duradoura. Kikuchi passou a morar em Nova York em 1974. Era o pianista preferido de Motian. Apresentaram-se muitas vezes juntos no Village Vanguard. Sem Paul, morto em 2011, isolou-se, segundo Iverson, “queimando pontes depois de pontes” com o resto do mundo. O estilo
Nas sessões de “Chanson d’Edith Piaf”, Kikuchi estava insatisfeito com uma passagem. Gary Peacock perguntou-lhe: “O que é que há.” “Não é isso”. “Mas devo fazer como?” retrucou o baixista. “Não sei”, respondeu. O que buscava era impalpável, abstrato, como fica claro nessa frase de Gary: “Desde quando o conheço, ele sabia que tinha algo que não poderia realizar, e isso o guiou. Ele foi atrás disso. Ele não sabia o que era. […] Ele realmente ouve não apenas o que está sendo tocado, mas o poder atrás dele.”
Em 2009, Poo gravou seu primeiro álbum para a ECM. “Sunrise” conta com seu eterno mestre Motian e Thomas Morgan. Para o New York Times, definiu as músicas dizendo que “elas não são avant-garde. Apenas flutuando. Som e harmonia flutuante. Sem canções.” Perfeito.
Ouça “New Day”.
Desde 2005, Kikuchi passava os dias em seu apartamento no Chelsea, registrando seus improvisos no seu Steinway e ocasionalmente com o baixista Thomas Morgan e o guitarrista Todd Neufeld. A combinação é de que poderão ser lançados futuramente pela ECM.
Antes disso, Eicher decidiu soltar “Black Orpheus”. Todas as faixas são simplesmente numeradas – Tokyo I, Tokyo II, etc. –, pois são, como disse “sons e harmonias flutuantes”. As exceções são a música título, de Luiz Bonfá, e “Little Abi”, composição antiga, que fecha o álbum.
O curioso em ler fichas técnicas descobrirá o nome de Ben Monder no último álbum Blackstar, de David Bowie. Mas Ben não é exatamente do rock. O fato é que o inglês resolveu em sua obra derradeira ter músicos ligados ao jazz como acompanhantes.
Aquele que gosta de Maria Schneider e sua orquestra, verá que Monder é o seu guitarrista em vários álbuns. Tocou também em Gardens of Eden (ECM, 1999), disco em que Paul Motian junta três guitarristas: ele, Steve Cardenas e Jakob Bro.
Se você for fã do cantor cult Theo Bleckmann, sabe muito bem quem é Ben. O nome de ambos está na capa de No Boat, de 1997. Theo é daqueles que, por suas abordagens pouco comuns, é um tanto difícil de se gostar. A crítica, no entanto, o adora. Há coisas dele realmente chatas, mas sua releitura do álbum Hello Earth, de Kate Bush, é bem interessante, além do recente A Clear Midnight - Weill and America (ECM 2015), com a pianista Julia Hülsmann,
Ben Monder está mais associado a nomes que não fazem parte do mainstream do jazz, como Jim Black, John Hollenback, Gorka Benítez, Aaron Schragge, Frank Woeste, Jerome Sabbagh e Kristjan Randalu. Agora, com o lançamento de Amorphae, pela ECM, certamente, terá seu talento reconhecido por muito mais pessoas.
Monder não é guitarrista que faz o tipo “mais rápido do oeste”. Não tem a metade da velocidade de Steve Morse ou Al DiMeola. Ele prefere explorar as sonoridades de sua guitarra, sem pirotecnias. Mesmo em andamentos mais rápidos há uma fluidez que o diferencia dos loucos por velocidade com o pé no acelerador e o outro na embreagem ao mesmo tempo.
Participando como sideman em inúmeros discos, tem poucos como líder. Não passa de uma dezena. Depois de Oceania (Sunnyside, 2005) e At Night (Songlines, 2007), este, dividido novamente com Theo Bleckmann, só foi lançar um outro em 2013, com Hydra. Lá está Theo, de novo. Faz vocalizações muito interessantes.
Ouça Elysium. É a faixa de abertura. Apesar de frequentemente comparado a Bill Frisell, Pat Metheny e John Abercrombie, seu estilo é outro. Como Abercrombie, gosta de sonoridades líquidas, meditativas e bem climáticas. A canção é uma boa amostra disso.
Amorphae
Em vez de compará-lo a outros guitarristas, é interessante definir o seu estilo com o de Paul Motian. Há grandes semelhanças de conceito em suas músicas. A bateria de Paul privilegia os cromatismos sonoros e menos os ritmos esquizofrênicos. Privilegia o som por meio do silêncio.
Amorphae começou como um projeto de duo com a baterista Motian e a guitarra de Monder. O primeiro registro é de 2010, acredito que como consequência da sua participação em Gardens of Eden, de 2004. Com a morte dele, em 2011, ficaram apenas duas gravações em duo e um solo. Em 2013, Ben entrou no estúdio com o baterista avant garde Andrew Cyrille e Pete Rende nos sintetizadores, para completar o disco. O clima geral é de improviso, sempre com as sonoridades etéreas da guitarra em primeiro plano. Por vezes é um tanto glacial e quase sempre Ben é minimalista. Recebeu 4 estrelas e meia na Downbeat de janeiro de 2016. Merecido. Ben Monder é especial.
Ouça Oh, What a Beautiful Morning, em duo com Paul Motian, a melhor faixa, na minha opinião.
Paul Motian passou a ser conhecido quando participou do, provavelmente, melhor trio piano/ baixo/ bateria de todos os tempos. São clássicos os discos de Bill Evans, Scott LaFaro e ele. Outra fase importante foi quando tocou com Keith Jarrett, na década de 1970. Passagens por essas bandas moldaram o som da bateria de Motian.
Como líder gravou vários álbuns pela ECM, JMT e Winter & Winter. Fugindo do padrão trio ou quarteto, montou várias bandas com mais de um músico tocando o mesmo instrumento. Em Flight of the Blue Jay (Winter & Winter, 1997), conta com dois guitarristas e dois saxofonistas, cada qual, em um dos canais: Kurt Rosenwinkel (canal esquerdo) e Brad Schoeppach (direito), e Chris Potter (esquerdo) e Chris Cheek (direito). Motian não é pioneiro em fazer isso. Ornette Coleman, em Free Jazz (Atlantic, 1961), gravou com dois quartetos, um no canal esquerdo e outro no direito.
Em Garden of Eden (ECM, 2006) são dois saxofonistas (Chris Cheek e Tony Malaby), três guitarristas (Steve Cardenas, Ben Monder e Jakob Bro), o baixista Jerome Harris e ele na bateria.
Um dos guitarristas de Paul Motian, Jakob Bro, vem gravando regularmente como líder desde 2003 e tem usado a mesma “fórmula” de seu mestre. Enquanto vivo, Motian era o seu baterista. Não participou do primeiro nem do segundo, mas nos seguintes Pearl River (2007), The Stars Are All New Songs vol. 1 (2008) e Balladeering (2009), sim.
Jakob Bro é um guitarrista diferente. Seu estilo lembra o de John Abercrombie. E é diferente porque não é um solista, na velha tradição. Faz uma música de texturas, de camadas sobrepostas formando teias sonoras. Sua guitarra não “briga” com a de Bill Frisell. Complementam-se.
Suas composições são como pequenas peças camerísticas em que os instrumentos “conversam” uns com os outros. Uma presença importante em Balladeering e no último álbum – December Song (Loveland Records, 2013) – é a do lendário Lee Konitz. O americano é uma das principais figuras do nascimento do cool jazz e, antes disso, foi da banda do pianista Lennie Tristano. Passou pelo bop, pelos movimentos avant garde e nem ele deve saber o número de participações em gravações de outros músicos nos seus 86 anos de vida.
Em Balladeering, temos ainda Motian. Como espécie de tributo ao mestre, Bro, em December Song (Loveland Records, 2013), prefere uma formação sem a bateria, como fez no anterior Time (2011). Não abre mão, no entanto, de contar com mais um guitarrista, seu parceiro de anos, Bill Frisell. E o resultado é pra lá de interessante.
Confira em Vraa, de Balladeering.
Veja um trecho da gravação de Vraa, no Avatar Studios, em Nova York. Grande Lee Konitz!
A seguinte é muito boa também: Starting Point, na versão acústica. Preste atenção nos violões de Bro e Frisell.
Veja Bro com Lee Konitz, Bill Frisell, Craig Taborn, Ben Street e Thomas Morgan nas gravações de Vinterymne, de December Songs, o mais recente; com direito a rápido depoimento do mestre Lee Konitz.
Fico sabendo da morte de Paul Motian pelo blogue da Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo, ocorrido em 22 de novembro. Tinha 80 anos e, segundo a nota, sofria de um problema na medula óssea. Lúcia diz que uma vez cometeu “o mau passo de pedir a ele uma declaração sobre mais uma temporada no Vanguard”.
Assisti a uma dessas apresentações que, costumeiramente, fazia com o saxofonista Joe Lovano e com o guitarrista Bill Frisell. Era uma formação interessante. Lançaram alguns CDs pela ECM. Sem o contrabaixo, a “alma” rítmica era a bateria; O som de Frisell é uma história específica: parece som havaiano — se é que isso existe —, sem deméritos, lembra aquelas mulheres dançando vestidas com sarongues coloridos. “Atirou” para todos os lados: tocou com músicos mais ligados ao avantgarde, como Don Byron, brasileiros, fazendo som “mexicano”, como Vinícius Cantuária, e em muitos — e coloque-se muito — dos álbuns que lançou, seu jazz pende para a música folk e country americanas. O saxofonista Joe Lovano, dos três, é o cara “mais jazz”. Passou a chamar atenção quando já não era mais um garotinho, porém, a partir daí, “desembestou”: grava um disco atrás do outro e há anos está entre os melhores tenoristas, com justiça.
Uma observação: é tão bom assistir às apresentações no Village Vanguard! É um lugar pequeno, em dois níveis, que dão para o palco montado em uma das pontas da sala. Enquanto se espera para entrar, vemos os músicos chegando, pedindo “com licença” para passar no meio dos que estão na fila. Estávamos lá e, de repente, passa um senhor franzino, de óculos e com um gorro, numa noite quente de fins de agosto: era Paul Motian.
A primeira participação de que tenho notícia de Motian é na do lendário trio de Bill Evans; o terceiro era ninguém menos que Scott LaFaro, morto bem jovem. Dias antes de morrer, em 1961, num acidente automobilístico, havia gravado Sunday at The Village Vanguard e Waltz for Debby. Foi o suficiente para entrar na história como um dos maiores baixistas de todos os tempos. Chales Mingus o odiava: é o suficiente, não? Pura inveja.
A outra formação excepcional da qual Motian participou foi a da banda de Keith Jarrett. Como solista, além de gravar alguns pela ECM, fez outros pela também alemã Winter & Winter (caracteriza-se pelas embalagens diferenciadas), JMT (que deve ter sido, não tenho certeza, o embrião da Winter & Winter, pois era comandada por Stefan Winter), e pela italiana Soul Note. Nunca parou.
Paul Motian (pronuncia-se “moriân”, e não “môchian”, como costumeiramente se falava, pois era de origem armênia) não é um baterista por excelência, desses como Elvin Jones, Max Roach ou Art Blakey. Sua “potência” não está no ritmo; está mais numa certa polirritmia que é só dele. Os discos que assinou como líder sempre se caracterizaram pela diversidade. Uma das formações mais interessantes foi a que tinha dois guitarristas. O “mau passo” a que Guimarães se refere foi quando perguntou-lhe, por telefone, sobre a temporada no Village em que estava “tocando com Lovano e Frisell”. Silêncio glacial do outro lado da linha. ‘Você quer dizer, eles estão tocando comigo’ corrigiu o baterista.” Lucia disse que foi a entrevista mais curta que jamais fizera.
Relevando um pouco a possível arrogância de Motian, façamos uma homenagem a esse instrumentista ímpar, que tocou até morrer.
Paul Motian e sua banda Bebop Elctric Band tocam “Brilliant Corners”, de Thelonious Monk, no Festival Chivas Festival, em São Paulo, 2003.