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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Minhas manhãs de carnaval

Luiz Bonfá e seu violão
Para se ter uma ideia do quanto 1959 foi bom, listo algumas músicas compostas neste ano: Chiclete com Banana (Gordurinha, Almira Castilho), Desafinado (A.C. Jobim, Newton Mendonça), Dindi (A.C. Jobim, Aloísio de Oliveira), Eu Sei Que Vou Te Amar (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), A Felicidade (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Brigas Nunca Mais (A.C. Jobim, Vinícius de Moraes), Este Seu Olhar (A.C. Jobim), Ho-Ba-La-Lá (João Gilberto), Minha Saudade (João Donato, João Gilberto), Ela Disse-Me Assim (Lupicínio Rodrigues), Maria Ninguém (Carlos Lyra), Lobo Bobo (Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli), A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Recado (Luis Antônio, Djalma Ferreira), O Samba é Bom Assim (Norival Reis, Hélio Nascimento), Baiano Burro Nasce Morto (Gordurinha), Samba de Orfeu (Luiz Bonfá, Antônio Maria), e Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá, Antônio Maria). Para quem tem a memória lesada a ponto de mal conseguir guardar o próprio número do telefone, seria impossível ter uma lista dessas. Recorro ao mestre Jairo Severiano, autor, com Zuza Homem de Melo do livro A Canção no Tempo – 85 anos de músicas brasileiras (Editora 34).

Pelo que se percebe, o “campeão” do ano foi Tom Jobim. Antes, já havia composto Teresa da Praia, em 1954, com Billy Blanco, famosa nas vozes de Lúcio Alves e Dick Farney, Foi a Noite, com Newton Mendonça, lançada por Sílvia Telles, Se Todos Fossem Iguais a Você, primeira parceria com Vinícius, para a peça Orfeu da Conceição, em 1957, e Chega de Saudade (1958), de novo com o poetinha. Entre uma músiquinha e outra , como diria o poeta embaixador, em 1959, Jobim era autor de seis temas que tornaram-se clássicos.

Jobim compõe e arranja, Bonfá toca
A peça Orfeu da Conceição, escrita por Vinícius, foi musicada pelo então novato Jobim, estreou em 1956, e gerou um disco de 10 polegadas lançado pela Odeon. O francês Marcel Camus, em 1959, resolveu adaptá-la para o cinema. Fez tremendo sucesso, com o título modificado para Orfeu Negro, de maior apelo internacional. Ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e foi premiado com a Palma de Ouro, em Cannes. O produtor Sacha Gordine, querendo ganhar alguns trocados a mais, resolveu fazer uma nova trilha sonora. Fazem parte dela A Felicidade, Samba de Orfeu e Manhã de Carnaval. Luiz Bonfá, autor dos dois últimos temas, com letras de Antônio Maria, tinha participado do disco da peça como violonista. Manhã de Carnaval abriu as portas internacionais para ele.

Ao contrário do que alguns imaginam, Bonfá foi para os EUA antes de Jobim. Viajou para Nova York como acompanhante da cantora Mary Martin, em 1957. Esse movimento se inicia com Carmen Miranda e o Bando da Lua e teve continuidade com a ida de Laurindo de Almeida, que se fixou em Los Angeles no início da década de 1950 e também dos menos conhecidos Los Índios Tabajaras, que conseguiram sucesso relativo na América do Norte. Eram dois exímios violonistas que construíram uma carreira internacional, mas não se vinculam à onda da bossa nova. (sobre eles, leia http://bit.ly/1Fj1iwl)

O sucesso de Manhã de Carnaval levou Bonfá a resolver tentar a sorte nos EUA. Grande violonista e compositor, gravou álbuns pelo selo Verve, um dos principais do jazz, Capitol, Atlantic e Epic. Um dado interessante é de que teve uma de suas composições – Almost in Love – gravada por Elvis Presley. A outra curiosidade é a de que Manhã de Carnaval foi “traduzida” para o inglês com o ridículo título de A Day in the Life of a Fool. Ainda bem que o título original foi preservado posteriormente. A única excentricidade, mas aí devemos responsabilizar as características da língua inglesa, é a de que normalmente “manhã” é grafada como “manha”, o que em português significa outra coisa. Outra aberração nesses casos de equívocos de grafia é Você Abusou, escrita “Voceabuso” e, em vez de ter sido creditada a Antonio Carlos e Jocafi, ter ficado como uma composição de Tom Jobim, em um disco do pianista Tommy Flanagan. É uma coisa que nem a dupla deve ter tomado conhecimento.


Algumas Manhãs de Carnaval
Sem dúvida, a mais bela interpretação desta canção é a de Agostinho dos Santos. Ouça.




Uma curiosidade: Agostinho canta com Johnny Mathis, em programa da antiga TV Excelsior (1964).




Bela é também na voz de João Gilberto.




Ouça com Nara Leão.




Ouça a curiosa versão do grupo cubano Los Zafiros. Essa banda é muito interessante. Segue a onda dos conjuntos vocais que, aqui no Brasil teve como um dos principais o Golden Boys. Leia mais sobre eles em http://bit.ly/1DgSHcH)




O depoimento de Luiz Bonfá contando de como nasceu Manhã de Carnaval (está cortado, mas vale como documento). De quebra, Elizete Cardoso canta a música com acompanhamento de Bonfá.




Até Frank Sinatra cantou Manhã de Carnaval, aliás, com aquele título imbecil: A Day in the Life of a Fool.






Ouça Mañana de … em espanhol, com Natalie Cole.




Susannah McCorkle canta em português.




Manhãs instrumentais
Bela interpretação do brasileiro Antonio Carlos Barbosa Lima, um de nossos maiores violonistas, que há muito mora fora. Sobre ele, leia http://bit.ly/1EENs3q




Veja Baden Powell interpretando Manhã de Carnaval.





Composta por um violonista, Manhã de Carnaval é perfeita na guitarra. Uma boa interpretação é a de John McLaughlin, com Al DiMeola. Ele começa com um trecho de Insensatez antes de entrar no tema.




Outra muito boa é a do guitarrista Jack Wilkins. É uma das minhas preferidas.




Ouça ao saxofone tenor, com Jim Tomlinson, marido de Stacey Kent.




Leia também um texto sobre a minha quarta-feira de cinzas em Nova York e em Passos, MG: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2011/04/manha-de-carnaval-em-plena-quaresma.html



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Manhã de carnaval à cubana

Uma das mais belas músicas brasileiras é Manhã de Carnaval. Foi composta por Luís Bonfá para o filme Orfeu Negro, em 1959. A maioria das músicas compostas para o filme foram de Tom Jobim e Vinícius, mas a de Bonfá foi a que se tornou mais conhecida.

Em uma pesquisa de anos atrás, se não me engano, os compositores brasileiros mais gravados fora do país são Antônio Carlos Jobim e Ivan Lins. No reperório jazzístico, pelo menos, isso é fato. Sem falar de Jobim, aparentemente, Ivan Lins tem mais prestígio lá fora do que aqui. Suas músicas foram interpretadas por Sarah Vaughan, Dianne Reeves, Jane Monheit, Neena Freelon, Carmen McRae, Denny Zeitlin, Shirley Horn, Ran Blake, Geoff Keezer e Steve Kuhn (cito apenas as contidas nos CDs que eu tenho). Como diria certa personagem de novela, “não é brinquedo, não.”

Outros compositores como Djavan, Marcos Valle, Milton Nascimento e Luiz Bonfá estão entre os bem- representados no mercado americano. Não contando Ary Barroso, Dorival Caymmi e Zequinha de Abreu (Tico-Tico no Fubá), Bonfá e Jobim são os primeiros a ganhar certa notoriedade com a eclosão da bossa nova. Bonfá foi, inclusive, um dos primeiros a mudar-se para lá. Outros foram Laurindo de Almeida, Tom Jobim, João Donato, João Gilberto, Astrud Gilberto, Moacir Santos, Bola Sete, Eumir Deodato, Flora Purim, Marcos Valle e Sérgio Mendes, que explodiu com o seu Brasil ’66. Um contingente enorme de percussionistas emigraram, casos de Paulinho da Costa, Naná Vasconcelos, Do Um Romão, Eumir Deodato e Cyro Baptista. Esses dominaram por muito tempo os polls dos melhores segundo a crítica.

Há belas gravações pátrias de Manhã de Carnaval. Os destaques são as de Agostinho dos Santos e João Gilberto. Lá fora foi gravada por Caterina Valente, Modern Jazz Quartet, Jack Wilkins, Toots Thielmans, Ray Brown e Jimmie Rowles, Stan Getz, Patricia Barber, Lee Konitz, Susannah McCorkle, Dexter Gordon, Al DiMeola, Paco de Lucia, John McLaughlin, Tuck and Patti, George Cables, Paquito D’Rivera, Gonzalo Rubalcaba, Quincy Jones, Tete Montoliu, Johnny Smith, Jacintha, Cassandra Wilson e John Lewis.

Los Zafiros, em Moscou, 1965
Peculiar é a interpretação de Manhã pelo grupo vocal cubano. Seguindo os moldes de formações vocais como os Platters (no Brasil, tivemos os Golden Boys), Los Zafiros, formado em 1962.

Conjuntos vocais não eram novidade na década de 1960. Antes, bem antes, existiram as Andrew Sisters, The Four Freshmen e os Hi-Lo’s. Em Cuba, antes da ascensão de Fidel Castro, ainda na época de Fulgêncio Batista, e o país era paraíso dos cassinos e “quintal” dos EUA, havia um conjunto vocal conhecido, constituído apenas de mulheres, o Cuarteto d’Aida. Mais nos moldes do Platters e menos dos conjuntos vocais de inspiração mais jazzísticas, surgiram Los Zafiros, que segundo a lenda, teve esse nome por conta de um anel de safira que Néstor Milí, um dos criadores do conjunto (nem chegou a fazer parte dele, sendo mais um dos mentores), usava e foi vendido para custear as roupas que usariam nas apresentações.

O coração do conjunto eram Ignacio Elejalde, que cantava em falsete (um pré-Ney Matogrosso), El Chino, Kiki (Leoncio Morúa), e Miguelito. Os quatro faziam as vozes e Manuel Galbán tocava violão e guitarrra e era o diretor musical. Foram sucesso imediato em Cuba e passaram a excursionar frequentemente em outros países, “coincidentemente”, quase todos da Cortina de Ferro (tocaram em Paris e em Berlim).

O sucesso pesou. Irresponsáveis e beberrões, o único ajuizado, era Galbán. E assim, o conjunto foi se esfacelando. Ignacio Elejalde morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral, quando tinha 39 anos; Kike morreu de cirrose hepática; Chino teve uma série de problemas de saúde que afetou sua voz e a vista, e faleceu em com 56 anos. Miguelito era o que bebia menos. Sobreviveu e mudou-se para Miami em 1993 e trabalha como músico.

Na ativa, sobrou Manuel Galbán. Fez parte do Buena Vista Social Club e gravou um disco em que divide os créditos com Ry Cooder, Mambo Sinuendo (2003).

Uma nota final. Quando excursionavam na Europa, apresentaram-se no Olympia de Paris. Chino conta que os Beatles resolveram ficar mais uma semana na cidade para vê-los. Ficaram encantados com a voz de Ignacio e até examinaram sua garganta. “John Lennon conversou um tempão comigo. Ele tocou meu cabelo. Eu toquei nos seus cabelos. Eles eram realmente uns cavalheiros”, disse Chino em uma entrevista, em 1991. Parece fantasiosa; será verdade?

Ouça Manhã de Carnaval – ou Canción de Orfeo – com Los Zafiros. Preste atenção na abertura e na voz de Ignacio. No fim da gravação, não podia faltar, tem uma batucada, daquelas, mas nem tudo é perfeito nesse mundo.




Há um registro no YouTube de Los Zafiros cantando Cuando lo conocí. É de uma apresentação na TV, em 1960.