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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Lisa Gerrard, a outra parte de Dead Can Dance, lança “Twilight Kingdom”

Lisa Gerrard e Brendan Perry, criadores do Dead Can Dance
É injusto rotular a música de Lisa Gerrard como New Age pelo que esse rótulo representa no mercado fonográfico. Se se ampliar o que pode ser classificado como tal, inclui-se então a música minimalista de Philip Glass, Steve Reich, a ambient music de Brian Eno, as incursões pelo terreno erudito de Richard Reed Parry, do Arcade Fire, Bryce Dessner, da banda americana The National, e de Johnny Greenwood, guitarrista do Radiohead e autor das trilhas sonoras de Sangue Negro (There Will Be Blood) e O Mestre (The Master), ambos filmes de Thomas Paul Anderson. Há algo em comum entre os citados. Não são autores de sons áridos como os de Pierre Boulez, Xenakis e outros considerados de vanguarda.

Lisa possui uma das mais belas vozes da música popular. Tornou-se conhecida como uma das partes da banda Dead Can Dance; a outra é Brendan Perry. Lisa é australiana e Perry, apesar de inglês, formaram a banda na Austrália. Desde o primeiro álbum chamaram a atenção da crítica e formou uma legião de admiradores incondicionais desde então. Dead Can Dance é parte de uma leva que se revelou na lendária gravadora 4AD. Fizeram parte de um cast que incluía, dentre outros, Cocteau Twins, This Mortal Coil, Wolfgang Press, Bauhaus, Clan of Xymox, The Breeders e Pixies. A 4AD ficou muito conhecida também pelas primorosas capas de autoria do designer gráfico Vaughan Oliver.

Criada em 1981, a banda durou até os últimos anos do século passado. Como nos casamentos, chegou uma hora em que um se cansou do outro e partiram para carreiras solos e continuaram a fazer música de alta qualidade. Reúnem-se como Dead Can Dance ocasionalmente. Como nos casamentos, sobrou alguma coisa e não se tornaram inimigos.

É difícil classificar a música deles. Soundscapes? Talvez. São paisagens sonoras com certos ingredientes da música da Idade Média e Renascentista. Para isso contribuem os instrumentos exóticos e pouco comuns no pop. A banda carrega seu ouvinte para paisagens idílicas, misteriosas e “viajantes”. Por essas características, às vezes, são classificados como “new age”. É uma injustiça. Não podem ser assim rotulados. New age é aquela música pobrezinha cheia de clichês produzidos por sintetizadores, uma flauta pan e qualquer outra coisa a mais. Dizem que é “música para relaxar”. O amigo Alberico Cilento diz que é um som que, em vez de relaxá-lo, deixa-o tenso.

Ouvir Dead Can Dance é uma experiência ímpar. Ao vivo, é mágico. Muitos vídeos estão disponíveis no YouTube. Vale a pena dar uma olhada. Veja-os em Toward the Within. Quem não conhece a banda vai se deparar com instrumentos diferentes como o hurdy gurdy ou a clarineta turca e, principalmente, com parte das letras cantadas em alguma língua indecifrável.




O Dead Can Dance, de tempos em tempos, reúnem-se. Há uma apresentação deles em 2013, em Amsterdam. É o show na íntegra. Para quem não os conhece, é uma boa oportunidade.




Lisa. Nem os trabalhos solos de Brendan, nem de Lisa são superiores ao Dead Can Dance. Mas o mundo não para e continuam no negócio da música. Sozinha, Lisa lançou faz pouco tempo Twilight Kingdom. Sua música combina bem com trilhas sonoras de cinema e tem participado de várias. A última, salvo engano, é o que fez com Hans Zimmer, este sim, um especialista em trilhas. Ele é autor em filmes como Rei Leão, Batman, o Rei das Trevas e Gladiador. A trilha do seriado para a TV, The Bible (2013), feita por ambos, é grandiosa, climática e chata. Twilight Kingdom não é um grande disco, mas não decepciona os milhares de fãs de carteirinha de Lisa Gerrard.

Ouça neste YouTube.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A agonia de Vini Reilly

Vini Reilly, a guitarra do Durutti Column
A considerar-se a estatística de Álvaro Pereira Júnior em sua coluna na Folha de S.Paulo (sáb. 19/1/2013), sou um dos 0,0001% dos que conhece e ouve Vini Reilly. Deixando esse “exagero” de lado, não são tão poucos os que já ouviram — ou ouviram falar — da banda Durutti Column. Na verdade, é uma banda de um homem só: Reilly. É certo que o percussionista Bruce Mitchell toca com ele há muito tempo. Não participou do primeiro — The Return of The Durutti Column (1979) —, apenas. O som básico da banda é a guitarra e a percussão, com o acréscimo eventual de teclados (tocados por Reilly), violinos e violas, trumpetes e alguns vocais femininos.

A inspiração para o nome foi Durruti Buenaventura, anarquista e nome importante da Guerra Civil Espanhola. Há uma diferença na grafia do nome do revolucionário: em vez do “r” dobrado, dobrou-se o “t”. Desconheço se o erro foi proposital; e também é impossível relacionar sua música extremamente melancólica com a atuação “guerreira” da Coluna Durruti.

Uma boa definição das características da música do Durutti Column está contida em um parágrafo do texto de APJ: “O som de Vini Reilly, primordialmente um guitarrista, costuma ser chamado de pós-punk. Mas essa é só uma definição cronológica. Musicalmente, ele não tem nada a ver com as outras bandas desse período. Durutti Column incorpora os violões do flamenco, alguns climas de jazz e de música ambiente. É um esforço e tanto chamá-lo de rock.”

A banda de Reilly surgiu na onda de várias que surgiram no bojo da Factory. Esta e a 4AD foram as gravadoras que mudaram o cenário da música britânica no fim da década de 1970 e nos anos 1980. Além do som diferente, as concepções gráficas revolucionárias das capas de Peter Saville e Vaughan Oliver, foram marcantes e inovadoras. A Factory lançou o Joy Division, o New Order, Happy Mondays e A Certain Ratio. A 4AD teve em seu plantel a Bauhaus, This Mortal Coil, Dead Can Dance e o Cocteau Twins.

O “não se sinta ignorante se não conhecer – 99,9999% da humanidade estão no mesmo barco”, a APJ, ao se referir a Reilly, é mais uma “licença jornalística”. Cem por cento dos ouvintes da rádio Eldorado já ouviram Tomorrow, uma das mais belas canções do Durutti Column. Nas ocasiões em que era obrigado a utilizar algum carro que não fosse meu — nos dias de rodízio ou quando estava na oficina — por não poder ouvir os meus CDs preferidos, sintonizava nessa emissora e, não sei se era coincidência: tocavam com frequência Tomorrow e Island, do King Crimson, duas músicas incomuns em uma programação de rádio. Alguém lá era fanático pelo Durutti Column. Havia um programa, se não me engano, em que a vinheta era um trecho de alguma música da banda.

Ouça Tomorrow. Na letra diz que “tudo o que queria era o seu tempo, e o tudo o que você me deu foi amanhã […] e amanhã nunca chega.” É uma síntese do que é o som de Reilly. Triste, muito triste, não é aconselhável ouvi-lo num domingo melancólico. É um risco para os suicidas.




A fragilidade de Vini não está contida apenas na sua música. Ele é a personifiçação da fragilidade. Anoréxico, apresentava-se pouco ao vivo, pois ficava esgotado. Escrevo no passado porque não ouvia mais falar dele. Só agora, por meio da coluna de Álvaro Pereira Júnior, fico sabendo de um post do The Guardian relatando que um sobrinho de Reilly escreveu no site oficial da banda pedindo doações para ajudá-lo pois não tinha dinheiro nem para comer e pagar o aluguel. Na matéria intitulada “The Durutti Column's Vini Reilly is struggling? Music owes him help” é dito que nos últimos tempos Reilly sofreu três colapsos, sem especificar de qual tipo. É uma pena. Seria para qualquer ser humano, ainda mais para um gênio musical como Vini.

Quando “descobri” o Durutti Column, por meio dos amigos Renato Mello e o Fábio Golfetti, esses discos eram difíceis de serem encontrados. Graças a Deus existia uma loja chamada Bossa Nova, lá no centro da cidade, em uma galeria da rua Sete de Abril, São Paulo. Era o ponto de parada quase diária do editor Luiz Schwarz — antes de se tornar expert em música erudita, era seu “ponto de parada” na hora do almoço — e de Kid Vinil. O Pardal, atendente da loja, sempre dava ótimas dicas. Era o melhor lugar para se encontrar discos da 4AD e da Factory. Lá comprei o meu primeiro Durutti — Another Setting (1983) —, o primeiro Cocteau Twins, o primeiro A Certain Ratio e o primeiro Dead Can Dance. As capas eram primorosas, como disse. Possuir aqueles LPs era uma dádiva. Eram trabalhos de arte que poderiam ser enquadrados e pendurados na parede.

Depois do primeiro, queria ter todos. Comprei os anteriores The Return of Durutti Column, LC e Without Mercy. O amigo Renato tinha conseguido comprar um chamado Amigos em Portugal (1983), lançado pela Fundação Atlântica, em Portugal. Que inveja tive dele! Nos anos posteriores, nas viagens ao exterior, fui garimpando (não eram fáceis de achar) seus títulos em CD. O primeiros que encontrei — Domo Arigatô e Valuable Passages (este, uma coletânea) —, foi em Tóquio. Os treze CDs do Durutti Column que possuo foram comprados em viagens para fora. Ainda no tempo dos LPs, alguns álbuns da Factory — Joy Division, New Order, por exemplo – foram lançados no Brasil. Veja você: nem  só de porcarias vivíamos.

Veja Vini Reilly e Bruce Mitchell em Jacqueline.




Veja e ouça a belíssima The Room.




The Missing Boy.




Sketch for Summer é a primeira faixa de The Return of the Durutti Column. Esta e a anterior fazem parte do show Domo Arigatô.