quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Piazzolla e Salvatore Accardo: o início de uma bela amizade

Salvatore Accardo e Astor Piazzolla
Ter uma música composta especialmente não é coisa para todos, principalmente, se o autor for Astor Piazzolla.

O violinista Salvatore Accardo excursionava por várias cidades da América Latina, com o pianista Alfredo Rossi. Em julho de 1969, em Buenos Aires, Accardo, ciceroneado pelo amigo violista Nestor Panik, fez um tour pelas várias casas de tango da cidade. Hoje à noite vamos ouvir algo muito especial —, disse-lhe Rossi e o levou ao Michelangelo. O local era estava cheio de gente fumando, bebendo e conversando ruidosamente. Quando as luzes se apagaram, surgiu Piazzolla.

No intervalo, Panik, que já havia tocado com o bandoneonista, levou-o ao camarim. Foi apresentado à Amelita Baltar e depois a Piazzolla. “É uma honra que você tenha vindo me ouvir”, disse-lhe. Como amante da música erudita, estivera na sua apresentação no Teatro Colón. Sua devoção pelo tango afastou-o dos estudos no conservatório. Foi uma decisão difícil, disse. Queixou-se que fosse tão criticado em sua própria terra natal. “Dizem que quero destruir a tradição e até me chamam de traidor.” O tango que Astor tinha em mente era uma música para ser ouvida e não para ser dançada, uma forma que abarcasse a música e a experiência cultural e humana.

A conversa tinha se alongado até depois da apresentação. Ao se despedirem, Salvatore o convidou para a sua última apresentação. Astor lhe disse: “Vou escrever alguma coisa para você.”

Durante o intervalo, o argentino foi até o camarim e entregou-lhe uma composição para violino e piano, intitulada “Milonga em ré”. “É para você, como lhe prometi.” Salvatore chamou Alfredo e mostrou-lhe a composição. Finda a apresentação, no encore, Accardo anunciou que iria tocar “Milonga em ré”, de Astor Piazzolla. No camarim, Astor mal pôde conter a emoção com a surpresa.

Piazzolla convidou-o a ir a sua casa mais tarde, em Palermo. O dia ficou marcado indelevelmente para Accardo. Do aparelho de televisão ligado, acompanharam os primeiros passos de Neil Armstrong no solo da lua. No dia 20 de julho de 1969, o astronauta escreveu seu nome na história. É bem provável que a frase estivesse preparada: “Um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para a humanidade.” A partir de então, nunca mais perderam contato e encontravam-se quando coincidia de estarem na mesma cidade.

Salvatore conta uma história curiosa. Em uma outra vez em que estava em Buenos Aires, 1972 ou 1973, não se lembra exatamente, o grupo de Piazzolla estava com uma gravação marcada. O italiano ofereceu o “Il Presidente”, Stradivarius, de 1720, ao violinista Antonio Agri, por quem ficara fascinado desde aquela noite no Michelangelo. Este ficou branco com a oferta. Acabou aceitando. Agri nem aprendizado formal tinha. Aprendeu a tocar de ouvido.

Apesar da amizade, nunca gravaram juntos. O italiano tem até uma justificativa: Astor tinha Agri. Não precisava dele.

No início de 2001, Accardo entrou nos estúdios para gravar a homenagem ao seu grande amigo Piazzolla. Com transcrições de Francesco Fiore, ele e Orchestra Camerata Italiana, foram lançados três álbuns: “Le Grand Tango”, “Oblivion” e “Adiós Nonino”.

Um dos números mais belos é “Jeanne y Paul”, que está em “Adiós Nonino”.



Ouça “Oblivion”, do álbum com o mesmo título.



Veja Accardo e a Orchestra Camerata Italiana, em um trecho de “Adiós Nonino”.