quinta-feira, 10 de julho de 2014

As transcrições para o violão de obras dos impressionistas por Diogo Carvalho

Diogo Carvalho (ph Divulgação)
Juntou a fome com a vontade de comer. Ouvir Claude Debussy, Maurice Ravel e Igor Stravinsky foi algo como uma iluminação. Ao ouvir o CD Impressionism, de Diogo Carvalho, me vem essa lembrança.

A música erudita sempre teve um público cativo; pequeno e fiel, coisa de elite branca, como se refere a ela o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva a essa classe que ele pode estar confundindo com sua, a dos enriqueceram financeiramente sem ampliar seus horizontes culturais. Essa sim talvez seja a tal da elite branca mal educada, e em um país como o Brasil, em que as possibilidades de mobilidade são grandes, principalmente para os desonestos, é uma classe cada vez mais numerosa.

Um público com certo refinamento cultural – o que não significa que são endinheirados –, sem desmerecer os incultos, sustentava o pequeno mercado da música erudita, aqui, praticamente dominado por um grupo responsável pelos lançamentos da Philips e da Deutsche Grammophon. Seu concorrente maior era dona dos selos EMI, Odeon, Decca e Angel. A CBS, apesar de possuir um bom acervo clássico, para a nossa infelicidade, tinha Roberto Carlos entre seus contratados. Moral da história: nem precisava de Bob Dylan para ganhar dinheiro. Já naquela época seus discos anuais, invariavelmente, lançados perto do Natal, vendiam como água.

Uma loja de São Paulo, a Bruno Blois, resolveu lançar alguns títulos exclusivos do selo. Na primeira leva incluíram A Sagração da Primavera, de Stravinsky, La Mer, Jeux e L’après-midi dun faune, de Debussy, e outro de Ravel com, se não me engano, Le Tombeau de Couperin, Ma mère l’oye e Pavane pour une enfant défunte. Os selos tradicionais preferiam lançar Vivaldi, Bach e pouco ousavam em territórios contemporâneos. Era uma boa novidade: música do século XX. E todos os registros eram regidos por um maestro incensado pela crítica: Pierre Boulez.

Muito tempo depois, e coloque-se tempo, outros compositores entraram na minha lista de preferidos. Ravel e Debussy continuaram nela. Minha diversão é comparar diferentes interpretações sobre um mesmo compositor. E gosto de transcrições, peças concebidas de uma forma e “refeitas” por outrém.

Em posts passados comentei sobre algumas transcrições. Duas foram sobre releituras do acordeonista francês Richard Galliano sobre obras de Johann Sebastian Bach e Vivaldi, e também das “recomposições” de Max Richter das Quatro Estações, de Antonio Vivaldi. Por coincidência, Matias José Ribeiro enviou-me o CD Calavento, de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani. Dentre as músicas, constavam composições de Debussy, Fauré, Satie, Tchaikovsky e Vittorio Monti. Gostei tanto que fiquei interessado pelo CD com obras dos impressionistas que fiquei sabendo que Diogo havia lançado.

Lançado em 2009 pelo selo Azul Music, Impressionism encontra-se esgotado. Para a minha sorte, sem sequer conhecê-lo pessoalmente, recebo o CD pelo correio. O disco é o resultado da defesa de seu mestrado na ECA-USP. Das quatorze faixas, a metade são de composições de Claude Debussy, em sua maioria, de Children’s Corner, cinco de Maurice Ravel, e duas de Erik Satie. Golliwogg's Cake Walk serve como brilhante abertura.

Veja Diogo interpretando-a.




O resto?… o resto é muito bom, tudo muito bom. Além de curtir música tocada com maestria, a diversão – ou o prazer – é ficar analisando as transcrições, puxando pela memória os originais. Veja por você alguns “Debussy” de Diogo.

La plus que lente.




La petit negre.




Diogo brilha também com Ravel. Um dos temas mais conhecidos dele é a Pavane pour une infante défunte. O título é curioso pela sonoridade das sílabas finais: “ane”, ”ante”, “funte”. A transcrição de Carvalho não é a primeira. Outros violonistas, como Larry Coryell, gravaram-na. O do americano está no LP Restful Mind (Vanguard, 1974). Aliás, Coryell é outro que fez transcrições de obras para o violão.

As duas transcrições de obras de Satie vão pelo óbvio (Gymnopédie no.1 e Gnossiène no.1), o que não significa que não sejam brilhantes. Como prova, ouça a primeira.





terça-feira, 8 de julho de 2014

O meu primeiro Bach

Johann Sebastian Bach. O maior?
Há muito tempo, e, bote-se tempo aí, dois órgãos de tubo encontravam-se em bom estado de conservação em São Paulo: o do Theatro Municipal e o da Igreja de São Bento. Há muito tempo não vou à Igreja. A do Municipal, com seus belos e vistosos tubos tornaram-se parte da decoração do Theatro. Certo que a sua conservação é cara, mas é uma pena.

Na época em que cursava o ginásio, que hoje corresponde ao segundo grau, fiquei amigo do Domingos DArsie. Natural que adolescentes gostem de rock’n’roll, mais especificamente, naquele tempo, de Led Zeppelin, King Crimson, Black Sabbath e outros menos votados. Ele, no entanto, gostava de música erudita e, principalmente, Bach. Aliás, amava. E odiava rock. Nós, seus amigos não podíamos nos conformar de que não gostasse. E nem achávamos que fosse “metideza”, arrogância ou qualquer outra atitude de superioridade. Bem, pensando bem, nem tanto. Estudantes de uma escola pública, ninguém tinha uma calça Lee. Ele era o único, na classe, o que lhe proporcionava um status diferente de nós pobres filhos da classe média. Explicação: o maior objeto de desejo de consumo era a tal da calça Lee, concorrente da Levis’ no EUA, de importação proibida. As calças em azul índigo, hoje, podem ser compradas por 15 reais no Largo 13 ou na rua 25 de Março, em São Paulo, mas não eram fabricadas no Brasil e podiam ser adquiridas apenas por contrabando e por preços exorbitantes. O produto mais parecido era uma da marca Topeka, azul, bem escura mas que não desbotavam como as ‘indigo blue”. Eram chamadas de calça rancheira. Quanto ao seu gosto “superior”, isso não era problema. Achávamos apenas que era um cara meio esquisito.

Esquisito por esquisito, o negócio é que acabei entrando de gaiato nesse seu gosto. Era fanático pela música do alemão e, especialmente por sua obra para o órgão. O acesso à música erudita nunca foi barato. É como a história de quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? É caro porque é consumido por um público restrito ou é restrito porque é caro? Para membros da desassistida patuleia, como eu e o Domingos, existiam os tais concertos matinais, que aconteciam nas manhãs de domingo. Eram as nossas oportunidades de ouvir música por preços módicos. Em várias ocasiões a programação incluía recitais de órgão pelo único virtuose nesse instrumento no Brasil: Angelo Camin. Tivemos também a oportunidade de ver uma apresentação de Karl Richter, um dos maiores organistas da época, tocando Bach, mas dessa vez, tivemos de pagar uma “fortuna” para vê-lo do poleiro, como chamávamos o setor do anfiteatro, pertinho do teto, de onde, a partir da segunda fila não se via nada.

A razão do gosto pela música clássica de Domingos vinha do fato de que estudava piano no Conservatório Musical Brooklin. Seu diretor à época, Sígrido Levental, considerava-o promissor. Mas havia um problema: não gostava de tocar em público. Sempre arrumava um pretexto para não tocar em audições do Conservatório. Mesmo quando pedíamos para tocar, recusava-se. Um bom jeito de ouvi-lo era ficar na porta de sua casa enquanto ensaiava. Se apertássemos a campainha, fim da música. Foi desse modo que tive a oportunidade de escutá-lo tocando em várias oportunidades, geralmente, Johann Sebastian Bach. O que mais gostava de tocar era a Tocata e Fuga em ré menor, BWV 565. É uma obra escrita para o órgão. Como é um instrumento mais comum em igrejas e menos em salas de concerto em razão dos custos, dimensões e manutenção, não é muito executada em seu formato original.

A “forçada” do amigo funcionou. Bach foi minha “iniciação” na música erudita. Não deixei de gostar de Led Zeppelin, mas passei a explorar a obra do alemão e de compositores mais modernos, como Debussy, Ravel e Stravinsky. Daí a gente descobre que a fama de Beethoven, Brahms, Schubert e Mozart não é gratuita. É uma desinformação absurda ouvir alguém dizer que Brahms é chato ou careta. Dizer de quem compôs o Réquiem Alemão ou as quatro sinfonias e peças geniais de música de câmara?

Vamos voltar a Tocata e Fuga em ré menor. A humanidade deve conhecê-la, mas é sempre um prazer ouvi-la. A primeira, no original, é interpretada pelo maestro e organista que vimos no Theatro Municipal: Karl Richter.



Dentre as transcrições, existem duas diferentes (são as que conheço): a dos maestros Leopold Stokowski e a de Stanislaw Skrowaczewski. A primeira é a mais conhecida pois foi utilizada em Fantasia, filme de Walt Disney, que contribuiu para a divulgação da música erudita.