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| Diogo Carvalho (ph Divulgação) |
A música erudita sempre teve um público cativo; pequeno e fiel, coisa de elite branca, como se refere a ela o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva a essa classe que ele pode estar confundindo com sua, a dos enriqueceram financeiramente sem ampliar seus horizontes culturais. Essa sim talvez seja a tal da elite branca mal educada, e em um país como o Brasil, em que as possibilidades de mobilidade são grandes, principalmente para os desonestos, é uma classe cada vez mais numerosa.
Um público com certo refinamento cultural – o que não significa que são endinheirados –, sem desmerecer os incultos, sustentava o pequeno mercado da música erudita, aqui, praticamente dominado por um grupo responsável pelos lançamentos da Philips e da Deutsche Grammophon. Seu concorrente maior era dona dos selos EMI, Odeon, Decca e Angel. A CBS, apesar de possuir um bom acervo clássico, para a nossa infelicidade, tinha Roberto Carlos entre seus contratados. Moral da história: nem precisava de Bob Dylan para ganhar dinheiro. Já naquela época seus discos anuais, invariavelmente, lançados perto do Natal, vendiam como água.
Uma loja de São Paulo, a Bruno Blois, resolveu lançar alguns títulos exclusivos do selo. Na primeira leva incluíram A Sagração da Primavera, de Stravinsky, La Mer, Jeux e L’après-midi dun faune, de Debussy, e outro de Ravel com, se não me engano, Le Tombeau de Couperin, Ma mère l’oye e Pavane pour une enfant défunte. Os selos tradicionais preferiam lançar Vivaldi, Bach e pouco ousavam em territórios contemporâneos. Era uma boa novidade: música do século XX. E todos os registros eram regidos por um maestro incensado pela crítica: Pierre Boulez.
Muito tempo depois, e coloque-se tempo, outros compositores entraram na minha lista de preferidos. Ravel e Debussy continuaram nela. Minha diversão é comparar diferentes interpretações sobre um mesmo compositor. E gosto de transcrições, peças concebidas de uma forma e “refeitas” por outrém.
Em posts passados comentei sobre algumas transcrições. Duas foram sobre releituras do acordeonista francês Richard Galliano sobre obras de Johann Sebastian Bach e Vivaldi, e também das “recomposições” de Max Richter das Quatro Estações, de Antonio Vivaldi. Por coincidência, Matias José Ribeiro enviou-me o CD Calavento, de Diogo Carvalho e Leonardo Padovani. Dentre as músicas, constavam composições de Debussy, Fauré, Satie, Tchaikovsky e Vittorio Monti. Gostei tanto que fiquei interessado pelo CD com obras dos impressionistas que fiquei sabendo que Diogo havia lançado.
Lançado em 2009 pelo selo Azul Music, Impressionism encontra-se esgotado. Para a minha sorte, sem sequer conhecê-lo pessoalmente, recebo o CD pelo correio. O disco é o resultado da defesa de seu mestrado na ECA-USP. Das quatorze faixas, a metade são de composições de Claude Debussy, em sua maioria, de Children’s Corner, cinco de Maurice Ravel, e duas de Erik Satie. Golliwogg's Cake Walk serve como brilhante abertura.
Veja Diogo interpretando-a.
O resto?… o resto é muito bom, tudo muito bom. Além de curtir música tocada com maestria, a diversão – ou o prazer – é ficar analisando as transcrições, puxando pela memória os originais. Veja por você alguns “Debussy” de Diogo.
La plus que lente.
La petit negre.
Diogo brilha também com Ravel. Um dos temas mais conhecidos dele é a Pavane pour une infante défunte. O título é curioso pela sonoridade das sílabas finais: “ane”, ”ante”, “funte”. A transcrição de Carvalho não é a primeira. Outros violonistas, como Larry Coryell, gravaram-na. O do americano está no LP Restful Mind (Vanguard, 1974). Aliás, Coryell é outro que fez transcrições de obras para o violão.
As duas transcrições de obras de Satie vão pelo óbvio (Gymnopédie no.1 e Gnossiène no.1), o que não significa que não sejam brilhantes. Como prova, ouça a primeira.
Visite o site: http://www.diogocarvalho.com.br


