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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Joni Mitchell e o jazz

Joni Mitchell e Charles Mingua (foto: Sue Mingus)





Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley. 

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.




O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie Hate The Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com Blue, Hejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve Changed, You’re My Thrill, Comes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.




Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000. 



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.




Pat Metheny, quando gravou seu primeiro álbum solo, pela ECM, chamou o seu conterrâneo. Bright Size Life tornou-se um clássico. Pat já estava pronto desde o começo. Participara da banda de Gary Burton e logo chamou a atenção de Manfred Eicher. O disco é uma obra perfeita. .

Ouça a música-título.




Outra boa participação dele é com Paul Bley, Pat Metheny e Bruce Ditmas no álbum registrado em 1974. É a sua primeira gravação profissional, e foi lançado anos depois pela Improvising Artists com o título Jaco, aproveitando da fama ascendente do baixista.

Ouça Vashkar, a faixa de abertura.





Boa particpação de Jaco, no início da carreira, é no álbum Trilogue, do trombonista Albert Mangelsdorff. Veja-os em Trio Song.





Veja a íntegra do show, de onde o disco se origina. É um inusitado power trio, tendo Mangelsdorff como líder. O trombonista arrasa, como sempre. Foreign Fun é um dos destaques. É a terceira faixa.





Pastorius era um gênio, mas tinha um gênio do capeta, e tocava o diabo. Depois de sair do Weather Report, continuou a se apresentar em pequenos clubes e sua carreira entrou em declínio em razão do temperamento instável. Acabou entrando em uma briga e foi morto na porta de um clube. Tinha 35 anos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Afinal, qual é o problema de Joni Mitchell?

Joni Mitchell, capa da New York Magazine
Em 31 de março, Joni Mitchell, encontrada inconsciente em sua casa, foi internada em um hospital de Los Angeles. Se tivesse acontecido no dia seguinte, poderíamos imaginar que teria sido um trote de primeiro de abril. Mas não é. Passados alguns dias, tem dado mostras de melhora, mas continua internada.

Como quase tudo é original, em se tratando de Joni, até a doença é algo que, até então, nunca tinha ouvido falar, e creio que sou maioria nesse ponto. Ela padece da “doença de Morgellons”. É um negócio tão incomum que a comunidade médica não a reconhece. Resumindo, é uma doença de outro planeta, como Mitchell resume em entrevista à Billboard: “É uma doença estranha e incurável que parece vir de outro planeta. Fibras de diferentes cores são expelidas pela minha pele como cogumelos depois da chuva."

Em seu livro de memórias, tratara disso: “Não conseguia usar roupa. Não consegui sair de casa durante vários anos. Às vezes, era de tal maneira doloroso que eu tinha de me arrastar pelo chão. Ficava cheia de cãibras nas pernas, como se fossem espasmos. Estas dores atingiam-me todos os sítios do corpo que foram atacados pela poliomielite [doença infecciosa que a artista conseguiu vencer quando ainda era criança]”. (trecho retirado de matéria da portuguesa Joana Marques Alves, 5/4/2015. http://www.sol.pt/noticia/128469)

Na mesma matéria, esse mal é assim descrito: “A Doença de Morgellons é um problema de pele muito raro, que se caracteriza pelo ‘formigueiro’, a comichão, os arranhões e a sensação de se estar a ser cravado por ferrões. Para além disso, as pessoas que dizem sofrer desta doença afirmam que existem ‘filamentos fibrosos a sair pelas feridas’ que entretanto se formaram na pele.”

Psicossomático ou não, é uma doença que traz grandes sofrimentos, a ponto de Joni ter de estar internada em um hospital. Parece um caso que apenas a equipe de Gregory House pode curar.

Quem conhece um pouco melhor a cantora/compositora, ao ler as manchetes, deve ter imaginado que tivesse sido internada por algum mal na garganta, esôfago ou pulmão. Fumou toneladas de cigarros. Como ela mesma disse, tornou-se cantora para “fumar dinheiro”. Até onde se sabe, no alto de seus 71 anos, continua “sócia da Souza Cruz”. Presume-se também que, por esses dias, deu uma paradinha. Acho que é proibido fumar em hospitais americanos.


Por que ouvir e amar Joni Mitchell?

Joni se define como uma “pintora que escreve canções”. Desde o início ilustrou suas capas com desenhos e pinturas de sua autoria. Era como dizer: canto, componho, desenho e pinto.

A canadense surgiu no mundo musical para fazer diferença. Encantou o público e encantou os homens. A lista de ex-namorados é extensa: David Crosby, Graham Nash, Leonard Cohen, James Taylor, Wayne Perkins, Jackson Browne, John Guerin, Don Alias, o baixista e produtor Larry Klein, com quem manteve o relacionamento mais duradouro, e os atores Warren Beatty e Jack Nicholson. Dizem que teve um caso com o ator e dramaturgo Sam Shepard. Joni não era exatamente bonita, mesmo quando jovem, mas devia ser tremendamente charmosa e encantadora.

Muito desse encanto emanava de sua música. Quem não deve ter se apaixonado por Joni apenas ouvindo seus discos. Ao amar a sua música, passávamos a amar aquela figura longilínea de rosto anguloso e dentuça. E esse amor tornava-se duradouro, como a perenidade de suas composições. É impressionante como canções como Blue, Both Sides Now ou River, compostas há mais de 40 anos continuam atuais e são prazerosas de se ouvir até hoje. Não é à toa que River tenha sido gravada mais de 200 vezes. Joni não estava sendo presunçosa quando disse uma vez que “a minha música não é projetada para pegar instantaneamente. Ela foi projetada para ser apreciada por toda a vida, mantendo-se como um véu.”


Mitchell e o jazz

Músicos associados ao jazz sempre participaram de seus discos desde For the Roses (Elektra, 1972). Neste, conta com Tom Scott e Wilton Felder. Estes, mais Joe Sample (companheiro de Felder no Jazz Crusaders) e o guitarrista Larry Carlton estão no próximo Court and Spark (1974)

O plantel amplia-se bem em The Hissing of Summer Lawns. Aos citados do anterior, temos o baterista John Guerin, também coautor da música título, Bud Shank, Victor Feldman, Max Bennett e Chuck Findley.

Nos dois seguintes, Hejira (1976) e Don Juan’s Reckless Daughter (1977), a contribuição vem de músicos do Weather Report, como Alex Acuña, Manolo Badrena, Airto Moreira (é da primeira formação do Weather), Jaco Pastorius e Wayne Shorter, e do arranjador Mike Gibbs. Esses dois álbuns representam um dos ápices da carreira de Mitchell. Os arranjos instrumentais são extremamente sofisticados, em uma fusão do folk com a música caribenha, africana e o jazz.

Amelia, que está em Hejira, é uma das grandes canções de Joni. É sobre a aviadora Amelia Earhart, desaparecida em 1937, quando tentava fazer uma viagem ao redor do globo.



O ápice da sua ligação com o jazz é o álbum Mingus (Elektra 1979). Neste, além da presença do genial baixista por meio de gravações feitas em seu retiro no México, inseridas no disco entre as faixas, conta com a nata do jazz: Herbie Hancock, Wayne Shorter, Jaco Pastorius, Peter Erskine e Don Alias. Algumas composições de Mingus, como Goodbye Porkpie Hat e The Dry Cleaner from Des Moines, fazem parte deste álbum, com letras de Mitchell. É um dos grandes discos de Mitchell, junto com Blue, Hejira e Don Juan’s Reckless Daughter.


Veja Joni em God Must Be a Boogie Man, em apresentação em Londres. A música faz parte de Mingus.



Ouça Goodbye Porkpie Hat, que Mingus fez em homenagem a Lester Young. O baixo é de Jaco e o sax soprano, de Wayne Shorter.



Pouco tempo depois, em 1980, foi lançado em vídeo um encontro espetacular de Mitchell com alguns jazzistas que já haviam participado de outras gravações – Pastorius e Alias –, e os convidados Pat Metheny, Lyle Mays e Michael Brecker. Há momentos preciosos em Shadows and Lights, como a participação dos vocais de The Persuasions e solos maravilhosos de Pat e de Jaco.

Joni canta The Dry Cleaner from Des Moines, composição de Mingus. O saxofone é de Michael Brecker e o baixo, de Jaco Pastorius.




A influência do jazz persistiu, porém, com menos intensidade em álbuns posteriores, mas nunca prescindiu de bons músicos do gênero, como o maravilhoso baterista Brian Blade e participações eventuais de Wayne Shorter. A partir do momento em que Larry Klein entrou em sua vida, inicialmente como músico e depois como produtor, Joni Mitchell resolveu ficar pop. Assim mesmo, continuou ainda a compor pérolas como Sex Kills.

Ouça Sex Kills.



Ouça o show na íntegra. Vale a pena. Infelizmente, o vídeo foi suprimido do YouTube.



O álbum Both Sides Now, de 2000, é a volta de Joni ao jazz, mas dessa vez, como intérprete, em arranjos orquestrais de pompa, cantando standards como You’ve Changed, You’re My Thrill, Comes Love e Sometimes I’m Happy. Na capa, a exemplo da maioria das anteriores, é uma pintura de sua autoria, e como das outras vezes, autorretratos, aqui, com o cigarro aceso entre os dedos, seu companheiro mais fiel. Uma observação sobre a canção Both Sides Now. Composta em 1967, está relacionada ao fim do primeiro casamento e à sua decisão em entregar a filha recém nascida para adoção para que pudesse seguir com a carreira musical.

Ouça You’re My Thrill.



Joni Mitchell canta Both Sides Now, em apresentação de 2000.



Veja Joni cantando a mesma canção em 1970.




Joni está afastada dos palcos desde 2007 por razões de saúde. Estamos aqui na torcida para que se recupere rapidamente.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um absurdo chamado Ira Sullivan

Ira, em Chicago, comemora seus 80 anos
Você conhece Ira Sullivan? Você sabe se ele está vivo? Você sabe se está na ativa?

Entre 1974 e 1978, a Horizon, selo da A&M Records, lançou uma série de discos de jazz, abarcando estilos bem diferentes, gravando, por exemplo, Charlie Haden, Sonny Fortune, Jim Hall, Thad Jones/Mel Lewis Orchestra, Dave Brubeck e Paul Desmond, a Yellow Magic Orchestra de Ryuichi Sakamoto, Jimmy Owens, Don Cherry, Revolutionary Ensemble (este, o mais avant-garde), Dave Liebman e Ira Sullivan, dentre outros. Foi a primeira vez que ouvi falar de vários deles. Ira foi um deles.

Vários foram lançados no Brasil, com capas semelhantes às originais americanas, com profusão de informações em português, fato raro até hoje nos encartes. Infelizmente, a qualidade de áudio dos LPs (long-playings) era sofrível. Comprei Forgotten Fantasies, belíssimo duo com David Liebman e Richie Beirach, Awakening e Waves of Dreams, de Sonny Fortune, Live!, com Jim Hall. Os dois “mais diferentes” eram Dancing in Your Head, de Ornette Coleman (sobre ele, leia “A mais bela mulher solitária”) e The People’s Republic, do Revolutionary Ensemble.

Não lembro se os dois álbuns de Charlie Haden foram lançados no Brasil, pois os adquiri fora do país. Liebman e Fortune tocaram com Miles Davis e essa foi a razão de ter comprado os discos dos dois. Um pouco diferente da música eletrônica e frenética de quando tocou com Miles (Agharta e outros álbuns ao vivo que, aos poucos foram sendo lançados na época em que o trumpetista esteve “fora do ar” devido ao seu problema com a heroína “y otras cositas más”), os discos de Fortune são mais “mainstream” e muito bons. Liebman também, ao gravar Forgotten Fantasies, talvez em razão de dividir o disco com Beirach, segue por uma trilha bem lírica e menos “nervosa”. É uma pena que a baixa qualidade do vinil brasileiro tenha comprometido o disco de Liebman e de tantos outros que optaram vereda do mais “silencioso”. É um pipocar de ruídos absurdo, daí a razão de muitos, na época, optarem por comprá-los importados, mesmo custando mais que o dobro. O “ao vivo” de Jim Hall é muito bom e um tanto minimalista. Hall sempre perferiu a discrição.

Abro um parágrafo para os de Charlie Haden e de Ira Sullivan. Devo ter comentado mais de uma vez sobre Closeness e The Golden Number (leia “Os duos de Charlie Haden”), pois sou fã de carteirinha do baixista. Os duos são com músicos que foram parceiros em outras formações, como Keith Jarrett, Paul Motian, Ornette Coleman e Don Cherry, dentre outros. Ellen David, com Jarrett é um deslumbre. Ouça aqui e verás que não minto.


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Ira Sullivan foi a grande supresa. Sem nunca ter ouvido falar dele, comprei, de curioso. Imagino que, atualmente, toque eventualmente em alguma casa de jazz na Flórida, estado que escolheu para morar desde 1962. Em 1976, quando foi lançado o álbum, cujo título era apenas Ira Sullivan, grafado na vertical, tendo a foto de um menino – ele – com um trumpete que devia ser quase do seu tamanho, era o primeiro depois de dez anos.

“O nome de Ira Sullivan era cheio de magia, não havia outro músico tão adorado como ele. Tocou com Bird e Kenny Dorham, conheceu todos os grandes e tinha uma reputação muito especial. Seu nome ainda possui a mesma magia. As pessoas sussurram: ‘Talvez, um dia, ele volte’.” Assim começa o texto dos liner notes do álbum, escrito Neil Tesses. O “talvez, um dia, ele volte” era em razão dos dez anos de ausência no mercado fonográfico. Segundo o pianista Lou Levy, “Ira tocava como eu gostaria de tocar, não posso pensar em outro elogio maior. Por sua força e poder, era como Bird.” Joe Segal, fundador e proprietário do The Jazz Showcase, em Chicago, lugar que abrigou Ira com frequência quando morou lá, disse que “ele é um gênio. Poderia escolher qualquer instrumento e aprender a tocá-lo em um dia; seria excelente em todos eles. Acho-o melhor no trumpete, mas quando toca saxotrompa (sax-horn) é meu intérprete vivo favorito.”

Pois Ira, além do trumpete, toca sax tenor e barítono. Mais tarde incorporou o sax soprano e a flauta. É raro alguém que toque bem o trumpete, tenha a mesma habilidade no saxofone, pois os dois instrumentos possuem embocaduras bem diferentes. Esse é outro dado que reforça o talento desse músico. No disco de 1976, Ira é acompanhado por Alex Darqui e Tony Castellano ao piano, Joe Dorio na guitarra e Steve Bagby na bateria. Na única faixa em que entra o baixo – Portrait of Sal La Rosa –, quem toca é Jaco Pastorius. Não é tão por acaso: Pastorius nasceu na Pensilvânia e criança mudou-se para Fort Lauderdale.

O álbum lançado pela Horizon, por ironia, título do disco anterior lançado pela Atlantic Records, não apresenta nenhum standard, a não ser se Finlandia, de Jean Sibelius (é um trecho curtísiimo de 52 segundos em que Ira toca em overdubs sax soprano, tenor e flauta), e My Reverie, de Claude Debussy, possam assim ser considerados. Falha minha: Ira toca um Jitterbug Waltz, de Fats Waller, matador. É o que você ouve aqui.

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Ouça também Dove. Grande Ira. Merece ser mais conhecido.

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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Minha primeira vez com Jaco Pastorius

Pastorius empunha seu Fender Jazz Bass
Antes de entrar na banda de Joe Zawinul e Wayne Shorter – o Weather Report –, em 1976, Jaco Pastorius já era conhecido dos colegas músicos. Dizem que Pastorius, em uma apresentação do Weather Report, em Miami – o baixista nasceu em Fort Lauderdale, Flórida –, abordou Zawinul e lhe falou de que havia gostado, mas esperava mais, que estava faltando “alguma coisa”; e se apresentou como o melhor baixista do mundo. Na insistência, fez com que chegasse até Zawinul uma fita demo. O resto é história. Mais tarde, com os acontecimentos posteriores, ficou público que Pastorius era bipolar, e como acontece com usuários de drogas, cocaína principalmente, era megalomaníaco e um tanto “sem noção”. Teve fim inglório: levou uma surra de um leão de chácara em uma boate da Flórida e morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral. Tinha 36 anos. Louco como andava, a carreira também tinha desandado (sobre isso, leia em http://bit.ly/vczRcR). O responsável por sua morte, Luc Havan, ficou quatro meses preso; foi solto por bom comportamento. Pelo menos, ao contrário de muitos usuários de cocaína que cheiram para se sentirem poderosos, “criativos” e “inteligentes”, Jaco era gênio e não precisava disso para ser “melhor”.

Pastorius entrou no meio das gravações do disco Black Market. Bastou. Suas composições e intervenções no baixo o consagraram. Fazia o diabo com seu Fender Jazz Bass sem trastes. A primeira vez que o ouvi em disco foi no disco Ira Sullivan (Horizon, 1976). Ira Sullivan – toca trumpete, flugelhorn, saxofone e flauta –, apesar de pouco conhecido, é um tremendo músico. A aversão por viagens foi empecilho: baseou-se na Flórida e pouco saiu de lá desde então (creio que, atualmente, está aposentado, pois faz muito tempo que não ouço falar dele). O fato de tocar com frequência nos clubes locais deve tê-lo feito “trombar” com o, ainda jovem, Pastorius. Em 1974, estava fazendo parte do quinteto de Ira. No disco lançado pela subsidiária da A&M Records, o baixista participa de apenas uma faixa: Portrait of Sal La Rosa. Foi o suficiente para perceber que se estava diante de um músico diferenciado.

Em 1974, foi lançado um disco pela Improvising Arists em que, sem título, apenas trazia os nomes de seus participantes: Paul Bley, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Bruce Ditmas. Era, essencialmente, um disco do pianista Paul Bley; todas as composições eram, ou dele, ou de Carla Bley que, por um tempo foi sua mulher.

O grande disco anterior a 1976 é Bright Size Life (ECM, 1975), primeiro disco solo de Pat Metheny. Esse é um clássico, em vários sentidos. Pat começou muito cedo. Antes de completar 20 anos estava na banda do vibrafonista Gary Burton como segundo guitarrista (o primeiro era Mick Goodrick). Era tão bom que chamou atenção do chefão da ECM, Manfred Eicher. Em Bright Size Life teve como sidemen Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses. Nem parecia disco de estreante de tão bom que era. Metheny nasceu pronto, assim como Pastorius. Por meio desse disco ocorreu meu segundo contato com o som do baixista.

A primeira e única vez que vi Pastorius tocando aconteceu num longínquo ano em um festival de jazz no Ginásio do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, em 1980. O som era péssimo e o público carioca queria só diversão, ouvir era o de menos. Para se ter uma ideia, McCoy Tyner se apresentou, e o som era tão ruim que ninguém deu a mínima para o grande mestre do piano; foi deprimente. Outra atração foi Pat Metheny e sua banda. Lembro que os “avant-garde” Art Ensemble of Chicago eram outro destaque; na última hora, cancelaram: decepção. A apresentação mais impactante mesmo foi a do Weather Report. Ao lado dos mestres Wayne Shorter e Joe Zawinul, Jaco Pastorius foi uma atração à parte. Com uma fita prendendo-lhe os longos cabelos, parecia um índio. Passaram algo como um talco no chão para facilitar-lhe os movimentos. Estava ligado em uma tomada de 220 volts; não parava quieto e mexia com os dedos da mão direita a toda hora, dando a impressão de que estavam doloridos pela força com que dedilhava as cordas. O ponto alto foi um longo solo em que tocava um trecho de Portrait of Jenny. Inesquecível. Quem viveu isso não esquecerá nunca.

Leia também “Joni Mitchell e o jazz”: http://bit.ly/j141Y4

Ouça Pastorius em Portrait of Sal LaRosa.



Ouça e preste atenção no solo de Pastorius em Midwestern Nights Dream, a quinta faixa de Bright Size Life.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Quando Jaco Pastorius tocou com Joni Mitchell

Em 1976, antes de gravar Hejira, Joni Mitchell procurava um tipo de som diferente do que se ouvia nessa época. Não lhe satisfazia o tipo de som predominante dos baixistas por achá-los um tanto “mortos”. Quando gravava The Hissing of Summer Lawns (1976), mostrou no teclado como pretendia que a linha do baixo fosse em The Jungle Line para Max Bennett, que a acompanhava. Ele odiou; e ela não estava satisfeita.

A perfeita combinação: Pastorius e Mitchell
No álbum seguinte, com a participação de Jaco Pastorius, viu o que era uma ideia que tinha em mente tornar-se real. Finalmente, surgia um baixista que se alternava entre os graves e os médios. Jaco transformou o som de Joni. Basta comparar as faixas em que Max Bennett é o baixista e as que é Pastorius. Impressiona já na primeira faixa, Coyote. A base é a guitarra rítmica de Joni e Larry Carlton e as congas de Bobbye Hall. O instrumento que está em primeiro plano é o baixo de Jaco. É uma verdadeira aula de ritmo e inventividade. Isso não quer dizer, de maneira nenhuma, que Bennett seja uma mau baixista. Pelo contrário, é que ele é mais de marcação e menos solista. Como termo de comparação dos estilos diferentes, Furry Sings the Blues, a terceira faixa, com Bennett no baixo, é perfeita.

A outra música em que Jaco dá um verdadeiro show é Hejira, em que se ouvem além dele, o violão de Joni e a percussão quase imperceptível de Bobbye Hall e algumas notas – perfeitas – da clarineta de Abe Most. A outra da qual Pastorius participa é a última do disco: Refuge of the Roads.

A parceria Pastorius/Mitchell continuaria em outros dois álbuns: Don Juan’s Reckless Daughter (1977), Mingus (1979) e Shadows and Lights (1980). A combinação atinge o auge em Don Juan’s. Nesse disco, o mais ambicioso de Joni, flerta com o jazz, com ritmos latino-americanos e orquestrações do mestre Michael Gibbs. Além de Jaco tocando na maioria das faixas, há participações de Wayne Shorter no sax e Alex Acuña, Airto Moreira, Don Alias e Manolo Badrena nas percussões.

O mais impressionante é o que Pastorius faz na música título, Don Juan’s Reckless Daughter. Com a palma da mão golpeia as cordas do baixo  deslizando-a de cima até em baixo fazendo um som que, onomatopaicamente, é um du du du doom, du du du doom, durante os cinco minutos da música. Depois de três minutos, a palma da mão estava em carne viva.

Mingus foi o álbum em que Joni Mitchell presta um tributo a um dos maiores baixistas de todos os tempos do jazz. Há, inclusive, uma “participação especial” de Charles Mingus. Nessa época, encontrava-se preso a uma cadeira de rodas e vivia no México com sua mulher. Ela, Sue Graham Mingus, permitiu que Joni usasse uma fita em que foi gravado um “Parabéns a Você” em algumas partes do disco. Mingus é um álbum mais orientado ao jazz, por conta do objeto do tributo. Participam, além de Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, o baterista Peter Erskine (ex-Weather Report), Don Alias e Emil Richards na percussão.

Depois desse disco, Pastorius participou da turnê que resultou no DVD Shadows and Lights. As participações são mais que especiais: Wayne Shorter, Randy Brecker (sax-tenor), Pat Metheny (guitarra), Don Alias (bateria e percussão), Lyle Mays (teclados), e o grupo vocal The Persuations. Pastorius foi o diretor musical desse projeto. O registro em DVD é item essencial na prateleira dos amantes da boa música.

Em um relato para a Musician Magazine, em 1987, Mitchell disse que Pastorius era arrogante e ciente do enorme talento que tinha. Ele dizia “Eu sou o máximo. Não sou de me gabar. Só estou dizendo a verdade.” Essa arrogância e o uso da cocaína e do álcool corroeram-lhe o seu talento e a inspiração.

Anos depois, Joni tinha ido à abertura de uma exposição em Nova York. Havia um pequeno restaurante na mesma rua anunciando “Jaco Pastorius Tonight”. Foi vê-lo. Na apresentação, Jaco, ao vê-la, não parava de dizer: Joni Mitchell é o máximo! Ela é a única “isso”, é a única “aquilo”, a ponto de ficar constrangedor. As poucas pessoas no clube também ficaram constrangidas. Joni subiu ao palco, mas deu tudo errado. Foi frustrante.

Em 11 de setembro de 1987, arrumou encrenca com o gerente de um clube na Florida, e na briga, sofreu traumatismo craniano, morrendo dez dias depois. Tinha 36 anos.

Veja Joni e Jaco em The Dry Cleaner from Des Moines, do show Shadows and Lights.