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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Lizz Wright em estado de graça

A graça de Lizz Wright
Ao contrário de Dee Dee Bridgewater, comentado (leia o post anterior), ao dizer que ser uma “jazz singer” era algo com que sempre sonhara, Lizz Wright, em entrevista à Downbeat (jan, 2017), disse que não se sente confortável em ser classificada como uma cantora de jazz. Afirma que suas influências vêm da música afro-americana dos séculos 19 e 20, o blues, folk, o gospel e o pop contemporâneo.

Curiosamente, Wright afirma que “Grace”, álbum mais recente, lançado agora no dia 15, é uma volta às raízes. No caso de Bridgewater, o retorno se faz por meio de um repertório aparentado ao que ouvia na adolescência na sua estação favorita de rádio, a única que transmitia exclusivamente música afro-americana.

Lizz é bem mais nova que Bridgewater. São quase 30 anos de diferença. Nem tão norte nem tanto ao sul, a referência é a de onde vem. Georgia é um dos estados em que a cultura afro americana foi e continua bem presente, assim como a religiosidade. Lizz é filha de pastor e também diretor musical de sua paróquia. Não é muito diferente do figurino que conhecemos. Lizz saiu da Georgia mas não foi muito longe: divide a morada entre Chicago e Great Smoky Mountains, na Carolina do Norte, onde comprou um terreno de 28 acres, e passa os seus momentos de descanso.

Na música também nunca esteve distante de suas raízes sulistas. Portanto, não é exatamente uma retorno a elas, como afirma. Agora, se considerarmos como um retorno à cultura e sua história, sim, mas no fundo, até nisso, permaneceu fiel a ela.

Desde sua estreia, com “Salt”, em 2003, apesar de lançada pelo selo Verve, não se pode dizer que era um disco de jazz. Fora standards como “Afro Blue”, de Mongo Santamaria, cuja versão mais conhecida e espetacular é a de John Coltrane, e “Goodbye”, de Gordon Jenkins, as restantes, quase todas composições de sua autoria, possuem características que não podem ser classificadas como tal. Os músicos participantes, sim; são desse universo: John Cowherd, Chris Potter, Danilo Perez, Brian Blade e outros mais.

Em “Dreaming Wide Awake”, que inclui as belas “A Taste of Honey”, de Bobby Scott, “Get Together”, de Chet Powers, aquela que os cinquentões conhecem com os Youngbloods, e “Old Man”, de Neil Young, apesar de Scott ter sido um pianista e cantor ligado ao jazz, podem ser classificadas no termo mais genérico de “músicas clássicas do cancioneiro americano”.

Foram quase cinco anos entre “Fellowship” e “Freedom and Surrender”. Foi primeiro na casa nova, a Concord Jazz. Pelo título do mais recente, “Grace”, a primeira suposição é o de que há uma relação entre os dois, pois são duas expressões que nos levam a pensar em redenção, ou algo parecido, que nos remete à religião.

O canto de Wright é universal. Poderia vir do Amapá ou de Cochabamba. Esse é um dom que Deus dá a poucos. Desde “Salt” (Verve), sua estreia em discos, em 2003, sucesso instantâneo, alçado ao segundo mais vendido no chart da Billboard Top Contemporary Jazz, mantém uma linha coerente e fugindo de qualquer rótulo. Há uma evolução, ou construção, de uma linguagem que a torna reconhecível em qualquer música que cante, seja ela de Bob Dylan ou kd lang, presentes no mais recente lançamento.

Grace
“Barley”, de Allison Russell, abre o disco. O ritmo marcante, o violão “beliscado”, árido, e a voz de Lizz cantam paisagens rurais. A segunda é “Seems I’m Never Tired Lovin’ You”, conhecida pela interpretação de Nina Simone. Desde o início, ela nos captura com sua voz cálida e elegantemente sensual em uma espiral emocional que, aos poucos vai nos envolvendo até ficarmos a querer mais e mais.

Ouça “Barley”.



É apenas o começo. “Seems I’m Never Tired Lovin’ You” é um petardo. Veja e ouça nessa apresentação.




Uma coisa que contribui para caracterizar como um álbum em que revisa suas raízes é o recurso estilístico do uso do órgão, massivamente presente nos cultos religiosos, e aqueles coros irresistíveis. Está presente na canção título, de Rose Cousins. Ouça.



Com apenas 37 anos, Wright, em seus cinco álbuns, amealhou apenas elogios da crítica e conquistou milhões de ouvintes. Desde “Salt”, sua estreia, parecia uma cantora pronta. Neste disco, quis, como afirmou para a matéria de Giovanni Russonello, do New York Times, “capturar a delicadeza do Sul e de onde eu vim e a minha experiência disso.” O sul é um lugar que tem “uma cultura e história incríveis, que se baseia em você cultivar a sua terra e importar-se um com o outro. Eu venho de uma família que cresceu produzindo o seu próprio sustento nos tempos da escravidão e o das pessoas ao seu redor. Descobri então, por meio das conversas sobre a terra e sobre a casa com meus vizinhos, muitos pontos em comum”, complementa. É uma cultura que procurou preservar com os seus vizinhos de Blue Ridge Mountains. Tanto é que “Grace” é dedicado a sua “next-door neighbor” de 92 anos.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A face soul de Dee Dee Bridgewater

“Sim, sou uma cantora de jazz”, afirma Dee Dee Bridgewater nas notas internas de “Memphis… Yes, I’m Ready”, que acaba de ser lançado. Era o que sonhava ser: uma jazz singer.

Também! Era previsível. Seu pai, Matthew Garrett, foi trompetista profissional e professor na Manassas High School de 1949 a 1952. Foram alunos seus, simplesmente, Charles Lloyd, George Coleman, Frank Strozier, Brooker Little, Phineas Newborn Jr. e Harold Mabern, sem dúvida, uma turma de respeito.

“Sim, eu nasci em Memphis, Tennessee”, assim começa nas notas internas. Quando tinha três anos, a família mudou-se para Flint, Michigan. Adolescente, ouvia nas noites a WDIA Radio. Nas suas palavras, era seu “jardim secreto”. Era a única rádio que tinha a programação inteiramente voltada para a música afro-americana. Assim, tomou gosto por vários gêneros, no entanto, tornou-se uma jazz singer porque “isso é algo que sempre sonhei ser”.

Não fosse esse seu propósito, poderia muito bem tem virado uma intérprete “pop”, como Aretha Franklin, que, aliás, no início de sua carreira voltou-se para os standards de jazz. Tivesse seguido por esse caminho, Dee Dee teria feito até mais sucesso, pois talento e aquele timbre que só os negros têm nunca lhe faltaram.

Denise Eileen Garrett, enquanto cursava a Michigan State University, cantava em clubes de jazz, pois sua meta era ser cantora. Conheceu o trompetista Cecil Bridgewater, com quem se casou. Mudaram-se para Nova York. Cecil tocava na banda de Horace Silver. Dee Dee, a partir de então, Bridgewater, foi ser crooner da Thad Jones-Mel Lewis Orchestra. O início auspicioso fez com que conhecesse Sonny Rollins, Dexter Gordon, Max Roach e Dizzy Gillespie, dentre outros.

Dona de uma voz poderosa, a bela negra participou do musical “The Wiz”, ganhou o Tony Awards como “best featured actress”, em 1975, e um Grammy no ano seguinte. Como performer de musicais foi para a França, fazendo parte do musical “Sophisticated Ladies”, e por lá ficou. Casou-se com o produtor Jean-Marie Durand, em 1911. Antes, estava casada com Gilbert Moses, com quem teve China Moses, que optou pela mesma profissão da mãe. No início dos anos 1980, retomou a carreira de jazz singer.

Um talento tão indiscutível só poderia encontrar morada em grandes gravadoras como a Verve e ser convidada para cantar nos maiores e mais prestigiados festivais e clubes de jazz. É considerada uma das melhores cantoras vivas, junto com as experientes Dianne Reeves e Cassandra Wilson. É certo que há a emergência de uma nova geração de peso em que despontam Roberta Gambarini, a sensação Cécile McLorin Salvant, Cyrille Aimée, Lizz Wright, sem esquecer das fabulosas Dianna Krall, Stacey Kent, Karryn Allison, Tierney Sutton e Catherine Russell, que preenchem o meio campo desse espectro geracional.

Pois Dee Dee resolveu montar um repertório resultado da “investigação do seu passado”. “Meu círculo de vida foi fechado. Agora eu me entendo em sua totalidade. Meu espírito está tranquilizado.” Seu propósito de vida, afinal, ficou entremeado de tudo do que ouvia no rádio. É por isso que o nome do álbum é “Memphis… Yes I’m Ready!”. Foi nesta cidade que nasceu, em 27 de maio de 1947.

Como na música de Al Green, Sam Cooke, Aretha Franklin e outros, algumas características são marcantes na música gospel americana, soul, blues, ou, para ser mais abrangente, do rhythm’n’blues: backing vocals, naipes de sopros e sons do órgão Hammond. Tudo está presente em “Memphis…”. Clássicos de compositores e intérpretes como Norman Whitfield e Barrett Strong, Isaac Hayes, Margaret Ann Peebles, Otis Blackwell, Jerry Leiber e Mike Stoller, Van McCoy compõem esse álbum impecável e poderoso.

Com sua voz cheia daquela energia própria dos negros, apesar de sua mãe – a quem o disco é dedicado – nunca tivesse querido que Dee Dee cantasse blues, quando começou a cantar profissionalmente, “Memphis…” é candidato a ser o melhor álbum do ano em um gênero que não é jazz. Confira.

Ouça a clássica “Sound Dog”, que ficou famosa na voz de Elvis Presley.



A clássica “Try a Little Tenderness”. Foi até cantada por Frank Sinatra, mas a clássica mesmo é a de Otis Redding.


 

Ouça “Why (Am I Treated So Bad)”, de Roebuck Staples.



Provavelmente, a mais conhecida interpretação de “The Thrill Is Gone” é a de B.B. King, mas a de Bridgewater também é excepcional. O Hammond B3 faz a diferença.