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quinta-feira, 9 de março de 2017

A música falada de Laurie Anderson

Laurie Anderson e Lou Reed
Considerando que “Big Science”, o primeiro disco de Laurie Anderson, foi lançado em 1982, e estamos em 2017, é bem provável que muitos, afinal – passaram-se trinta anos – nem saibam quem é ou foi essa intérprete multimídia. Faz tanto tempo que até a expressão multimídia está fora de moda.

A referência mais recente pode ter sido quando foi noticiada a morte de Lou Reed, em outubro de 2013. Além de loucuras como a de ter namorado com um travesti, levando bem a sério suas viagens e loucuras regadas a drogas pesadas, o convívio com a cena artística de vanguarda novaiorquina, dentre suas “excentricidades”, resolveu, na maturidade, levar uma vida mais normal, participando e até organizando álbuns com propósitos humanitários. Na nova fase, resolveu manter uma bela e estável relação heterossexual. No fim do século passado, conheceu Laurie, com quem dividiu projetos artísticos e amorosos. Em 2008, formalizaram o casamento.

Há poucos dias, ao mexer nos DVDs musicais, deparei-me com “Home of the Brave”, vídeo de uma temporada Park Theater, em Union City, NJ, em 1985. Me fez lembrar do quanto gostei de Laurie e posso afirmar que é um show estupendo, que continua interessante, e as gerações mais novas que, possivelmente, nunca devem ter ouvido falar dela, devem assistir.

Anderson é uma daquelas figuras raras que souberam canalizar seus múltiplos talentos. Estudou história da arte, graduou-se em Escultura na Columbia University, desenhou histórias em quadrinhos e livros para crianças que chegaram a ser publicadas, deu aulas e escreveu críticas para uma das mais prestigiadas revistas de arte, até hoje, a Artforum. Com tantas habilidades, era de se esperar algo de inusitado quando partiu para a carreira artística. Sua primeira performance foi uma sinfonia executada com buzinas de automóvel, em 1969.

Na década de 1970, Laurie foi ficando bem conhecida e passou a ser admirada no mundo musical nova-iorquino com performances absolutamente originais como a de sua estréia. Em uma delas, a Duets on Ice, ela toca violino sobre bases pré-gravadas enquanto patina sobre uma placa de gelo. A apresentação acaba quando o gelo derrete.

Pequena, com os cabelos curtos espetados e virados para todas as direções, o violino elétrico branco e olhar perscrutador, sua figura era marcante. Nem era virtuose em seu instrumento, não tinha uma voz especial, mas ganhou notoriedade mundial a partir dos discos, que pouco desvelavam a sua verve performática. Lançar o primeiro disco por uma gravadora de grande porte ajudou. “Big Science” (1982) saiu pela Warner, o que significava ser distribuído em vários países. Nos Estados Unidos, nem ficou entre os 100 mais vendidos. Serviu contudo, para que muitos ficassem curiosos pela autora de “O Superman (for Massenet)”, que foi bem tocada nas rádios. Seu canto não era um canto especificamente; eram cantos falados, com inflexões dramáticas nas narrativas de histórias curiosas, acompanhada por “tape-bow violin”, instrumento inventado por ela, que, em vez de cordas, usava fitas magnéticas com uma cabeça de gravação.

Veja o clipe de “O Superman”.




Depois de “Big Science”, lançou “Mister Heartbreak”, este sim um sucesso, guardadas as proporções de uma artista que não era pop. Seu público era outro. Sua originalidade atraía um público mais seleto.

“Flying Birds” é um dos destaques de “Mister Heartbreak”, com participação de Peter Gabriel.




“Home of the Brave”, de 1986, é um grande showcase das loucuras de Anderson. Lançado em LP inicialmente, era uma pequena amostra do filme-show, que seria lançado pouco tempo depois. Ao revê-lo há poucos dias, fico ainda impressionado. Continua contemporâneo trinta e poucos anos depois. Conta com participações especiais como a de Nile Rogers, produtor e guitarrista que fundou o Chic, um backing vocals estelar, a do escritor William Burroughs (em voz pré-gravada), encenações teatrais inusitadas, e ainda com a performance genial de Adrian Belew que faz sua Fender emitir os sons mais inusitados, e ainda cantar. Saindo do musical, percebe-se que Belew está muito à vontade como um performer das encenações de “Home of the Brave”.

Se você já viu o show, reassista, pois vale a pena. Aqueles que não viram ou mal conhecem Laurie Anderson têm a obrigação de ver.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O show acústico de Lou Reed, John Cale e Nico

Lou Reed, John Cale e Nico, no Bataclan
Quando Nico entra no palco, a coisa muda de figura. É um tanto triste saber que a alemã, não traindo a ascendência ariana de quem nasceu se chamando Christa Päffgen, tratava os judeus de maneira jocosa, não poupando até os amigos. E odiava negros também. Mas vamos dar um desconto. Ela era uma figura carismática, uma mulher bonita e tinha uma voz envolvente, sem ser grande cantora.

No show em 1972 no Bataclan, Paris, Lou Reed, John Cale e Nico encontram-se pela primeira vez após o fim do Velvet Underground. Circularam várias gravações do show em versões piratas até lançarem oficialmente como Bataclan ’72, em 2004.

Lou Reed e Cale abrem o espetáculo com I’m Waiting for the Man em versão acústica, só violão e o piano. Nada mal. As canções de Reed sempre combinaram com o acústico, pois são quase sempre melancólicas. Mesmo com toda a parafernália de guitarras ruidosas, como em Rock’n’Roll Animal (RCA, 1974), é o que predomina.
Veja em https://www.youtube.com/watch?v=5rhiqI6PlTo.

A seguir, Reed anuncia a “minha nova canção Barbra Streisand”: Berlin (veja em https://www.youtube.com/watch?v=4be4Az5BM-c). É uma de suas grandes composições. É do primeiro álbum solo, após a extinção do Velvet Underground, repetida em Berlin, lançado no ano seguinte. Em Black Angel’s Death Song, Cale troca o piano pela viola. As canções a seguir são Wild Child, do primeiro, e a conhecida Heroine.

John Cale canta Ghost Story; e as próximas também: The Biggest, Loudest, Hairiest Group of All e Empty Bottles. Aí, é chegada a vez de Nico cantar a hoje clássica Femme Fatale.

Ouça.




Veja a apresentação em https://www.youtube.com/watch?v=TSYdH4vKd6M

Nico é especial mesmo. A combinação de seu harmônio, cujo som lembra o acordeão mas é algo como um órgão de pobre (o som é gerado pelo ar produzido por meios mecânicos), e a viola de Cale é muito interessante em No One Is There.

Ouça.




A parte final é de Nico: Frozen Warnings e Janitor of Lunacy. Em I’ll Be Your Mirror, Reed e Cale fazem os backings. Sua participação final é cantando outro clássico do Velvet Underground: All Tomorrow’s Parties. Completam o álbum Pale Blue Eyes e Candy Says. Não fazem parte do show. São gravações dos ensaios. É o que parece.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Jimmy Scott antes de ser ressuscitado

Scott, aos 84 anos, em Las Vegas, onde mora (ph: Jamie-James Medina)
As vozes da Sarah Vaughan madura, de Carmen McRae e de Cassandra Wilson são mais graves do que a de Little Jimmy Scott. “Little” porque nasceu com uma problema que comprometeu-lhe o crescimento. Não completando o ciclo da puberdade por conta da síndrome de Kallmann, deixou de crescer em altura. Tirou o “Little” do nome artístico, mas continuou pequeno e com voz de menino.

Em tempos imemoriais retiravam-se os testículos de meninos com boa voz para que não engrossassem. Era procedimento comum no Império Bizantino, em 400 AC. Os eunucos eram serviçais da corte, que se prestavam a trabalhos domésticos e um deles era o de cantar para os seus senhores.

Ao longo do tempo, essa tradição de se cortar os canais que vinham dos testículos não era considerado criminoso ou um absurdo. No Renascimento esses cantores ficaram conhecidos como “castrati”. Uma justificativa razoável para o que hoje consideramos uma aberração é a de que não se permitia que mulheres participassem de ritos religiosos, inclusive de coros. Eram eles quem faziam as vozes femininas.

Longe de ser considerado anormal, muitos dos castrati ficaram famosos e eram admirados pelo talento e por suas vozes. O mais famoso, ou o mais conhecido, foi Farinelli, que viveu no século XVIII. Virou até filme, dirigido por Gerard Corbiau. Essa prática passou a ser considerada ilegal apenas em 1870, na Itália. Em 1902, o papa Leão XIII proibiu terminantemente que os castrati participassem de coros de igrejas. Não faz tanto tempo.

Mesmo assim, sem serem castrados (nunca se sabe), apesar de raros, existem cantores com vozes mais agudas e que são classificados como contratenores ou contraltos masculinos, casos do célebre Alfred Deller e, atualmente, de Philippe Jaroussky. Na música popular intépretes como Edson Cordeiro, Ney Matogrosso e Ian Anderson possuem vozes que se aproximam dessa classificação. Um amigo garante que Michael Jackson era “castrati”. Coitado. Deixem-no em paz.

O pequeno Jimmy

Depois de ter caído no esquecimento, Jimmy “reapareceu” cantando no funeral de Doc Pomus, de quem era amigo. Quando Lou Reed gravou Magic and Loss (1992), em homenagem a Pomus, convidou-o para participar dos vocais em Power and Glory. O show do mesmo nome foi gravado e está disponível em DVD, se alguém tiver curiosidade.

O dono da Sire Records estava presente no funeral de Doc Pomus. Deu que convidou-o para gravar. Foi sua rentrée no business da música e em grande estilo. Seymour Stein arregimentou um grande produtor – Tommy Lipuma – e este colocou Jimmy ao lado de Kenny Barron, Ron Carter, David “Fathead” Newman e craques do arranjo como Johnny Mandel e John Clayton. All the Way é um grande disco e foi seu cartão de apresentação para muitos, inclusive para mim. Pela Sire ainda gravou Dream e Heaven. Depois de Holding Back the Years, pela Artists House, lançou vários pela Milestone Records. Não lança nada desde 2003, provavelmente, pela idade avançada. Os melhores são os primeiros. Algumas leituras de canções mais recentes como Heaven, dos Talking Heads, Holding Back the Years, de Mick Hucknall, Nothing Compares 2U, de Prince, Jealous Guy, de John Lennon, Almost Blue, de Elvis Costello, e Slave to Love, de Bryan Ferry, são geniais.

Ouça Nothing Compares 2U.




Ouça Heaven.




Ouça a belíssima Almost Blue, composição de Elvis Costello, em homenagem a Chet Baker.




Jimmy Scott viu sua carreira ir para o ralo, mais especificamente por culpa de Herman Lubinsky, conhecido por seus contratos “one-sided”, em que os músicos sempre saiam perdendo. Esse “aprisionamento” obrigou-o a gravar discos pavorosos, com arranjos orquestrais vagabundos ou cantando temas do ainda incipiente rock’n’roll, que não eram bem sua especialidade. Vagou por aí cantando em clubes e acabou voltando para Cleveland, trabalhou em hospitais e até em um hotel como ascensorista. Que vida, não?

A carreira artística de Scott começou de maneira curiosa. Participou de um tour com a contorcionista Estela “Caledonia” Young. Achavam que era uma criança, mas quando começava a cantar, a audiência ficava selvagem. Segundo Jimmy McDonough, autor das liner notes do álbum All the Way, “as mulheres desmaiavam e queriam aconchegá-lo; os homens choravam. E os outsiders adoravam Jimmy Scott: cafetões e prostitutas iam atrás de onde se apresentava, jogando-lhe moedas de prata.”
Scott ficou conhecido em 1948, quando entrou na banda de Lionel Hampton. O produtor Quincy Jones, na época, era um dos membros tocando trompete disse que ele “cantava como um trompete – ele cantava com o conceito melódico de um instrumento. É muito emocional, um estilo profundo. Jimmy costumava fazer meu coração sangrar todas as noites.” Desde o tempo em que atraía cafetões e prostitutas em pequenos clubes, Jimmy mostrava-se o mestre das canções de amores perdidos ou não correspondidos. Nunca deixou de ser assim. Quando voltou aos palcos, a voz de criança era a mesma com pitadas de dores a mais.

Há alguns anos, foi lançado The Essential Jimmy Scott. São interpretações antigas, algumas pavorosas por culpa dos arranjos e problemas técnicos, mas a voz de Jimmy já era grande, um pouco mais infantil, se isso é possível,  e às vezes, um tanto over.

Ouça  duas músicas menos óbvias do cancioneiro americano.

Please Be Kind.




Laughing on the Outside.