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| O jovem Larry Coryell |
Pelas notícias, matérias e obituários, Larry será lembrado como um dos pioneiros do jazz progressivo, por meio de sua música na banda Eleventh House. Confesso nunca ter gostado dele nessa fase. Comprei o primeiro – “Introducing The Eleventh House” (Vanguard, 1974) –, e não gostei. Não me agradou o som de sua guitarra elétrica e nem o som da banda.
O interesse foi por ter gostado bastante de “Spaces”, lançado em 1970. Contava com John McLaughlin, Chick Corea, Miroslav Vitous e Billy Cobham. Cada um deles eram ou seriam depois parte de bandas importantes do jazz elétrico. McLaughlin tinha gravado o espetacular “Extrapolation”, participara da banda de Tony Williams e de Miles Davis, e estava montando a Mahavishnu Orchestra, Corea, depois de um auspicioso início acústico, tocava com Miles e gestava a Return to Forever, Vitous era um dos fundadores do Weather Report, e Cobham foi o baterista da banda criada por McLaughlin. Era um grupo estelar, deveras.
Ouça “Spaces (Infinity)”, a primeira faixa. Tudo é genial a partir da abertura do contrabaixo de Vitous no arco, as notas acordes esparsos de McLaughlin para os solos de Coryell.
The Eleventh House, diferentemente, ao contar com Randy Brecker, Mike Mandel, Danny Triffan e Alphonso Mouzon, sinalizava para o brilho único de Larry. Não deu muito certo. Nem chegava aos pés do Return to Forever, Weather Report e Mahavishnu Orchestra.
“The Restful Mind”, na minha opinião, é o melhor disco de Coryell. São possíveis duas conclusões: sua melhor sonoridade é com o violão, e não com a guitarra elétrica; a outra é a de que abre-se aqui um veio para o seu trabalho posterior, que é a releitura de compositores da música erudita. Em várias faixas, Larry toca composições de Robert De Visée. Pode-se terceira uma terceira conclusão, no entanto, está evidente em “Spaces”: ele brilha quando acompanhado de bons músicos. É o que acontece com o LP que saiu em 1974. Os músicos são Ralph Towner, Colin Walcott e Glen Moore. Na verdade, até por serem contratados da mesma gravadora, a Vanguard, esse disco é praticamente o Oregon, sem Paul McCandless, com Larry. O som, evidentemente, remete à banda de Towner, mas os dois violões funcionam em perfeita harmonia.
Ouça “Robert de Visée’s Menuet II”. A guitarra de Coryell, o violão de Ralph Towner, a tabla de Collin Walcott e a marcação do contrabaixo de Glen Moore, tudo é perfeito.
Em dupla é melhor
Posso estar enganado, pois sua discografia é muito grande, mas o primeiro disco que Coryell lançou tocando com outro guitarrista é “Two for the Road”, com Steve Khan. Se for, é uma brilhante primeira vez com outro guitarrista/violonista.
Deixando de lado a preocupação cronológica, Larry gravou vários álbuns em dupla ou em trio com outros guitarristas: Philip Catherine, Emily Remler, Joe Beck, John McLaughlin, Paco De Lucia, John Abercrombie, John Scofield, Kazuhito Yamashita, Badi Assad, dentre outros. Aparentemente, quando tem concorrência, toca melhor.
Um dos melhores shows da primeira versão do Free Jazz Festival, foi a apresentação de Larry Coryell, em dupla com o belga Philip Catherine. Acho que foi em 1978 ou 1979. O repertório era do recém lançado “Twin-House”. Foi uma bela surpresa para os brasileiros, um tanto por fora da cena mundial do jazz. Foi tanta que originou o surgimento do Grupo D’Alma, um trio de violonistas que fez bastante sucesso. De repente, todo violonista queria ter um Ovation, que era a marca que ambos usaram nas apresentações. Na minha escala Richter, esse álbum fica em terceiro lugar.
Ouça “Home Comings”, composição de Philip Catherine.
Depois de “Twin-House”, os dois lançaram “Splendid”, nem tão bom quanto o primeiro, apesar da sugestão do título. Ainda no formato duo, Larry gravou dois bons álbuns com a boa guitarrista Emily Remler que, infelizmente, morreu cedo. Sobre ela, leia: Por que pouco se falou de Emily Remler?.
Os encontros de violonistas renderam um bocado, assim como os dos tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Placido Domingo. Em formações que variaram, Larry tocou com o espanhol Paco Di Lucia, Al DiMeola e John McLaughlin. Prevaleceu essa formação, mas ele chegou a participar de algumas apresentações, se não me engano, no lugar de DiMeola.
Veja Coryell com McLaughlin e De Lucia em “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá.
Releitura de clássicos
A música erudita estava presente no repertório desde “The Restful Mind”, com temas de Robert De Visée e Maurice Ravel (tinha esquecido dele na primeira parte), com uma estupenda interpretação da “Pavane pour une enfant defunte”. Posteriormente, foram agregadas outras obras de Ravel, como o “Bolero”, Vivaldi, Stravinsky, Manuel De Falla, Pablo de Sarasate, George Gershwin e Rimsky Korsakov.
Em “The Four Seasons” (1984), com o violonista clássico Kazuhito Yamashita, Coryell é o perfeito parceiro que une o erudito e o popular na adaptação da obra de Antonio Vivaldi. Esse está entre os meus cinco preferidos do americano há pouco falecido.
Veja Yamashita e Coryell tocando Vivaldi.
Os outros que conheço, que seguem a vertente erudita são: “Boléro” (Ravel, De Falla e Sarasate), “Scheherazade” (Rimsky-Korsakov), “L’Oiseaux de feu”/“Petrouchka” (Stravinsky) e “Visions in Blue” (Ravel e Gershwin), mas nenhum é tão bom quanto ‘As Quatro Estações”.
