Mostrando postagens com marcador Jimmy Scott. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jimmy Scott. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O sobrevivente Ed Reed

Se você não conhece Ed Reed, a culpa não é sua. É dele. O cara tem 82 anos e você nem tem ideia de quem é ele é? E não é o Ed Reed jogador de futebol americano.

Na maior parte de sua vida, Ed esteve fora deste mundo; ou porque estava doidão, entupido de heroína, anfetaminas e cocaína, ou porque estava na prisão de San Quentin, junto com criminosos da pesada. Saiu da cadeia em 1966. Tímido, custou-lhe adaptar-se à nova vida, e voltou às drogas. O mais previsível teria sido o de tornar-se um indigente doidão. Mas o cara era forte e com alguma mão das circunstâncias e acasos, conseguiu um lugar ao sol. Em 2007, lançou seu primeiro álbum: Ed Reed Sings Love Stories. Estava com 76 anos.

Depois de sair da cadeia, casou com Diane, que quando o conheceu, nem sabia que cantava. É possível que tenha desenvolvido a técnica do canto quando encontrava-se preso. Meu amigo Zeca Leal gostava de dizer que a melhor banda de jazz estava em San Quentin e em outros presídios. Pense em uma reunindo Joe Pass, Hampton Hawes, Dexter Gordon, Art Pepper, Frank Morgan e Wardell Gray. Todos esses, depois de soltos, conseguiram retomar suas carreiras. Diferentemente desses, Ed não era profissional antes de ser preso, daí, talvez, a razão de só ter entrado no negócio da música há pouco tempo.

O público e a crítica adoram esses “retornos” ou descobertas tardias como a de Alberta Hunter e de Jimmy Scott. A primeira afastou-se da música para cuidar da mãe e, posteriormente, trabalhou como enfermeira. Em 1978fora convidada para fazer algumas apresentações no The Cookery, em Nova York. Chamou a atenção do produtor John Hammond, da Columbia Records, e gravou Remember My Name. Tinha mais de 80 anos. Fez um sucesso tremendo. Apresentou-se até em São Paulo. Jimmy Scott (leia: http://bit.ly/1wwPzlT) ficou fora do mercado em razão de alguns passos errados na carreira e chegou a trabalhar de ascensorista. Voltou em grande estilo em 1978 e retomou a carreira com sucesso.

Não foi diferente com Ed Reed. A crítica, se não coloca nos píncaros, recebeu-o com entusiasmo e tem elogiado seus discos, talvez com a benevolência que devotam aos “sobreviventes”, como foi dito no parágrafo anterior. Assim mesmo, Reed é uma revelação, quem sabe, até para ele, que nunca teria imaginado que pudesse ficar conhecido tão tardiamente. É um quase milagre.

O álbum mais recente de Ed Reed chama-se I’m a Shy Guy – A Tribute to Nat King Cole. A fórmula dos tributos é meio caminho andado para o sucesso. Com uma pequena e competente banda formada por Randy Foster (piano), Jamie Fox (guitarra), John Wiitala (baixo) e Anton Schwarz (saxofone tenor) traz alguma novidade. O repertório não cai naquele lugar comum, mesmo ao incluir canções célebres e quase indissociáveis à voz de Nat, como Unforgettable, Straighten Up and Fly Right e It’s Only a Papermoon. Alguns destaques são as menos conhecidas That’s the Beginning of the End e I’m Lost.

Ouça That’s the Beginning of the End, com o acompanhamento ao piano de Randy Potter.



Ed é um “rising star”, sendo um octogenário. Nem parece ter a idade que tem. É um fenômeno por revelar-se tão tardiamente e também um fenômeno da ciência. Há de considerar-se que esses casos de longevidade apesar dos abusos químicos, não apenas com a drogas ilícitas, mas também com o álcool e o cigarro, são raros, no entanto, mais frequentes do que se imagina. Que Ed continue a entoar sua bela voz até os 100 anos. É a prova de que nunca é tarde para se revelar, e que este seja um exemplo para todos.

Assista ao vídeo promocional de I’m a Shy Guy.


Ed Reed canta Inside a Silent Tear.


Veja Ed em Old Man.


Ed canta Bye Bye Blackbird.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Jimmy Scott antes de ser ressuscitado

Scott, aos 84 anos, em Las Vegas, onde mora (ph: Jamie-James Medina)
As vozes da Sarah Vaughan madura, de Carmen McRae e de Cassandra Wilson são mais graves do que a de Little Jimmy Scott. “Little” porque nasceu com uma problema que comprometeu-lhe o crescimento. Não completando o ciclo da puberdade por conta da síndrome de Kallmann, deixou de crescer em altura. Tirou o “Little” do nome artístico, mas continuou pequeno e com voz de menino.

Em tempos imemoriais retiravam-se os testículos de meninos com boa voz para que não engrossassem. Era procedimento comum no Império Bizantino, em 400 AC. Os eunucos eram serviçais da corte, que se prestavam a trabalhos domésticos e um deles era o de cantar para os seus senhores.

Ao longo do tempo, essa tradição de se cortar os canais que vinham dos testículos não era considerado criminoso ou um absurdo. No Renascimento esses cantores ficaram conhecidos como “castrati”. Uma justificativa razoável para o que hoje consideramos uma aberração é a de que não se permitia que mulheres participassem de ritos religiosos, inclusive de coros. Eram eles quem faziam as vozes femininas.

Longe de ser considerado anormal, muitos dos castrati ficaram famosos e eram admirados pelo talento e por suas vozes. O mais famoso, ou o mais conhecido, foi Farinelli, que viveu no século XVIII. Virou até filme, dirigido por Gerard Corbiau. Essa prática passou a ser considerada ilegal apenas em 1870, na Itália. Em 1902, o papa Leão XIII proibiu terminantemente que os castrati participassem de coros de igrejas. Não faz tanto tempo.

Mesmo assim, sem serem castrados (nunca se sabe), apesar de raros, existem cantores com vozes mais agudas e que são classificados como contratenores ou contraltos masculinos, casos do célebre Alfred Deller e, atualmente, de Philippe Jaroussky. Na música popular intépretes como Edson Cordeiro, Ney Matogrosso e Ian Anderson possuem vozes que se aproximam dessa classificação. Um amigo garante que Michael Jackson era “castrati”. Coitado. Deixem-no em paz.

O pequeno Jimmy

Depois de ter caído no esquecimento, Jimmy “reapareceu” cantando no funeral de Doc Pomus, de quem era amigo. Quando Lou Reed gravou Magic and Loss (1992), em homenagem a Pomus, convidou-o para participar dos vocais em Power and Glory. O show do mesmo nome foi gravado e está disponível em DVD, se alguém tiver curiosidade.

O dono da Sire Records estava presente no funeral de Doc Pomus. Deu que convidou-o para gravar. Foi sua rentrée no business da música e em grande estilo. Seymour Stein arregimentou um grande produtor – Tommy Lipuma – e este colocou Jimmy ao lado de Kenny Barron, Ron Carter, David “Fathead” Newman e craques do arranjo como Johnny Mandel e John Clayton. All the Way é um grande disco e foi seu cartão de apresentação para muitos, inclusive para mim. Pela Sire ainda gravou Dream e Heaven. Depois de Holding Back the Years, pela Artists House, lançou vários pela Milestone Records. Não lança nada desde 2003, provavelmente, pela idade avançada. Os melhores são os primeiros. Algumas leituras de canções mais recentes como Heaven, dos Talking Heads, Holding Back the Years, de Mick Hucknall, Nothing Compares 2U, de Prince, Jealous Guy, de John Lennon, Almost Blue, de Elvis Costello, e Slave to Love, de Bryan Ferry, são geniais.

Ouça Nothing Compares 2U.




Ouça Heaven.




Ouça a belíssima Almost Blue, composição de Elvis Costello, em homenagem a Chet Baker.




Jimmy Scott viu sua carreira ir para o ralo, mais especificamente por culpa de Herman Lubinsky, conhecido por seus contratos “one-sided”, em que os músicos sempre saiam perdendo. Esse “aprisionamento” obrigou-o a gravar discos pavorosos, com arranjos orquestrais vagabundos ou cantando temas do ainda incipiente rock’n’roll, que não eram bem sua especialidade. Vagou por aí cantando em clubes e acabou voltando para Cleveland, trabalhou em hospitais e até em um hotel como ascensorista. Que vida, não?

A carreira artística de Scott começou de maneira curiosa. Participou de um tour com a contorcionista Estela “Caledonia” Young. Achavam que era uma criança, mas quando começava a cantar, a audiência ficava selvagem. Segundo Jimmy McDonough, autor das liner notes do álbum All the Way, “as mulheres desmaiavam e queriam aconchegá-lo; os homens choravam. E os outsiders adoravam Jimmy Scott: cafetões e prostitutas iam atrás de onde se apresentava, jogando-lhe moedas de prata.”
Scott ficou conhecido em 1948, quando entrou na banda de Lionel Hampton. O produtor Quincy Jones, na época, era um dos membros tocando trompete disse que ele “cantava como um trompete – ele cantava com o conceito melódico de um instrumento. É muito emocional, um estilo profundo. Jimmy costumava fazer meu coração sangrar todas as noites.” Desde o tempo em que atraía cafetões e prostitutas em pequenos clubes, Jimmy mostrava-se o mestre das canções de amores perdidos ou não correspondidos. Nunca deixou de ser assim. Quando voltou aos palcos, a voz de criança era a mesma com pitadas de dores a mais.

Há alguns anos, foi lançado The Essential Jimmy Scott. São interpretações antigas, algumas pavorosas por culpa dos arranjos e problemas técnicos, mas a voz de Jimmy já era grande, um pouco mais infantil, se isso é possível,  e às vezes, um tanto over.

Ouça  duas músicas menos óbvias do cancioneiro americano.

Please Be Kind.




Laughing on the Outside.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Jimmy Scott ou Um lugar chamado “Heaven”

O grande “Little” Jimmy Scott
Tanto tempo depois, ouvir Talking Heads continua sendo um prazer. Uma música, em especial, mereceu algumas interpretações memoráveis: Heaven. Mereceu uma gravação matadora no primeiro álbum do Simply Red, quando Mick Hucknall ainda não havia sucumbido à fama e às farras. Picture Book (1985) revelou um cantor de voz de registro agudo, muito especial. Coincidentemente, outro intérprete de voz de contralto gravou Heaven. Menos conhecido, chama-se Jimmy Scott. Este merece alguns parágrafos.

Scott nasceu com Síndrome de Kallmann, que é um mal que compromete o crescimento. Essas pessoas não completam o ciclo da puberdade. Cresceu pouco e manteve a voz de menino, algo parecido com que que ocorria com os castratti. Na Renascença, retirar o saco escrotal de meninos para que não atingissem a puberdade e mantivessem a voz aguda, era um procedimento usual no meio musical. Existem hoje, alguns cantores com esse registro especial, os chamados contraltos masculinos ou contratenores, mas não necessariamente, têm essa síndrome ou tiveram de passar por esse cruel procedimento. O cantor mais conhecido da atualidade é Philippe Jaroussky. Antes dele, o grande nome foi o inglês Alfred Deller. Para que se entenda melhor, os brasileiros Ney Matogrosso e Edson Cordeiro podem se encaixar nessa classificação.

Jimmy Scott foi descoberto e tornou-se cantor da banda de Lionel Hampton em 1948. Logo mais, partiria para a carreira solo gravando no selo Roost. Como muitos gênios musicais, foi frequentemente enganado quando o assunto era dinheiro. Foi passando de gravadora em gravadora, primeiro indo para a Savoy, e depois para a King Records e depois voltando para a anterior. Gravou discos que não estavam à altura de seu talento. A carreira entrou em declínio e passou a se apresentar em qualquer espelunca que o convidasse. Um dos maiores responsáveis por isso foi Herman Lubinsky, dono da gravadora Savoy, que o deixou “preso” sob contrato.

Um cantor que um dia foi elogiado por ninguém menos que Ray Charles (Jimmy já era “soul” quando as pessoas não costumavam usar essa palavra), ficou à deriva, esquecido. Quem, de certo modo, o resgatou foi Doc Pomus. Lou Reed fez um disco e um show em homenagem a Pomus após a morte deste e convidou Jimmy para fazer os backing vocals em Magic and Loss, em 1992. Há um registro desse show em vídeo.

Ouça Lou Reed e Jimmy Scott em Satellite of Love. A segunda voz é de Jimmy.




No mesmo ano Scott voltou a gravar um disco à altura de seu talento: All the Way. Foi uma volta gloriosa. Tendo Kenny Barron, Ron Carter, Grady Tate, John Pisano e David “Fathead” Newman, com arranjos orquestrais de Johnny Mandel, Dale Oehler e John Clayton, Scott canta standards consagrados como All the Way, Embraceable You, Everytime We Say Goodbye e I’ll Be Around, dentre outros, é obra-prima. Se você não tem esse disco, corra e compre no site da Amazon.

Como no caso de Alberta Hunter, Jimmy foi redescoberto. Gravou vários outros discos pela Sire Records, e depois, pela Milestone. Faz um tempo que não se tem notícia de algum novo disco. Mas Jimmy está vivo; nasceu em 1925, ano em que nasceu o meu pai.


A letra de Heaven
O bar, que se chama Heaven, ou o céu é um lugar onde nada acontece? Tire suas conclusões.

Everyone is trying to get to the bar/ The name of the bar, the bar is called Heaven/ The band in Heaven plays my favorite song/ They play it once again, they play it all night long// Heaven, Heaven is a place/ A place where nothing/ Nothing ever happens/ Heaven, Heaven is a place/ A place where nothing/ Nothing ever happens// There is a party, everyone is there/ Everyone will leave at exactly the same time/ Its hard to imagine that nothing at all/ Could be so exciting, could be so much fun.


Veja Heaven na interpretação de Byrne no show Stop Making Sense, dirigido por Jonathan Demme. Tina Weymouth é a baixista.




Veja Mick Hucknall cantando Heaven. Maravilhoso. O cara já foi bom!




Ouça com Jimmy Scott. Esta gravação está no disco do mesmo nome. É acompanhado por Jacky Terrasson. A gravação é de 1996.