sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Uma “palhinha” de Damon Albarn

O Blur é um das melhores bandas do chamado britpop. A concorrência não era pequena: no início dos anos 1990 surgiram Suede – que explodiu e implodiu logo –, Pulp, Inspiral Carpets, Manic Street Preachers e o Oasis, seus maiores “rivais” à época. O Oasis manteve a bola no alto até há pouco tempo, apesar das brigas constantes dos irmãos Gallagher. O Blur “acabou” em 2002 e teve um breve retorno em 2009 e se apresentou no Hyde Park, Londres, e no Festival de Glanstonbury.

Damon Albarn, o cantor, participou de projetos paralelos e tem desvelado seu imenso talento e versatilidade. Criou uma banda “virtual”, o Gorillaz, e montou um “supergrupo” com o ex-Clash,  Paul Simonon, Simon Tong e Tony Allen, chamado The Good, The Bad and The Ugly. O único CD lançado é espetacular. Os DVDs do Gorillaz é um ítem à parte. O mais recente lançamento em CD, Plastic Beach, é muito bom.

Os discos lançados do Blur continuam contemporâneos. Vale ouvir ainda.
Vamos ouvir To the End, do álbum Parklife (1994):

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Pedras no caminho

O assunto dos últimos dias é a possível morte de Sakineh Ashtani a pedradas. Velhos códigos muçulmanos em desuso vigoram ainda no Irã. É claro que ninguém deseja a volta dos herdeiros de Reza Pahlevi, mas, reconheçamos, não dá para se ter fé – muçulmana até – em Ahmadinejad. Basta olhar para aquela figura: repugna. Está estampada em sua cara o bronco que, realmente, deve ser. Qual o interesse do governante Lula? Amigos? É o que nosso presidente barbudo afirma ser.

Em “As pedras no caminho de Lula”, de autoria de Ruth de Aquino (http://bit.ly/cPn00I), diretora da sucursal de Época, no Rio de Janeiro, afirma: “É indesculpável, abjeta e vergonhosa a amizade com um louco como o presidente iraniano. Não existe pragmatismo que justifique os risos, abraços, piadas, fotos com a bandeira do Brasil ao fundo e o aval brasileiro à política nuclear de Ahmadinejad. Por que Lula teria ficado surpreso com a condenação à morte de Sakineh? Alguém que nega um fato histórico como o Holocausto merece confiança?” Bem, algo se explica quando constatamos que outros ditadores são seus amigos: Hugo Chávez e Fidel Castro. Um parêntesis: um amigo achou o artigo de Ruth Aquino, tendencioso demais. Sim, é tendencioso, mas não contém inverdades. Uma das coisas a que esse amigo se referiu foi sobre a exploração d’ “a inexistência do Holocausto, na visão de Ahmadinejad”. O pensador americano (e judeu, suponho) Christopher Lasch, em O Mínimo Eu (Ed. Brasiliense, 1986) afirma que os judeus se apropriaram da palavra “Holocausto” para nomear o que aconteceu com eles no período da Segunda Guerra Mundial. Com isso, por exemplo, o genocídio dos armênios pelos turcos não é considerado “holocausto”, apesar de um milhão e meio de pessoas terem morrido. A diferença era de que os armênios não eram o “povo eleito”. Independentemente da sobrevalorização – ou da capitalização em causa própria que fizeram da palavra –, é impossível negar um fato como o presidente iraniano faz.

O que será dito a seguir tem a ver com o que Ferreira Gullar disse outro dia: “o que a calça tem a ver com a cadeira?” Ou, como diria o jornalista e apresentador de Globo Rural, José Hamilton Ribeiro: “mas o que tem a ver o cós com a calça?’ O presidente do Brasil, certamente, usaria de outros termos. O significado, no entanto, não seria tão diferente. Vamos então ao “cós”… ou à “cadeira”.

Num programa de muito sucesso na década de 1960/70 – Essa Noite Se Improvisa –, na antiga TV Record, a frase chave era “A palavra é…” Explico, pois há muita gente bem jovem que nunca soube da existência dele. Seu apresentador falava alguma palavra e seus participantes teriam de cantar alguma música que a contivesse. Os participantes tinham de bater num sinete, daqueles que, antigamente, existiam em repartições públicas. Se cantasse um trecho de música que possuía a palavra, ganhava pontos. Era como um campeonato de “sabe mais”: em cada fim de mês tinha um vencedor. Caetano Veloso e Chico Buarque eram os campeões: acertavam tudo. Conheciam músicas demais e quando não sabiam, inventavam.

Pois então, por razões do “subconsciente”, lendo a matéria, lembrei-me de Atiraste Uma Pedra, de Herivelto Martins.  Um explicação: na execução das mulheres adúlteras, cabe ao juiz atirar a primeira pedra, que segundo a legislação local, deve ter o tamanho aproximado de uma mexerica. Logo depois veio à lembrança o poema No Meio do Caminho, de Carlos Drummond de Andrade. Mais: quando li “As pedras no caminho de Lula”, por desatenção, li “pedras no caminho da lua”. Lembrei então das pedras trazidas pela expedição da Apollo XI, em 1969, a primeira que chegou à Lua. Uma última, antes do “joga pedra na Geni”, uma linda canção soou no meu cérebro: Ao Que Vai Nascer (Clube da Esquina, 1972), de Milton Nascimento e Fernando Brant.

A letra está cá abaixo. E as músicas de Herivelto (com Caetano, Gil, Gal e Bethânia)  e a de Milton, também:

Ao que vai nascer

Memória de tanta espera/ Teu corpo crescendo, salta do chão/ E eu já vejo meu corpo descer/Um dia te encontro no meio/ Da sala ou da rua/ Não sei o que vou contar// Respostas virão do tempo/ Um rosto claro e sereno me diz/ E eu caminho com pedras na mão/ Na franja dos dias esqueço o que é velho/ O que é manco/ E é como te encontrar/ Corro a te encontrar//  Um espelho feria meu olho e na beira da tarde
Uma moça me vê/ Queria falar de uma terra com praias no norte/ E vinhos no sul/ A praia era suja e o vinho vermelho/ Vermelho, secou/ Acabo a festa, guardo a voz e o violão/ Ou saio por aí// Raspando as cores que o mofo aparecer/ Responde por mim o corpo/ De rugas que um dia a dor indicou/ E eu caminho com pedras na mão/ Na franja dos dias esqueço o que é velho/ O que é manco/ E é como te encontrar/ Corro a te encontrar.

Atiraste Uma Pedra:



Ao Que Vai Nascer:



Assinem a petição pela liberdade de Sakineh em http://www.liberdadeparasakineh.com.br/

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

“Pouco faladas”: Lorez Alexandria

O nome soa bem e diferente. Seu nome real é o mesmo de uma bela composição de Wayne Shorter. Lorez Alexandria, née Dolores Alexandria Turner, nasceu em 1929 e faleceu em 2001. É pouco conhecida e lançou pouquíssimos discos e, talvez o mais conhecido seja Alexandria The Great, lançado por uma gravadora maior, a Impulse, em 1964.

Como muitos intérpretes negros que se tornaram conhecidos, começou cantando em igrejas, desde pequena. Alexandria The Great foi produzido por Bob Thiele e teve como acompanhantes músicos do quilate de Wynton Kelly, Jimmy Cobb, Paul Chambers – sidemen de Miles Davis –, o flautista Paul Horn, o guitarrista Ray Crawford, o flautista e saxofonista Bud Shank, e Walter Feldman no piano e no vibrafone. Muito bem acompanhada, com certeza. Na época, recebeu quatro estrelas e meia pela revista especializada de jazz Downbeat. Vale conhecê-la. Tinha uma voz única. Ouçam I’m Through with Love, de Maty Malneck, Gus Kahn e Fred Livingstone:



segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Não confie em ninguém com mais de 30 anos

Marcos Valle, muito depois dos 30 anos
O compositor Marcos Valle atravessou por vários movimentos musicais e continua na ativa, apresentando-se em palcos brasileiros e estrangeiros. Daqui a três anos estará com 70 anos e não perdeu o bonde do tempo e da história. Se tivessem levado ao pé da letra o que ele cantou na música Com Mais de Trinta, em fins da década de 1960, tinha virado pó.

E daí que, apesar das rugas resultantes de muito sol que tomou praticando o surf, mantém um ar jovial de garotão. Há poucos anos, em 2005, lançou pelo selo Dubas, um belo CD, o Jet Samba, e demonstra que mantém a criatividade e continua a produzir uma música atual. Na era bossa nova produziu compôs clássicos que são gravados até hoje por intérpretes de renome, caso de Samba de Verão (So Nice) e Eu Preciso Aprender a Ser Só. Na fase “engajada” – é, era feio ser alienado no meio da década de 1960 – compôs a bela Viola Enluarada, cantada por Milton Nascimento e Beth Carvalho, se a memória não me falha.

A fase mais popular – e pop – de Marcos é a do início dos 1970. Compôs temas para novelas da TV Globo e ganhou as paradas com Mustang Cor de Sangue, Com Mais de Trinta, e Black Is Beautiful, com letras de seu parceiro habitual, o irmão Paulo Sérgio Valle, como ele, boa pinta, os dois jeitão de garotões de praia. Combinavam bem com o Mustang.

O país se cansou um pouco de “azimutes’, Lincoln Olivetti etc, e quase não se ouvia mais falar dele. Mas como o mundo gira – segundo a transportadora Lusitana –, a música de Valle ficou circulando po aí nas vozes das canadenses Patricia Barber e Diana Krall, Astrudo e Bebel Gilberto e outros menos cotados. Em 2002, a apresentação com o violonista argentino-brasileiro Victor Biglione virou um CD lançado pela Rob Digital, o Live in Montreal. E foi, aos poucos, voltando à mídia. Ele merece.

Dias atrás, estava ouvindo uma das muitas cantoras que tem surgido nos últimos anos. Algumas coisas nela chamaram a atenção, pelo menos para mim. Uma é a de que o CD tinha sido produzido por Bid, autor do excepcional Bambas & Biritas vol. 1, e a outra – essa é bem pessoal, fez FAU-USP. O nome da bela morena de voz, igualmente, é Verônica Ferriani. Uma das que canta é Com Mais de Trinta, de Paulo Sérgio e Marcos Valle. Disponibilizei-a para quem não a conhece e para os mais velhos que, com certeza, a ouviram.
Verônica Ferriani. Será que tem mais de trinta?

A letra:
Não confie em ninguém com mais de trinta anos/ Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros/ O professor tem mais de trinta conselhos/ Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta/ Oh mais de trinta/ Não confie em ninguém com mais de trinta ternos/ Não acredite em ninguém com mais de trinta vestidos/ O diretor quer mais de trinta minutos
Pra dirigir sua vida, a sua vida/ A sua vida/ Eu meço a vida nas coisas que eu faço/ E nas coisas que eu sonho e não faço/ Eu me desloco no tempo e no espaço/ Passo a passo, faço mais um traço/ Faço mais um passo, traço a traço/ Sou prisioneiro do ar poluído/ O artigo trinta eu conheço de ouvido/ Eu me desloco no tempo e no espaço/ Na fumaça um mundo novo faço/ Faço um novo mundo na fumaça/ Não confie em ninguém...

Ouça Com Mais de Trinta, com Verônica Ferriani: