O assunto dos últimos dias é a possível morte de Sakineh Ashtani a pedradas. Velhos códigos muçulmanos em desuso vigoram ainda no Irã. É claro que ninguém deseja a volta dos herdeiros de Reza Pahlevi, mas, reconheçamos, não dá para se ter fé – muçulmana até – em Ahmadinejad. Basta olhar para aquela figura: repugna. Está estampada em sua cara o bronco que, realmente, deve ser. Qual o interesse do governante Lula? Amigos? É o que nosso presidente barbudo afirma ser.
Em “As pedras no caminho de Lula”, de autoria de Ruth de Aquino (
http://bit.ly/cPn00I), diretora da sucursal de
Época, no Rio de Janeiro, afirma: “É indesculpável, abjeta e vergonhosa a amizade com um louco como o presidente iraniano. Não existe pragmatismo que justifique os risos, abraços, piadas, fotos com a bandeira do Brasil ao fundo e o aval brasileiro à política nuclear de Ahmadinejad. Por que Lula teria ficado surpreso com a condenação à morte de Sakineh? Alguém que nega um fato histórico como o Holocausto merece confiança?” Bem, algo se explica quando constatamos que outros ditadores são seus amigos: Hugo Chávez e Fidel Castro. Um parêntesis: um amigo achou o artigo de Ruth Aquino, tendencioso demais. Sim, é tendencioso, mas não contém inverdades. Uma das coisas a que esse amigo se referiu foi sobre a exploração d’ “a inexistência do Holocausto, na visão de Ahmadinejad”. O pensador americano (e judeu, suponho) Christopher Lasch, em
O Mínimo Eu (Ed. Brasiliense, 1986) afirma que os judeus se apropriaram da palavra “Holocausto” para nomear o que aconteceu com eles no período da Segunda Guerra Mundial. Com isso, por exemplo, o genocídio dos armênios pelos turcos não é considerado “holocausto”, apesar de um milhão e meio de pessoas terem morrido. A diferença era de que os armênios não eram o “povo eleito”. Independentemente da sobrevalorização – ou da capitalização em causa própria que fizeram da palavra –, é impossível negar um fato como o presidente iraniano faz.
O que será dito a seguir tem a ver com o que Ferreira Gullar disse outro dia: “o que a calça tem a ver com a cadeira?” Ou, como diria o jornalista e apresentador de
Globo Rural, José Hamilton Ribeiro: “mas o que tem a ver o cós com a calça?’ O presidente do Brasil, certamente, usaria de outros termos. O significado, no entanto, não seria tão diferente. Vamos então ao “cós”… ou à “cadeira”.
Num programa de muito sucesso na década de 1960/70 – Essa Noite Se Improvisa –, na antiga TV Record, a frase chave era “A palavra é…” Explico, pois há muita gente bem jovem que nunca soube da existência dele. Seu apresentador falava alguma palavra e seus participantes teriam de cantar alguma música que a contivesse. Os participantes tinham de bater num sinete, daqueles que, antigamente, existiam em repartições públicas. Se cantasse um trecho de música que possuía a palavra, ganhava pontos. Era como um campeonato de “sabe mais”: em cada fim de mês tinha um vencedor. Caetano Veloso e Chico Buarque eram os campeões: acertavam tudo. Conheciam músicas demais e quando não sabiam, inventavam.
Pois então, por razões do “subconsciente”, lendo a matéria, lembrei-me de Atiraste Uma Pedra, de Herivelto Martins. Um explicação: na execução das mulheres adúlteras, cabe ao juiz atirar a primeira pedra, que segundo a legislação local, deve ter o tamanho aproximado de uma mexerica. Logo depois veio à lembrança o poema No Meio do Caminho, de Carlos Drummond de Andrade. Mais: quando li “As pedras no caminho de Lula”, por desatenção, li “pedras no caminho da lua”. Lembrei então das pedras trazidas pela expedição da Apollo XI, em 1969, a primeira que chegou à Lua. Uma última, antes do “joga pedra na Geni”, uma linda canção soou no meu cérebro: Ao Que Vai Nascer (Clube da Esquina, 1972), de Milton Nascimento e Fernando Brant.
A letra está cá abaixo. E as músicas de Herivelto (com Caetano, Gil, Gal e Bethânia) e a de Milton, também:
Ao que vai nascer
Memória de tanta espera/ Teu corpo crescendo, salta do chão/ E eu já vejo meu corpo descer/Um dia te encontro no meio/ Da sala ou da rua/ Não sei o que vou contar// Respostas virão do tempo/ Um rosto claro e sereno me diz/ E eu caminho com pedras na mão/ Na franja dos dias esqueço o que é velho/ O que é manco/ E é como te encontrar/ Corro a te encontrar// Um espelho feria meu olho e na beira da tarde
Uma moça me vê/ Queria falar de uma terra com praias no norte/ E vinhos no sul/ A praia era suja e o vinho vermelho/ Vermelho, secou/ Acabo a festa, guardo a voz e o violão/ Ou saio por aí// Raspando as cores que o mofo aparecer/ Responde por mim o corpo/ De rugas que um dia a dor indicou/ E eu caminho com pedras na mão/ Na franja dos dias esqueço o que é velho/ O que é manco/ E é como te encontrar/ Corro a te encontrar.