sexta-feira, 29 de outubro de 2010

34ª Mostra de Cinema: Abel, de Diego Luna, e Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

Abel (2010)
Um filme de Diego Luna

Cecilia (Karina Gidi) tem o nariz um pouco menor que o da espanhola Rossy de Palma, presença frequente dos filmes de Amodovar. Anselmo (José María Yazpik), o marido “sumido” é quase ou tão narigudo quanto. Não falta nele um bigodão, daqueles de fazer inveja ao que o jogador brasileiro Rivelino usava quando foi campeão mundial em 1970, no México.

Têm três filhos. Um deles, Abel, sofre de alguma anomalia psicológica, mas mesmo assim, a mãe resolve tirá-lo da clínica e deixá-lo em casa enquanto não resolve se o interna definitivamente num lugar especializado em cuidar de crianças com problemas mentais, na Cidade do México. Nos primeiros dias, o menino não dorme e permanece mudo. Quando resolve falar passa a agir como se fosse o chefe da família. Veste o pijama do pai, dorme do lado da mãe e dá bronca nos irmãos.

Dois anos depois de ter saído de casa a pretexto de trabalhar no EUA, de surpresa, o marido retorna. Ninguém o esperava. Abel o vê como intruso e não como o pai. Cecilia, a conselho médico, prefere dizer que Anselmo é um primo ou qualquer outra coisa para não contrariar a crença do menino de que é o chefe da família.

A observação quanto aos narizes de Cecilia e de Anselmo não é sem propósito. No filme todo mundo é feio e pobre. Não é um filme de Holywood. O apelo não é pela beleza estética. A qualidade dele é a de mostrar as coisas como elas são mesmo.

Na cena abaixo, Anselmo reaparece; Abel, ao vê-lo à mesa, pergunta quem ele é. Ele diz: seu pai. Ele não o reconhece como tal, pois ele é o “pai”.




Cópia Fiel (Copie conforme, 2010)
Um filme de Abbas Kiarostami

Alguns exemplos na cinematografia de Kiarostami levam a crer que tem uma fixação especial por automóveis. Em Gosto de Cereja, o protagonista planeja cometer suicído e enquanto não se mata, fica rodar de carro o filme todo. Em 10, a atriz Mani Akbari passa o tempo todo dirigindo um carro, ora com o filho e em outras, com mulheres (a irmã, uma prostituta, uma que está noiva etc.). O filme todo está calcado nos diálogos que acontecem dentro de uma perua SUV. Não é para todos os gostos, sem dúvida. Abbas tem uma legião de fãs que não perde nenhum de seus filmes, quase sempre exibidos pela primeira vez nas mostras anuais de cinema em São Paulo e no Rio. O colunista José Simão, da Folha de S. Paulo, uma vez, fez um comentário ótimo: as pessoas ficam duas horas na fila esperando entrar para assistir aos filmes do iraniano e passam duas horas aflitos esperando terminar. Esclareço que não sou desse time.

Não tinha muita expectativa quanto ao seu mais recente filme rodado na Itália com atores europeus. O texto tem vários momentos de brilho, a começar pelo título Cópia Fiel, relacionado às réplicas de obras de arte, como o Davi, que fica em frente à Galleria dell’Accademia, em Florença.

O escritor James Miller (William Shimell) é esperado para proferir uma palestra. Chega e desculpa-se pelo atraso. Logo depois, chega Julliette Binoche e minutos depois, o filho da francesa, que fica postado, em pé, em uma das laterais da sala. Ambos ficam pouco e logo, saem. A mulher combina um encontro com James e saem de carro, sem destino, aparentemente. Um dos dois diz gostar de sair assim, “por aí”. O carro, de novo. Será a “marca registrada” de Kiarostami? A tomada é feita de fora, enquadrando os dois. É interessante, pois as construções ficam refletidas no para-brisa. Separados fisicamente, motorista e passageiro, são vistos “por trás” das construções ao longo das ruas, no meio, a imagem do céu refletida. No carro, os diálogos versam mais sobre a arte, sobre o que é realmente original. Essa reflexão acerca da originalidade deriva para os exemplos fora da arte.

Quando chegam num vilarejo chamado Lucignano, o foco passa a ser sobre o relacionamento homem x mulher. Uma frase solta: não vale a pena vivermos infelizes por um ideal. Pode ser filosofia barata, mas como essa, várias se encaixam em algum momento de nossas vidas ou do que pensamos um dia.

Tem surpresas, mas é bom não contar.

Um trecho:

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

E de Eels

“Hugh Everett III (11 de novembro, 1930 – 19 de julho, 1982) foi um físico estadunidense que propôs a interpretação de muitos mundos (IMM) da Física Quântica, que ele chamou formulação do ‘estado relativo’.” Isso está no Wikipedia. Esse cientista, quando jovem, andou trocando correspondência com Albert Einstein debatendo se o que “mantinha o universo coeso era algo aleatório ou unificador”.

O pai de Hugh era um militar americano e a mãe – poeta “atormentada” –, Katharine Kennedy. Hugh casou-se com Nancy e teve dois filhos: Elizabeth Ann e Mark Oliver. Mark não mostrou nenhuma aptidão para a Matemática e nem para a Física, mas interessou-se pelos discos que a irmã Elizabeth ouvia. Ela ouvia After the Gold Rush, de Neil Young, todos os dias. É o que consta na biografia do jovem chamado pelos amigos de “M.E.”. Com seis anos, descobriu numa garagem da vizinhança uma kit de bateria de criança posto à venda. Conseguiu comprá-lo com a bondosa ajuda dos pais. Para a desgraça deles, tiveram de suportá-lo “batendo” aquela bateria por dez anos seguidos.

Quando tinha 19 anos, encontrou seu pai morto. Sua irmã “densa” cometeu o suicído em 1996. Com esse histórico familiar tinha a chance de tornar-se um rapaz problemático ou poderia canalizar esse “histórico” para alguma coisa criativa, como ser escritor. Mas seguiu uma outra via.

Estava “escrito” que Mark se tornaria músico quando crescesse e não um cientista, como o pai. Quando tinha vinte anos registrava incessantemente as composições que escrevia num gravador de segunda mão de quatro canais. Aos 24, pegou o carro, viajou quase cinco mil quilômetros até Los Angeles. Não conhecia ninguém. Depois de tanto compor e gravar na solidão dos lugares que habitou, evoluiu e, afinal, tinha um bom material em mãos. Conseguiu um contrato com a Polydor Records, diminuiu o “M.E.” para “E”, simplesmente. Gravou solo e depois formou a banda Eels.

Dois tempos de E: em 2000 e 2010

Uma banda com um nome de apenas quatro letras e um líder chamado E; não seria nada surpreendente de que se esperasse um som diferente. Não era rock, não era pop, era, simplesmente um som “eels”. Com seu piano Wurlitzer, a guitara e voz melancólica, suas composições, para quem pouco o conhece, podem ser ouvidas em Shrek 1 (My Beloved Monster), Shrek 2 (I Need Some Sleep). Souljacker part I (que faz parte do álbum Souljacker, 2002) teve um clipe dirigido por Wim Wenders e foi realizado numa prisão de Berlin (veja abaixo).

Depois de terem lançado Beautiful Freak (1996), Electro-Shock Blues (1998), Daisies of the Galaxy (2000) e Souljacker (2002), gravaram mais alguns discos que não ouvi. Como não foram lançados no Brasil, meio que esqueci deles. O “reencontro” acontece com Tomorrow Morning, que saiu em setembro agora. Belo CD, bom como sempre. Ele faz parte de uma trilogia – Hombre Lobo (2009) e End Times (janeiro de 2010) são os anteriores. Levemente estranho, o Eels ainda surpreende.

My Beloved Monster, em Shrek 1:



I Need Some Sleep, em Shrek 2:



Souljacker Part I:

terça-feira, 26 de outubro de 2010

“Ensaio” sobre a cegueira no piano

É bem conhecida a história de que Django Reinhardt não tinha movimento em dois dedos da mão esquerda devido a um acidente doméstico. Mesmo assim é considerado um dos maiores guitarristas de todos os tempos. É onde entram o “apesar de”, ou “mesmo assim”.

Algumas limitações físicas podem ser impedimentos para algumas atividades. Existe um número significativo de músicos cegos. Enxergar não parece ser um empecilho efetivo. De todos, o que ficou mais conhecido foi Ray Charles. Além da voz abençoada, tocava piano e saxofone e prendado de enorme carisma naquele seu jeito “balouçante” de caminhar e tocar. Como uma brincadeira de que, na verdade, “vê” muito bem, lembram-se de uma cena em The Blues Brothers? Ray encarna um vendedor de uma loja de instrumentos musicais. Um menino tenta surrupiar uma guitarra (era isso? Não lembro direito; vi há algumas décadas). Ray pega um revólver e enxota o pretendente a larápio. A música é uma arte bem mais abstrata que a pintura. Sua beleza ecoa pelo ar. Não é vista.

A música popular é o “lugar” natural desses intérpretes cegos. em sua maioria, nascidos em regiões muito pobres. No Brasil, na região nordestina, encontram-se muitos repentistas, rabequistas e sanfoneiros cegos apresentando-se nas ruas e feiras. Alguns dos mais conhecidos intérpretes do blues são cegos… e negros: Blind Lemon Jefferson, Blind Willie McTell, Blind Willie Jonhson. Poucos tiveram aprendizado formal. “Apesar de” ou “mesmo assim”, ficaram conhecidos devido aos seus talentos, principalmente. É natural haver certa mistificação sobre essas figuras: “apesar de cegos são bons”.

No jazz, não é diferente. O multi-instrumentista Rahsaan Roland Kirk é um deles. Era um pouco estranho aquela figura de óculos escuros com três ou quatro instrumentos pendurados no pescoço apresentando-se. Mais estranho era o fato de que tocava mais de um ao mesmo tempo. Kirk tocava sax-tenor, manzello, flauta e outros instrumentos de sopro. Conseguia tocar flauta com o nariz. Se não fosse bom caberia bem como atração circense. Mas o maluco não só tocava tantos instrumentos como produziu uma música que explorava gêneros como o swing, o bebop, o free jazz e até o pop.

A seara que abrigou uma enormidade desses grandes talentos, no entanto, foi a dos teclados. O maior deles foi Art Tatum. Cego de um olho e quase sem enxergar do outro, gravou centenas de músicas em brilhantes interpretações. Suas mãos dançavam sobre as teclas, literalmente. Era um poço criativo. Basta comparar interpretações de uma mesma música. Cada interpretação de uma mesma música, era única..

Outro quase tão genial foi Lennie Tristano. Sua música era harmônica e melodicamente intrincada, sofisticada e angulosa. Antecipou, de certo modo, Bill Evans. Depois de tanto tempo de quando foram gravadas, suas composições e mesmo interpretando standards, não perdeu a contemporaneidade. Seus solos em acordes vigorosos, meio “quebrados”, são brilhantes na sua maneira percussiva de marcar os ritmos no registro mais grave do piano.

Shearing “esbarra” em Stevie Wonder
Logo após o primeiro número, em show de 1981, em Pasadena, California, George Shearing puxa o microfone, dá umas batidinhas com a mão para ver se tem som e diz que a composição é de Cole Porter e se chama Love for Scale. Ups, corrige logo: Love for Sale. Antes de anunciar a segunda, ouve alguns sons estranhos — é claro que é uma brincadeira de seu acompanhante, o baixista Brian Torff — e diz: “Pequena sabotagem. É Ray Charles que está por aí?” A plateia cai na gargalhada. “Num dia claro e mesmo assim não consigo ver”. Nova graça para dizer que vai tocar On a Clear Day. Esse inglês, autor do clássico Lullaby of Birdland, nascido em 1919, vivo ainda, portanto com 91 anos, é um pianista versátil, que incorporou as várias evoluções da linguagem jazzística que presenciou. Além dos álbuns que tocou em vários formações, possui gravações excepcionais com cantores como Carmen McRae e, principalmente, Mel Tormé.

Veja Tormé e George Shearing em “Lullaby of Birdland”. É um clássico na voz do americano.




Outro pianista muito bom, pouco conhecido — ou pouco reconhecido? — foi Chris Anderson. Sabe-se que foi professor de Herbie Hancock. Gravou pouco. Além de cego, tinha problemas sérios ósseos. Faleceu em 2008. Existe uma gravação excepcional em catálogo, que fez com o baixista Charlie Haden. Respeitosamente, Haden é quase que um acompanhante. É ele que ouvimos em Body and Soul.