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terça-feira, 11 de outubro de 2016

O meu Cohen preferido

Nos últimos dias, sem saber nem por quê, uma canção fica a martelar em minha cabeça: “Famous Blue Raincoat”. É conhecida, mas não é a mais. Tem outras de Leonard Cohen que ficaram populares até no Brasil: “Hallelujah”, por exemplo, tema até de minissérie da rede Globo. Até a minha mãe, uma senhora de 81 anos, que nunca ouviu falar do bardo canadense, em um dos anúncios de “Justiça”, disse: ‘Essa é famosa!”. Acredito que é mais conhecida nas vozes de outros intérpretes do que na sua, como a de Jeff Buckely, possivelmente.

Cohen, que nem tão jovem era quando tornou-se conhecido, e no começo, visto como uma versão canadense de Bob Dylan, emplacou bons versos – já tinha livros de poesia publicados – em belas canções melancólicas de melodias simples que serviam mais como veículo para as suas palavras. Mas, caiu no gosto de um certo público que se identificava com os climas meio “waste land” e introspectivos. Dono também de uma voz limitada mas charmosa em seu tom que, com o tempo, foi ficando bem grave, virou cult.

Suas obras iniciais são verdadeiras pérolas. Do primeiro álbum, de 1967, temos pérolas como “Suzanne”, “Sisters of Mercy”, “So Long, Marianne” e “Hey, That’s No Way to Say Goodbye”. Dos posteriores “Songs from a Room” (1969), “Songs of Love and Hate” (1971) e “New Skin for Old Ceremony” (1974), temos “Bird on a Wire”, “Avalanche”, “Famous Blue Raincoat”, “Joan of Arc”, “Who by Fire” e “Chelsea Hotel”.

A mais conhecidas pelos fãs mais genéricos, como “Hallelujah”, “Dance Me to the End of World” – ambas de “Various Positions” –, “I’m Your Man”, “Everybody Knows” – de “I’m Your Man” –, são da década de 1980, o que me induz a dizer que foi a época em que Cohen virou pop. Mas suas obras da década anterior são mais significativas.

Sobre Jane ou a capa de chuva

Em uma ocasião qualquer, li uma entrevista do cineasta Domingos de Oliveira, na qual dizia que sabia quando estava deprimido: ficava ouvindo a mesma canção, repetidamente, por vários dias. Posso estar deprimido, mas meu caso é diferente. Ouço de tudo, e o dia todo, até nas noites de insônia. Entretanto, percebi que, nos últimos dias, os primeiros versos – It’s four in the morning, the end of december/ I’m writing now just to see if you’re better – martelam o meu cérebro, principalmente ao acordar. Não sou de prestar atenção em letras. Acho que é até por isso que prefiro música instrumental. Palavras cantadas são percebidas mais sonoramente que por seus significados. Até por isso, outro trecho que consigo lembrar sem ter de recorrer aos sites de letras é Jane came by with a lock of your hair.

Como a razão dessa postagem é “Famous Blue Raincoat”, faço uma breve pesquisa. Em primeiro lugar, busco a letra. Refere-se a um triângulo amoroso, é o que parece, ou um delírio de que há uma terceira pessoa na história de um casal.

Em entrevista à BBC Radio Interview ao ser perguntado sobre a música respondeu: O problema com essa música é que esqueci do triângulo real. Se foi o meu próprio, é claro. Eu sempre senti que havia um homem invisível a seduzir a mulher com quem eu estava, se verdadeira ou imaginária. Não me lembro, mas tinha a sensação de que sempre havia uma terceira parte, às vezes, eu, às vezes, um outro homem, às vezes, uma outra mulher.

Um dos charmes de Cohen são justamente, as letras confessionias (não sou de prestar muita atenção em letras, repito, mas quando um trecho ou outro chama a atenção, tento assimilar o que está sendo dito), e por isso, fico a pensar por que “Famous Blue Raincoat” não me sai da cabeça. Até onde sei não vivo um triângulo amoroso ou fico a imaginar-me em um, se bem que a realidade é sempre traiçoeira, se não é por isso, acho que deve ser em razão de nas últimas noites, lá pelas quatro, cinco da manhã, desperto e fico a ler os jornais matutinos em seu formato digital enquanto ouço alguma música que sai dos falantes da minha caixa da Altec Lansing.

Algumas versões, além da original, são bem interessantes. Uma delas é a de Solveig Slettahjell.




Outra interessante. É da dupla francesa AaRON.




Cohen gosta da versão de Jeniffer Warnes, que foi backing de sua banda.




Alguns outros conhecidos têm cover dessa canção. Um é Lloyd Cole.




A outra é Tori Amos.



terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Solveig Slettahjell, uma voz que vem da Noruega

Até hoje, não sei como se pronuncia o seu nome. Fico a pensar se o “S” inicial tem o som do “Z” em português, e fico a imaginar que o “veig” final é “vaig” ou “faig” ou “vig”. Se tento decifrar a pronúncia do primeiro nome – Solveig –, do sobrenome, nem ouso: Slettahjell. Mas, quando canta, torna-se universal, seja cantando em norueguês, sua língua natal, o que faz muito pouco, ou em inglês, que é o “esperanto musical”.

A Escandinávia possui forte tradição no jazz. Um dos clubes mais importantes na história do jazz foi (não sei se existe ainda) o Cafe Montmartre, em Copenhagen, Dinamarca – e não na França, como escreveu certo crítico em certa feita. Bebo Valdés, Stan Getz, Don Cherry e Ben Webster residiram na Escandinávia. Resultou em uma cultura local influenciada pelo jazz, até na Finlândia, país que foi politicamente mais próximo à União Soviética e, por isso, menos permeável às “artes degeneradas”.

Um bom número de músicos, além dos citados acima, fizeram da Europa sua morada, para fugirem da perseguição da polícia, por conta do consumo de drogas, e pelo racismo. Músicos perdiam suas licenças para tocarem em clubes e assim não tinham como sobreviver.

Invasão viking
Em 1969, foi fundada a gravadora ECM, com o álbum Free at Last, do “expatriado” Mal Waldron. Ao juntar jazzistas americanos e americanos no estúdio, de certo modo, Manfred Eicher ajudou na criação de novas sonoridades. Não agradou os puristas, mas uma nova geração passou a gostar de música instrumental com o que, pejorativamente, ficou conhecido como “som ECM”. Foi assim que muitos conheceram Jan Garbarek, Bobo Stenson e Terje Rypdal, músicos que “vieram do frio”.

Rolou uma boa água e uma das boas gravadoras atuais que ajudam a conhecer nomes novos é a também alemã ACT Music. A invasão escandinava continua com muitos músicos de talento. Foi por meio de seu catálogo que cheguei em Solveig Slettahjell.

Seus primeiro álbum solo se chama Slow Motion Orchestra, que é de 2001. É um disco de standards, basicamente. Manteve uma banda com o nome de Solveig Slettahjell Slow Motion Quintet. Alguns foram distribuídos pela ACT. Lançando por outras posteriormente, no ano passado, participou de um álbum da série Jazz at the Berlin Philharmonic, com com Bugge Wesseltoft, Knut Reiersrud, e o trio In the Country.

Agora, em 2015, com os mesmos Knut Reiersrud e o In the Country, saiu Trail of Souls. As músicas escolhidas são todas em tons menores. É a sua especialidade. Significativamente, sua antiga banda se chamava Slow Motion. Solveig é “slow motion”, e é para se ouvir nessa velocidade. Sua voz lembra um pouco a de Annie Lennox, mais ou menos com a mesma voltagem dramática. As primeiras quatro faixas são excepcionais (Borrowed Time, Grandma’s Hand, Mercy Street e Sometimes I Feel Like a Motherless Child). Se são tão boas, isso não significa que o resto seja pior. O CD é todo bom. Se puder, compre. A guitarra de Knut Reiersrud, sempre discreta, dá um colorido muito original às interpretações da norueguesa.

Assista ao promocional, com Borrowed Time, a faixa de abertura.



A melhor mesmo é Grandma’s Hands, do grande Bill Withers. Ouça.



De seu primeiro solo, ouça Wild Is the Wind.



O grande destaque, no entanto, é sua bela interpretação de Beautiful Love, com Morten Qvenild, o mesmo pianista de trio In the Country.



Boa parte do repertório de Solveig é constituída de canções do pop. Uma das mais conhecidas é Wild Horses, de Mick Jagger e Keith Richards.



Take It With Me, de Tom Waits, é um número que faz parte de Jazz at the Berlin Philharmonic. Essa apresentação é mais antiga. É de 2007.



Dos clássicos moderno que todo mundo gosta, ouça Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen. 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

“Wild Horses” por seus autores e pelos outros

A original (esq) e a capa espanhola
O álbum Sticky Fingers antecede outro clássico dos Rolling Stones: Exile on Main St. A capa, assinada por Andy Warhol, é um close de uma calça jeans (naquele tempo, jeans era Lee ou Levi’s 501) na região da cintura. No disco importado, o original, vinha com um zíper de verdade. “Por trás” da calça, via-se a cueca, assinada pelo artista pop. O título era bem sugestivo: “dedos pegajosos”. O disco foi lançado na Espanha, e como os tempos eram outros, sob severa ditadura franquista, modificaram a capa. A imagem da calça jeans com sugestivo volume fora substituída por uma lata aberta (com um abridor ao lado) de onde emergiam três dedos sujos com uma substância pegajosa e negra. Antigamente, em alguns países de origem latina, costumavam traduzir os títulos, até de discos e, salvo engano, na Argentina, chamou-se “Dedos pagajosos”.

Em 1971, os Rolling Stones estavam no auge. Haviam lançado Their Satanic Majesties Request, Beggars Banquet e Let It Bleed nos tumultuados anos finais dos 1960. A banda também protaganizou acontecimentos traumáticos. Um foi a morte de Brian Jones e o outro foi o show realizado em Altamont, em dezembro de 1969. Nessa ocasião, um espectador negro foi assassinado pelos Hell’s Angels, recrutados para fazer a segurança do show. A morte de Jones, encontrado morto na piscina, foi um episódio que “sobrou” para os dois principais componentes da banda, Mick Jagger e Keith Richards. Surgiram até acusações de que ambos haviam sido os responsáveis pelo triste fim do multinstrumentista.

Em vez de os acontecimentos arrefeceram a criatividade da banda, mantiveram o mesmo gás. Sticky Fingers era o primeiro álbum com a participação de Mick Taylor, substituto de Brian Jones. No anterior – Lei It Bleed – Taylor participara de duas músicas, e Jones pode ainda ser ouvido em Midnight Rambler e You Got the Silver, mas não na guitarra.

Brown Sugar e Bitch (abrem o lado A e o B do LP), instrumentalmente, são as mais pesadas. Pesada mesmo, pelo tema, é Sister Morphine. A Espanha, que tinha vetado a capa, “cortou-a” do LP. Ironia: esses LPs lançados lá, hoje, são considerados item de colecionador.

Pensando bem, nada é leve em Sticky Fingers. Até Wild Horses, a balada triste do LP, tem uma letra que nada tem a ver com um mundinho cor de rosa.

Brian Jones representava o lado experimental da banda, tocando outros instrumentos além da guitarra. Após a sua morte os RS iriam realizar um disco mais básico, mais rock’n’roll. Com o acréscimo do órgão de Billy Preston, da guitarra lisérgica de Ry Cooder e dois caras matadores nos sopros: Jim Price, no trompete, e Bobby Keys no saxofone. Eles “arregaçam” em Bitch e I Got the Blues. Alguns uníssonos em I Got the Blues são o diferencial desse grande tema stoniano. Um parêntesis: quem já ouviu Ry Cooder conhece bem o seu som. Participa de Sister Morphine e, tempos depois, Richards polemizou com Cooder dizendo que o som “viajante” era invenção dele e não do americano. O tempo mostrou que aquela guitarra distorcida era bem de Cooder mesmo.

Como Exile on Main St., não é possível dizer que há uma música ruim. Todas, muito boas, são demonstrativos da versatilidade da dupla de compositores. You Gotta Move – malemolente – e Moonlight Mile são completamente diferentes e se complementam como climas de “coclusão” dos lados 1 e 2 do LP. Can You Hear Me Knocking é completamente jazzística, com belos e simples solos do trompete e do sax do “brasileiro” (casou com uma brazuca e foi morar no Rio de Janeiro; não sei se continuam juntos) Bobby Keys, somados ao órgão de Preston e a percussão de Rocky Duon, que, vagamente, lembra o “demonismo” de Sympathy for the Devil.

Bom, esses sete parágrafos são apenas a introdução para se ouvir Wild Horses, uma das mais belas baladas dos RS, como Ruby Tuesday e Angie. A primeira interpretação, naturalmente, é com seus autores. Estão disponibilizadas aqui a do Sundays, a da norueguesa Solveig Slettahjell e a de Rachel Z. Esta última é uma pianista do jazz que pinça temas do pop para seus improvisos (sobre a moça, acesse http://bit.ly/WQL6fy).



Pessoalmente, adoro a de The Sundays. Não é muito conhecida. Gravaram três álbuns apenas. A voz de Harriet Wheeler é especial. Wild Horses está no álbum Blind (tem uma capa com um meio corpo de uma boneca de plástico; meio tétrica). Não era uma banda excepcional, mas não era ruim, também; só a canção dos Stones faz valer o resto. A razão de possuir o CD deve ser porque, entre os anos 1980 e 2000, comprava de 20 a 30 CDs por mês e, no meio, tinha muita coisa desnecessária.





A de Solveig Slettahjell. A música combina com vozes femininas.



Como não pode faltar um pouco de jazz na vida da gente, vai Wild Horses na interpretação de Rachel Z.