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quarta-feira, 29 de abril de 2026

“A Time for Love” é o título do novo álbum de Stacey Kent

Não é de se estranhar que Stacey Kent tenha se lançado profissionalmente quando tinha pouco mais de 30 anos. Talvez tivesse outros objetivos. Formou-se em Literatura Comparada na Sarah Lawrence College em Nova York. Depois foi morar em Londres e estudou na Guildhall School of Music and Drama. 

Na escola, conheceu Jim Tomlinson, com quem se casaria. Passaram a se apresentar em clubes, que lhe deu uma boa cancha. Quando lançou o primeiro disco, pelo selo Candid, nem parecia uma estreante. Isso fica claro desde a primeira audição de Close Your Eyes (Candid, 1997). Acompanhada por Jim Tomlinson, o guitarrista Colin Oxley, egresso da Guildhall também, o pianista David Newton, Andrew de Jong Cleyndert (baixo) e Steve Brown (bateria), Stacey revelava-se uma intérprete com personalidade logo na primeira faixa: More Than You Know.

Ouça More Than You Know. Quer melhor apresentação da qualidade de Stacey Kent?

De 1997 até 2026 são mais de duas dezenas de discos lançados, todos muito bons. Seu repertório é amplo e variado. É a única cantora que domina vários idiomas com perfeição: em inglês, sua língua nativa, em francês, que aprendeu criança e aperfeiçoou na faculdade, e em português, que aprendeu e aperfeiçoou com o poeta português Antônio Ladeira. A ligação com o português vem, antes de mais nada, de sua paixão pela música brasileira, despertada ao ouvir o álbum Getz/Gilberto (Verve, 1964). 

A surgimento da Bossa Nova foi um acontecimento marcante no cenário musical americano, em proporções diferentes, tanto quanto a do rock britânico, com a primeira excursão dos Beatles.Houve a famosa apresentação dos brasileiros no Carnegie Hall, em Nova York. Foi um sucesso enorme o disco do saxofonista britânico Stan Getz com João Gilberto e Astrud Gilberto. Logo depois todo mundo tocava ou cantava Bossa Nova. Nem o maior cantor de todos os tempos a ignorou. Apresentou Jobim em seu programa de TV e gravou Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (Capitol, 1967). 

Sinatra não ousou cantar em português. Suas interpretações são com versões de Ray Gilbert. Tom Jobim se lamentou muitas vezes por isso. Tanto Gilbert e outros que fizeram as versões ficaram com 50% dos direitos autorais. Ficaram milionários sem fazer força. Ao contrário de Sinatra, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, as maiores cantoras da geração, resolveram cantar algumas composições em português. Por mais geniais que foram, dói nos ouvidos. Em anos mais recentes temos intérpretes americanos que cantam em português, como Kurt Elling, Diana Krall, Carol Welsman, Esperanza Spalding e Gretchen Parlato, até com certa competência. Mas, como Stacey, ninguém. 

A paixão de Kent pelo Brasil é recíproca. Deve ter feito ao menos uma dezena de apresentações aqui. Fora isso tem álbuns com Marcos Valle (Live at Birdland – New York City, 2013 e Ao Vivo Comemorando 50 anos de Marcos Valle) e Roberto Menescal (The Changing Lights, 2013). 

Desde a pandemia da Covid (2020-2023), Stacey tem lançado discos com menor frequência. Nesse período, em dezembro de 2021 saiu Songs from Other Places, acompanhada apenas pelo marido e produtor Jim Tomlinson – sax e flauta – e o pianista Art Hirahara.

Summer Me, Winter Me é de 2023. A base continua a mesma, dessa vez acrescida de uma banda e uma formação camerística em alguns números.Nesse álbum, que mereceria uma postagem separada, tem algo que merece uma observação. Summer Me, Winter Me, Under Paris Skies, If You Go Away são versões em inglês de canções francesas. A última faixa é Ne me quite pas, de Jacques Brel, a versão original de If You Go Away.

Grande interpretação do clássico de Jacques Brel, com o belo piano de Art Hirahara.

Maturidade. Em março completou 61 anos. É uma idade em que não é mais preciso prestar satisfação a ninguém. O tempo pode correr mais lento (ou não) e é possível deixar a pressa de lado. 

A combinação com a gravadora era de que um novo álbum seria lançado em 2025. Aconteceram alguns contratempos. Por ter sido anunciado nas redes sociais, a solução foi a de lançarem singles em um EP intitulado A Little Time for Love enquanto não se completassem as gravações. Finalmente, em abril de 2026 disponibilizou-se A Time for Love.

Pelo título, fica clara a concepção. É intimista. Segue a linha de Some Other Places. Kent é acompanhada apenas por Jim Tomlinson e Art Hirahara. O ecletismo dela não se resume apenas ao repertório, em que convivem música francesa, brasileira, italiana e de língua inglesa. Como vários outros intérpretes contemporâneos, incorpora músicas compostas depois dos anos 1960, quando o jazz e os musicais do teatro americano deixam de ser tão populares. No disco recente, o standard mais antigo é Lucky to Be Me, de Leonard Bernstein, Adolph Green e Betty Comden, de 1944. The Shadow of Your Smile e A Time for Love, ambas do genial Johnny Mercer e letra de Paul Francis Webster, são da década de 1960, respectivamente, de 1965 e 1966. Trains and Boats and Planes, de Burt Bacharach e Hal David, é de 1965

As associadas ao pop são God Only Knows, de Brian Wilson, e  As, de Stevie Wonder, do clássico Songs in the Key of Life (1976). Sobre incluir temas não considerados standards, Kent, em entrevista feita por Sergio Martins (OESP, 25/04/2026), afirma: “Tinha acabado de me apresentar no Ronnie Scott’s, em Londres, quando um senhor chamou a minha atenção por eu ter cantado You’ve Got a Friend, de Carole King – uma música que adoro e há tempos faz parte do meu repertório. Ele disse então que Billie Holiday jamais teria interpretado You’ve Got a Friend. Respondi então que ela nunca gravou porque trata-se de uma canção que foi composta doze anos depois da morte dela. Mas provavelmente faria parte do repertório de Billie caso ainda estivesse viva. Porque é uma grande música e Billie era uma intérprete tão comovente que certamente se interessaria por You’ve Got a Friend.”

Nas composições que não são na língua inglesa, Stacey revisita La javanaise, de Serge Gainsbourg, canta E la Chiammo Estate, de Bruno Martino, e Carinhoso.

É difícil destacar as melhores. Na minha opinião, vale destacar God Only Knows – a primeira vez que a ouvi com um cantor associado ao jazz foi com John Pizzarelli em uma apresentação no Bourbon Street há mais de quinze anos –, Trains and Boats and Planes, What Goodbye Is For, única do marido Jim Tomlinson,  As, de Wonder, a mais animada do disco, La javanaise, com o duo teclado e flauta, e, naturalmente, Carinhoso.

Uma última observação. Stacey Kent é cantora de voz pequena, sem arroubos. É a sua grande qualidade. Em uma publicação no Facebook dia que sua voz é a pela qual se expressa. “Existe o canto operístico, existe o canto folk, existem todas essas diferentes abordagens para a voz humana. […] é ótimo que existam. A minha é mostrar a minha voz natural. O estilo é uma abordagem muito natural, e isso porque a minha metaé alcançar as pessoas de uma forma muito humana e direta. Mas isso me lembra certas coisas, como a maneira como um pai ou mãe fala com o filho, como um amigo íntimo fala com alguém próximo. É essa linha direta entre as pessoas”. Perfeito, não. Stacey nos toca diretamente, como se estivesse cantando para nós, humanos encantados por ela.

Ouça o novo álbum.

terça-feira, 22 de março de 2016

O momento relax de Stacey Kent

Stacey Kent e Roberto Menescal
A ausência de uma bateria faz uma diferença danada. Principalmente, se for com Stacey Kent. Sua voz é um convite para refestelar-se no sofá bebendo um vinho, o que não significa, de modo algum, que seja “easy listening”.

O que a diferencia da maioria das outras cantoras é a sua formação e de como isso influenciou sua trajetória profissional. Formada em Literatura, mudou-se para a Inglaterra com o intuito de fazer Literatura Comparada. Estudou na London's Guildhall School of Music and Drama, onde conheceu Jim Tomlinson, com quem se casou. Foi o que ajudou-a a escolher o que ia fazer.

Lançou o primeiro disco em 1997 pelo selo Candid. No círculo londrino, apresentou-se em clubes tradicionais como o Cafe Boheme e no Ronnie Scott’s. Depois de seis álbuns bem sucedidos por esse selo, ganhou notoriedade maior com Breakfast on the Morning Tram.

Até então, cantando basicamente standards do cancioneiro americano, no primeiro álbum pela Blue Note, as transformações são significativas. O interesse pela literatura e a amizade com o premiado Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do Dia (Remains of the Day), inauguram a parceria de escritor com Jim Tomlinson.

Kent e Ishiguro
Obviamente Kent tinha lido livros de Ishiguro e o admirava. Ishiguro, fã e grande conhecedor de jazz, convidado a participar do programa de rádio ”Desert Islands Discs”, tinha de elencar suas oito canções favoritas. Billie Holiday e Ella Fitzgerald, com certeza, estavam na lista. Incluiu Stacey Kent. Tendo-a visto cantar uma vez e ouvido dois de seus discos, sentiu algo de especial na forma em que interpretava clássicos que tanto admirava desde jovem.

Kent, ao saber disso, resolveu escrever uma carta agradecendo-o, dizendo que gostara muito de Remains of the Day e Never Let Me Go. Esse título é uma clara evidência de seu gosto pelo jazz; é o nome de conhecida composição de Jay Livingston e Ray Evans. Passaram a corresponder-se por e-mail. A cantora pediu-lhe um texto para as “liner notes” do álbum que faria com músicas de autoria de Richard Rodgers, In Love Again (Candid Records, 2002). Nasceu assim, lembrando Casablanca, uma bela amizade e uma grande parceria.

Em Breakfast on the Morning Train (Blue Note, 2007), das doze canções do disco, quatro são com letras de Ishiguro e música de Jim Tomlinson, marido e saxofonista de Stacey. Nesse álbum, evidencia-se seu interesse crescente pela música brasileira e pela francesa. So Many Stars, de Sergio Mendes, e Samba Saravah, composição de Baden que recebeu enorme acolhida na França depois de Pierre Barouh tê-la cantado em Um Homem e Uma Mulher, eram as “brasileiras”, ou melhor, de brasileiros. Além delas, dentre outras, fazem parte Never Let Me Go – referência a Ishiguro, imagino – e duas composições de Serge Gainsbourg.

Dentro dessa linha de desenvolvimento, seu próximo CD, Raconte moi… (Blue Note, 2010) é composta de músicas cantadas em francês, sendo algumas de autoria de Benjamin Biolay, considerado o Gainsbourg da nova geração. Duas, apesar dos títulos em francês são as exceções: Les eau de mars (Águas de Março) e C'est le Printemps (It Might As Well Be Spring).

O propósito de aprender português por Jim e Stacey era sério. Vieram ao Brasil várias vezes e tiveram como “professor particular” o poeta português António Ladeira. Em Changing Lights (Parlophone, 2013), 70% do disco é de música, vertida ou não, de autores brasileiros ou portugueses, no caso, Ladeira que, além de professor, tornou-se parceiro em Mais Uma Vez, Tarde e Chanson Légère, com Tomlinson. Pelo lado brasileiro estão Tom Jobim, João Bosco, Marcos Valle, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Contam também com mais três com letra de Ishiguro.

Tenderly
Depois de álbuns com várias referências literárias, músicas cantadas em três línguas diferentes, composições próprias, temas mais contemporâneos, Stacey resolveu dar uma relaxada. Tenderly é composto de clássicos do repertório americano.

Em comemoração aos 50 anos da carreira, Marcos Valle gravou um belíssimo álbum com Stacey, lançado em 2013. Em Changing Lights, há a participação de Roberto Menescal em dois números tocando violão.

Menescal, antes de tornar-se executivo na gravadora Philips, foi um dos fundadores do movimento da bossa nova. Autor de inúmeros clássicos, em sua maioria, em parceria com Ronaldo Bôscoli, nunca deixou de ser músico. Depois de sair da Philips, montou o estúdio Albatroz com o filho. Misto de produtor, músico e compositor, é o maior responsável pela propagação da bossa nova. Admirado por cantoras, que adoram tê-lo ao lado na condição de acompanhante e parceiro, lançou muitos discos no mercado japonês e é, com certeza, com seu jeito relaxado e despretensioso, um dos gênios da música. Seu jeito de tocar o violão e a guitarra elétrica, sem efeitos, abrilhantam qualquer música.

Ao vê-lo casualmente em de suas inúmeras vezes em que veio ao Brasil, no show Cristo Redentor 80 Anos exclamou: “Roberto!”; ao que ele respondeu: Stacey!” Depois, passaram a se comunicar com frequência. Stacey o queria para alguns números de Changing Lights. Ligou para ele. Menescal contou que, quando Tom Jobim ligava, já sabia que queria encontrá-lo. Antes que Tom completasse alguma frase, respondia: “Tô indo”. Sabia que era por isso que Tom ligara. Terminando de contar a Stacey, respondeu: “Estou indo.”

Em Tenderly, a participação de Menescal foi diferente. Tocando guitarra elétrica, com Jim Tomlinson no saxofone tenor e na flauta, e Jeremy Brown, propuseram-se a fazer um disco de standards. A única exceção é Agarradinhos, de Menescal e Rosália de Souza. A escolha do título é em razão do elo de Tenderly com o Brasil. O primeiro intérprete da hoje conhecidíssima composição de Jack Lawrence e Walter Gross, foi Dick Farney, quando morou nos EUA.

Tenderly, cinco estrelas pela publicação The Guardian e quatro estrelas pela Downbeat, como disse acima, é um daqueles discos tranquilos e tremendamente prazerosos de se ouvir. Menescal, com a experiência de meio século acompanhando cantoras e o talento natural, é cúmplice desse clima. Tem um modo tranquilo de tocar, é um carioca da praia, de fala mole, que adora o mar. Gosta tanto que só se chega ao seu estúdio de barco. Ele transpira esse sossego. Jeremy Brown é um acompanhante discreto no contrabaixo acústico, Jim é exato em seus comentários musicais no sax tenor e na flauta. E Stacey, é Stacey. Sua voz pequena é sempre elegante e suas intervenções em canções que o mundo já cantou, sempre trazem algo original. Não é à toa que Kazuo Ishiguro a escolheu, com Billie Holiday e Ella Fitzgerald para o seu “desert island discs”.


Ouça Embraceable You.



If I’m Lucky é um dos destaques.



Tenderly, a música título, é excepcional com Kent e Menescal.



Ouça In the Wee Small Hours of the Morning.



Não poderia faltar Agarradinhos.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

The Changing Lights, o disco mais brasileiro de Stacey Kent

A capa do novo CD de Stacey Kent
Tem tempo ainda. No dia 4 de dezembro, Stacey Kent se apresentará no clube novaiorquino Birdland, em comemoração ao lançamento de The Changing Lights. O ingresso custa 45 dólares e consumação mínima de 10, valor bem mais modesto que os 400 reais mais 85 de taxa de conveniência do show da cantora que aconteceu em novembro do ano passado no Teatro Reanault, antigo Paramount, em São Paulo (leia http://bit.ly/16eP2r4). Com a diferença que é no Birdland e, apesar do frio, é sempre bom caminhar pelas ruas de Nova York.

Ontem, 16 de setembro, foi o lançamento oficial do último CD de Stacey Kent. De tanto vir para cá, realiza seu álbum “mais brasileiro”, apesar de ter sido gravado em Sussex, Inglaterra, e contar com apenas um brasileiro no lineup. A língua portuguesa e as referências a nossa música têm sido uma constante em seus trabalhos mais recentes.

Stacey não possui a voz marcante de Sarah Vaughan, nem a potência de Carmen McRae, e talvez por isso, saiba usá-la como ninguém. Sua voz é pequena e complexa. Ao contrário de outras, conhece o que canta. Não basta ter uma bela voz para ser bom intérprete. Com impressionante humildade disse que ainda trabalha a voz: “Tento cantar o melhor que eu posso, simplesmente, porque é a minha profissão e minha razão de ser.”

Nada melhor do que alguém com Stacey para interpretar canções como This Happy Madness (Estrada Branca), One Note Samba (Samba de Uma Nota Só) e Insensatez (How Insensitive), de Antônio Carlos Jobim. Os outros brasileiros presentes no álbum são Dori Caymmi (Like a Lover), Marcos Valle (The Face I Love) e Roberto Menescal (O Barquinho). Toca violão na música de sua autoria e em A Tarde, de Jim Tomlinson e o poeta António Ladeira. O português é parceiro também em Mais Uma Vez. São duas canções belíssimas, melancólicas e poderiam passar por brasileiras facilmente, apesar de compostas por um inglês e um português.


Ouça A Tarde. As duas de Ladeira são cantadas em português.




Como Stacey formou-se em Letras nos EUA e foi fazer um curso de Literatura Comparada na Inglaterra (dê uma busca por “Stacey Kent” no blogue; como é uma das minhas preferidas, publiquei vários textos sobre ela), é natural seu cuidado com os “letristas”. Mais que letristas, os parceiros são escritores. Além de António Ladeira, Stacey e Jim são próximos a Kazuo Ishiguro. Nascido no Japão, escreve em inglês e é considerado um dos grandes da atualidade. A ligação vem de gostos em comum: o jazz e a literatura. A parceria foi iniciada em Breakfast in a Morning Tram. Das doze canções desse álbum, quatro são com letras de Ishiguro. No CD lançado ontem, é parceiro de The Summer We Crossed Europe In The Rain e Waiter, Oh Waiter. Aliás, “garçom, seo garçom!”, é bem brasileiro. E a música também. Ouça:




Se você é fã de Stacey e de MPB, não deixe de ter esse CD. Tudo é muito brasileiro, até Chanson Légère, de Bernie Beaupère, outro parceiro “reincidente” e Smile, de Charlie Chaplin, com introdução instrumental com o tema de O Bêbado e o Equilibrista. Confira.




Veja o teaser de The Changing Lights.




Ouça Samba de Uma Nota Só.



Ouça um trecho de Estrada Branca.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Marcos Valle lança disco com Stacey Kent para comemorar os 70

Stacey Kent na casa de Marcos Valle
Se não existe destino, pelo menos, pode se crer que o mundo se move por meio de acasos, por felizes ou infelizes coincidências. Marcos Valle transitava com seu carro pelas ruas do Rio de Janeiro e ouviu uma voz que lhe chamou atenção no rádio. Chegou em casa e não saiu do carro curioso em saber o nome da cantora.

Dias depois, foi convidado a participar de um show em homenagem aos 80 anos do Cristo Redentor. Ele cantaria com uma cantora que muito o admirava. Seu nome: Stacey Kent. Era a mesma que ouvira no rádio. Ela e o marido, o saxofonista Jim Tomlinson jantaram na sua casa e a empatia foi imediata. Isso aconteceu em 2011.

A casa de shows Miranda, no Rio, entrou em contato com Marcos para agendar uma apresentação, com a ideia de que este tivesse um convidado especial. Logo pensou em Stacey. Depois apresentaram-se em São Paulo e Fortaleza.

O show na casa situada na Lagoa Rodrigo de Freitas foi gravado e lançado em 2013, e torna-se o disco que comemora os 70 anos de Marcos que serão completados no mês de setembro. Os acompanhantes são de sua banda – Luiz Brasil (violão), José Sadoc (trompete), Alberto Continentino (baixo), Marcelo Martins (sax e flauta), Aldivas Ayres (trombone), e Renato Massa (bateria) –, com Valle nos teclados e Jim Tomlinson no saxofone tenor. O resultado não poderia ter sido melhor. Num clima relaxado, de um encontro entre amigos, o resultado é excepcional. 

Fazem parte do programa, evidentemente, os clássicos Samba de Verão (So Nice) e Preciso Aprender a Ser Só (If You Went Away) e outras menos previsíveis.  

Ouça Marcos Valle e Stacey Kent em Ao Vivo Comemorando 50 anos de Marcos Valle.



Assista a uma das performances dos dois no clube Birdland, Nova York. Amando Demais.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Extorsão. O show de Stacey Kent no Teatro Renault

Stacey Kent e Jim Tomlinson fazem uma bela parceria
“Nos momentos de abertura, ela promove um banho de sangue cenográfico com uma réplica de fuzil AK-47. Mais adiante, num cenário repleto de telões de altíssima definição, ela tira a roupa, simula uma viagem de trem pela Índia, anda numa corda bamba e dança sem parar – um dos números tem até bateristas suspensos no ar.” (FSP, 2/12/2012)

Não. Não é uma descrição do show de Stacey Kent ocorrido em 28/11 no teatro agora chamado Renault e, antes, Abril, e, bem antigamente, Paramount. Era onde aconteciam as apresentações de Roberto Carlos, Elis Regina e Jair Rodrigues e os festivais de música da TV Record. Se Stacey pode ser usada como comparativo, o nível continua bom, porque Stacey é o máximo.

O primeiro parágrafo se refere ao show de Madonna que aconteceu neste domingo, no Rio de Janeiro. Suas apresentações em São Paulo acontecem hoje e amanhã no estádio do Morumbi. O ingresso na pista custa R$ 360. No show de Stacey, o ingresso mais caro custou R$ 400 mais 80 de taxa de conveniência. A “conveniência” é você chegar com o seu cartão de crédito Mastercard e entrar por uma fila separada. Bom, se o ingresso é numerado, isso significa que pegar a fila mais curta custa 80 reais. Mesmo assim, prefiro Kent à Madonna. Questão de gosto.

A produção do show de Kent deve ter custado um milionésimo da de Madonna. É para ficar revoltado, não? Stacey trouxe o marido, seu arranjador e saxofonista. Só. Quem os acompanhou foi o trio Corrente, os brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo elétrico e contrabaixo acústico), e Edu Ribeiro (bateria). Contando-se passagem e hospedagem dos dois, deve ter ficado mais barato que a filha de Madonna, que a acompanha, normalmente, nas viagens. O resto, como sói ser no capitalismo brasileiro, a ideia marxista da “mais valia” é selvagem: quanto maior o lucro, melhor.

Deixando de lado a extorsão – só porque o Brasil de Lula e Dilma está rico –, o show foi ótimo. Mas, para quem viu o dela na Sala São Paulo ano passado, este foi muito parecido. Até a música de abertura – It Might As Well Be Spring – foi a mesma. Não lembro se, como desta vez, sentou-se no banquinho, com o violão, e cantou dois standards da bossa nova. A primeira foi Chega de Saudade, em português, e a segunda, Vivo Sonhando (Dreamer), em inglês. Acho que deve ser porque, apesar de Stacey estar cada vez melhor no português, não é muito fácil cantar “vivo sonhando sonhando mil horas sem fim”. A repetição de “sonhando” não é muito fácil para os americanos.

Devido ao brilho de Kent, há uma tendência em não se considerar Jim Tomlinson, o marido. É um bom saxofonista. No tenor lembra Stan Getz. A sonoridade é menos de “lata” do que a de Getz, mas no fraseado lembra bem. Algumas composições que Kent canta são de Tomlinson e de parceiros estrelados, como António Ladeira e o premiado Kazuo Ishiguro. São amigos. As “aproximações” não são tão casuais. São do meio dela, já que foi para a Inglaterra cursar mestrado em literatura comparada. Sobre Tomlinson, leia http://bit.ly/JdmiJh.

Depois, não sei se logo depois, cantou um original de Jim Tomlinson, seu marido, e o português António Ladeira, poeta, amigo e professor de nossa língua dos dois. Chama-se Comboio. Se não me falha a memória, tinha cantado na Sala São Paulo. Interpretou também Águas de Marco em sua versão francesa, de Georges Moustaki, Les eaux de mars, They Say It’s Wonderful e Samba Saravah (Samba da Benção). Tudo repetido. Ainda bem que ouvir Stacey Kent é um enorme prazer. Fechou, no bis, com Carinhoso, com a plateia cantando junto, e Jardin d’hiver, bela canção do CD Raconte-moi… A única inédita foi Mood Indigo, standard de Duke Ellington.

Uma explicação: postei no Facebook e no Twitter, na vez passada, sobre o show da Sala São Paulo. Algumas pessoas nem devem ter notado, mas não foi malandragem. É que tive um problema no “divshare” e não consegui disponibilizar algumas canções de Orlando Silva no texto em que faço algumas considerações sobre algumas semelhanças entre ele e Billie Holiday. Por uma questão de “timing” (odeio essa palavra, mas não achei uma melhor), publico hoje sobre Stacey Kent. A de Orlando Silva fica para quinta-feira. Tá no capricho. Tem seis clássicos que podem ser “copiados” para a sua discoteca de mp3.

Veja e ouça Les eaux de mars.


Samba Saravah. Alguém se lembra de Pierre Barouh cantando essa música em Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch?


Comboio (Jim Tomlinson/António Ladeira). É só um trecho.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A primeira composição de Stacey Kent em português

Espero que ninguém tenha se cansado de tanto ler sobre Stacey Kent nesse blogue. Sou fã incondicional desde o seu primeiro disco. Apesar da crítica – ou os polls – não costumar colocá-la entre as “dez mais”, merece estar entre as três melhores da atualidade, não apenas pela voz ou afinação, e mais pela inteligência e sabedoria em escolher o repertório. Não é aquele repertório de standards com uma ou outra canção “diferente”. Devido à facilidade que tem com línguas (é formada em literatura comparada; leia em http://bit.ly/tARGoA), canta – naturalmente – em inglês (é americana, apesar de residir na Inglaterra), em francês, e em português quase perfeito. Essa versatilidade lhe possibilita transitar por preciosidades musicais cantadas em suas línguas originais.

A imagem da capa do CD ao vivo
Agora, no mês de outubro, foi lançado o seu primeiro álbum “ao vivo”. É o registro da apresentação do La Cigale, Paris, em maio. Kent é acompanhada por Jim Tomlinson, marido, arranjador, produtor e saxofonista (sobre sua importância no som de Kent, leia em http://bit.ly/u4X7Mu). Chama-se Dreamer - In Concert.

Músicas do cancioneiro americano, como de costume, estão presentes: It Might As Well Be Spring, The Best Is Yet to Come, If I Were a Bell, e They Can’t Take That Away from Me. Não poderiam faltar canções francesas: Ces petits riens e Jardin d’hiver. A primeira é de Serge Gainsbourg, a segunda é do “Serge Gainsbourg da atualidade”, Bemjamin Biolay  (é casado com Chiara Mastroianni), em parceria com Keren Ann. A terceira cantada em francês é, na realidade, brasileira – Samba Saravah, música de Baden Powell, chamada aqui de Canção da Benção –, tornada conhecida pela interpretação de Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme dirigido por Claude Lelouch. As brasileiras mesmo são Corcovado, Waters of March e Dreamer. Essas interpretações são bem conhecidas pelos seus costumeiros ouvintes. A novidade mesmo, é uma música chamada O Comboio. Alguém conhece? Não sei se estou certo, mas deve ser a sua primeira incursão na língua portuguesa como compositora. A letra é do poeta português Antonio Ladeira. É o que você vai ouvir.




Teaser da Blue Note para o CD Dreamer In Concert.



Outros textos sobre Stacey Kent:
• Sobre Kent e Roberta Gambarini: http://bit.ly/s3i3qs
• A segunda vez de Satcey Kent: http://bit.ly/v4giFP
• Stacey Kent é um show: http://bit.ly/v6M6ro

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Jim Tomlinson é o homem por trás de Stacey Kent

Há um ditado em que se diz que “a mulher faz o homem”. Correto? Sim. Mais correto, talvez, fosse dizer que os gêneros se complementam. Tanto a mulher como o homem “fazem” seus pares. Como a parceria de Jim Tomlinson e Stacey Kent é anterior à consagração desta, muito da concepção sonora é do marido. O que faz parecer que a parceria na vida real é simbiótica com a carreira musical.

Kent se mudou para a Inglatera com o propósito de estudar. Conheceu Jim, que era músico. Esse dado contribuiu para que se revelasse a intérprete que, em princípio, seguiria uma carreira acadêmica com especialização em literatura comparada.

Desde o primeiro álbum solo, Kent é acompanhada pelo marido, não apenas como instrumentista, mas como seu produtor musical. E se observarmos um pouco mais, veremos que a formatação musical continua a mesma. Ao trio piano/baixo/bateria são acrescentados o saxofone de Jim e um guitarrista, que dão um molho especial à base sonora que acompanha a cantora. Não é uma banda de destaques; ninguém sobrepuja o outro em aventuras improvisativas. O sax é correto, o piano é belo, e acordes parcimoniosos de guitarra dão um colorido especial à voz pequena e afinada de Kent.

Aparentemente, Jim resolveu fazer o papel do coadjuvante, deixando que Stacey brilhe. Deve ser uma escolha e menos uma imposição. O que é belo nessa história toda, pelo menos para quem vê de fora, é a perfeita combinação entre eles, uma conjunção de interesses, tanto na vida pessoal como na profissional.

Foi bastante divulgada na imprensa brasileira, por conta das várias vindas do casal ao Brasil, o interesse de Kent em aprender a língua portuguesa. E vemos que essa curiosidade é comum e está estampada no repertório de Brazilian Sketches, de Jim Tomlinson. Antes de Kent ter registrado alguma canção brasileira nos seus discos solos, Jim o tinha feito anteriormente.

Percebe-se também, ao se prestar atenção na discografia de ambos, que, apesar de a estrela da casa ser Stacey, é notório que sem Jim não existirira a intérprete como a conhecemos. A conclusão é a de que ela não seria quem é sem ele. Por isso, vemos que o papel de coadjuvante dele é um pouco circunstancial.

Ouça a brasileiríssima Dreamer (Vivo Sonhando).


Tomlinson é um bom saxofonista. Possui influências de Stan Getz, outro “brasilianista”. Nessa apresentação fica claro que, mesmo que não tivesse conhecido Kent, teria destaque.

 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O interesse pela língua portuguesa não é só de Stacey Kent

Stacey Kent é a encarnação da empatia (simpatia, para ser mais exato). No ano passado, prometera que, em sua próxima apresentação no Brasil, falaria em português para a plateia. Feito. Entre um número e outro conta que há três anos, ela e Jim se inscreveram num curso de língua portuguesa, e a premissa inicial do aprendizado era não conversarem em inglês durante as primeiras sete semanas (não lembro, exatamente, acho que eram sete semanas mesmo). No início, era “bom dia”, “como vai?”, “te amo”, mas, pouco a pouco o repertório de frases aumentou.

O que, inicialmente, muito por conta de que celebrada é ela e não ele, parecia que o propósito de aprender português era dela. Engano. O interesse foi de ambos, aparentemente, pela música, pelo menos. Jim gravou Brazilian Sketches em 2003, até então, Stacey, que me lembre, nunca tinha registrado uma música brasileira em discos. Nos “desenhos brasileiros”, Jim gravou clássicos conhecidos de Jobim, Bonfá e Marcos Valle. Em The Lyric, lançado em 2007 por uma gravadora chamada Token. e foi relançado agora em 2011 pela Blue Note, bem maior e melhor distribuição, o amor pela música brasileira persistiu. Trocaram só a capa e corrigiram o “manha de carnival” (leia em http://bit.ly/m9Yu1j).

Mas Stacey não é a pioneira em cantar em português. Quem não se contorceu na poltrona ouvindo uma tonitruante “bonita” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald cantando Corcovado? Velha “tchama”, é ”têrrr” tempo para amar, o Cristo “Redêntor” e outros achados “portuguesísticos” doem nos ouvidos brasileiros. E quando canta Água de Beber? Veja, nada contra a grande dama do jazz que adoro (a propósito, tenho um texto sobre ela em http://bit.ly/mimlrz).

Cantar em português deixou de ser um desafio para intérpretes da língua inglesa. Antes de Stacey, Fleurine (mulher do pianista Brad Mehldau, ambos “fregueses” do Brasil), Susannah McCorkle (leia http://bit.ly/kRy8r2) e Karrin Allyson cantaram em português com muita propriedade.

O charme de Karrin Allyson é comparável ao de Diana Krall
McCorkle, à semelhança de Kent, aprendeu a língua portuguesa (era fluente em italiano) e era ligada nas letras (publicou como escritora vários livros). Stacey foi morar na Inglaterra para fazer um mestrado em literatura comparada e é amiga do nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

O gosto pela música brasileira de Allyson está estampado em dois álbuns: From Paris to Rio – lançado em 1999, há onze anos, portanto – e Imagina: Songs of Brasil (2008). Em Imagina, título escolhido em razão de ter sido a primeira composição de Tom Jobim, que depois recebeu letra de Chico Buarque (isso segundo o que Karrin Allyson escreve nas liner notes), canta a maioria das canções em português, competente, registre-se. E, pelas mesmas notas, ficamos sabendo que a “professora” de português foi a jornalista Lúcia Guimarães. As duas se conheceram numa fila de autógrafos após uma apresentação de Blossom Dearie. Mundinho, não? Veja como as coisas vão se ancaixando.

Como o assunto principal não é exatamente Stacey Kent, ouça Susannah McCorkle cantando Manhã de Carnaval (acho que é a canção que mais postei, em português, inglês, espanhol, instrumental, só falta em russo), e Só Tinha de Ser com Você por Karrin Allyson.




sexta-feira, 6 de maio de 2011

Stacey Kent é um show

Capa do CD relançado
Diferentes manhãs de carnaval. A clássica Manhã de Carnaval é grafada das maneiras mais variadas nos registros feitos fora do Brasil. Uma das mais “diferentes” é a que consta no CD de Jim Tomlinson. Alguns distraídos podem não conhecê-lo: é saxofonista e produtor dos discos de sua mulher Stacey Kent. Consta que a primeira faixa de The Lyric, lançado em 2006, se chama Manha de Carnival. Atenção; em bom português, “manha” de carnaval até seria possível; na hipótese de alguém estar fazendo “manha” (segundo o Aurélio, significa destreza, habilidade, desenvoltura, ou ardil, artimanha, malícia) de (ou) carnaval, ok, tudo bem; mas “manha de carnival” exigiria certa dose de imaginação. Ao brasileiro, “carnival” é meio estranho; tem algo de “carnal” misturado com “canibal”. Serviria até como bom neologismo para a tradicional festa pagã; e em inglês, “evil” (diabo) seria um bom mélange com o vocábulo “carne”, do português.

Em razão da popularidade de Stacey e da constatação inconteste de que é uma das melhores cantoras da atualidade, The Lyric está sendo relançado com capa diferente. originalmente aparecia a imagem desfocada de Jim segurando um sax-tenor, Em letras pequenas tem um “featuring Stacey Kent”, portanto, deve-se considerá-lo um disco do marido. Na versão 2006/modelo 2011, o nome dela tem maior destaque e a imagem é a do casal em um instantâneo de felicidade. Faça-se justiça à senhora Tomlinson: participa de 70% das faixas com sua bela voz. No relançamento, agora pela major Blue Note Records, “consertaram” a ortografia de Manhã de Carnaval.

A ideia do comentário sobre o clássico de Bonfá surgiu por conta das várias grafias e títulos constantes nos discos: Carnaval, Orpheus, Orpheus’ Song, Canción de Orfeo, Carnival e Black Orpheus.

Stacey deveria ter usado um vestido como esse
Uma quase cidadã brasileira. Casualmente, Jim está no Brasil com Stacey. Apresentaram-se na quarta, 4 de maio, na Sala São Paulo, parte da programação da Série TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer) de Concertos Internacionais. Quase perco. Boa, a lembrança do amigo Armênio Guedes.

Kent e Jim tiveram como banda suporte o Trio Corrente, dos brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo elétrico e contrabaixo acústico), e Edu Ribeiro (bateria). Foram eles que abriram a apresentação com Mistura e Manda (Paulo Moura) e Amor Até o Fim (Gilberto Gil). Apresentado pelo pianista, Jim Tomlinson tocou Manhã de Carnaval. Simpático, disse algumas palavras em português – e não pareceu nenhum rock star proferindo palavras decoradas e mal pronunciadas –, e chamou Stacey ao palco.

Cabelos curtíssimos – desde sempre – um vestido preto básico que não compromete e realça a pele branca, começou com um suingado It Might As Well Be Spring. Comunica-se em português com a plateia e emenda um lindísimo Les eaux de mars, a versão de Georges Moustaki para o clássico jobiniano. Do mesmo CD (e de The Lyric), canta Jardin d’hiver, de Keren Ann e Benjamin Boulay – segundo a amiga Vania, que mora há 20 anos na França, o marido da atriz Chiara Mastroianni é uma versão repaginada de Serge Gainsbourg –, e Mi amor, de Claire Denamur.

As demais canções “francesas” são Samba Saravah (Samba da Bênção) e What Are You Doing the Rest of Your Life?, de Michel Legrand. Cabem esclarecimentos: O clássico “afrossambístico” de Baden Powell e Vinícius de Moraes ficou conhecidíssimo cantado por Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme de Claude Lelouch; Michel Legrand é um dos maiores compositores vivos nascidos na França. A letra em inglês é dos Bergman – Alan e Marilyn – versionistas/letristas de alguns clássicos estrangeiros, inclusive brasileiros, como o standard So Many Stars, de Sergio Mendes.

Dirigindo-se ao público em português, a empatia é total. Conta que ela e Jim se inscreveram em uma faculdade americana há três anos para aprenderem a língua. De lá para cá, aperfeiçoaram-se, e muito. Isso, porém, é apenas um detalhe que só abrilhantou uma apresentação impecável composta de um set list maravilhoso.

Alguns momentos foram emocionantes. A interpretação de I’ve Grown Accustomed to His Face, do musical My Fair Lady, e a música de Legrand foram ponto altos, junto de Corcovado, em que Kent empunhou o violão e teve uma bela introdução ao piano com Fabio Torres tocando Retrato em Branco e Preto.

É claro que haveria um bis. Praxe, não? Kent comenta sobre a admiração que tem de ver a plateia brasileira cantar junto dos artistas. Engrena um You’ve Got a Friend, de James Taylor. O público acompanha com palmas ritmadas e cantam o refrão. O último bis é dedicado a outro compositor que ama: Caetano Veloso. Nada como Desde Que o Samba é Samba para coroar um show maravilhoso.

Da próxima vez em que forem se apresentar no Brasil, Stacey e Jim estarão merecendo receber o título de cidadãos brasileiros. Que tal?

A instrumental Manhã de Carnaval e I’ve Grown Accustomed to His Face, cantada por Kent, estão no recém relançado (no Brasil, “lançado”) The Lyric.




quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A segunda vez de Stacey Kent

Por pão-durismo ou por revolta, decidi não pagar 300 reais para assistir à apresentação de Stacey Kent no Brasil, em setembro de 2010, mas estou arrependido. Para se ver alguma atração no Village Vanguard custa 25 dólares, com os artistas no seu nariz. Em São Paulo, no Via Funchal, por 150 reais, você teria o direito de ver Stacey de pertinho, no telão, de binóculos. E tem outra coisa: a atmosfera de intimidade que a voz delicada da cantora sugere não existe na aridez de uma área enorme coalhada de mesas. Parece um salão de bailes, daqueles que existiam aos montes em qualquer cidade do interior. É uma chance, no entanto, se você não estiver em Nova York ou em outro lugar no qual é possível se assistir um show desses. Mesmo num espaço maior como o do Dizzy’s Club Coca-Cola do Jazz at Lincoln Center, localizado num shopping center, onde é possível comer alguma coisa – no Village só servem bebidas –, o ambiente é incomparavelmente mais aconchegante, e mais barato.

É a segunda vez que Stacey se apresenta no Brasil. Na primeira, apresentou-se no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em outubro de 2008. Surpreendentemente, está ficando cultuada pela parcela mais “sabida” dos brasileiros e teve, salvo engano, três discos lançados no mercado tapuia. É bom sinal, apesar de não conseguir imaginar por que não lançam Egberto Gismonti e Keith Jarrett, que teriam tanto apelo de vendas quanto ela. Várias matérias foram publicadas nos principais veículos de comunicação. Foi entrevistada, inclusive, no Programa do Jô. Muitos já estão sabendo que Stacey está aprendendo a língua portuguesa, que o francês é sua segunda língua etc. O que fico sabendo por meio de uma coluna de “fofocas” do Segundo Caderno de O Globo, é que Stacey é vegan, ou seja, além de não comer carne vermelha, não se alimenta de nenhum derivado de origem animal. Ah, por isso é tão magrinha!

Stacey e Jim em segundo plano
Impossível saber, se na casa de Stacey, quem manda é ela ou o marido Jim. No palco, ele sabe bem onde é seu lugar: a cozinha. Diante da plateia, Stacey é a rainha, e os músicos, seus súditos. Jim é o diretor musical e saxofonista da banda e, sabiamente, fica em plano secundário. Lembra um pouco o caso de Julie London. Bobby Troup conheceu a “loura fatal” de Cry Me a River num clube qualquer, apaixonou-se, e viu que tinha uma “bomba de beleza e sensualidade” à espera de ser lapidada. Bobby já era conhecido pianista e compositor (é autor de Route 66, famosa na voz de Nat “King” Cole e, mais tarde na interpretação de Chuck Berry e The Rolling Stones). Em 1955, Julie London lançou um álbum em que é acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel. Explodiu. O mundo descobriu-a e em todo lugar uma cantora era acompanhada por uma guitarra. Bobby virou “o marido de Julie London”. O que se pode especular é se ficou chateado por ter virado “marido”, ou feliz por despertar inveja de todos os homens.

O “plano secundário” não significa de maneira alguma demérito para Jim Tomlinson. Como líder da banda, o saxofonista e flautista soube consolidar um formato de som que, mesmo com trocas de instrumentistas, molda-se muito bem à voz de Kent. Nos primeiros discos, os sons do guitarrista Colin Oxley eram perfeitos adornos para a voz pequena e levemente anasalada dela. Infelizmente saiu. John Paricelli o substituiu. É bom, mas, questão de gosto, Oxley era o “encaixe”. Os arranjos de Tomlinson são elegantes e dosa bem as intervenções de cada instrumentista. Nunca acontecem excessos, nem mesmo da parte de Kent. Em parte, é a razão da música dela parecer tão próxima, íntima do ouvinte.

Prestem atenção na guitarra de Oxley ao ouvir I’ve Got a Crush on You, do álbum Dreamsville.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

“Les eaux de mars”: Jobim por Stacey

A americana Stacey Kent formou-se em Literatura Comparada. Isso não faz dela melhor ou pior que outras cantoras. Mas fará diferença no que for dito mais adiante. Com o intuito de estudar línguas – francês, alemão e italiano –, Kent foi para Londres e ingressou na Guidhall School of Music. E deu no que deu. Conheceu seu futuro marido e parceiro nos discos que gravou até hoje e faz parte do cast da Blue Note Records, uma das poucas “majors” especializadas no jazz nesses fins de tempos dos formatos outrora consagrados para se ouvir e se divulgar a música. Nada contra a internet, que por linhas tortas, dissemina a música por todos os rincões deste mundo. A importunação não é com as gravadoras, que sempre souberam explorar ao máximo seus contratados. É sim com os músicos e intérpretes que assim deixam de receber pelos direitos autorais a que têm direito. A distorção chegou ao ponto em que o produto físico, o CD, se constituía em custo quase zero em relação ao que se gastava em marketing. É por isso, de certo modo, que o público “engole” produtos de quinta categoria como a música sertaneja, cantores ou cantoras em que mais importante são a beleza ou corpos atléticos. Felizmente, uma mulher de rosto comprido, magra, nem especialmente bela, pode se impor no mercado fonográfico. A competência derruba barreiras.

O escritor anglo-nipônico Kazuo Ishiguro, autor de “Vestígios do Dia” (“The Remains of the Day”), fã de jazz, fez parceria com ela e com Jim Tomlinson, seu marido no penúltimo CD, “Breakfast on the Morning Tram”. Em 2009, o Ministério da Cultura da França concedeu-lhe o “Chevalier des Arts et Lettre“. Não fosse pela formação acadêmica, nenhuma das duas coisas aconteceriam.

Stacey acaba de lançar “Raconte-moi…”, com todas as músicas cantadas em francês. É a sua segunda língua, que domina desde criança. E é bem possível que o português se torne a outra. Por seu background acadêmico e por seu interesse pela música brasileira, está aprendendo nossa língua pátria, pasmen, lendo “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, no original. Está sobrando requinte. É essa classe que emana em suas interpretações e que a destaca de outras intérpretes. Não cabe aqui algum preconceito quanto ao talento intuitivo de uma Billie Holiday ou da energia anímica do cantor soul Otis Redding que, dizem, era um quase iletrado.

A primeira música do álbum recém lançado é “Les eaux de mars”, que vem a ser a nossa “Águas de Março”, de Antonio Carlos Jobim. Essa música, imagino, é um ítem de seu “processo evolutivo” para, no futuro, gravar um disco em português (é por isso que deve estar lendo uma das obras capitais da literatura brasileira do autor incensado por Harold Bloom). Numa apresentação que fez no ano passado em Londres, Stacey Kent, depois de cantar uma música de Jobim, perguntou se alguém da plateia falava português. Meu amigo Edemar Viotto Jr., que passou o ano de 2009 fazendo MBA na Inglaterra levantou o braço. A pergunta, pelo jeito, não foi gratuita. Na entrevista que Stacey concedeu a Jotabê Medeiros, de “O Estado de S. Paulo”, relata que está trabalhando com o poeta português António Ladeira e estão compondo algumas canções.
 
O clássico de Jobim tem interpretações clássicas, como a de Elis Regina em “Elis & Tom” e também a do próprio compositor, que é uma obra-prima com um arranjo orquestral estupendo. Se a de Stacey Kent não é melhor, não faz feio. Outra a ser ouvida é a de João Gilberto e Miúcha, com o saxofonista tenor Stan Getz. É uma música, como dezenas de outras de Jobim, que viraram standards e tem sido muito gravada. No mercado fonográfico americano, dentre os que merecem ser registrados estão o do guitarrista/cantor John Pizzarelli, que deve ter vindo ao Brasil quase uma dezena de vezes, das brasileiras Eliane Elias e de Luciana Souza, de Paula West, de Jane Monheit e até de Cassandra Wilson.


Veja e ouça “Águas de Março”.