quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A segunda vez de Stacey Kent

Por pão-durismo ou por revolta, decidi não pagar 300 reais para assistir à apresentação de Stacey Kent no Brasil, em setembro de 2010, mas estou arrependido. Para se ver alguma atração no Village Vanguard custa 25 dólares, com os artistas no seu nariz. Em São Paulo, no Via Funchal, por 150 reais, você teria o direito de ver Stacey de pertinho, no telão, de binóculos. E tem outra coisa: a atmosfera de intimidade que a voz delicada da cantora sugere não existe na aridez de uma área enorme coalhada de mesas. Parece um salão de bailes, daqueles que existiam aos montes em qualquer cidade do interior. É uma chance, no entanto, se você não estiver em Nova York ou em outro lugar no qual é possível se assistir um show desses. Mesmo num espaço maior como o do Dizzy’s Club Coca-Cola do Jazz at Lincoln Center, localizado num shopping center, onde é possível comer alguma coisa – no Village só servem bebidas –, o ambiente é incomparavelmente mais aconchegante, e mais barato.

É a segunda vez que Stacey se apresenta no Brasil. Na primeira, apresentou-se no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em outubro de 2008. Surpreendentemente, está ficando cultuada pela parcela mais “sabida” dos brasileiros e teve, salvo engano, três discos lançados no mercado tapuia. É bom sinal, apesar de não conseguir imaginar por que não lançam Egberto Gismonti e Keith Jarrett, que teriam tanto apelo de vendas quanto ela. Várias matérias foram publicadas nos principais veículos de comunicação. Foi entrevistada, inclusive, no Programa do Jô. Muitos já estão sabendo que Stacey está aprendendo a língua portuguesa, que o francês é sua segunda língua etc. O que fico sabendo por meio de uma coluna de “fofocas” do Segundo Caderno de O Globo, é que Stacey é vegan, ou seja, além de não comer carne vermelha, não se alimenta de nenhum derivado de origem animal. Ah, por isso é tão magrinha!

Stacey e Jim em segundo plano
Impossível saber, se na casa de Stacey, quem manda é ela ou o marido Jim. No palco, ele sabe bem onde é seu lugar: a cozinha. Diante da plateia, Stacey é a rainha, e os músicos, seus súditos. Jim é o diretor musical e saxofonista da banda e, sabiamente, fica em plano secundário. Lembra um pouco o caso de Julie London. Bobby Troup conheceu a “loura fatal” de Cry Me a River num clube qualquer, apaixonou-se, e viu que tinha uma “bomba de beleza e sensualidade” à espera de ser lapidada. Bobby já era conhecido pianista e compositor (é autor de Route 66, famosa na voz de Nat “King” Cole e, mais tarde na interpretação de Chuck Berry e The Rolling Stones). Em 1955, Julie London lançou um álbum em que é acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel. Explodiu. O mundo descobriu-a e em todo lugar uma cantora era acompanhada por uma guitarra. Bobby virou “o marido de Julie London”. O que se pode especular é se ficou chateado por ter virado “marido”, ou feliz por despertar inveja de todos os homens.

O “plano secundário” não significa de maneira alguma demérito para Jim Tomlinson. Como líder da banda, o saxofonista e flautista soube consolidar um formato de som que, mesmo com trocas de instrumentistas, molda-se muito bem à voz de Kent. Nos primeiros discos, os sons do guitarrista Colin Oxley eram perfeitos adornos para a voz pequena e levemente anasalada dela. Infelizmente saiu. John Paricelli o substituiu. É bom, mas, questão de gosto, Oxley era o “encaixe”. Os arranjos de Tomlinson são elegantes e dosa bem as intervenções de cada instrumentista. Nunca acontecem excessos, nem mesmo da parte de Kent. Em parte, é a razão da música dela parecer tão próxima, íntima do ouvinte.

Prestem atenção na guitarra de Oxley ao ouvir I’ve Got a Crush on You, do álbum Dreamsville.

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