Mostrando postagens com marcador Stacey Kent. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Stacey Kent. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 29 de abril de 2026

“A Time for Love” é o título do novo álbum de Stacey Kent

Não é de se estranhar que Stacey Kent tenha se lançado profissionalmente quando tinha pouco mais de 30 anos. Talvez tivesse outros objetivos. Formou-se em Literatura Comparada na Sarah Lawrence College em Nova York. Depois foi morar em Londres e estudou na Guildhall School of Music and Drama. 

Na escola, conheceu Jim Tomlinson, com quem se casaria. Passaram a se apresentar em clubes, que lhe deu uma boa cancha. Quando lançou o primeiro disco, pelo selo Candid, nem parecia uma estreante. Isso fica claro desde a primeira audição de Close Your Eyes (Candid, 1997). Acompanhada por Jim Tomlinson, o guitarrista Colin Oxley, egresso da Guildhall também, o pianista David Newton, Andrew de Jong Cleyndert (baixo) e Steve Brown (bateria), Stacey revelava-se uma intérprete com personalidade logo na primeira faixa: More Than You Know.

Ouça More Than You Know. Quer melhor apresentação da qualidade de Stacey Kent?

De 1997 até 2026 são mais de duas dezenas de discos lançados, todos muito bons. Seu repertório é amplo e variado. É a única cantora que domina vários idiomas com perfeição: em inglês, sua língua nativa, em francês, que aprendeu criança e aperfeiçoou na faculdade, e em português, que aprendeu e aperfeiçoou com o poeta português Antônio Ladeira. A ligação com o português vem, antes de mais nada, de sua paixão pela música brasileira, despertada ao ouvir o álbum Getz/Gilberto (Verve, 1964). 

A surgimento da Bossa Nova foi um acontecimento marcante no cenário musical americano, em proporções diferentes, tanto quanto a do rock britânico, com a primeira excursão dos Beatles.Houve a famosa apresentação dos brasileiros no Carnegie Hall, em Nova York. Foi um sucesso enorme o disco do saxofonista britânico Stan Getz com João Gilberto e Astrud Gilberto. Logo depois todo mundo tocava ou cantava Bossa Nova. Nem o maior cantor de todos os tempos a ignorou. Apresentou Jobim em seu programa de TV e gravou Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim (Capitol, 1967). 

Sinatra não ousou cantar em português. Suas interpretações são com versões de Ray Gilbert. Tom Jobim se lamentou muitas vezes por isso. Tanto Gilbert e outros que fizeram as versões ficaram com 50% dos direitos autorais. Ficaram milionários sem fazer força. Ao contrário de Sinatra, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, as maiores cantoras da geração, resolveram cantar algumas composições em português. Por mais geniais que foram, dói nos ouvidos. Em anos mais recentes temos intérpretes americanos que cantam em português, como Kurt Elling, Diana Krall, Carol Welsman, Esperanza Spalding e Gretchen Parlato, até com certa competência. Mas, como Stacey, ninguém. 

A paixão de Kent pelo Brasil é recíproca. Deve ter feito ao menos uma dezena de apresentações aqui. Fora isso tem álbuns com Marcos Valle (Live at Birdland – New York City, 2013 e Ao Vivo Comemorando 50 anos de Marcos Valle) e Roberto Menescal (The Changing Lights, 2013). 

Desde a pandemia da Covid (2020-2023), Stacey tem lançado discos com menor frequência. Nesse período, em dezembro de 2021 saiu Songs from Other Places, acompanhada apenas pelo marido e produtor Jim Tomlinson – sax e flauta – e o pianista Art Hirahara.

Summer Me, Winter Me é de 2023. A base continua a mesma, dessa vez acrescida de uma banda e uma formação camerística em alguns números.Nesse álbum, que mereceria uma postagem separada, tem algo que merece uma observação. Summer Me, Winter Me, Under Paris Skies, If You Go Away são versões em inglês de canções francesas. A última faixa é Ne me quite pas, de Jacques Brel, a versão original de If You Go Away.

Grande interpretação do clássico de Jacques Brel, com o belo piano de Art Hirahara.

Maturidade. Em março completou 61 anos. É uma idade em que não é mais preciso prestar satisfação a ninguém. O tempo pode correr mais lento (ou não) e é possível deixar a pressa de lado. 

A combinação com a gravadora era de que um novo álbum seria lançado em 2025. Aconteceram alguns contratempos. Por ter sido anunciado nas redes sociais, a solução foi a de lançarem singles em um EP intitulado A Little Time for Love enquanto não se completassem as gravações. Finalmente, em abril de 2026 disponibilizou-se A Time for Love.

Pelo título, fica clara a concepção. É intimista. Segue a linha de Some Other Places. Kent é acompanhada apenas por Jim Tomlinson e Art Hirahara. O ecletismo dela não se resume apenas ao repertório, em que convivem música francesa, brasileira, italiana e de língua inglesa. Como vários outros intérpretes contemporâneos, incorpora músicas compostas depois dos anos 1960, quando o jazz e os musicais do teatro americano deixam de ser tão populares. No disco recente, o standard mais antigo é Lucky to Be Me, de Leonard Bernstein, Adolph Green e Betty Comden, de 1944. The Shadow of Your Smile e A Time for Love, ambas do genial Johnny Mercer e letra de Paul Francis Webster, são da década de 1960, respectivamente, de 1965 e 1966. Trains and Boats and Planes, de Burt Bacharach e Hal David, é de 1965

As associadas ao pop são God Only Knows, de Brian Wilson, e  As, de Stevie Wonder, do clássico Songs in the Key of Life (1976). Sobre incluir temas não considerados standards, Kent, em entrevista feita por Sergio Martins (OESP, 25/04/2026), afirma: “Tinha acabado de me apresentar no Ronnie Scott’s, em Londres, quando um senhor chamou a minha atenção por eu ter cantado You’ve Got a Friend, de Carole King – uma música que adoro e há tempos faz parte do meu repertório. Ele disse então que Billie Holiday jamais teria interpretado You’ve Got a Friend. Respondi então que ela nunca gravou porque trata-se de uma canção que foi composta doze anos depois da morte dela. Mas provavelmente faria parte do repertório de Billie caso ainda estivesse viva. Porque é uma grande música e Billie era uma intérprete tão comovente que certamente se interessaria por You’ve Got a Friend.”

Nas composições que não são na língua inglesa, Stacey revisita La javanaise, de Serge Gainsbourg, canta E la Chiammo Estate, de Bruno Martino, e Carinhoso.

É difícil destacar as melhores. Na minha opinião, vale destacar God Only Knows – a primeira vez que a ouvi com um cantor associado ao jazz foi com John Pizzarelli em uma apresentação no Bourbon Street há mais de quinze anos –, Trains and Boats and Planes, What Goodbye Is For, única do marido Jim Tomlinson,  As, de Wonder, a mais animada do disco, La javanaise, com o duo teclado e flauta, e, naturalmente, Carinhoso.

Uma última observação. Stacey Kent é cantora de voz pequena, sem arroubos. É a sua grande qualidade. Em uma publicação no Facebook dia que sua voz é a pela qual se expressa. “Existe o canto operístico, existe o canto folk, existem todas essas diferentes abordagens para a voz humana. […] é ótimo que existam. A minha é mostrar a minha voz natural. O estilo é uma abordagem muito natural, e isso porque a minha metaé alcançar as pessoas de uma forma muito humana e direta. Mas isso me lembra certas coisas, como a maneira como um pai ou mãe fala com o filho, como um amigo íntimo fala com alguém próximo. É essa linha direta entre as pessoas”. Perfeito, não. Stacey nos toca diretamente, como se estivesse cantando para nós, humanos encantados por ela.

Ouça o novo álbum.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O sonho real de Stacey Kent

A única razão para que Stacey Kent não estar entre as cinco mais votadas na classificação ‘female vocalist” é porque não mora nos Estados Unidos. Natural desse país, mudou-se para a Inglaterra por conta de uma pós-graduação em literatura comparada. Além de ótima cantora, de voz pequena, em seus álbuns, pesa sua formação acadêmica. É amiga de Kazuo Ishiguro, o mais recente laureado com o Prêmio Nobel de Literatura. Grande fã de jazz, autor de artigos sobre o assunto na imprensa britânica, a aproximação entre os dois aconteceu de forma natural. Ishiguro é autor de várias letras, em parceria com Jim Tomlinson, marido e saxofonista/flautista de sua banda.

O interesse pela língua portuguesa aproximou-a do poeta António Ladeira, que virou seu professor e dividiu autorias de algumas canções. A riqueza musical é evidente comparando-se com a trajetória da maioria de suas “concorrentes”. Seu repertório não se resume aos standards do cancioneiro americano. Além de composições de Tomlinson, seu parceiro musical e marido, Kent canta músicas em português e em francês com a perfeita compreensão do que interpreta. Tem o francês como segunda língua e tornou-se fluente em português.

Em suas inumeráveis estadas no Brasil, fez shows, apresentou-se com Marcos Valle, com o Trio Corrente e arrumou um parceiro fabuloso: Roberto Menescal. Com 80 anos completados, é uma referência não só pelo protagonismo na Bossa Nova, mas por ser um dos grandes difusores da música brasileira mundo afora. Em sua penúltima incursão no mercado fonográfico, Kent com ele. O violão e a guitarra dele é inconfundível e genial em “Tenderly” (Okeh/Sony 2015). Ninguém captou tão bem como ela a alma do cancioneiro da música brasileira, e não se resume apenas à Bossa Nova. Em francês, é a mesma coisa: quando interpreta Léo Ferré ou Serge Gainsbourg, compreende exatamente os versos desses compositores.

É o que está mais que provado no recente “I Know I Dream | The Orchestral Sessions”, lançado em outubro do ano passado. As orquestrações arranjadas por Tommy Laurence, e regidos por Richard Balcombe são discretas e nunca competem com a voz de Stacey, que se transforma como que um instrumento a mais. Para aquele que a conhece desde “Close Your Eyes” (Candid), lançado há 20 anos, à primeira vista, pode parecer mais do mesmo, pois Kent estava pronta desde a sua estreia fonográfica. O que se percebe é uma sofisticação cada vez maior na arte de interpretar, a buscar a perfeição por meio de detalhes e sutilezas.

As músicas constantes de “I Know I Dream”, quase todas cantadas anteriormente. A voz pequena salta aos ouvidos e a elegância na abordagem das brasileiras “Double Rainbow”, “Photograph”, “To Say Goodbye”, “Mais Uma Vez”, “The Changing Lights”, “The Ice Hotel”, “Bullet Train”, “I Know I Dream”, “Make It Up”, estas diuas, salvo engano, inéditas, de Jim Tomlinson em parcerias com António Ladeira, Kazuo Ishiguro e Cliff Goldmacher, “That’s All”, de Bob Haymes e Allan Brandt, “La rue Madureira”, de Nino Ferrari, Paule Zambernardi, em francês, como “Les amour perdue”, de Serge Gainsbourg, e “Avec les temps”, do grande Léo Ferré, fazem desse CD uma obra de arte. Não foi à toa que recebeu 5 estrelas pela Downbeat.

É por esta que começamos a ouvir Stacey.



Ouça “Les amour perdues”, de Serge Gainsbourg.




Ouça “Photograph”.



Ouça “Double Rainbow”.

terça-feira, 22 de março de 2016

O momento relax de Stacey Kent

Stacey Kent e Roberto Menescal
A ausência de uma bateria faz uma diferença danada. Principalmente, se for com Stacey Kent. Sua voz é um convite para refestelar-se no sofá bebendo um vinho, o que não significa, de modo algum, que seja “easy listening”.

O que a diferencia da maioria das outras cantoras é a sua formação e de como isso influenciou sua trajetória profissional. Formada em Literatura, mudou-se para a Inglaterra com o intuito de fazer Literatura Comparada. Estudou na London's Guildhall School of Music and Drama, onde conheceu Jim Tomlinson, com quem se casou. Foi o que ajudou-a a escolher o que ia fazer.

Lançou o primeiro disco em 1997 pelo selo Candid. No círculo londrino, apresentou-se em clubes tradicionais como o Cafe Boheme e no Ronnie Scott’s. Depois de seis álbuns bem sucedidos por esse selo, ganhou notoriedade maior com Breakfast on the Morning Tram.

Até então, cantando basicamente standards do cancioneiro americano, no primeiro álbum pela Blue Note, as transformações são significativas. O interesse pela literatura e a amizade com o premiado Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do Dia (Remains of the Day), inauguram a parceria de escritor com Jim Tomlinson.

Kent e Ishiguro
Obviamente Kent tinha lido livros de Ishiguro e o admirava. Ishiguro, fã e grande conhecedor de jazz, convidado a participar do programa de rádio ”Desert Islands Discs”, tinha de elencar suas oito canções favoritas. Billie Holiday e Ella Fitzgerald, com certeza, estavam na lista. Incluiu Stacey Kent. Tendo-a visto cantar uma vez e ouvido dois de seus discos, sentiu algo de especial na forma em que interpretava clássicos que tanto admirava desde jovem.

Kent, ao saber disso, resolveu escrever uma carta agradecendo-o, dizendo que gostara muito de Remains of the Day e Never Let Me Go. Esse título é uma clara evidência de seu gosto pelo jazz; é o nome de conhecida composição de Jay Livingston e Ray Evans. Passaram a corresponder-se por e-mail. A cantora pediu-lhe um texto para as “liner notes” do álbum que faria com músicas de autoria de Richard Rodgers, In Love Again (Candid Records, 2002). Nasceu assim, lembrando Casablanca, uma bela amizade e uma grande parceria.

Em Breakfast on the Morning Train (Blue Note, 2007), das doze canções do disco, quatro são com letras de Ishiguro e música de Jim Tomlinson, marido e saxofonista de Stacey. Nesse álbum, evidencia-se seu interesse crescente pela música brasileira e pela francesa. So Many Stars, de Sergio Mendes, e Samba Saravah, composição de Baden que recebeu enorme acolhida na França depois de Pierre Barouh tê-la cantado em Um Homem e Uma Mulher, eram as “brasileiras”, ou melhor, de brasileiros. Além delas, dentre outras, fazem parte Never Let Me Go – referência a Ishiguro, imagino – e duas composições de Serge Gainsbourg.

Dentro dessa linha de desenvolvimento, seu próximo CD, Raconte moi… (Blue Note, 2010) é composta de músicas cantadas em francês, sendo algumas de autoria de Benjamin Biolay, considerado o Gainsbourg da nova geração. Duas, apesar dos títulos em francês são as exceções: Les eau de mars (Águas de Março) e C'est le Printemps (It Might As Well Be Spring).

O propósito de aprender português por Jim e Stacey era sério. Vieram ao Brasil várias vezes e tiveram como “professor particular” o poeta português António Ladeira. Em Changing Lights (Parlophone, 2013), 70% do disco é de música, vertida ou não, de autores brasileiros ou portugueses, no caso, Ladeira que, além de professor, tornou-se parceiro em Mais Uma Vez, Tarde e Chanson Légère, com Tomlinson. Pelo lado brasileiro estão Tom Jobim, João Bosco, Marcos Valle, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Contam também com mais três com letra de Ishiguro.

Tenderly
Depois de álbuns com várias referências literárias, músicas cantadas em três línguas diferentes, composições próprias, temas mais contemporâneos, Stacey resolveu dar uma relaxada. Tenderly é composto de clássicos do repertório americano.

Em comemoração aos 50 anos da carreira, Marcos Valle gravou um belíssimo álbum com Stacey, lançado em 2013. Em Changing Lights, há a participação de Roberto Menescal em dois números tocando violão.

Menescal, antes de tornar-se executivo na gravadora Philips, foi um dos fundadores do movimento da bossa nova. Autor de inúmeros clássicos, em sua maioria, em parceria com Ronaldo Bôscoli, nunca deixou de ser músico. Depois de sair da Philips, montou o estúdio Albatroz com o filho. Misto de produtor, músico e compositor, é o maior responsável pela propagação da bossa nova. Admirado por cantoras, que adoram tê-lo ao lado na condição de acompanhante e parceiro, lançou muitos discos no mercado japonês e é, com certeza, com seu jeito relaxado e despretensioso, um dos gênios da música. Seu jeito de tocar o violão e a guitarra elétrica, sem efeitos, abrilhantam qualquer música.

Ao vê-lo casualmente em de suas inúmeras vezes em que veio ao Brasil, no show Cristo Redentor 80 Anos exclamou: “Roberto!”; ao que ele respondeu: Stacey!” Depois, passaram a se comunicar com frequência. Stacey o queria para alguns números de Changing Lights. Ligou para ele. Menescal contou que, quando Tom Jobim ligava, já sabia que queria encontrá-lo. Antes que Tom completasse alguma frase, respondia: “Tô indo”. Sabia que era por isso que Tom ligara. Terminando de contar a Stacey, respondeu: “Estou indo.”

Em Tenderly, a participação de Menescal foi diferente. Tocando guitarra elétrica, com Jim Tomlinson no saxofone tenor e na flauta, e Jeremy Brown, propuseram-se a fazer um disco de standards. A única exceção é Agarradinhos, de Menescal e Rosália de Souza. A escolha do título é em razão do elo de Tenderly com o Brasil. O primeiro intérprete da hoje conhecidíssima composição de Jack Lawrence e Walter Gross, foi Dick Farney, quando morou nos EUA.

Tenderly, cinco estrelas pela publicação The Guardian e quatro estrelas pela Downbeat, como disse acima, é um daqueles discos tranquilos e tremendamente prazerosos de se ouvir. Menescal, com a experiência de meio século acompanhando cantoras e o talento natural, é cúmplice desse clima. Tem um modo tranquilo de tocar, é um carioca da praia, de fala mole, que adora o mar. Gosta tanto que só se chega ao seu estúdio de barco. Ele transpira esse sossego. Jeremy Brown é um acompanhante discreto no contrabaixo acústico, Jim é exato em seus comentários musicais no sax tenor e na flauta. E Stacey, é Stacey. Sua voz pequena é sempre elegante e suas intervenções em canções que o mundo já cantou, sempre trazem algo original. Não é à toa que Kazuo Ishiguro a escolheu, com Billie Holiday e Ella Fitzgerald para o seu “desert island discs”.


Ouça Embraceable You.



If I’m Lucky é um dos destaques.



Tenderly, a música título, é excepcional com Kent e Menescal.



Ouça In the Wee Small Hours of the Morning.



Não poderia faltar Agarradinhos.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Quatuor Ebène, Stacey Kent: o molho que talhou

Antes de entrar na FAU cursei seis meses na Faculdade de Arquitetura de Santos. Conheci por meio de outro amigo, no vestibular, o Evaristo, ou melhor, o Tinho, como era chamado pelos amigos. Não entrei na USP e em Santos entrei em 20º lugar, por pura sorte. O Tinho também havia sido aprovado lá. Propôs-me dividir um apartamento minúsculo que pertencia a uma tia. A única despesa que teríamos era o condomínio, rachado em dois. Aceitei prontamente. Óbvio.

Nos dias de hoje, são oferecidos apartamentos com menos de 40 metros quadrados por 300, 400 mil reais. Há 30 anos era moradia de pobre, favelados ou solteiros de poucas posses. Esses cubículos eram chamados de quitinetes, uma aportuguesada da palavra “kitchenette”. Você notou a palavra “kitchen”? Pois então, quitinetes eram apartamentos quarto e sala, banheiro e cozinha, evidentemente. O tal “quarto e sala” significava que a sala fazia as vezes do quarto. De dia, o sofá era sofá; à noite, era cama. Como éramos em dois, eu dormia no chão sobre um acolchoado que, de dia, ficava encostado na parede. Nessa precariedade, cheios daquela generosidade juvenil, aceitamos o João Fernando, calouro como nós na faculdade, que não tinha onde ficar, como hóspede temporário. Lá veio o João com a sua mochila e uma prancha de surfe que tomou metade do espaço da cozinha.

Ele ficou quase dois meses lá. Com mais posses que nós, estava sem lugar para morar, mas seu pai já estava negociando a compra de um apartamento em São Vicente, cidade colada a Santos. Antes de mudar-se, disse que ia preparar um jantar em agradecimento e gratidão por nossa hospitalidade. Disse-nos que seria por sua conta. Não teríamos de fazer nada. Cuidaria de tudo, inclusive do preparo. Tínhamos voltado da faculdade e vimos o João Fernando chegar com dois sacos enormes de supermercado. Antigamente, não existiam esses sacos plásticos leitosos. Usavam-se sacos de papel kraft. Não sei por que, nessa discussão ambiental sobre os males dos plásticos, não resgatam o papel.

Fernando, como o chamávamos, foi direto para a cozinha. Estávamos autorizados a entrar quando a comida estivesse pronta. O “banquete” fora preparado em um panelão de alumínio. Pronto, ao olharmos para aquilo, ficamos um tanto desconcertados. Naquele caldo de cor indefinida boiavam nacos de palmito, metades de pêssego em calda, azeitonas pretas, alfaces, pedaços de chocolate e mais algumas coisas das quais não irei lembrar agora. Agimos como pessoas bem educadas. Aquilo era intragável. Em pouco tempo, aquilo começou a exalar um cheiro estranho. A única coisa comestível eram os pedaços de chocolate, que preservaram o sabor original. O resto, imagine uma folha de alface com gosto de calda da azeitona, do palmito e dos pêssegos juntos.

O Fernando ficou chateadíssimo, a ponto de termos que consolá-lo. Ele tentava explicar. Foi ao mercado e comprou tudo o que mais gostava. Na sua cabeça, juntá-los resultaria em uma comida deliciosa. Gostava de pêssego em calda, jogou na panela os pêssegos… e a calda; gostava de azeitona, jogou-as com o caldo salgado. Junte-se folhas de alface, pedaços de algumas hortaliças e ainda chocolate. Conseguiu imaginar? Não, né? Era tão horrível que jogamos na privada. O Fernando era a expressão da pureza. Aquele jantar era a expressão de suas boas intenções. Parecia viver em outro mundo. Naquele tempo a onda da “geração saúde” ainda não havia chegado. Nossos colegas fumavam maconha de manhã, de tarde e de noite, fora outras drogas mais pesadas que circulavam bastante pela faculdade. Mas o Fernando já era “geração saúde”. Era engraçado vê-lo, enquanto muitos tomavam bebidas alcoólicas nos intervalos no bar da frente, vertendo um litro inteiro de leite que, à época, eram vendidos em embalagens de plástico mole. E, também, era o único surfista que conhecíamos que não sabia nadar.

Stacey Kent e o Quatuor Ebène
Reunir duas coisas boas nem sempre resulta em algo melhor ainda. Lembrei-me do jantar do Fernando ao ouvir Brazil, álbum do Quatuor Ébène com a participação de Stacey Kent, lançado em maio. A Erato, conhecida gravadora francesa especializada em música erudita, assim como a Deutsche Grammophon e outras grandes gravadoras têm investido em registros crossover como uma maneira de ampliar seu espectro de vendas. Brasil pode ser considerado um crossover world music. Meses antes deste, a Erato lançara um álbum interessantíssimo intitulado Rio Paris, com um encontro inusitado de Natalie Dessay, Agnès Jaoui, Liat Cohen e Helena Noguerra (clique aqui). A expectativa de um álbum reunindo uma ótima cantora e um quarteto de cordas fantástico era de que o resultado ficasse ótimo.

Não é a primeira aventura do Quatuor Ébène fora da música erudita. Formada por jovens músicos, lançaram em 2010, Fiction, onde misturam jazz (Lilac Wine, conhecida na versão de Nina Simone, em Fiction, belamente interpretada pela atriz Fanny Ardant, e Unriquited, de Brad Mehldau, Smile, de Charles Chaplin, Footprints, de Wayne Shorter, Nature Boy, de eden ahbez, e uma releitura de Over the Rainbow), temas mais recentes como Come Together, de Lennon e McCartney, Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen, e Calling You, música tema de Bagdah Cafe, e Corcovado, de Antônio Carlos Jobim.

Capa de Brazil
Imagino que o produtor, ao conceber o disco, pensou em intérpretes que tivessem ligação com o Brasil. Os dois “estrangeiros brasileiros” são Stacey Kent e Bernard Lavilliers. Stacey é bem conhecida entre nós e até ela, provavelmente, perdeu a conta do número de vezes que esteve entre nós. Bernard, imagino, poucos o conhecem. Eu, pelo menos, nunca tinha ouvido ele cantando até então. Minha amiga Vania N, que morou por mais de 20 anos em Paris, disse-me que é uma espécie de Roberto Carlos francês.

Bernard Lavilliers tem uma biografia interessante. O pai fez parte da Resistência na Segunda Guerra Mundial e foi trabalhar em uma indústria de armas. Com 15 anos, foi parar na Febem francesa. Anos depois, Bernard afirmaria: “Não sei se era gângster, boxeur ou um poeta.” Com 18 anos, filiou-se ao PC francês. Com 20 anos, mudou-se para o Brasil. Ficou um ano. Essa é a ligação inicial com o Brasil. Quando voltou, teve problemas com a justiça novamente. Livre, começou a cantar em nightclubs, e em 1968 lançou o primeiro disco. Bom comuna, nos eventos de maio, cantou em fábricas.

O espírito aventureiro e viajante voltou a se manifestar. Comprou um barco e passou um tempão viajando por terras americanas. Passou por Nova York, Jamaica e Brasil, novamente. Quando voltou, lançou um CD com boa acolhida e boas vendas: Ó Gringo. Uma das canções foi inspirada na figura do cangaceiro Lampião. Em sua saga exploradora foi parar no Líbano, Jamaica, Nicarágua, em países africanos e asiáticos.

Pois Ó Gringo é a faixa que abre Brazil. Encantado com a vida aventureira de Lavilliers, a ligação com o PC francês e a ligação estreita com o grande Léo Ferré, minhas boas expectativas se frustram um pouco. Ó Gringo é algo como uma “bossa nova do branco doido”. Sem desconsiderar as boas intenções do francês, há algo da visão “turística” do Primeiro Mundo sobre o Terceiro – ah, somos Segundo ou Terceiro? – em suas notas no encarte: “Poderia encontrá-los [o Quatuor Ébène] em Manaus, nas profundezas da selva amazônica tocando Mozart em um teatro cópia do Opera de Paris, em enormes cipós e trepadeiras. Poderíamos estar embriagados pela caipirinha em Salvador ou no Rio, enquanto ficávamos a admirar as vistas e os sons do carnaval tocando riffs sobre hits de Jorge Ben, rodeados de mulheres nuas.” Não importa se ele morou no Brasil ou tenha estado aqui inúmeras vezes, mas, convenhamos, é um olhar folclórico sobre nós. O triste é de que deve ser isso mesmo o que os estrangeiros interpretam como sendo o Brasil.

Com Stacey é diferente. Sua aproximação com o Brasil, mais especificamente com a língua portuguesa, é menos folclórica. São provas belíssimas interpretações cantadas em português e até composições com letras do poeta português António Ladeira e música de Jim Tomlinson. Não é mera coincidência que os melhores momentos do álbum sejam os que contam com participação da americana sediada na Grã-Bretanha. Não é a primeira vez que grava So Nice e Águas de Março. Na composição de Jobim, tem a voz do compositor de So Nice. Stacey conheceu Valle e Não é a primeira vez que grava o clássico Smile, de Charlie Chaplin, muito menos The Ice Hotel, original de Tomlinson com letra do romancista Kazuo Ishiguro.

Um dos pontos altos de Brazil é Bebê, composição de Hermeto Pascoal. I Can’t Help It, original de Stevie Wonder, Fragile (Sting) e Ana Maria (Wayne Shorter) são registros medianos. Outro destaque é Libertango, interpretado pelo Quarteto. Muito bom mesmo. Os pontos baixos, na minha opinião, são Guitar Song, Salomé, ambas – coincidência? – de Lavilliers, e Brazil (Aquarela do Brasil), de Ary Barroso, em uma interpretação estilo “samba do crioulo branco”, bem chata, triunfante, um tanto pretensiosa em fundir climas diferentes em pouco mais de sete minutos.

So Nice é um dos destaques do CD. Seu autor, Marcos Valle participa nos vocais em Águas de Março.




Veja o ensaio do Quarteto e Kent de Fragile, de Sting.




Esta não está em Brazil. É a participação de Stacey e Jim Tomlinson no saxofone tenor em Fiction (Erato, 2010). Veja-os em Corcovado.


terça-feira, 17 de setembro de 2013

The Changing Lights, o disco mais brasileiro de Stacey Kent

A capa do novo CD de Stacey Kent
Tem tempo ainda. No dia 4 de dezembro, Stacey Kent se apresentará no clube novaiorquino Birdland, em comemoração ao lançamento de The Changing Lights. O ingresso custa 45 dólares e consumação mínima de 10, valor bem mais modesto que os 400 reais mais 85 de taxa de conveniência do show da cantora que aconteceu em novembro do ano passado no Teatro Reanault, antigo Paramount, em São Paulo (leia http://bit.ly/16eP2r4). Com a diferença que é no Birdland e, apesar do frio, é sempre bom caminhar pelas ruas de Nova York.

Ontem, 16 de setembro, foi o lançamento oficial do último CD de Stacey Kent. De tanto vir para cá, realiza seu álbum “mais brasileiro”, apesar de ter sido gravado em Sussex, Inglaterra, e contar com apenas um brasileiro no lineup. A língua portuguesa e as referências a nossa música têm sido uma constante em seus trabalhos mais recentes.

Stacey não possui a voz marcante de Sarah Vaughan, nem a potência de Carmen McRae, e talvez por isso, saiba usá-la como ninguém. Sua voz é pequena e complexa. Ao contrário de outras, conhece o que canta. Não basta ter uma bela voz para ser bom intérprete. Com impressionante humildade disse que ainda trabalha a voz: “Tento cantar o melhor que eu posso, simplesmente, porque é a minha profissão e minha razão de ser.”

Nada melhor do que alguém com Stacey para interpretar canções como This Happy Madness (Estrada Branca), One Note Samba (Samba de Uma Nota Só) e Insensatez (How Insensitive), de Antônio Carlos Jobim. Os outros brasileiros presentes no álbum são Dori Caymmi (Like a Lover), Marcos Valle (The Face I Love) e Roberto Menescal (O Barquinho). Toca violão na música de sua autoria e em A Tarde, de Jim Tomlinson e o poeta António Ladeira. O português é parceiro também em Mais Uma Vez. São duas canções belíssimas, melancólicas e poderiam passar por brasileiras facilmente, apesar de compostas por um inglês e um português.


Ouça A Tarde. As duas de Ladeira são cantadas em português.




Como Stacey formou-se em Letras nos EUA e foi fazer um curso de Literatura Comparada na Inglaterra (dê uma busca por “Stacey Kent” no blogue; como é uma das minhas preferidas, publiquei vários textos sobre ela), é natural seu cuidado com os “letristas”. Mais que letristas, os parceiros são escritores. Além de António Ladeira, Stacey e Jim são próximos a Kazuo Ishiguro. Nascido no Japão, escreve em inglês e é considerado um dos grandes da atualidade. A ligação vem de gostos em comum: o jazz e a literatura. A parceria foi iniciada em Breakfast in a Morning Tram. Das doze canções desse álbum, quatro são com letras de Ishiguro. No CD lançado ontem, é parceiro de The Summer We Crossed Europe In The Rain e Waiter, Oh Waiter. Aliás, “garçom, seo garçom!”, é bem brasileiro. E a música também. Ouça:




Se você é fã de Stacey e de MPB, não deixe de ter esse CD. Tudo é muito brasileiro, até Chanson Légère, de Bernie Beaupère, outro parceiro “reincidente” e Smile, de Charlie Chaplin, com introdução instrumental com o tema de O Bêbado e o Equilibrista. Confira.




Veja o teaser de The Changing Lights.




Ouça Samba de Uma Nota Só.



Ouça um trecho de Estrada Branca.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Marcos Valle lança disco com Stacey Kent para comemorar os 70

Stacey Kent na casa de Marcos Valle
Se não existe destino, pelo menos, pode se crer que o mundo se move por meio de acasos, por felizes ou infelizes coincidências. Marcos Valle transitava com seu carro pelas ruas do Rio de Janeiro e ouviu uma voz que lhe chamou atenção no rádio. Chegou em casa e não saiu do carro curioso em saber o nome da cantora.

Dias depois, foi convidado a participar de um show em homenagem aos 80 anos do Cristo Redentor. Ele cantaria com uma cantora que muito o admirava. Seu nome: Stacey Kent. Era a mesma que ouvira no rádio. Ela e o marido, o saxofonista Jim Tomlinson jantaram na sua casa e a empatia foi imediata. Isso aconteceu em 2011.

A casa de shows Miranda, no Rio, entrou em contato com Marcos para agendar uma apresentação, com a ideia de que este tivesse um convidado especial. Logo pensou em Stacey. Depois apresentaram-se em São Paulo e Fortaleza.

O show na casa situada na Lagoa Rodrigo de Freitas foi gravado e lançado em 2013, e torna-se o disco que comemora os 70 anos de Marcos que serão completados no mês de setembro. Os acompanhantes são de sua banda – Luiz Brasil (violão), José Sadoc (trompete), Alberto Continentino (baixo), Marcelo Martins (sax e flauta), Aldivas Ayres (trombone), e Renato Massa (bateria) –, com Valle nos teclados e Jim Tomlinson no saxofone tenor. O resultado não poderia ter sido melhor. Num clima relaxado, de um encontro entre amigos, o resultado é excepcional. 

Fazem parte do programa, evidentemente, os clássicos Samba de Verão (So Nice) e Preciso Aprender a Ser Só (If You Went Away) e outras menos previsíveis.  

Ouça Marcos Valle e Stacey Kent em Ao Vivo Comemorando 50 anos de Marcos Valle.



Assista a uma das performances dos dois no clube Birdland, Nova York. Amando Demais.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

De ollho em Kat Edmonson

O estilo Jean Seberg de Kat Edmonson
Entro na busca do Google e acesso a Wikipedia de Kat Edmonson. São quatro linhas no total. Se a quantidade de texto sinaliza o quanto alguém é conhecido, a conclusão é a de que poucos a conhecem.

Ter um contrato de distribuição por uma “major” como a Blue Note ou a Verve ajuda em muito; até por uma menor como a HighNote, a Concord ou a Savant. Os“gargalos” se inverteram. Antes, a hora estúdio era caríssima. Com o barateamento e miniaturização dos equipamentos ficou fácil montar um estúdio caseiro de 16 ou 32 canais. Com um PC, um programa como o ProTools, uma sala com bom isolamento acústico, pronto: está montado. Ficou fácil gravar e disponibilzar música na internet. Diivulgação é importante. As majors passaram a investir pesadamente em marketing disponibilizando milhões de dólares para uns poucos como Madonna e Michael Jackson em prejuízo aos produtos de menor apelo de venda. Mesmo assim, a boa música mantém seu nicho. Formadores de opiniões, um certo público menos “low brain” e bom poder de compra lotam ainda salas de óperas e de concertos, e espaços dedicados à música. Grandes empresas financiam centros como a Sala São Paulo, no Brasil, Lincoln Center e o Metropolitan Opera.

Um tanto à margem, artistas em início de carreira sofrem. Um intérprete desconhecido pode registrar sua música facilmente e, com um pouco de dinheiro, lançar uma tiragem de CDs e disponibilizá-lo na loja do iTunes. É um trabalho de formiga que pode dar frutos. Existem hoje milhões de CDs designados como “self release”. Se for bom, o poder multiplicador do boca a boca, sua divulgação em blogues e sites, funcionam.

Outra coisa que influencia é a geografia. Não é à toa que muitos músicos se mudam para centros como Nova York, Londres ou Paris. Faz diferença morar em Seattle, Akron ou Athens; se bem que nem tanto para Kurt Cobaim, Dan Auerbach e Michael Stipe. Kat nasceu em Dallas, Texas, e reside em Austin. Se morasse em Nova York estaria se apresentando com frequência nos inúmeros clubes locais de jazz. Facilitaria.

Além de estar baseada em Austin, seu primeiro disco, Take to the Sky (2009) é “self released”: montou a Convivium pra distribuí-lo. Mesmo assim, alguns críticos estavam atentos, caso de Christopher Loudon, da prestigiada JazzTimes.

No disco de estreia não faltam os costumeiros standards (Summertime, Night and Day, Charade, Angel Eyes, Just One of Those Things e Spring Can Really Hang You Up the Most). Até aí, normal, não é assim na maioria dos discos de intérpretes desse gênero? O resto das canções escolhidas fogem bem do repertório costumeiro: Just Like Heaven, do The Cure, do britânico Robert Smith, Lovefool, dos Cardigans, One Fine Day, de Carole King, e (Just Like) Starting Over, de John Lennon. Edmonson não foge à regra dos cantores atuais: são “in and out”, transitam entre o jazz e o pop. Quanto a voz, parece um pouco com a de Stacey. O registro é o que chamam de “child-like”. Uma das pioneiras foi a pianista/cantora Blossom Dearie. Quem gosta de Stacey vai adorar Kat.

As instrumentações são bem originais. Os arranjos do tecladista Kevin Lovejoy são elegantes e realçam o canto sofisticado de Kat e fogem dos padrões do mainstream.

Veja-a cantando Charade.




Cantando Angel Eyes.




Summertime.




(Just Like) Starting Over, de Lennon. Kat canta num andamento mais lento. Funciona bem. As originais do disco são, evidentemente, um pouco diferentes.




Kat demorou para lançar seu segundo álbum. No meio de 2012 saiu Way Down Low. Desta vez não há um standard. A mais antiga, de 1940, Whispering Grass, conhecida com os Ink Spots, não é exatamente um clássico, mesmo depois de ter sido gravada pelo beatle Ringo Starr. Outra conhecida é I Just Wasn't Made for These Times, de Brian Wilson (é uma das faixas do clássico Pet Sounds).

Quem nunca ouviu Kat vai se surpreender com Lucky. A batida constante do martelo do vibrafone, assobios e vocais letárgicos conferem um clima de uma canção de ninar. I Don’t Know vai mais ou menos na mesma toada com uma batida bem marcante. O clima fica mais solar em delicioso clima bossa nova – batidas delicadas de bateria combinando com o ritmo do violão e notas esparsas do piano de Frank LoCrasto – em What Else Can I Do. A quarta, dos Beach Boys, é melancólica. O arranjo é de uma sofisticação tremenda: econômica e emocionante, e a voz de Kat, “dolorida” é a afirmação de Brian Wilson: “Só não fui feito para esses tempos”. É um dos destaques desse CD.

Em Champagne, Kat diz nunca mais vai beber. O tom de Whispering Grass é um pouco diferente da versão dos Ink Spots: a tristeza é tristeza pura. É outro arranjo belíssimo, de tom impressionista, e um piano que faz você parar para ouví-lo. De tão simples, é sublime. Em Long Way Home canta com Lyle Lovett, cantor country de prestígio, ator ocasional e, grande dado para a sua biografia: foi casado com Julia Roberts.

Apenas com o piano de LoCrasto, em Nobody Knows That (em seu site – http://www.katedmonson.com –  está disponibilizado o download desta canção) canta o medo de se abrir para o amado: “Você é tão perfeito para mim / E você não sabe que no fim / Eu esperava que fôssemos mais que amigos. / Ninguém sabe disso / Ninguém sabe senão eu.” Em Hopelessly Blue o tom é também desesperança. São duas canções que, com I Don’t Know (Reprise), Kat apresenta seus lamentos doloridos e conclui o disco.

A crítica elogiou Way Down Low. Mereceu 5 estrelas, a cotação máxima, na Downbeat. É uma honra dividida em 2012 com apenas cinco álbuns. Na boa crítica de Bruce Pulver, da JazzTimes (abril de 2012), deu uma ótima definição: “Ela pinta imagens nítidas com o conforto de um cobertor favorito.” Perfeito. Da boca de Kat revela-se um mundo inteiro, com traços de melancolia, tristeza, conformismo em sua inexorabilidade, felicidade, envoltos em mistério.

Veja a apresentação de Kat cantando Lucky, a primeira faixa do disco.




O vídeo oficial de Lucky.




Kat canta Champagne. Veja.




I Don’t Know, a segunda do disco.




O vídeo oficial de I Don’t Know.




Ouça a bela Nobody Knows That.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Extorsão. O show de Stacey Kent no Teatro Renault

Stacey Kent e Jim Tomlinson fazem uma bela parceria
“Nos momentos de abertura, ela promove um banho de sangue cenográfico com uma réplica de fuzil AK-47. Mais adiante, num cenário repleto de telões de altíssima definição, ela tira a roupa, simula uma viagem de trem pela Índia, anda numa corda bamba e dança sem parar – um dos números tem até bateristas suspensos no ar.” (FSP, 2/12/2012)

Não. Não é uma descrição do show de Stacey Kent ocorrido em 28/11 no teatro agora chamado Renault e, antes, Abril, e, bem antigamente, Paramount. Era onde aconteciam as apresentações de Roberto Carlos, Elis Regina e Jair Rodrigues e os festivais de música da TV Record. Se Stacey pode ser usada como comparativo, o nível continua bom, porque Stacey é o máximo.

O primeiro parágrafo se refere ao show de Madonna que aconteceu neste domingo, no Rio de Janeiro. Suas apresentações em São Paulo acontecem hoje e amanhã no estádio do Morumbi. O ingresso na pista custa R$ 360. No show de Stacey, o ingresso mais caro custou R$ 400 mais 80 de taxa de conveniência. A “conveniência” é você chegar com o seu cartão de crédito Mastercard e entrar por uma fila separada. Bom, se o ingresso é numerado, isso significa que pegar a fila mais curta custa 80 reais. Mesmo assim, prefiro Kent à Madonna. Questão de gosto.

A produção do show de Kent deve ter custado um milionésimo da de Madonna. É para ficar revoltado, não? Stacey trouxe o marido, seu arranjador e saxofonista. Só. Quem os acompanhou foi o trio Corrente, os brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo elétrico e contrabaixo acústico), e Edu Ribeiro (bateria). Contando-se passagem e hospedagem dos dois, deve ter ficado mais barato que a filha de Madonna, que a acompanha, normalmente, nas viagens. O resto, como sói ser no capitalismo brasileiro, a ideia marxista da “mais valia” é selvagem: quanto maior o lucro, melhor.

Deixando de lado a extorsão – só porque o Brasil de Lula e Dilma está rico –, o show foi ótimo. Mas, para quem viu o dela na Sala São Paulo ano passado, este foi muito parecido. Até a música de abertura – It Might As Well Be Spring – foi a mesma. Não lembro se, como desta vez, sentou-se no banquinho, com o violão, e cantou dois standards da bossa nova. A primeira foi Chega de Saudade, em português, e a segunda, Vivo Sonhando (Dreamer), em inglês. Acho que deve ser porque, apesar de Stacey estar cada vez melhor no português, não é muito fácil cantar “vivo sonhando sonhando mil horas sem fim”. A repetição de “sonhando” não é muito fácil para os americanos.

Devido ao brilho de Kent, há uma tendência em não se considerar Jim Tomlinson, o marido. É um bom saxofonista. No tenor lembra Stan Getz. A sonoridade é menos de “lata” do que a de Getz, mas no fraseado lembra bem. Algumas composições que Kent canta são de Tomlinson e de parceiros estrelados, como António Ladeira e o premiado Kazuo Ishiguro. São amigos. As “aproximações” não são tão casuais. São do meio dela, já que foi para a Inglaterra cursar mestrado em literatura comparada. Sobre Tomlinson, leia http://bit.ly/JdmiJh.

Depois, não sei se logo depois, cantou um original de Jim Tomlinson, seu marido, e o português António Ladeira, poeta, amigo e professor de nossa língua dos dois. Chama-se Comboio. Se não me falha a memória, tinha cantado na Sala São Paulo. Interpretou também Águas de Marco em sua versão francesa, de Georges Moustaki, Les eaux de mars, They Say It’s Wonderful e Samba Saravah (Samba da Benção). Tudo repetido. Ainda bem que ouvir Stacey Kent é um enorme prazer. Fechou, no bis, com Carinhoso, com a plateia cantando junto, e Jardin d’hiver, bela canção do CD Raconte-moi… A única inédita foi Mood Indigo, standard de Duke Ellington.

Uma explicação: postei no Facebook e no Twitter, na vez passada, sobre o show da Sala São Paulo. Algumas pessoas nem devem ter notado, mas não foi malandragem. É que tive um problema no “divshare” e não consegui disponibilizar algumas canções de Orlando Silva no texto em que faço algumas considerações sobre algumas semelhanças entre ele e Billie Holiday. Por uma questão de “timing” (odeio essa palavra, mas não achei uma melhor), publico hoje sobre Stacey Kent. A de Orlando Silva fica para quinta-feira. Tá no capricho. Tem seis clássicos que podem ser “copiados” para a sua discoteca de mp3.

Veja e ouça Les eaux de mars.


Samba Saravah. Alguém se lembra de Pierre Barouh cantando essa música em Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch?


Comboio (Jim Tomlinson/António Ladeira). É só um trecho.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Alguém para se ouvir (Roberta Gambarini e Stacey Kent)

Gambarini e Roy Hargrove, no Rio
Esse texto é uma republicação. Foi o meu primeiro e foi postado no blogue do Paulo Moreira Leite em 15/9/2009 (http://bit.ly/xu9zwc). A razão da “repostagem” se deve a uma mensagem da amiga Marisa Marcondes Leal, ao fazer um comentário sobre Stacey Kent. É a minha recomendação para que ela conheça a excepcional Roberta Gambarini.


Cantoras surgem em pencas, ao contrário de cantores. Todos os dias aparece uma nova cantora na música brasileira. CéU, Ana Canãs, nomes há pouco circunscritos aos frequentadores de bares e pequenas salas de shows já estão no segundo cd. Somando as mais e as menos conhecidas na mídia, podemos, facilmente, exceder o número de dedos das mãos e dos pés. E haja ouvido e curiosidade para acompanhar. O mesmo se pode dizer das cantoras não brasileiras: para cada Amy Winehouse surgem centenas de nomes dos quais nem tínhamos alguma referência um mês atrás.

Num universo menor, o do jazz, muitas cantoras têm surgido, e quase sempre interpretando velhos standards consagrados pelas vozes negras de Billie Holiday, Sarah Vaughan e Carmen McRae, e brancas, de Anita O’Day, June Christy e Chris Connor. A persistência dessas músicas no imaginário auditivo é algo interessante. Cada um desses clássicos permite “reinvenções” surpreendente. Basta ouvir uma das mais conhecidas: Summertime (DuBose Heyward/G. Gershwin) na voz de Janis Joplin, cantora mais associada ao universo da música popular. Nos últimos anos — falo de um amplo período –, pois as intérpretes sobre quem escrevo não são exatamente noviças, tampouco “macacas velhas”. Nesse espectro em que surgiram Jane Monheit, bem conhecida dos brasileiros – já gravou o Ivan Lins , Tierney Sutton, cantoras dos mais diversos lugares do planeta, como a brasileira Luciana Souza, a chilena Claudia Acuña e a excelente Jacintha, nascida em Cingapura, vale destacar Stacey Kent e Roberta Gambarini. Elas possuem um diferencial que as destacam das demais. Jacintha, Sutton e Monheit são afinadíssimas, mas parece que falta alguma coisa: perfeitas e tão pouco ousadas! Tinham de tomar um ácido, como Janis Joplin. E ousar não significa que devam “viajar” em scats: nem todo mundo tem a classe de uma Betty Carter ou de Ella. Maus scats apenas prestam um desserviço ao jazz.

Stacey Kent, com pouco menos de dez anos de carreira, se diferencia por algumas especificidades. Primeiro: tem aquela voz que, pejorativamente, comparam com a de Pato Donald. Na música pop é fácil de lembrar de algumas com essa característica: além de Cindy Lauper, a mais conhecida é Macy Gray e nem por isso são ruins. A de Kent não é tão “Pato Donald”, mas seu registro nos faz lembrar da saudosa e excepcional Blossom Dearie, grande pianista e intérprete de personalidade especial. Na sua quase dezena de CDs lançados, Kent carimba sua marca pessoal em interpretações inesquecíveis em velhos clássicos e em composições mais recentes.

No seu disco de estréia, Close Your Eyes já surpreende. More than You Know, a primeira faixa é a melhor amostra de sua qualidade como intérprete. Acompanhada apenas pela guitarra de Colin Oxley, os primeiros versos, “Wether you are here or yonder / Wether you are false or true / Wether you remain or wonder. / I’m growing fonder of you / Even tough your friends forsake you / Even though you don’t succeed / Wouldn’t be glad to take you / Give you the break you need…” … aí entra o refrão “More than you know, more than you know, / Man of my heart, I love you so / Lately I find you’re on my mind / more than you know.” A partir desse momento estamos apaixonados por Stacey e sua voz penetrará indelével e imperceptivelmente em nossas mentes. Seu segundo cd, Dreamsville é uma coleção de baladas, clássicos de Rodgers & Hart, dos mais “novos” Henry Mancini e Johnny Mandel, interpretadas com os mesmos acompanhantes de seu primeiro cd, um quinteto liderado por seu marido, o saxofonista Jim Tomlinson. O destaque são a guitarra de Oxley e algumas intervenções de Tomlinson tocando flauta e clarineta, instrumentos nem tão usuais no jazz. A faixa mais bela é Hushabye Mountain, de Richard e Robert Sherman, um standard “tardio” da década de 1960.

O segundo ponto que a distingue é de como os anos “formativos” na Inglaterra influenciarão em sua futura carreira. Nascida Americana, foi estudar literatura comparada na Europa, fixou residência na Inglaterra, estudou por um ano na Guildhall School of Music e casou-se com um músico. Esses “acontecimentos” estão presentes no conceito de seu mais recente cd: Breakfast on the Morning Tram. Quatro de suas composições têm letras do consagrado escritor Kazuo Ishiguro: a música título, The Ice Hotel, I Wish I Could Go Travelling Again e So Romantic. A ligação de Ishiguro e Kent não é casual: ele costuma escrever sobre jazz em publicações inglesas e seu último livro tem o mesmo título de um standard de Jay Livingston e Raymond B. Evans – Never Let Me Go. O velho mundo está em duas canções de Serge Gainsbourg, brilhantemente cantadas em francês perfeito: Ces petites rien e La saison des pluies. E de quebra, Samba Saravah, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, música celebrizada por Pierre Barouh em Um Homem e uma Mulher, filme de Claude Lelouch.

Roberta Gambarini fez o caminho contrário. Nascida em Turim, mora, desde 1986 nos Estados Unidos. Jane Monheit e Tierney Sutton, suas contemporâneas, participaram do mesmo concurso que as fez chamar a atenção dos críticos de música: o Thelonious Monk Institute of Jazz Vocal Competition. A comparação que se faz com Ella Fitzgerald não é de toda descabida. Ela canta tão “fácil” quanto Ella. A música flui como um rio que segue seu curso, sua dicção é clara e a forma de como “constroi” os scats não tem concorrentes no cenário musical de agora.

A primeira vez em que a ouvi foi numa estrada americana. Como de costume, estava com um bolo de cds comprados e louco para ouvi-los, mesmo antes de voltar ao Brasil. Não me causou “aquela” impressão. O surpreendente é que a voz de Roberta vai, aos poucos te penetrando, e de repente, te possui. O primeiro CD lançado no mercado americano começa com a música que dá título a ele: Easy to Love. Começa a capella, daí entra o baixo marcando o ritmo, entra a bateria e depois o piano; discretos scats acompanhados do baixo fecham num discreto final. Novamente, apenas o baixo e sua voz introduzem o tema de Lover Man e, sorrateiramente, o sopro aberto e sensual do sax de James Moody sinaliza a entrada do piano e de uma discretíssima bateria. Sobre todos os instrumentos reina a voz de Gambarini: em On the Sunny Side of the Street e em I Loves You Porgy, as modulações de voz revelam total domínio. Para concluir, vale também uma ouvida em No More Blues, a nossa Chega de Saudade, naquele ritmo de samba que apenas os americanos fazem e, nós brasileiros, já nos acostumamos. Como em várias faixas, a voz entra solo e depois os demais instrumentos entram. É como um prelúdio que te prepara para o que vem.

Especial mesmo é o segundo cd lançado pela EmArcy no mercado americano: o You Are There. Acompanhado apenas pelo nonagenário e legendário pianista Hank Jones, cada número prepara para um próximo nível de encanto. Acompanhar cantores é uma verdadeira arte. Nisso, Jones, como Tommy Flanagan, é mestre. Coincidentemente, por anos acompanharam a grande diva Ella Fitzgerald. E é nessa arte que a combinação de Jones e Roberta chega perto da perfeição. A voz límpida se soma à elegância econômica quase minimalista dos solos de Hank. Paralisante. Dá para ouvir o cd inteiro sentado no sofá, paradão, só curtindo.

Deve ser difícil para o artista estar sempre tentando se superar.Como para qualquer ser humano, um pouco de acomodação é necessário. Na volta da minha última viagem, em agosto, a primeira coisa que fiz ao chegar foi colocar o recém lançado So In Love. Senti um certo desapontamento. Já ouvi Day in, Day out melhor. Senti que era um CD que poderia ser classificado como um “mais um do mesmo”. Mas não é por isso que Marisa Monte é idolatrada? Roberta também tem esse direito. E depois: seu So in Love é genial e suas versões para Golden Slumbers e Here, There and Everywhere são bem originais. Na quinta vez em que ouvia a CD, estava novamente apaixonado por Roberta Gambarini.

Para referência, àqueles loucos de “possuir” os CDs em vez de, simplesmente baixá-los pela Internet, Breakfast on the Morning Tram, de Stacey Kent e You Are There, de Roberta Gambarini e Hank Jones sairam no Brasil. Não precisa importar. Com um pouco de esforço dá para encontrar. Em São Paulo, a dica é a Pop Discos, na rua Teodoro Sampaio 763. Tel. 11-3083.2564.


Roberta Gambarini canta Lush Life.




O More Than You Know, com Stacey Kent, é espetacular.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A primeira composição de Stacey Kent em português

Espero que ninguém tenha se cansado de tanto ler sobre Stacey Kent nesse blogue. Sou fã incondicional desde o seu primeiro disco. Apesar da crítica – ou os polls – não costumar colocá-la entre as “dez mais”, merece estar entre as três melhores da atualidade, não apenas pela voz ou afinação, e mais pela inteligência e sabedoria em escolher o repertório. Não é aquele repertório de standards com uma ou outra canção “diferente”. Devido à facilidade que tem com línguas (é formada em literatura comparada; leia em http://bit.ly/tARGoA), canta – naturalmente – em inglês (é americana, apesar de residir na Inglaterra), em francês, e em português quase perfeito. Essa versatilidade lhe possibilita transitar por preciosidades musicais cantadas em suas línguas originais.

A imagem da capa do CD ao vivo
Agora, no mês de outubro, foi lançado o seu primeiro álbum “ao vivo”. É o registro da apresentação do La Cigale, Paris, em maio. Kent é acompanhada por Jim Tomlinson, marido, arranjador, produtor e saxofonista (sobre sua importância no som de Kent, leia em http://bit.ly/u4X7Mu). Chama-se Dreamer - In Concert.

Músicas do cancioneiro americano, como de costume, estão presentes: It Might As Well Be Spring, The Best Is Yet to Come, If I Were a Bell, e They Can’t Take That Away from Me. Não poderiam faltar canções francesas: Ces petits riens e Jardin d’hiver. A primeira é de Serge Gainsbourg, a segunda é do “Serge Gainsbourg da atualidade”, Bemjamin Biolay  (é casado com Chiara Mastroianni), em parceria com Keren Ann. A terceira cantada em francês é, na realidade, brasileira – Samba Saravah, música de Baden Powell, chamada aqui de Canção da Benção –, tornada conhecida pela interpretação de Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme dirigido por Claude Lelouch. As brasileiras mesmo são Corcovado, Waters of March e Dreamer. Essas interpretações são bem conhecidas pelos seus costumeiros ouvintes. A novidade mesmo, é uma música chamada O Comboio. Alguém conhece? Não sei se estou certo, mas deve ser a sua primeira incursão na língua portuguesa como compositora. A letra é do poeta português Antonio Ladeira. É o que você vai ouvir.




Teaser da Blue Note para o CD Dreamer In Concert.



Outros textos sobre Stacey Kent:
• Sobre Kent e Roberta Gambarini: http://bit.ly/s3i3qs
• A segunda vez de Satcey Kent: http://bit.ly/v4giFP
• Stacey Kent é um show: http://bit.ly/v6M6ro

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Jim Tomlinson é o homem por trás de Stacey Kent

Há um ditado em que se diz que “a mulher faz o homem”. Correto? Sim. Mais correto, talvez, fosse dizer que os gêneros se complementam. Tanto a mulher como o homem “fazem” seus pares. Como a parceria de Jim Tomlinson e Stacey Kent é anterior à consagração desta, muito da concepção sonora é do marido. O que faz parecer que a parceria na vida real é simbiótica com a carreira musical.

Kent se mudou para a Inglatera com o propósito de estudar. Conheceu Jim, que era músico. Esse dado contribuiu para que se revelasse a intérprete que, em princípio, seguiria uma carreira acadêmica com especialização em literatura comparada.

Desde o primeiro álbum solo, Kent é acompanhada pelo marido, não apenas como instrumentista, mas como seu produtor musical. E se observarmos um pouco mais, veremos que a formatação musical continua a mesma. Ao trio piano/baixo/bateria são acrescentados o saxofone de Jim e um guitarrista, que dão um molho especial à base sonora que acompanha a cantora. Não é uma banda de destaques; ninguém sobrepuja o outro em aventuras improvisativas. O sax é correto, o piano é belo, e acordes parcimoniosos de guitarra dão um colorido especial à voz pequena e afinada de Kent.

Aparentemente, Jim resolveu fazer o papel do coadjuvante, deixando que Stacey brilhe. Deve ser uma escolha e menos uma imposição. O que é belo nessa história toda, pelo menos para quem vê de fora, é a perfeita combinação entre eles, uma conjunção de interesses, tanto na vida pessoal como na profissional.

Foi bastante divulgada na imprensa brasileira, por conta das várias vindas do casal ao Brasil, o interesse de Kent em aprender a língua portuguesa. E vemos que essa curiosidade é comum e está estampada no repertório de Brazilian Sketches, de Jim Tomlinson. Antes de Kent ter registrado alguma canção brasileira nos seus discos solos, Jim o tinha feito anteriormente.

Percebe-se também, ao se prestar atenção na discografia de ambos, que, apesar de a estrela da casa ser Stacey, é notório que sem Jim não existirira a intérprete como a conhecemos. A conclusão é a de que ela não seria quem é sem ele. Por isso, vemos que o papel de coadjuvante dele é um pouco circunstancial.

Ouça a brasileiríssima Dreamer (Vivo Sonhando).


Tomlinson é um bom saxofonista. Possui influências de Stan Getz, outro “brasilianista”. Nessa apresentação fica claro que, mesmo que não tivesse conhecido Kent, teria destaque.

 

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O interesse pela língua portuguesa não é só de Stacey Kent

Stacey Kent é a encarnação da empatia (simpatia, para ser mais exato). No ano passado, prometera que, em sua próxima apresentação no Brasil, falaria em português para a plateia. Feito. Entre um número e outro conta que há três anos, ela e Jim se inscreveram num curso de língua portuguesa, e a premissa inicial do aprendizado era não conversarem em inglês durante as primeiras sete semanas (não lembro, exatamente, acho que eram sete semanas mesmo). No início, era “bom dia”, “como vai?”, “te amo”, mas, pouco a pouco o repertório de frases aumentou.

O que, inicialmente, muito por conta de que celebrada é ela e não ele, parecia que o propósito de aprender português era dela. Engano. O interesse foi de ambos, aparentemente, pela música, pelo menos. Jim gravou Brazilian Sketches em 2003, até então, Stacey, que me lembre, nunca tinha registrado uma música brasileira em discos. Nos “desenhos brasileiros”, Jim gravou clássicos conhecidos de Jobim, Bonfá e Marcos Valle. Em The Lyric, lançado em 2007 por uma gravadora chamada Token. e foi relançado agora em 2011 pela Blue Note, bem maior e melhor distribuição, o amor pela música brasileira persistiu. Trocaram só a capa e corrigiram o “manha de carnival” (leia em http://bit.ly/m9Yu1j).

Mas Stacey não é a pioneira em cantar em português. Quem não se contorceu na poltrona ouvindo uma tonitruante “bonita” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald cantando Corcovado? Velha “tchama”, é ”têrrr” tempo para amar, o Cristo “Redêntor” e outros achados “portuguesísticos” doem nos ouvidos brasileiros. E quando canta Água de Beber? Veja, nada contra a grande dama do jazz que adoro (a propósito, tenho um texto sobre ela em http://bit.ly/mimlrz).

Cantar em português deixou de ser um desafio para intérpretes da língua inglesa. Antes de Stacey, Fleurine (mulher do pianista Brad Mehldau, ambos “fregueses” do Brasil), Susannah McCorkle (leia http://bit.ly/kRy8r2) e Karrin Allyson cantaram em português com muita propriedade.

O charme de Karrin Allyson é comparável ao de Diana Krall
McCorkle, à semelhança de Kent, aprendeu a língua portuguesa (era fluente em italiano) e era ligada nas letras (publicou como escritora vários livros). Stacey foi morar na Inglaterra para fazer um mestrado em literatura comparada e é amiga do nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

O gosto pela música brasileira de Allyson está estampado em dois álbuns: From Paris to Rio – lançado em 1999, há onze anos, portanto – e Imagina: Songs of Brasil (2008). Em Imagina, título escolhido em razão de ter sido a primeira composição de Tom Jobim, que depois recebeu letra de Chico Buarque (isso segundo o que Karrin Allyson escreve nas liner notes), canta a maioria das canções em português, competente, registre-se. E, pelas mesmas notas, ficamos sabendo que a “professora” de português foi a jornalista Lúcia Guimarães. As duas se conheceram numa fila de autógrafos após uma apresentação de Blossom Dearie. Mundinho, não? Veja como as coisas vão se ancaixando.

Como o assunto principal não é exatamente Stacey Kent, ouça Susannah McCorkle cantando Manhã de Carnaval (acho que é a canção que mais postei, em português, inglês, espanhol, instrumental, só falta em russo), e Só Tinha de Ser com Você por Karrin Allyson.




sexta-feira, 6 de maio de 2011

Stacey Kent é um show

Capa do CD relançado
Diferentes manhãs de carnaval. A clássica Manhã de Carnaval é grafada das maneiras mais variadas nos registros feitos fora do Brasil. Uma das mais “diferentes” é a que consta no CD de Jim Tomlinson. Alguns distraídos podem não conhecê-lo: é saxofonista e produtor dos discos de sua mulher Stacey Kent. Consta que a primeira faixa de The Lyric, lançado em 2006, se chama Manha de Carnival. Atenção; em bom português, “manha” de carnaval até seria possível; na hipótese de alguém estar fazendo “manha” (segundo o Aurélio, significa destreza, habilidade, desenvoltura, ou ardil, artimanha, malícia) de (ou) carnaval, ok, tudo bem; mas “manha de carnival” exigiria certa dose de imaginação. Ao brasileiro, “carnival” é meio estranho; tem algo de “carnal” misturado com “canibal”. Serviria até como bom neologismo para a tradicional festa pagã; e em inglês, “evil” (diabo) seria um bom mélange com o vocábulo “carne”, do português.

Em razão da popularidade de Stacey e da constatação inconteste de que é uma das melhores cantoras da atualidade, The Lyric está sendo relançado com capa diferente. originalmente aparecia a imagem desfocada de Jim segurando um sax-tenor, Em letras pequenas tem um “featuring Stacey Kent”, portanto, deve-se considerá-lo um disco do marido. Na versão 2006/modelo 2011, o nome dela tem maior destaque e a imagem é a do casal em um instantâneo de felicidade. Faça-se justiça à senhora Tomlinson: participa de 70% das faixas com sua bela voz. No relançamento, agora pela major Blue Note Records, “consertaram” a ortografia de Manhã de Carnaval.

A ideia do comentário sobre o clássico de Bonfá surgiu por conta das várias grafias e títulos constantes nos discos: Carnaval, Orpheus, Orpheus’ Song, Canción de Orfeo, Carnival e Black Orpheus.

Stacey deveria ter usado um vestido como esse
Uma quase cidadã brasileira. Casualmente, Jim está no Brasil com Stacey. Apresentaram-se na quarta, 4 de maio, na Sala São Paulo, parte da programação da Série TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer) de Concertos Internacionais. Quase perco. Boa, a lembrança do amigo Armênio Guedes.

Kent e Jim tiveram como banda suporte o Trio Corrente, dos brasileiros Fabio Torres (piano), Paulo Paulelli (baixo elétrico e contrabaixo acústico), e Edu Ribeiro (bateria). Foram eles que abriram a apresentação com Mistura e Manda (Paulo Moura) e Amor Até o Fim (Gilberto Gil). Apresentado pelo pianista, Jim Tomlinson tocou Manhã de Carnaval. Simpático, disse algumas palavras em português – e não pareceu nenhum rock star proferindo palavras decoradas e mal pronunciadas –, e chamou Stacey ao palco.

Cabelos curtíssimos – desde sempre – um vestido preto básico que não compromete e realça a pele branca, começou com um suingado It Might As Well Be Spring. Comunica-se em português com a plateia e emenda um lindísimo Les eaux de mars, a versão de Georges Moustaki para o clássico jobiniano. Do mesmo CD (e de The Lyric), canta Jardin d’hiver, de Keren Ann e Benjamin Boulay – segundo a amiga Vania, que mora há 20 anos na França, o marido da atriz Chiara Mastroianni é uma versão repaginada de Serge Gainsbourg –, e Mi amor, de Claire Denamur.

As demais canções “francesas” são Samba Saravah (Samba da Bênção) e What Are You Doing the Rest of Your Life?, de Michel Legrand. Cabem esclarecimentos: O clássico “afrossambístico” de Baden Powell e Vinícius de Moraes ficou conhecidíssimo cantado por Pierre Barouh em Um Homem e Uma Mulher, filme de Claude Lelouch; Michel Legrand é um dos maiores compositores vivos nascidos na França. A letra em inglês é dos Bergman – Alan e Marilyn – versionistas/letristas de alguns clássicos estrangeiros, inclusive brasileiros, como o standard So Many Stars, de Sergio Mendes.

Dirigindo-se ao público em português, a empatia é total. Conta que ela e Jim se inscreveram em uma faculdade americana há três anos para aprenderem a língua. De lá para cá, aperfeiçoaram-se, e muito. Isso, porém, é apenas um detalhe que só abrilhantou uma apresentação impecável composta de um set list maravilhoso.

Alguns momentos foram emocionantes. A interpretação de I’ve Grown Accustomed to His Face, do musical My Fair Lady, e a música de Legrand foram ponto altos, junto de Corcovado, em que Kent empunhou o violão e teve uma bela introdução ao piano com Fabio Torres tocando Retrato em Branco e Preto.

É claro que haveria um bis. Praxe, não? Kent comenta sobre a admiração que tem de ver a plateia brasileira cantar junto dos artistas. Engrena um You’ve Got a Friend, de James Taylor. O público acompanha com palmas ritmadas e cantam o refrão. O último bis é dedicado a outro compositor que ama: Caetano Veloso. Nada como Desde Que o Samba é Samba para coroar um show maravilhoso.

Da próxima vez em que forem se apresentar no Brasil, Stacey e Jim estarão merecendo receber o título de cidadãos brasileiros. Que tal?

A instrumental Manhã de Carnaval e I’ve Grown Accustomed to His Face, cantada por Kent, estão no recém relançado (no Brasil, “lançado”) The Lyric.




quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A segunda vez de Stacey Kent

Por pão-durismo ou por revolta, decidi não pagar 300 reais para assistir à apresentação de Stacey Kent no Brasil, em setembro de 2010, mas estou arrependido. Para se ver alguma atração no Village Vanguard custa 25 dólares, com os artistas no seu nariz. Em São Paulo, no Via Funchal, por 150 reais, você teria o direito de ver Stacey de pertinho, no telão, de binóculos. E tem outra coisa: a atmosfera de intimidade que a voz delicada da cantora sugere não existe na aridez de uma área enorme coalhada de mesas. Parece um salão de bailes, daqueles que existiam aos montes em qualquer cidade do interior. É uma chance, no entanto, se você não estiver em Nova York ou em outro lugar no qual é possível se assistir um show desses. Mesmo num espaço maior como o do Dizzy’s Club Coca-Cola do Jazz at Lincoln Center, localizado num shopping center, onde é possível comer alguma coisa – no Village só servem bebidas –, o ambiente é incomparavelmente mais aconchegante, e mais barato.

É a segunda vez que Stacey se apresenta no Brasil. Na primeira, apresentou-se no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em outubro de 2008. Surpreendentemente, está ficando cultuada pela parcela mais “sabida” dos brasileiros e teve, salvo engano, três discos lançados no mercado tapuia. É bom sinal, apesar de não conseguir imaginar por que não lançam Egberto Gismonti e Keith Jarrett, que teriam tanto apelo de vendas quanto ela. Várias matérias foram publicadas nos principais veículos de comunicação. Foi entrevistada, inclusive, no Programa do Jô. Muitos já estão sabendo que Stacey está aprendendo a língua portuguesa, que o francês é sua segunda língua etc. O que fico sabendo por meio de uma coluna de “fofocas” do Segundo Caderno de O Globo, é que Stacey é vegan, ou seja, além de não comer carne vermelha, não se alimenta de nenhum derivado de origem animal. Ah, por isso é tão magrinha!

Stacey e Jim em segundo plano
Impossível saber, se na casa de Stacey, quem manda é ela ou o marido Jim. No palco, ele sabe bem onde é seu lugar: a cozinha. Diante da plateia, Stacey é a rainha, e os músicos, seus súditos. Jim é o diretor musical e saxofonista da banda e, sabiamente, fica em plano secundário. Lembra um pouco o caso de Julie London. Bobby Troup conheceu a “loura fatal” de Cry Me a River num clube qualquer, apaixonou-se, e viu que tinha uma “bomba de beleza e sensualidade” à espera de ser lapidada. Bobby já era conhecido pianista e compositor (é autor de Route 66, famosa na voz de Nat “King” Cole e, mais tarde na interpretação de Chuck Berry e The Rolling Stones). Em 1955, Julie London lançou um álbum em que é acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel. Explodiu. O mundo descobriu-a e em todo lugar uma cantora era acompanhada por uma guitarra. Bobby virou “o marido de Julie London”. O que se pode especular é se ficou chateado por ter virado “marido”, ou feliz por despertar inveja de todos os homens.

O “plano secundário” não significa de maneira alguma demérito para Jim Tomlinson. Como líder da banda, o saxofonista e flautista soube consolidar um formato de som que, mesmo com trocas de instrumentistas, molda-se muito bem à voz de Kent. Nos primeiros discos, os sons do guitarrista Colin Oxley eram perfeitos adornos para a voz pequena e levemente anasalada dela. Infelizmente saiu. John Paricelli o substituiu. É bom, mas, questão de gosto, Oxley era o “encaixe”. Os arranjos de Tomlinson são elegantes e dosa bem as intervenções de cada instrumentista. Nunca acontecem excessos, nem mesmo da parte de Kent. Em parte, é a razão da música dela parecer tão próxima, íntima do ouvinte.

Prestem atenção na guitarra de Oxley ao ouvir I’ve Got a Crush on You, do álbum Dreamsville.