Depois de alguns projetos que fugiam de uma linguagem mais estritamente jazzística, com as gravações recentes realizadas por duas cantoras líricas – Renée Fleming e Ann Sofie von Otter –, o solo Elegiac Cycle e Highway Rider (nesse álbum duplo, os arranjos para orquestra de câmara são do pianista), foi lançado em 2011 um disco de duo com o também pianista Kevin Hays. Não estou considerando o CD/DVD Live in Marciac, lançado no início de 2011, por este ser um álbum ao vivo.
Música para dois pianos ou a quatro mãos são comuns. Até entre iletrados musicais “rola” um Frère Jacques em residências que têm um piano na sala: quem nunca tocou?. Não era diferente no século 18 ou 19. As tão populares reuniões que se davam (deve ocorrer ainda, creio) em volta de um violão não são muito diferentes das que aconteciam em torno de um piano-forte, um cravo ou um piano. Schubert, Brahms, Mozart, Fauré e Rachmaninov não se furtaram em compor nesses dois formatos. E não faltam intérpretes especializados. Exemplos: Katia e Marielle Labèque, Lyubov Bruk e Mark Taimanov, Alfons e Aloys Kontarsky. Nem me refiro às duplas ocasionais como Daniel Barenboim e Georg Solti (ambos excelentes na batuta e no piano), Nelson Freire e Martha Argerich, ou Radu Lupu e Murray Perahia. No jazz, também, não chegam a ser incomuns os encontros de bons pianistas. Não me deixam mentir Herbie Hancock e Chick Corea, e nem Tommy Flanagan e Hank Jones.
Como nem sabia da existência do CD Modern Times, ao vê-lo na livraria Ateneo, de Buenos Aires, minha atenção se deveu à presença do nome de Brad Mehldau. Confesso minha ignorância quanto a Patrick Zimmerli; considerando-se as letras em que os nomes estavam grafados na capa, o disco era de Zimmerli, sendo Brad Mehldau e Kevin Hays os executantes (se bem que, pode-se considerar o efeito gráfico da perspectiva: mais próximo, maior). Mesmo assim, resolvi comprar e, depois, tinha adorado a capa com um detalhe de Classic Landscape, de Charles Sheeler, do acervo da National Gallery of Art, Washington.
Na primeira audição, já me senti atraído pela energia dos dois pianos – Mehldau no canal direito do estéreo, e Hays no esquerdo. De “prima” as que mais me chamaram a atenção foram Lonely Woman, de Ornette Coleman, e um trecho de Música para 18 Músicos (Music for 18 Musicians), do minimalista Steve Reich. Essas obras sempre estiveram entre as minhas favoritas, antes mesmo de ouvi-las nesse CD. Qual um Corinthians x Palmeiras, achava Reich o máximo e Philip Glass chato. Lembro de tê-lo visto, no início dos anos 1990, no Centro de Convenções do Anhembi, São Paulo, e ter dormido. Hoje, meus juízos sobre Glass não são tão radicalmente negativos; inclusive, no CD, está registrado um trecho de seu Quarteto de Cordas nº 5, que é bem bom. Agora, Ornette Coleman é Ornette Coleman (sobre sua apresentação em São Paulo, em 2011, leia em “A luz de Ornette Coleman”).
Nesses discos diferenciados em que Brad participa nunca falta um texto extenso no encarte. Em Modern Music não é diferente. Ficamos sabendo então que os dois pianistas são amigos há tempos e Zimmerli é o “terceiro homem” do projeto. Saxofonista, inicialmente, pendeu para a composição. Nas peças do disco, os pianistas seguem uma partitura – escritas por Zimmerli. Como nas sonatas de música erudita, há trechos (cadenzas) em que o intérprete tem a liberdade de improvisar. A grande riqueza desse disco, além da inegável competência dos pianistas, são os arranjos. Vibrantes e sofisticados, são ricos melodicamente e uma experiência única. As quatro composições de Zimmerli (Crazy Quilt, Generatrix, Celtic Folk Melody, e Modern Music), Unrequited (Mehldau), Elegia (Hays) e as anteriormente citadas de Steve Reich, Philip Glass e Ornette Coleman, formam um caleidoscópio de cores, climas e momentos de puro deleite musical.
Ouça Lonely Woman. Preste atenção no arranjo.
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Horizontes de Brad Mehldau
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| O explorador da música Brad Mehldau |
O comprador do Museu do Disco era o Odair. Viajava constantemente e os adquiria de grandes atacadistas americanos. A primeira loja ficava na rua Dom José de Barros, quase esquina com a Avenida São João. Abriram outra no mesmo Shopping Iguatemi a 50 metros da Hi-Fi. O mercado foi mudando e as duas lojas não existem mais, assim como a Bruno Blois e a Brenno Rossi. Depois de sair do Museu do Disco, trabalhou em outros estabelecimentos menores situados nas rua Pamplona, e o outro, na alameda Jaú. Com o fim dessa loja, ficou um tempo na loja Laserland, situada na Avenida Rebouças, uma das últimas a ter um bom catálogo de música erudita, popular e jazz. Depois, nunca mais ouvi falar dele. Muitos de nós “descobríamos” por onde andava e ficávamos clientes das lojas por onde passou.
Na pequena loja, próxima ao Colégio Dante Alighieri, foi que “conheci” o pianista Brad Mehldau, apresentado pelo Odair. Era um cara antenado, não apenas em relação ao rock, mas ao jazz também. Recomendou-me um CD chamado The Art of the Trio, volume I, isso em 1997. Desde então, Mehldau está na minha CDteca, com mais de uma dezena de títulos.
Jovem, Mehldau, se destacou em um dos formatos mais tradicionais do jazz, o trio. Dos primeiros discos lançados pela Warner, o primeiro foi Introducing Brad Mehldau, e os três posteriores se chamavam The Art of the Trio I, II e III.
No primeiro, cinco são standards e quatro, composições próprias. Os títulos dão uma pequena pista do que será dito adiante: Angst, Young Werther, London Blues, e Say Goodbye. Angst é uma expressão cara ao romantismo alemão; Os Sofrimentos do Jovem Werther, de J. W. Goethe é considerado o marco do romantismo alemão. O protagonista de Goethe provocou uma onda de suicídios na época.
Um outro elemento relevante à tendência de Mehldau em se identificar com esse sentimento “romântico”, tendendo à melancolia e à dor, é a escolha das músicas do repertório popular. Provavelmente, digo provavelmente porque não tenho certeza, ele foi o primeiro a incorporar ao jazz, composições de Nick Drake (sobre ele, leia em http://bit.ly/v65tVj), um inglês atormentado que pôs fim à vida com 26 anos. Outra “escolha” – podemos dizer “descoberta”, de tão belas que são as suas interpretações – foram composições da banda inglesa Radiohead, liderada por Thom Yorke: Exit Music (for a Film), Paranoid Android, e Knives Out. Ultimamente, depois de algumas visitas ao Brasil, tem interpretado O Que Será?, de Chico Buarque e Milton Nascimento. Músicas dos Beatles não são novidade no repertório jazzístico. Algumas canções já podem ser consideradas standards, tal o número de intérpretes que se curvaram à beleza das linhas melódicas de John Lennon, de Paul McCartney e de George Harrison.
Emblemático mesmo, em relação a essa identificação com o romantismo alemão foi seu quinto disco solo. Elegiac Cycle (WB 1999). Em um longo texto, no encarte, aborda temas ligados à criação artística, transcendência, morte, perenidade e imortalidade. Acerca do título: “Sempre fui atraído por obras de arte elegíaca, que lamentam tantos tipos de perda, do mais profundo até a mais prosaica das mortes – o que os franceses chamam apropriadamente de ‘petite-mort’.” Cita como exemplos Goodbye Pork Pie Hat, de Charles Mingus, e Alabama, de John Coltrane. Menciona também exemplos de obras que não são elegíacas propriamente, mas possuem um caráter elegíaco, segundo Mehldau, caso das obras finais de Brahms ou a “pungência de Bill Evans” em You Must Believe in Spring, gravada pouco tempo antes de morrer, aos 51 anos. Mehldau diz, ainda, que “em um nível profundo e íntimo, há o medo do nosso próprio fim, que, paradoxalmente, nos impulsiona a viver e criar.”
O longo texto do encarte de Elegiac Cycle revela um intérprete diferenciado, mais intelectualizado que a maioria de seus pares. Bem, as coisas podem ser bem específicas: um grande talento musical pode até ser analfabeto ou, como sempre foi e é comum, não ter tido aprendizado formal teórico ou prático. Alguns foram tão geniais, como Erroll Garner, a ponto de o nosso pianista mor, Nelson Freire, dizer que gostaria de tocar como ele. O que quero dizer com isso é que essa faceta de Brad é externa à música. Certo? Mais ou menos certo. No caso dele, percebe-se, em vista dos álbuns posteriores, que essa reflexão filosófica está vinculada a uma ligação com o romantismo alemão, não apenas literária, mas à música de Schubert, principalmente, em um formato caro ao compositor, os lieder. Apesar de ter morrido muito jovem – 31 anos – em decorrência da sífilis, compôs cerca de 600 canções. Esse gênero teve continuidade com Schumann, Brahms, Hugo Wolf, Gustav Mahler e Richard Strauss, com Maurice Ravel, Claude Debussy e Gabriel Fauré, Mussorgsky e Rachmaninov, e na língua inglesa, Benjamin Britten e Vaughan Williams.
Não sei dizer se é um tanto extemporânea essa “retomada” do lied que Brad Mehldau realizou em dois álbuns posteriores: Love Sublime (Nonesuch, 2006) e Love Songs (Naive, 2009). Não são discos para todos os paladares, até para os seus fãs costumeiros. É preciso alguma “iniciação” à música erudita e até ao gênero mais específico que é o lied.
Love Sublime segue bem a cartilha do lied. Sete poemas de Rainer Maria Rilke (Livro das Horas) serviram de base para os lieder. Segundo Mehldau, “esses poemas são o testemunho da espiritualidade no desenvolvimento de um jovem, e eles falam para a ambivalência que muitos de nós experimentamos na medida em que questionamos e formulamos nossas crenças.” Dá para perceber como esse “arcabouço intelectual” é essencial na sua obra. Completam o CD três canções com letras do poema The Blue Estuaries, de Louise Bogan, a partir de sugestão de sua parceira nessa empreitada, Renée Fleming, e a canção título – Love Sublime – composta pelo pianista e sua mulher Fleurine. Apesar de todas essas boas referências (Mehldau, a excepcional soprano americana e Rilke), confesso que não gostei muito. A culpa é de Schubert, Mahler e cia.: é impossível deixar de compará-lo com esses mestres, levando-se em conta que o lied é um gênero (bem) particular.
Love Songs é um álbum – na minha opinião, mais uma vez – melhor. Desta feita, a parceira é a sueca Anne Sofie von Otter. As canções que compõem o primeiro CD são o resultado de uma encomenda feita pelo Carnegie Hall ao pianista para que compusesse canções para a voz de von Otter. Os poemas escolhidos foram os dos americanos e.e. cummings e Sara Teasdale, e do inglês Philip Larkins. Sem querer comparar e já comparando, o canto de Renée Fleming, em algumas ocasiões, parece um tanto deslocado (ou será o piano de Mehldau?), o que não acontece na performance de von Otter. Mesmo assim, as canções compostas por Mehldau são tensas e um tanto pesadas. Minha impressão é a de que falta alguma delicadeza e riqueza de cores e modulações tão presentes nos lieder de Schubert que, a meu ver, representa sua maior influência ao compô-las.
Agora, esqueça das reservas feitas quanto ao primeiro CD. No segundo, von Otter mescla a entonação lírica com a voz branca. A sueca deu mostras de que, mesmo fora do território lírico, é superlativa, no CD For the Stars (2001), que gravou com Elvis Costello, pela Deutsche Grammophon.
A primeira faixa do segundo CD é Avec les temps, de Léo Ferré. É um início de arrepiar, e com domínio total cantando em francês. Esse alto nível se mantém nas interpretações de Chanson des Maxence, de Michel Legrand, em Chanson des vieux amants (esta, belíssima) e em Dis, quand reviendras-tu, de Barbara. Algumas músicas registradas são bem conhecidas pois são do repertório popular, como Calling You, parte da trilha do filme Bagdad Café, e Blackbird, de Lennon & McCartney (Mehldau gravou mais de uma vez, tanto em piano solo como em formato trio. Outro ponto alto é Marcie, da candaense Joni Mitchell; digo ponto alto em relação a um disco de qualidade superior.
O propósito inicial, ao falar de Brad Mehldau, foi o de fazer algumas considerações sobre o CD Modern Music, do pianista em duo com Kevin Hays, lançado em 2011. Essas considerações ficaram longas demais. Pois assim, esse CD fica para a próxima.
Im abemdrot, de Franz Schubert, cantada por Anne Sofie von Otter.
Anne Sofie von Otter canta o clássico What Are You Doing the Rest of Your life?, de Michel Legrand, acompanhada por Brad Mehldau. Essa canção está no segundo CD de Love Songs.
Brad Mehldau interpreta Exit Music (for a Film), de Radiohead.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Alguém para se ouvir (Roberta Gambarini e Stacey Kent)
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| Gambarini e Roy Hargrove, no Rio |
Cantoras surgem em pencas, ao contrário de cantores. Todos os dias aparece uma nova cantora na música brasileira. CéU, Ana Canãs, nomes há pouco circunscritos aos frequentadores de bares e pequenas salas de shows já estão no segundo cd. Somando as mais e as menos conhecidas na mídia, podemos, facilmente, exceder o número de dedos das mãos e dos pés. E haja ouvido e curiosidade para acompanhar. O mesmo se pode dizer das cantoras não brasileiras: para cada Amy Winehouse surgem centenas de nomes dos quais nem tínhamos alguma referência um mês atrás.
Num universo menor, o do jazz, muitas cantoras têm surgido, e quase sempre interpretando velhos standards consagrados pelas vozes negras de Billie Holiday, Sarah Vaughan e Carmen McRae, e brancas, de Anita O’Day, June Christy e Chris Connor. A persistência dessas músicas no imaginário auditivo é algo interessante. Cada um desses clássicos permite “reinvenções” surpreendente. Basta ouvir uma das mais conhecidas: Summertime (DuBose Heyward/G. Gershwin) na voz de Janis Joplin, cantora mais associada ao universo da música popular. Nos últimos anos — falo de um amplo período –, pois as intérpretes sobre quem escrevo não são exatamente noviças, tampouco “macacas velhas”. Nesse espectro em que surgiram Jane Monheit, bem conhecida dos brasileiros – já gravou o Ivan Lins , Tierney Sutton, cantoras dos mais diversos lugares do planeta, como a brasileira Luciana Souza, a chilena Claudia Acuña e a excelente Jacintha, nascida em Cingapura, vale destacar Stacey Kent e Roberta Gambarini. Elas possuem um diferencial que as destacam das demais. Jacintha, Sutton e Monheit são afinadíssimas, mas parece que falta alguma coisa: perfeitas e tão pouco ousadas! Tinham de tomar um ácido, como Janis Joplin. E ousar não significa que devam “viajar” em scats: nem todo mundo tem a classe de uma Betty Carter ou de Ella. Maus scats apenas prestam um desserviço ao jazz.
Stacey Kent, com pouco menos de dez anos de carreira, se diferencia por algumas especificidades. Primeiro: tem aquela voz que, pejorativamente, comparam com a de Pato Donald. Na música pop é fácil de lembrar de algumas com essa característica: além de Cindy Lauper, a mais conhecida é Macy Gray e nem por isso são ruins. A de Kent não é tão “Pato Donald”, mas seu registro nos faz lembrar da saudosa e excepcional Blossom Dearie, grande pianista e intérprete de personalidade especial. Na sua quase dezena de CDs lançados, Kent carimba sua marca pessoal em interpretações inesquecíveis em velhos clássicos e em composições mais recentes.
No seu disco de estréia, Close Your Eyes já surpreende. More than You Know, a primeira faixa é a melhor amostra de sua qualidade como intérprete. Acompanhada apenas pela guitarra de Colin Oxley, os primeiros versos, “Wether you are here or yonder / Wether you are false or true / Wether you remain or wonder. / I’m growing fonder of you / Even tough your friends forsake you / Even though you don’t succeed / Wouldn’t be glad to take you / Give you the break you need…” … aí entra o refrão “More than you know, more than you know, / Man of my heart, I love you so / Lately I find you’re on my mind / more than you know.” A partir desse momento estamos apaixonados por Stacey e sua voz penetrará indelével e imperceptivelmente em nossas mentes. Seu segundo cd, Dreamsville é uma coleção de baladas, clássicos de Rodgers & Hart, dos mais “novos” Henry Mancini e Johnny Mandel, interpretadas com os mesmos acompanhantes de seu primeiro cd, um quinteto liderado por seu marido, o saxofonista Jim Tomlinson. O destaque são a guitarra de Oxley e algumas intervenções de Tomlinson tocando flauta e clarineta, instrumentos nem tão usuais no jazz. A faixa mais bela é Hushabye Mountain, de Richard e Robert Sherman, um standard “tardio” da década de 1960.
O segundo ponto que a distingue é de como os anos “formativos” na Inglaterra influenciarão em sua futura carreira. Nascida Americana, foi estudar literatura comparada na Europa, fixou residência na Inglaterra, estudou por um ano na Guildhall School of Music e casou-se com um músico. Esses “acontecimentos” estão presentes no conceito de seu mais recente cd: Breakfast on the Morning Tram. Quatro de suas composições têm letras do consagrado escritor Kazuo Ishiguro: a música título, The Ice Hotel, I Wish I Could Go Travelling Again e So Romantic. A ligação de Ishiguro e Kent não é casual: ele costuma escrever sobre jazz em publicações inglesas e seu último livro tem o mesmo título de um standard de Jay Livingston e Raymond B. Evans – Never Let Me Go. O velho mundo está em duas canções de Serge Gainsbourg, brilhantemente cantadas em francês perfeito: Ces petites rien e La saison des pluies. E de quebra, Samba Saravah, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, música celebrizada por Pierre Barouh em Um Homem e uma Mulher, filme de Claude Lelouch.
Roberta Gambarini fez o caminho contrário. Nascida em Turim, mora, desde 1986 nos Estados Unidos. Jane Monheit e Tierney Sutton, suas contemporâneas, participaram do mesmo concurso que as fez chamar a atenção dos críticos de música: o Thelonious Monk Institute of Jazz Vocal Competition. A comparação que se faz com Ella Fitzgerald não é de toda descabida. Ela canta tão “fácil” quanto Ella. A música flui como um rio que segue seu curso, sua dicção é clara e a forma de como “constroi” os scats não tem concorrentes no cenário musical de agora.
A primeira vez em que a ouvi foi numa estrada americana. Como de costume, estava com um bolo de cds comprados e louco para ouvi-los, mesmo antes de voltar ao Brasil. Não me causou “aquela” impressão. O surpreendente é que a voz de Roberta vai, aos poucos te penetrando, e de repente, te possui. O primeiro CD lançado no mercado americano começa com a música que dá título a ele: Easy to Love. Começa a capella, daí entra o baixo marcando o ritmo, entra a bateria e depois o piano; discretos scats acompanhados do baixo fecham num discreto final. Novamente, apenas o baixo e sua voz introduzem o tema de Lover Man e, sorrateiramente, o sopro aberto e sensual do sax de James Moody sinaliza a entrada do piano e de uma discretíssima bateria. Sobre todos os instrumentos reina a voz de Gambarini: em On the Sunny Side of the Street e em I Loves You Porgy, as modulações de voz revelam total domínio. Para concluir, vale também uma ouvida em No More Blues, a nossa Chega de Saudade, naquele ritmo de samba que apenas os americanos fazem e, nós brasileiros, já nos acostumamos. Como em várias faixas, a voz entra solo e depois os demais instrumentos entram. É como um prelúdio que te prepara para o que vem.
Especial mesmo é o segundo cd lançado pela EmArcy no mercado americano: o You Are There. Acompanhado apenas pelo nonagenário e legendário pianista Hank Jones, cada número prepara para um próximo nível de encanto. Acompanhar cantores é uma verdadeira arte. Nisso, Jones, como Tommy Flanagan, é mestre. Coincidentemente, por anos acompanharam a grande diva Ella Fitzgerald. E é nessa arte que a combinação de Jones e Roberta chega perto da perfeição. A voz límpida se soma à elegância econômica quase minimalista dos solos de Hank. Paralisante. Dá para ouvir o cd inteiro sentado no sofá, paradão, só curtindo.
Deve ser difícil para o artista estar sempre tentando se superar.Como para qualquer ser humano, um pouco de acomodação é necessário. Na volta da minha última viagem, em agosto, a primeira coisa que fiz ao chegar foi colocar o recém lançado So In Love. Senti um certo desapontamento. Já ouvi Day in, Day out melhor. Senti que era um CD que poderia ser classificado como um “mais um do mesmo”. Mas não é por isso que Marisa Monte é idolatrada? Roberta também tem esse direito. E depois: seu So in Love é genial e suas versões para Golden Slumbers e Here, There and Everywhere são bem originais. Na quinta vez em que ouvia a CD, estava novamente apaixonado por Roberta Gambarini.
Para referência, àqueles loucos de “possuir” os CDs em vez de, simplesmente baixá-los pela Internet, Breakfast on the Morning Tram, de Stacey Kent e You Are There, de Roberta Gambarini e Hank Jones sairam no Brasil. Não precisa importar. Com um pouco de esforço dá para encontrar. Em São Paulo, a dica é a Pop Discos, na rua Teodoro Sampaio 763. Tel. 11-3083.2564.
Roberta Gambarini canta Lush Life.
O More Than You Know, com Stacey Kent, é espetacular.
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