quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A belíssima crônica de Luís Henrique Pellanda que faz lembrar um conto do Agualusa

Nem sempre é aquele livro considerado pela crítica como uma obra prima que estará entre as preferidas de cada leitor. Incluem-se questões como a do gosto, cultura, momento, identidade e outras variáveis. E não somos obrigados a ter o gosto dos outros. Penso nisso para tentar descobrir por que até hoje tenho lembranças vívidas do conto “A noite em que prenderam Papai Noel”, de José Eduardo Agualusa, lido em 2005 (tenho o costume de anotar as datas de quando leio).

Durante quarenta anos, Pascoal foi o zelador da piscina. Os frequentadores gostavam dele, tratavam-no bem, davam-lhe palmadas nas costas e diziam: “Pascoal, o único preto em Angola que tem casa com piscina”, ou “Pascoal, o preto mais branco de África.” Pois, Pascoal nascera albino. Andava sempre com enormes óculos escuros para proteger os olhos em seu trabalho de cuidar da piscina.

Com o fim do status de colônia portuguesa, “seus dias felizes haviam chegado ao fim.” Os portugueses foram embora e viu guerrilheiros invadirem e saquearem casas e a água límpida ficar amarelada e ser invadida por sapos. Os negros não gostavam de Pascoal. Eles não gostam de albinos. Um exemplo disso é Salif Keita, um dos intérpretes africanos mais conhecidos e chamado de “a voz de ouro da África”, descendente direto de Sundiata Keita, fundador da república do Mali, que foi expulso da família ainda adolescente por ser albino. Na maioria das regiões do continente consideram uma maldição. Sobre essa questão, que é muito séria, leia matéria que saiu na Folha. Acesse o link por aqui.

Pascoal passou o diabo na mão dos guerrilheiros e soldados. Resolveu criar galinhas e vender ovos para comprar água nova e cloro, para ver a piscina limpa novamente. Os soldados apareceram atrás das galinhas. Não as encontrando, deram-lhe uma surra. E ainda ouviu: “Esse albino está armado em arrogante. Deve pensar que é branco, vejam só, um branquinho de imitação.” 

Com o acirramento da guerra, com aviões sobrevoando o lugar, uma das bombas destruiu a piscina. Pascoal ficou a vagar pelos escombros até que uma tropa de soldados brancos e chapeuzinhos azuis o levaram para um hospital em Luanda. Refeito, passou a viver nas ruas. Em um dia de calor infernal de dezembro, um indiano, dono de um supermercado viu aquele velhinho de barba branca e o contratou para ficar fantasiado de Papai Noel — “Papai Natal”, na expressão local —, distribuindo prendas às crianças e convidando as pessoas a entrar no estabelecimento.

Bem, em vez de um resumo, é melhor a leitura do original. Transcrevo aqui as páginas finais:

Ao fim da segunda semana, quando a loja fechou, Pascoal decidiu não tirar o disfarce e foi naquele escândalo para a cervejaria. O General viu-o e não disse nada. Serviu-lhe a sopa em silêncio.

— Faz muita miséria neste país —, queixou-se o velho enquanto sorvia a sopa —, o crime recompensa.

Nesta noite não sonhou com a piscina. Viu uma senhor muito bonita descer do céu e pousar na beira da mesa de bilhar. A senhora usava um vestido comprido com pedrinhas brilhantes e uma coroa dourada na cabeça. A luz saltava-lhe da pele como se ela fosse um candeeiro.

— Tu és o Pai Natal —, disse-lhe a senhora. — Mandei-te aqui para ajudar os meninos despardalados. Vai à loja, guarda os brinquedos no saco e distribui-os pelas crianças.

O velho acordou estremunhado. Na noite densa, em redor da mesa de bilhar, flutuava uma poeira incandescente. Voltou a enrolar-se no cobertor mas não conseguiu adormecer. Levantou-se, vestiu-se de Papai Natal, pegou no saco e saiu para a rua. Em pouco tempo chegou à Mutamba. A loja brilhava, enorme na praça deserta, como um disco voador. As Barbies ocupavam a montra principal, cada uma no seu vestido, mas todas com o mesmo sorriso entediado. Na outra montra estavam os monstros mecânicos, as pistolas de plástico, os carrinhos eléctricos. Pascoal sabia que se partisse o vidro dessa montra, conseguiria passar a mão através das grades e abrir a porta. Pegou uma pedra e partiu o vidro. Já estava a sair com o saco completamente cheio, quando apareceu um polícia. No mesmo instante, atrás dele, acendeu-se uma acácia, na esquina, e Pascoal viu a senhora a sorrir para ele, flutuando sobre o lume das flores. O polícia não pareceu dar por nada.

— Velho sem vergonha — gritou — Vais dizer-me o que levas nesse saco?

Pascoal sentiu que sua boca se abria, sem que fosse essa a sua vontade, e ouviu-se a dizer:

— São rosas, senhor.

O polícia olhou-o confuso:

— Rosas? O velho está cacimbado…

Deu-lhe um forte tapa com as costas da mão. Tirou a pistola do coldre, apontou-a à cabeça dele e gritou:

— São rosas? Então mostra-me lá essas rosas!…

O velho hesitou um momento. Depois voltou a olhar para a acácia em flor e viu outra vez a Senhora
sorrindo para ele, belíssima, toda ela uma festa de luz. Pegou no saco e despejou-o aos pés do guarda. Eram rosas, realmente – de plástico.

Mas eram rosas.

O cronista de Curitiba
Tenho o costume de ler jornais velhos. Vou pegando os “Cadernos 2” do Estadão, que vão se juntando sobre a mesa. De vez em quando, fico a lê-los e recortando matérias que considero interessantes. Quando são mais longas, deixo de lado, para serem lidas mais tarde. Assim, vou perdendo a referência de datas. Em um deles, o Estadão dedica a primeira e a última página a um cronista de Curitiba, de que nunca tinha ouvido falar: Luís Henrique Pellanda. Além da matéria e da entrevista, há um box assinado por Ivan Ângelo que é só elogios. Com uma recomendação dessas, impossível. Fui atrás e achei no site da Amazon. “Nós Passaremos em Branco” (Arquipélago Editorial, 2011) estava à venda por R$ 9,90.

Dois dias depois, o livro chega. Antes de deitar, resolvo dar uma olhada para matar a curiosidade. A primeira crônica, “O homem com a menina no colo” já me impressionou e, por alguma razão, lembrei-me imediatamente do conto citado acima.

Leia a crônica de Pellanda. Não entendo muito a proibição da publicação de textos pela internet. Entendo que seus autores devem receber pelo que escrevem, mas em muitas ocasiões, como essa, estão servindo como divulgação. Para não ter o trabalho de redigitá-lo, recorri e achei no site da Revista Outros Ares (https://outrosares.wordpress.com/), que imagino ser do PAraná.

O homem com a menina no colo

Na Pracinha do Amor, sou eu o homem com a menina no colo. Paramos ali todos os dias, a caminho da creche, para observar o vaivém dos pombos. A menina gosta deles, fazer o quê? Cumprimenta o busto de Romário Martins, manda beijos ao historiador de bronze, ri ao localizar uma garça no telhado da sinagoga, mas um joão-de-barro logo rouba sua atenção, ganha facilmente a preferência do nenê. O bicho corre por baixo de um banco úmido de madeira, se esconde entre tufos de flores que não sei classificar. Funcionárias? Nome triste para uma flor. Os canteiros têm o formato de estrelas, e é fácil enxergá-las do nosso apartamento no nono andar, principalmente no meio do ano, quando as árvores estão secas, as copas, invisíveis, e olhamos mais pela janela.

Além da que está no meu colo, há outra menina na praça. Não se move e, por isso, não chama a atenção da criança que carrego. Deitada na grama, dorme entre duas estrelas floridas. Tem uns dez anos, o cabelo louro-escuro, e veste uma calça de pijama bege, encardida como os pombos, uma blusa de moletom azul-marinho e um boné masculino sobre o rosto apagado. Nos pés, duas sandálias fugitivas, de tiras de borracha, e o clichê das solas sujas, a pele grossa de piche.

A praça está quieta, são oito e meia, posso permanecer ali mais dois minutos. Na esquina da Ébano Pereira com a Saldanha Marinho, descubro a mulher de vestido preto. Confiante, bolsinha de couro no ombro, desfila meio século de batalhas perdidas. Está acima do peso, uns sete, oito quilos, mas adivinho que já teve a cintura fina e a cabeleira viva, e sem querer reconstruo a juventude daquele corpo forte que diagonalmente penetra a Pracinha do Amor. Pressinto peitos ainda sólidos, as panturrilhas atléticas, a bunda confortável onde mais de mil amantes descansaram. Seus passos são firmes e elegantes, a mulher toda é elegante, admito, apesar do excesso de rebolado e maquiagem, apesar da lordose e dos saltos abusivos. De sua figura só destoa, talvez, a sacola de supermercado que traz embolada na garra esquerda.

Curioso, decido me deter aqui mais um instante, mais dois minutinhos, só mais dois, a menina no meu colo tranquila, a aplaudir o voo de um pardal de penacho. Já a mulher que observo observa a menina adormecida. Invade a porção de grama vetada ao passeio dos cidadãos de bem, estaciona ao lado da pequena, abre a sacola plástica e despeja, sobre a outra, todo o seu conteúdo. Demoro cinco segundos para decifrar a natureza daquela chuva colorida, e me surpreendo ao ver que são pétalas, pétalas de rosas vermelhas, pétalas amarelas, pétalas rajadas, punhados e punhados de pétalas brancas, e sussurro, perplexo, ao ouvido da menina no meu colo: pétalas! Estavam na sacola da mulher de preto, e agora cobrem e cercam o corpo da menina que dorme na praça.

A mulher guarda a sacola vazia na bolsa de couro e rapidamente se afasta da cena, sem afobação. Escala o barranco de grama até o petit-pavé da Saldanha e parte sem olhar para trás. Os pombos, acostumados à ceva e ao saque, voam até a menina e buscam, entre seus braços e pernas, entre pétalas e cabelos, algo que lhes seja proveitoso, só isso, algo comestível e minimamente significante. Não encontram nada e se entreolham interrogativos, dúzia emplumada de demônios.

Encantado, acompanho a fuga da mulher de preto, ainda a persigo por meia quadra, sua bunda negra na ladeira, Ébano Pereira acima. Para em frente a um casarão antigo e acende um cigarro. Ela o traga e, antes mesmo de exalar a fumaça, entra no mais novo bordel da rua.

A criança no meu colo acena para os pombos, se despede dos pássaros que prontamente decolam e desaparecem atrás do hotel Vitória Régia. Nós também seguimos adiante. A manhã avança. O vento congela a Pracinha do Amor e nos despenteia, mas não varre as pétalas de rosa, não as move um centímetro, não parece afetar a menina que dorme entre duas estrelas floridas.