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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Morre Johnny Mandel, o mestre dos arranjos


Coincidência ou não, muitos arranjadores iniciaram suas carreiras como trombonistas, caso de Bill Holman, Glenn Miller, Melba Liston, e até Ray Conniff. Johnny Mandel, morto em 30 de junho tocava trompete e trombone. Um caso de trompetista que acabou mais famoso como arranjador é Quincy Jones.

Tanto Mandel como Jones ficaram muito conhecidos como compositores de trilhas sonoras. Este último, começou tocando em bandas de jazz e ambicionava muito mais. Sua participação como arranjador em um álbum de Dinah Washington, em 1955, lhe trouxe fama e prestígio. Foi o grande parceiro de Ray Charles, no início de sua carreira, e também arranjador de Count Basie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e outros nomes da música. As gerações mais novas o conhecem por ter sido o artífice da transformação de Michael Jackson em super estrela da música pop.

Johnny Mandel não chegou a tanto e, provavelmente, não tinha a ambição de Jones. O mais próximo da popularidade pop que atingiu foi com a gravação de “Unforgettable”, por Natalie Cole, em que faz um dueto virtual com seu pai Nat King Cole.

Como compositor de trilhas para filmes, alguns temas compostos por ele são standards do cancioneiro americano: “Emily”, “The Shadow of Your Smile” e “Suicide Is Painless”, este, tema de “M*A*S*H.”, filme de Robert Altman. É autor de dois clássicos supremos também: “Here’s to Life” e “Close Enough for Love”.

Como arranjador, citando seus trabalhos menos antigos, trabalhou com Shirley Horn e Diana Krall.

Nesses tempos de pandemia pelo Covid-19, vários músicos, principalmente do jazz, foram suas vítimas — Lee Konitz, Wallace Roney e Ellis Marsalis—, comentados neste blog. Johnny Mandel morreu com 94 anos, em 29 de junho. Não foi revelada a causa.


Ouça “Here’s to Life”, com Shirley Horn. Preste atenção no arranjo. É maravilhoso.




Ouça também “A Time for Love”, composição de Mandel.




Ouça “Close Enough for Love”, interpretada pela genial Shirley Horn.




Ouça “The Shadow of Your Smile”, com Tony Bennett.




E, finalmente, “Suicide Is Painless”, em interpretação do gênio do piano Bill Evans.





quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Tony Bennett e Diana Krall, um par perfeito

Parece cada vez mais fácil chegar aos 100 anos, mas a que custo? O importante é estar inteiro e bem de saúde. É o caso de Tony Bennett, o maior cantor vivo da atualidade. Aos 92 anos, mesmo tendo passado por uma fase em que consumiu boas doses de cocaína, está forte e pimpão, como diria um amigo. E mais: canta muito ainda, mantendo a bela voz que o consagrou. E ainda gosta de pintar.

Confirma sua boa forma em sua mais recente empreitada, “Love Is Here to Stay”, com Diana Krall, com o repertório de George Gershwin. Bennett se rejuvenesce em suas parcerias com intérpretes de todos os espectros. Fez muito sucesso “A Wonderful World” (Columbia, 2002), com a canadense kd lang. Em “Duets: An American Classic” (Columbia, 2006), divide os vocais com os pop John Legend, Barbra Streisand, Celine Dion, Sting, Bono Vox, Billy Joel, Paul McCartney, James Taylor, Stevie Wonder e outros. Como os duos que Frank Sinatra cometeu em seus anos derradeiros, quando sua voz era uma sombra do que havia sido, sucumbe aos apelos comerciais. A diferença com os de Sinatra é a de que a voz de Bennett era a mesma. Gravou ainda “Duets 2” (2011) e “Viva Duets” (2012), aproveitando a onda.

Os puristas torcem o nariz para Diana Krall. Com um início fulgurante, arrombando a porta do mainstream do jazz, a ex-aluna de Jimmy Rowles e protegida de Ray Brown, a canadense tocava muito bem piano, e se quisesse, poderia seguir por essa seara. O aprendizado com Rowles e poderosa influência da maneira de tocar de Nat King Cole, foi logo notada pela gravadora Impulse, logo depois de tornar-se um sucesso instantâneo em seu país natal. Como o mestre Cole, cantava, e muito bem. A exemplo dele, consagrou-se mais como cantora do que pianista. De hoje em dia, apesar de apresentar-se sempre sentada à frente de um Steinway, mais canta que toca.

No caso de “Love Is Here to Stay”, deixa o pianista é Bill Charlap. Bom, nem precisa mesmo. O filho de Sandy Stewart tem um dos trios mais respeitados da atualidade. É mainstream, que se diga, mas sua banda está uma que chegou bem perto da perfeição.

A perfect pair
Depois de terem cantado juntos em ocasiões esparsas nos últimos 20 anos, “Love Is Here to Stay” é o primeiro álbum deles juntos. Gravado no ano passado, acaba de ser lançado. É a reunião que muitos esperavam. Bennett é a majestade, no alto de seus 92 anos; Krall é a dama do jazz da atualidade, em que pesem o valor das experientes Dee Dee Bridgewater ou Diana Reeves. Um pouco por preconceito, é criticada. Popularidade causa dor de cotovelo e críticos acham que cair no gosto de um público mais amplo é devido a concessões ao mercado. Evidente que King Cole fez concessões, mas que beleza de cantor que foi!

Tanto Bennett quanto Krall cansaram de cantar o repertório de George Gershwin, mas em “Love Here to Stay, ambos interpretam pela primeira vez em discos “My One and Only Love” e “I’ve Got a Crush on You”. É uma surpresa

Há um enorme respeito, como não poderia deixar de ser, de Diana por Tony. “Ele não apenas canta essas canções. Ele sabe o que está dentro e fora. Ele é uma pessoa profunda em muitos níveis – às vezes você pergunta sobre coisas e ele diz o que acha. É um belo fenômeno emocionalmente.” É o respeito que Krall tem pela sabedoria de um intérprete que sabe tudo de música, sabedoria que amealhou por todos os anos que o tornou um dos grandes cantores de todos os tempos na história do jazz.

Bem, se Bill Charlap é um dos grandes ao piano e Bennett e Krall craques absolutos, poderia de esperar uma obra-prima. Não é. É um álbum agradável, com algumas pérolas distribuídas, ora pelos bons achados do pianista, belas combinações da voz cálida dela e da qualidade interpretativa dele. Comparando-se, não é genial como, por exemplo, o de Frank Sinatra com Antônio Carlos Jobim, ou o de Betty Carter e Ray Charles, Ray Charles e Cleo Laine, ou Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Acho que, como diria minha amiga baiana, faltou um pouco de borogodó, aquela simbiose fervente que acontece inexplicavelmente entre dois seres.

Veja o clipe promocional do álbum, com os dois e o trio de Charlap interpretando a canção título.




Ouça o álbum. Um destaque é a excepcional interpretação de Krall em “But Not for Me”, com uma introdução que normalmente é cantada. A “inédita”, para os dois, “My One and Only”, é outro, pela combinação do piano e o clima relaxado entre os dois intérpretes. “Love Is Here to Stay” e “I Got Rhythm” são outras que destaco.




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Tony Bennett, mais vivo do que nunca

Com 89 anos completados em agosto, Tony Bennett continua mandando bem. É um exemplo de longevidade sem insanidade. Nunca houve alguém como Frank Sinatra, mas este, aos 80, estava um trapo, um fio de voz, o que Tony, até hoje mantém a potência e afinação impecável. Aliás, Frank era fã de Bennett.

Nunca houve ninguém como Bill Evans. Seu xará, de sobrenome Charlap, filho da cantora Sandy Stewart e do compositor Mose Charlap, é um tremendo pianista, com muitos admiradores no meio do jazz. E é esse outro Bill que toca com Tony, revivendo a grande parceria de Evans com o cantor em dois clássicos – The Tony Bennett/Bill Evans Album e Together Again. Em relação ao primeiro – o segundo é de 1977 –, são 40 anos para o lançamento de The Silver Lining: The Songs of Jerome Kern.

E é incrível que 40 anos depois e com quase 90 anos, Tony esteja cantando tão bem. No ano passado, em parceria surpreendente, lançou Cheek to Cheek, com Lady Gaga (leia em http://bit.ly/1MpEQpH). E o que anunciava ser um desastre, saiu ótimo. Até que a moça, em um gênero que não é seu, faz bonito. O disco foi até elogiado pela crítica e vendeu muito bem.

Se os dois álbuns eram voz e piano, em The Silver Lining, apesar de ser no formato duo, sete faixas contam com o baixista Peter Washington e o baterista Kenny Washington, e em quatro, com o acréscimo da também ótima pianista Renee Rosnes, aliás, mulher de Bill. São três músicos que apenas abrilhantam o disco. É tão bom que o fã de Bennett pode curtir a voz de um dos melhores cantores do século passado, que continua firme entre os primeiros neste, fazendo de conta que o pianista pode ser um qualquer, e os admiradores de um bom piano podem só prestar atenção nas linhas extraordinárias que Bill executa no instrumento. Juntando os dois, é o que ouvimos em simbiose perfeita. É um dos melhores lançamentos do ano. Jerome Kern deve estar feliz.

Bill e Tony na música que dá título ao disco.




A melhor faixa do álbum é “They Didn’t Believe Me”. Aqui são acompanhados por Peter Washington e Kenny Washington. Confira.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Os melhores álbuns pela Downbeat: do 11º pra frente

Adoro listas, como o protagonista de Alta Fidelidade (High Fidelity), de Nick Hornby. Presumo que não sou tão diferente de muitos que habitam este planeta. Tenho amigos que adoram fazer listas das mais variadas coisas. Como ouço música até para dormir – ou mal dormir –, nada mais natural que distrair-se com listas, vendo o meu ídolo por tantos anos no sax barítono e no soprano, John Surman, depois de ficar tanto tempo em primeiro, estar em 11º na primeira categoria e, na segunda, nem constar na “63rd Annual Critics Poll”, da Downbeat.

Antigamente, se não me engano, colocavam apenas os 10 melhores do ano. Foram aumentando e, na última, citam 42. Naturalmente, não ouvi todos. Vou relacionar apenas alguns que achei interessantes – outros menos –, que podem despertar a curiosidade de alguns.

Billy Childs, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (11º). O pianista é um bom arranjador e nesse álbum em que faz tributo à compositora e cantora, morta precocemente aos 49 anos. O álbum conta com várias participações especiais como a de Renée Fleming, a celebrada soprano americana, de conhecidas cantoras como Rickie Lee Jones, Lisa Fischer, Alison Krauss, Dianne Reeves e a emergente Becca Stevens e músicos como Esperanza Spalding (cantando), Wayne Shorter, Chris Botti, Chris Potter e a estrela erudita Yo-Yo Ma. Os álbuns de Childs são sempre instigantes pelos bons arranjos.

Ouca Map to the Treasure, com vocais de Lisa Fischer. Para quem não sabe, é a backing dos Rolling Stones.



Chris Potter, Imaginary Cities (12º). o saxofonista tenor, que tocou por muito tempo na banda de Dave Holland e é um bons (ficou em 4º lugar em seu instrumento pela Downbeat). É o segundo que grava pela ECM. Fez parte da Unity Band, com Pat Metheny, Ben Williams e Antonio Sanchez. Foi lançado um único álbum deles, em 2012.

Chris fal sobre Imaginary Cities.




Mark Turner, Lathe of Heaven (13º). Não está entre os meus saxofonistas tenor preferidos, mas isso quer dizer apenas que tudo é questão de gosto. Até por isso, Lathe of Heaven está em 13º. Sinal de que muitos não concordam comigo.

Ouça The Edenist.




The Cookers, Time and Time Again (14º). Os “cookers” são Billy Harper, Donald Harrison nos saxofones, David Weiss e Eddie Henderson, trompetse, George Cables, piano, Cecil McBee, contrabaixo, e Billy Hart na bateria. Não dá para ignorar uma formação dessa. É bem bom. Estaria na minha lista dos dez.

Veja os “cookers” em Sir Galahad. Nada como a experiência. David Weiss é o mais novo. Grande Billy Harper.




Anat Cohen, Luminosa (14º). Faz alguns anos que não tem ninguém para Anat, na clarineta. Na última votação teve exatamente o dobro do segundo, que foi o cubano expatriado Paquito D’Rivera. Há uma coisa em comum entre esses dois: são apaixonados pela música brasileira. A israelense tem sangue latino. Toca choros como ninguém. Sua paixão é tão grande que seu álbum tem esse título que tão bem combina com ela e sua música. Anat merece um texto separado. Só para adiantar, ela abre com Lília, de Milton Nascimento. Não para por aí. Tem K-Ximbinho, Edu Lobo e Severino Araújo. Na minha lista estaria entre os dez melhores.

Ouça Anat em In the Spirit of Baden.




Keith Jarrett/Charlie Haden, Last Dance (16º). Tudo o que os dois gravaram é, no mínimo bom. É o que é esse álbum. É o complemento de Jasmine. Todos os registros foram feitos na casa do pianista em 2007. Ouça e leia em http://bit.ly/1IuEue8. Leia também sobre os duos de Haden com outros grandes músicos em http://bit.ly/1LWaQ0u.

Ouça alguns trechos de Last Dance.




Sonny Rollins, Road Shows 3 (17º). Noutro dia (re)li uma história ótima sobre a imprevisibilidade do saxofonista. Na década de 1950, o saxofonista tenor era celebrado como um dos grandes, depois de lançar os hoje clássicos Saxophone Colossus e Tenor Madness. Antes, já tinha passado uma pequena temporada na cadeia por roubo e lutava contra o vício de heroína. Um certo comportamento errático, dando várias pausas na carreira, tornando-se muçulmano e depois abraçando seitas orientais, foi morar na Índia, e ficou por lá um tempo fazendo ioga e meditação. Max Gordon, dono do clube Village Vanguard, em certa feita, soube que ele estava em Nova York. Conseguiu falar com ele ao telefone. Sonny foi encontrar-se com Max vestido com uma túnica branca que ia até os pés e com a cabeça calva, com o cabelo desenhando uma cruz no topo. Este lhe ofereceu um drink. O saxofonista disse-lhe que não bebia mais. Naquela terça-feira de abril, em 1976, Sonny apareceu com sua banda. Estava em forma ainda. Arrebentou. Depois de um intervalo de meia hora, aconteceria a segunda parte do show. A banda voltou, mas Sonny tinha sumido, para a surpresa de todos.

Por excelência e por sua imprevisibilidade, Sonny é uma lenda viva. Tem 84 anos e ainda toca. É Road Shows 3, porque já foram lançados dois. O primeiro foi o disco do ano pela Downbeat em 2009. Este terceiro merece eatr entre os vinte melhores do ano, até pelo que Sonny fez pela música. Max Gordon considerava-o o melhor tenorista de sua geração, melhor que Billy Harper, Dexter Gordon e Johnny Griffin. Bom, Gordon é um dos meus preferidos. Rollins está abaixo na minha lista. Mas, o velhinho manda bem. Tem fôlego para fazer solos espetaculares ainda.

Ouça Biji, a primeira faixa.




Tony Bennett e Lady Gaga, Cheek to Cheek (19º). O que esperar de um ancião quase nonagenário e uma cantora que adora mostrar as suas nem tão divinas tetas? Bem, chamar Tony de ancião é um insulto. Impressionante como mantém a verve de grande cantor. E Lady Gaga, para a minha, a nossa e a sua surpresa, manda bem nos standards. Sobre esse álbum, leia http://bit.ly/1MpEQpH.

Veja Tony e Lady Gaga cantando Anything Goes, Cheek to Cheek e They All Laughed.




Marc Ribot Trio, Live at The Village Vanguard (20º). Sem ser um virtuose, Marc se diferencia pelo som original que tira da guitarra. É o que faz, por exemplo Ry Cooder. Suas participações em álbuns de outros músicos são sempre interessantes. Deve ter tocado com todo mundo. Tocou em vários discos de Tom Waits. Este ao vivo é muito bom.

Ouça Sun Ship.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lady Gaga, quem diria, canta jazz

Lady Gaga e Tony Bennett [ph: Yves Herman ]
Até há pouco tempo, nem sabia quem era Lady Gaga e a confundia com Miley Cyrus. De tanto ser bombardeado por notícias , ou melhor, escândalos protagonizados por ambas, impossível ignorá-las. Mas, em termos musicais é fácil. De Miley, não tive como fugir da curiosidade de assistir ao tal vídeo de Wrecking Ball. Prestei mais atenção na parte visual e não lembro nem da música e nem da sua cara.

Vacilei bastante em ouvir um álbum recém lançado de Tony Bennett com Lady Gaga. Mas a curiosidade matou o gato. Bennett e Kurt Elling são as minhas vozes masculinas preferidas. Torço um pouco o nariz com esses álbuns de Bennett fazendo duetos com intérpretes da música pop.

Naquela vontade de perservar o bom conceito de que temos pelos nossos ídolos, apesar de ter na minha estante Duets II, não ouvi, com receio de decepcionar-me. É triste constatar que certos artistas vendem a alma para fugirem do ocaso. Ficaria muito chateado se percebesse que Bennett teria entrado para esse time.

Quando Frank Sinatra lançou aqueles dois álbuns de duetos com Bono Vox, Barbra Streisand Carly Simon e outros menos votados, o velho cantor de olhos azuis encontrava-se em franca decadência. Foi frustrante ouvir Frank com aquele fio de voz que nem de longe lembrava o grande intérprete que foi. A grande diferença entre ele e Bennett é que, apesar de quase nonagenário, continua pimpão, vivo e operativo. A voz continua boa, seu senso de ritmo é inigualável e não parece ter 88 anos.

Tomei coragem e resolvi ouvir Duets II. Tony não faz feio. Supera minhas expectativas. Já que ouvir esse disco está sendo um preparo para ouvir o recentíssimo Cheek to Cheek, dele com Lady Gaga, qual não é a minha surpresa ao ver que a primeira faixa é The Lady is a Tramp, com a própria. Terá sido escolhida a dedo? Pelo que sugere o título, combina bem com a intérprete. Por favor, não estou querendo, com isso, chamá-la de “vagabunda”, até porque, se não me engano, ela gosta dessa superexposição revelando seu lado mais vulgar de forma narcisista. A boa surpresa é de que dá conta do recado. É uma música “para cima”, com uma orquestra afinada. Além dela, há outros convidados ilustres como Amy Winehouse (um pouco fora de forma na linda balada Body and Soul), Norah Jones (na mediana Speak Low), Aretha Franklin (ótima em How Do You Keep the Music Playing), Sheryl Crow (a roqueira manda bem em The Man I Love) e Willie Nelson.

Veja Lady Gaga e Bennett em The Lady Is a Tramp.



Tomei coragem para ouvir o álbum de Tony e Gaga. Ela não tem uma voz marcante, um pouco limitada até, mas tem suingue, coisa que ajuda bem para interpretar esses standards consagrados. Várias, naturalmente, são com os dois, mas outras não. Lush Life e Everytime We Say Goodbye são cantadas por Gaga apenas.

Veja os dois cantando Anything Goes.



Veja os dois em I Can’t Give You Anything But Love.



A melhor surpresa vem na bonus track. É de uma apresentação ao vivo. Bang Bang (My Baby Shot Me Down) não seria tão conhecida se não tivesse sido incluída na trilha de um dos filmes de Quentin Tarantino. Composta por Sonny Bono, um dos lados da dupla Sonny & Cher, a versão clássica – e a utilizada por Tarantino – é de Nancy Sinatra, que você ouve depois da de Lady Gaga

Ouça.




A com Nancy Sinatra.


Uma última observação: que capa horrível a de Cheek to Cheek! Tony Bennett parece um boneco de cera e Lady Gaga, bem, ela é feia mesmo, mas era possível uma melhorada. Pelo que vejo, ela muda muito e deve gostar de “vestir” várias pessoas a cada instante.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Diferenças entre o gosto da patuleia e o da crítica, de acordo com a lista dos melhores de 2012

Radio Music Society, de Spalding é o melhor do ano
Com certo atraso, comento sobre a lista dos melhores, segundo os leitores da revista Downbeat.

Todo ano, pouco depois de publicada a lista dos melhores eleitos por uma junta de críticos convidados, a Downbeat envia aos seus assinantes, por e-mail, um link para que seus leitores votem nos melhores do ano. Para cada categoria são sugeridos alguns nomes, mas é possível se votar em algum outro. É inevitável uma certa contaminação pelo fato de se votar depois de se saber o que os críticos escolheram.

Na edição de dezembro, que é lançada logo no início de novembro, sai o resultado do Readers Poll. É normal que os críticos especializados sejam mais sofisticados e informados que o chamado povão, mesmo em gênero tão específico como o jazz.


A lista dos melhores CDs na opinião dos leitores
1. Esperanza Spalding, Radio Music Society
2. Ahmad Jamal, Blue Moon
3. Tony Bennett, Duets II
4. Vijay Iyer, Accelerando
5. Keith Jarrett, Rio
6. Brad Mehldau Trio, Ode
7. Sonny Rollins, Road Shows, Vol. 2
8. Arturo Sandoval, Dear Diz (Everyday I Think of You)
9. Corea, Clarke & White, Forever
10. Trombone Shorty, For True

Na dos melhores pela crítica, Accelerando (ACT 2012), do pianista Vijay Iyer, ficou em primeiro lugar com quase o dobro do segundo – Road Shows, vol. 2, de Sonny Rollins. Na do povão, em primeiro ficou Radio Music Society, de Esperanza Spalding. Como foi lançado em abril do ano passado, nem consta na lista dos 30 melhores da crítica. É o caso, provavelmente, de outros álbuns como Ode, de Brad Mehldau, e de Dear Diz (Everyday I Think of You), de Arturo Sandoval, lançado em junho. Spalding é nova, belo penteado black (lembra a ex-ativista Angela Davis), canta e toca um instrumento do seu tamanho – o contrabaixo acústico – e é talentosa, mas supervalorizada, devido ao seu carisma. Meu voto foi para Rio, de Keith Jarrett. Na lista dos críticos ficou em terceiro. É um dos melhores registros do pianista nos últimos anos. Leia e ouça em http://bit.ly/MF8xTA.

A divergência mais perceptível é a não classificação – entre os 30 melhores – do álbum Be Good, de Gregory Porter (ouça e leia sobre ele em http://bit.ly/TVkW98). Inexplicável. Merecidamente, Sonny Rollins e o “retorno” de Forever, de Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White constam nas duas listas. Faz o gosto da patuleia e da crítica. Corea é sofisticado e pop ao mesmo tempo.

Os dez discos classificados devem ser ouvidos e cada um preenche um “pedaço” de prazer do fã do jazz. Não ouvi apenas os de Arturo Sandoval (leia sobre seu Time for Love, lançado em 2010, em http://bit.ly/VvMdf5) – mas tudo o que grava é bom –, e o de Tony Bennett, apesar de considerá-lo “the best” como cantor, não tenho a mínima curiosidade de conhecer. Esses “duets”, moda iniciada com Frank Sinatra no crepúsculo de sua carreira, em 1993, dividindo os vocais com Julio Iglesias, por exemplo, são um saco de gatos; se bem que dividiu também com Bennett, Bono, do U2, e Aretha Franklin. Têm cara de caça níqueis. Em Duets II, Bennett divide vocais com k d lang, Norah Jones, Andrea Bocelli, Amy Winehouse, o que não é mal, mas também com Lady Gaga e Mariah Carey.

Veja Body and Soul, com Amy Winehouse. Amy é Amy, ou melhor, foi. Era bem talhada para interpretar standards do cancioneiro americano. Basta ouví-la a cantar (There Is) No Greater Love, em Frank (2003). Foi uma de suas gravações derradeiras.




Os melhores instrumentistas
Apenas para registro (e poucos comentários) listo os melhores de alguns instrumentos.
Piano: Brad Mehldau (leitores) e Vijay Iyer (crítica)
Sax alto: Kenny Garrett (L), Rudresh Mahanthappa (C)
Sax soprano: Wayne Shorter (L), Branford Marsalis (C)
Trumpete: Wynton Marsalis (L), Ambrose Akinmusire (C)
Flauta: Hubert Laws (L), Nicole Mitchell (C)
Guitarra: Pat Metheny (L), Bill Frisell (C)
Trombone: Trombone Shorty (L), Wycliff Gordon (C)
Vocalista feminina: Diana Krall (L), Cassandra Wilson (C)

Em alguns instrumentos concordam em quem são os melhores: baixo acústico (Christian McBride), sax tenor (Sonny Rollins), bateria (Jack DeJohnette), sax barítono (Gary Smulyan; na lista dos leitores empatou com James Carter), clarineta (Anat Cohen), entre outros.

Pelas diferenças percebe-se o óbvio: os críticos adoram Vijay Iyer e Rudresh Mahanthappa, e os leitores ainda estão se acostumando com eles mas, no básico, não existe grande diferença entre o que eles gostam e nós, membros da patuleia.

Ouça duas interpretações de Ahmad Jamal, do CD Blue Moon (Jazz Village, 2012). Leia sobre esse CD em http://bit.ly/V6khVi.

Gypsy. Nesta e na próxima, Ahmad é acompanhado por Reginald Veal no baixo, Herlin Riley na bateria, e Manolo Badrena na percussão.



Laura.



Com Chick Corea, Stanley Clarke e Lenny White, ouça No Mistery.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O presente de Natal de Tony Bennett

Todo mundo já fez seu “Christmas album”. Bem, nem todo o mundo. Você fez o seu? Eu não fiz o meu, portanto, esse “todo o mundo” é bem relativo. Mas, desde que existem discos, desde os velhos 78 (eram discos pesadíssimos prensados em celuloides que giravam numa velocidade alucinante sobre o prato de um pickup: era um festival de chiados e algum som), eram lançados na época de natal. O negócio do tal de Santa Claus é coisa séria no Hemisfério Norte. Até nós, colonizados do lado sul nos cansamos de assistir aos filmes americanos exibidos nos dias 24 e 25 de dezembro. E, mesmo aqueles mais distraídos, devem ter ouvido uma canção de natal cantada pela voz macia de Bing Crosby.

Na época do Natal, desde o cantor mais brega ao mais sofisticado, pode nos brindar com seu disco relacionado à efeméride, com resultados muito desiguais. Até no Brasil, alguns se aventuram em soltar seu disquinho comemorativo: puro colonialismo; não combina muito com os verões quentes.

Em uma rápida pesquisa no site da Amazon, descobrimos que Michael Bublé está lançando o seu, agora em 2011, chamado simplesmente Christmas; capa discreta: ele nem está vestido de Papai Noel ou coisa que o valha. Vemos também que a dupla moderninha She & Him lança o seu A Very She & Him Christmas. Para quem não sabe, a “she” é a dublê de atriz e cantora Zooey Deschanel e o “him” é M. Ward. Na primeira página, temos ainda James Taylor (JT at Christmas, 2006), e Andrea Bocelli (My Christmas, 2009), Se continuarmos a explorar, veremos que muita gente fez seu disco de natal; por essa razão é “todo o mundo”. (Leia “Diana Krall embrulhada para o Natal em http://bit.ly/u0HQZC).

O disco de Natal de Tony Bennett
Nesse “todo o mundo” não poderia faltar o de Tony Bennett, quase nonagenário e ativíssimo, que, depois da morte de Frank Sinatra, herdou o título de melhor cantor do mundo (mesmo que tenhamos de admitir que essas classificações de “melhor do mundo” são capciosas). Seu The Classic Christmas Album, recentemente lançado, não é uma coleção de canções inéditas; é uma compilação. Cinco delas são de Snowfall: The Tony Bennett Christmas Album, de 1968, com arranjos do competente arranjador Robert Farnon. Mais cinco são de A Swinging Christmas, de 2008, com arranjos do não menos talentoso arranjador Bill Holman. Outras são com seu mais tradicional acompanhante, o pianista Ralph Sharon, em quatro delas é acompanhado pela London Symphony Orchestra, e há uma em que faz dueto com Placido Domingo.

Mesmo considerando que esses “Christmas Albuns” não combinam bem com o espírito natalino brasileiro, é impossível não reconhecer a classe e elegância de Tony Bennett.

Em homenagem ao amigo Carlos Conde, que era apaixonado por Mel Tormé, ouça a clássica The Christmas Song, arranjada por Robert Farnon (Clique em “skip this add” para fugir da publicidade inicial).




Ouça na interpretação de seu compositor. A música foi composta em 1944.



Aos amigos, um Natal com muitos presentes.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Homens amam The Man I Love; e as mulheres, também

“The Man I Love” é uma daquelas músicas preferidas por dez entre dez músicos. Quaisquer interpretações, até as mais “desconstruídas”, não conseguirão abalar a beleza das linhas melódicas desse clássico gershwiniano.

Eleja a sua preferida. É difícil, não? É só começar a pensar e dezenas surgirão. A melancólica de Billie Holiday? Ou a “diferente” de Betty Carter? Ou de Chris Connor, Carmen McRae, Ella Fitzgerald, Doris Day, Helen Forrest, Peggy Lee… bom, vamos parar por aqui. Ou das instrumentais: Miles Davis (grande início com as primeiras notas do vibrafone de Milt Jackson para a entrada do trumpete de Miles), Charlie Parker, Nat King Cole, Art Tatum, Hank Jones… por ora, fico com o belíssimo solo de Thelonious Monk no piano.

Tony Bennett, para poder cantá-la sem se incomodar com o gênero feminino, cantou-a transmutada em “The Girl I Love”, que é como também canta Michael Feinstein. Alguém sabe de algum homem cantando-a com a letra original?

Phineas, o jovem
Somos de gerações anteriores aos dos politicamente corretos e, sendo assim, não ficamos preocupados se, usando tais ou quais expressões estamos sendo incorretos. O amigo Zeca Leal sempre se expressava de maneira bem-humorada e engraçada, punha apelidos em todos — sem que as “vítimas” soubessem quais eram os seus — tinha um conhecimento estúpido de jazz. Somos de gerações diferentes, eu e o Zeca. Morreu com uns 86/87 anos. Depois que passou a ter algumas complicações de saúde, parou de vir à minha casa. Vinha sempre com várias fitas cassetes — para quem não sabe o que é, digamos que eram os pen drive de antigamente — e gravava muitos CDs de discos que um dia os tivera formato LP, os tais vinis, que estão voltando à moda. É que os carros de antigamente, antes dos CDs, eram equipados de “toca fitas”, como era chamado.

Perguntou-me, uma vez, se eu tinha algum disco do Phineas Newborn Jr. Respondi-lhe que sim. E o Zeca: O negão é bom. Imagine um crioulo chamado Phineas; tem que ser bom; já nasceu diferente. Pois me lembrei do Zeca ao ouvir um belo “The Man I Love” com Phineas ao piano, de 1976, quando já o consideravam decadente.

Phineas tem grandes discos gravados na década de 1950. Infelizmente, em princípios dos anos 1960, sua frágil saúde mental fê-lo sucumbir a algumas críticas que lhe foram feitas rotulando-o como um pianista de estilo “fácil”. Ficou internado um tempo em uma clínica para doentes mentais. A partir daí, a intermitência dos problemas mentais tornou a carreira de músico inconstante. Phineas tocava tão fácil a ponto de alguns críticos acharem que tocava uma música “fácil”. Engano. O grande Leonard Feather discordava. Disse que Phineas foi um dos três melhores pianistas quando estava no auge. Mas, injustiças são injustiças, às vezes destruindo vidas. De nada vale a glória depois da morte.

O registro de “The Man I Love” é de 1976, portanto, quando Phineas não era mais “aquelas coisas”. Ouça. É um craque.




Anthony Benedetto, o homem que ama as mulheres. E os homens também o amam. É genial. Veja. Só que na sua versão, é “girl”.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

The Boulevard of Broken Dreams

Esqueçam a versão da banda de rock Green Day de Boulevard of Broken Dreams. Por melhor que seja, nunca será tão boa quanto é a que foi composta em 1934 por Al Dubin (letras) e Harry Warren (música), para o filme Moulin Rouge, dirigido por Sidney Lanfield. Quem se apropriou do nome foram os do Green Day.

A música tem um sabor latino, algo entre um tango e um bolero, e, contraditoriamente, possui uma letra amarga (“Eu ando pela rua da amargura/ O bulevar dos sonhos desfeitos/ Onde gigolô e gigolete/ Podem levar um beijo sem arrependimentos/ E assim esquecerem dos seus sonhos desfeitos”). Não existem tantos registros dessa música, curiosamente.

Bennett, bem mais jovem; o nariz continua igual
A minha preferida é a de Tony Bennett. Bem, mas qual? Tony deve tê-la gravado umas três vezes. A primeira, de 1950, segue o ritmo da original (está disponibilizado abaixo). A de que gosto mesmo, é a que está no álbum que gravou com o pianista Ralph Sharon – Astoria: Portrait of an Artist (1990). Não é “esfuziante”, é mais uma balada, mais de acordo com a letra.

No disco All for You (1996), tributo de Diana Krall ao trio de Nat King Cole, está o segundo Boulevard, na minha classificação, friso (gosto não se discute, apenas se lamenta: não é o que dizem?). O que está disponibilizado abaixo é um pouco diferente da que consta no disco, mas é belíssima também.

Outra interpretação que vale a pena – até porque combina com ela –, é a de Marianne Faithfull. A de King Cole segue um pouco os tempos em que foi gravada: é “latinizada”, como a original. Como se vê pelo ano em que foi composta Boulevard, vê-se que a influência dos ritmos latinos e caribenhos é anterior à Segunda Guerra. Basta lembrarmos de Carmen Miranda.

Para complementar, Amy Winehouse andou cantando essa música nas apresentações que fez no Brasil; e não é a do Green Day. Ela tem bom gosto.


Constance Bennett em Moulin Rouge.




Com Nat King Cole:




Diana Krall canta. Preste atenção no guitarrista Russell Malone, antecessor de Anthony Wilson, e também no “caco” de The Peacocks, de Jimmie Rowles, no solo que faz ao piano.




Marianne Faithfull canta.




Tony Bennettt