quinta-feira, 9 de abril de 2020
Ellis Marsalis, Jr. é mais uma vítima da Covid-19
Foi impressionante.Depois de começar como sideman na banda de Art Blakey, Wynton Marsalis assinou com a major Columbia Records. Lançou o primeiro álbum, em 1982. Com uma banda de joven, como eles — Branford Marsalis, Kenny Kirkland, Charnett Moffett e Jeff “Tain” Watts —, Wynton despertou imediato interesse da crítica. Chamou a atenção também porque era um bando de meninos vestindo costumes impecáveis, gravatas idem, e tocavam muito bem. Havia no modo de vestir deles um conceito intrínseco que Wynton passou a defender com convicção: a volta às raízes do verdadeiro jazz. Era a antítese de Miles Davis. Resumo: o jazz havia se desviado demais de seus preceitos originais. O establishment adorou. Chamaram-nos de “young lions”.
Com “Think of One” (1983), ganhou um Grammy. Antes de ir para o jazz, sua intenção era a de ser um músico erudito. Por essa versatilidade, à vontade nessa seara, a Columbia lançou um disco com Wynton tocando concertos clássicos de Haydn, Mozart e Hummel. Era o garoto de ouro na Columbia, um substituto à altura de Miles Davis. Alternou-se por anos em álbuns de jazz e eruditos.
Seu irmão mais velho, o saxofonista Branford Marsalis, conseguiu um contrato na mesma gravadora. Serviu para alimentar uma “competição” entre irmãos, que nunca existiu de fato. Eram muito diferentes. Enquanto Wynton era o conservador da família, Branford, sideman do primeiro disco do irmão mais novo, saiu da banda para tocar ncom o popstar Sting, que se lançava em carreira solo depois de desfeito o Police. Em seus como líder, introduziu elementos da cultura negra mais popular, como o funk, o hip-hop e o rhythm’n’blues. Chegou a lançar um com o nome Buckshot LeFonque, que era o pseudônimo que Cannonball Adderley usou em certa feita para burlar o contrato de sua gravadora. Os irmãos brincavam que eram Caim e Abel do jazz.
Havia, entretanto, alguém até então desconhecido, ou pouco conhecido, o pai. Ellis Marsalis, Jr. Era um pianista que tinha tocado com Cannonball Adderley, Nat Adderley, Al Hirt e Dewey Redman, mas se notabilizara como professor em New Orleans. Alguns de seus alunos ficaram conhecidos no meio do jazz, como Harry Connick Jr., Donald Harrison e Terence Blanchard.
No mesmo ano em que Wynton estreou na Columbia, foi lançado “Fathers & Sons”, ideia de Dr. George Butler, produtor principal da gravadora na época, os irmãos Marsalis com o então desconhecidíssimo Ellis Marsalis, o pai, alternando com o jovem Chico Freeman e o VonFreeman.
Com seis filhos para criar, Ellis não saiu de New Orleans. Preferiu ficar como professor de música em universidades locais e administrar o motel da família.
Com filhos criados e a súbita fama, Ellis foi convidado a gravar e, eventualmente, viajar para outros lugares para tocar. Foi o pianista de vários álbuns de Wynton e participou como sideman de outros. Como líder, lançou perto de vinte álbuns, geralmente, em formatos menores, como trios, quartetos e quintetos e outros ao piano solo.
Mesmo excelente executando standards, deve-se ressaltar sua qualidade como compositor. Dos álbuns que conheço, destaco “Heart of Gold” (1991), em trio formado por Ray Brown e Billy Higgins, e “Whistle Stop”, excelente, acompanhado pelos “young lions” Branford Marsalis, Robert Hurst e os bateristas Jeff “Tain” Watts e Jason Marsalis, em que, além executa várias composições próprias e temas de seus conterrâneos sulistas Alvin Batiste, Harold Batiste, Jim Black e Nat Perrilliat. O que se evidencia, mesmo acompanhado, é a qualidade de seus solos ao piano. É o que fica demonstrado no solo piano “Ruminations in New York” (2005).
Obra prima
A partir de uma ideia simples e brilhante, Ellis gravou com o seu filho Branford o álbum “Loved Ones”. Todas as canções se referem a elas, as mulheres. São números clássicos do cancioneiro americano de autoria de Duke Ellington, Victor Young, Cole Porter, Jimmy van Heusen, Sammy Fain, Leonard Bernstein, Al Dubin e Harry Warren, Gus Kahn, George Gershwin e outros, clássicos como “Laura”, Maria”, “Miss Otis Regrets”, Stella by Starlight” e outras, além de “Dear Dolores”, de autoria de Ellis homenageando a mãe de seus filhos.
Acesse a playlist que fiz no Spotify.
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