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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Nijinsky. Ou ter uma certa capacidade de abstração

 


 “Nijinsky” foi um espetáculo montado por Naum Alves de Souza. Foca na breve carreira do russo de origem polonesa que logo foi chamado de “o deus da dança”, após suas primeiras apresentações em Paris, na companhia de Sergei Diaghilev.

O início do século 20 foi o das vanguardas, termo que caiu no lugar comum depois, mas tiveram razão de serem assim chamadas por serem verdadeiramente revolucionárias e até consideradas iconoclastas. O balés serviram como um caldeirão em que se juntavam a expressão teatral, por meio da dança, a visual, com os cenários e figurinos, e a música. Nesse contexto, Paris conheceu o Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Obtiveram enorme impacto “Petrouchka” e “Sagração da Primavera”, criadas a partir de composições de Igor Stravinsky. Não apenas bailarino, Nijinsky chocou a cena parisiense com sua coreografia para “A l’après-midi dun faune”, de Claude Debussy.

A peça
Alguns nomes eram destaques na dança, em São Paulo, na década de 1980: Ivaldo Bertazzo, Ruth Rachou e J.C. Violla. Este último tinha um curso de dança de salão, muito frequentado pelos descolados daquela época.

Evidentemente, “Nijinsky” teria que ser representado por um bailarino. O escolhido foi J.C. Violla.

“Nijinsky” foi encenado no Teatro da Cultura Artística, muito tempo antes do incêndio. Lembro que era um sábado. Tinha uma sessão às 18h e outra às 20h.Fomos em um grupo de umas seis pessoas na última sessão. No caminho do teatro, encontrei com o jornalista e crítico do “Jornal da Tarde” Edmar Pereira, que acabado de ver a peça. Edmar era um sujeito com tiradas peculiares. Sem o objetivo de serem uma crítica, eram por outras vias. Convocado para cobrir um dos dias do “Hollywood Rock”, no estádio do Morumbi, encontro com ele na apresentação de Bob Dylan. Pergunto para ele se está gostando. Responde: “A gente só consegue descobrir qual é a música que ele está cantando na hora do refrão. Ainda bem que o jornal me passou o setlist.”

No caso de “Nijinsky”, perguntei se ele tinha gostado. “Imagine uma mulher de poucos atributos físicos, enorme, representando Carmen, da ópera do Bizet. A gente tem que imaginá-la como a mulher irresistível que leva Don José ao desespero. A gente tem que achar que é o Nijinsky que está dançando.”

Observação: em 1986, quando estreou “Nijinsky”, não existia o que ficou conhecido como “politicamente correto”; portanto, o termo “gordo” não era ofensivo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Bob Dylan ataca nos standards

Shadows in the Night, lançado em 2 de fevereiro
Devo ter contado essa história em alguma ocasião anterior, mas, vamos lá. Não lembro mais em que ano foi, presumo porém que foi há mais de 20 anos, pois era um festival de música patrocinado pela indústria do tabaco, o que hoje é proibido. Em um dos Hollywood Rock, uma das atrações era Bob Dylan. Era dia ainda quando se apresentou, porque não era a atração principal. Apesar de sua relevância, nunca encontrei fãs fanáticos pelo americano aqui.

Encontrei com o Edmar Pereira, à época, do Jornal da Tarde. Para confirmar que foi há muito tempo, o jornal deixou de existir em 2012 e Edmar morreu em 2003. Ele estava com um daqueles jalecos verdes que os fotógrafos costumam usar. Era um cara grandão e difícil de passar despercebido em qualquer lugar. Ele estava bem distante do palco e com o estádio do Morumbi relativamente vazio ainda, fiquei conversando com ele. Comentei que não conseguia reconhecer a música que Dylan cantava. O Edmar comentou: “Na hora do refrão, é possível descobrir.” Às vezes, nem pelo refrão, tal a forma que cantava até as mais conhecidas como Blowin’ the Wind. Como o Edmar estava a trabalho, tinha o setlist à mão. Foi um show estranho, como o outro a que assisti, quando abriu para os Rolling Stones, em 1998, se não me engano.

A febre de lançamentos de álbuns de figuras carimbadas do pop/rock cantando clássicos do cancioneiro americano é antiga. Temos bons discos de Carly Simon (Hurt), Willie Nelson (Stardust) e Bryan Ferry (As Time Goes By) cantando standards com muita categoria; outros, nem tanto, como o de Paul McCartney (Kisses on the Bottom; leia em http://bit.ly/1DrGX3R), mas de nenhuma forma, ruim. Esses álbuns, em sua maioria, pois até Luis Miguel já fez isso, têm cara de caça níqueis. Veja-se o exemplo de Rod Stewart, que lançou um “Great American Songbook” e depois, mais quatro. Haja saco, ou melhor, ouvidos.

Há uma certa ironia em Bob Dylan, depois de tanta gente ter feito, lançar o seu álbum de standards. A ironia é porque muitas de suas composições podem ser consideradas como tal. De chofre, sem pensar muito, é possível lembrar-se de Blowin’ in the Wind, All Along the Watchtower, Like a Rolling Stone, clássicos que merecem o rótulo de “standards”. Certo que nenhuma delas está relacionada à tradição dos musicais como as de um Cole Porter ou um Irving Berlin.

Dylan, em entrevista à AARP the Magazine, Dylan disse que pensava em gravar um álbum nesse formato desde que ouvira Stardust, de Willie Nelson, lançado nos anos 1970. Disse também que Sinatra é uma referência forte: “Quando você começa a gravar essas músicas, Frank vem à mente. Porque ele é uma montanha. Essa é a montanha que você quer subir, mesmo que você a escale apenas uma parte. E é difícil encontrar uma canção que ele não tenha gravado. Ele é o cara que você deve conferir. As pessoas falam o tempo todo de Frank. Ele tinha essa habilidade de entrar na canção como se fosse uma conversação. Frank cantava para você – não em você.”

Há uma qualidade específica em suas interpretações. Longe de ser um Frank Sinatra, com direito a algumas semitonadas, há uma beleza na forma como aborda cada uma das canções. Canta melhor do que em seus últimos álbuns. Há um certo consenso de que sua voz, que nunca foi uma maravilha, piorou com o passar dos anos. Como Willie Nelson, que em Stardust deixa evidente que suas raízes estão na country music, Dylan imprime uma ambiência folk, cantando sobre uma base bem despojada, na maioria delas, só com o violão e uma guitarra slide. Outra coisa boa é a de que, nesse álbum produzido por ele, garimpa canções não muito conhecidas. Ao contrário de um Rod Stewart, Dylan foge do óbvio.


Ouça algumas faixas além de I’m a Fool to Want You.

Stay with Me, de Jerome Moross, Carolyn Leigh.




Full Moon in Empty Arms, de Buddy Kaye, Ted Mossman.