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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os primeiros cinco minutos de Coração Selvagem

Lula (Laura Dern)  e Sailor (Nicolas Cage)
A experiência mais impressionante que tive no cinema, depois das cenas iniciais de Cidadão Kane – sei que é clichê dizer isso, mas é verdade –, foi ter visto Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990) em um cinema com a tecnologia THX, criada por George Lucas, num cinema em Paris com os amigos Vânia, Márcio e a Magu.

Em uma tela enorme, depois da assinatura “azul” de Samuel Goldwyn, vemos a cabeça de um fósforo em “super zoom” no momento em que a pólvora se incendeia. É uma “explosão” sonora, mil vezes amplificada. A chama se torna incêndio e ocupa a tela inteira. O título “Wild at Heart”, palavra por palavra surge em zoom, acompanhadas por um som que que corresponde ao exato momento em que a pólvora vira chama. Uma das mais belas peças do repertório erudito, Im Abendrot – é parte integrante de Vier Letzte Lieder (Quatro Últimas Canções), assim chamadas porque foram as composições derradeiras de Richard Strauss – faz fundo para a longa sequência dos letreiros iniciais.

Corte. Outra música e início do filme. A câmera aponta para o teto de um teatro. O letreiro situa a cena: Cape Fear (será uma referência ao clássico filme de 1962 estrelado por Gregory Peck e um amedrontador Robert Mitchum?). Vemos Sailor Ripley (Nicolas Cage) – mais uma referência: dessa vez reporta-se a Thomas Ripley, personagem dos policiais de Patricia Highsmith – chegando para se encontrar com Lula Fortune (Laura Dern). Sailor chega vestido com um estiloso paletó bicolor (cinza gelo e preto) e tasca um beijo em Lula. É abordado por um negro que chega acusando-o de ter assediado Marietta (Diane Ladd), a mão de Lula, no banheiro, dizendo-lhe que o matará por causa disso. Bom, melhor que descrever a cena é vê-la. Terminada a contenda, Sailor acende um cigarro.

A cena:



Próximo take: o portal da penitenciára onde Sailor passará uma temporada, até conseguir liberdade condicional. Mas aí, é a continuação da história. Meu propósito é apenas narrar os primeiros cinco minutos do filme. Visto, hoje, ainda causa impacto.

Uma cena “Lynch”
Laura Dern não é exatamente bonita, mas exala sensualidade e certa vulgaridade, algo que, certamente, desperta fantasias masculinas, um pouco como outra atriz, Ellen Barkin (uma referência: coprotagoniza Sea of Love com Al Pacino). Sua “esquisitice” é perfeita para as esquisitices de Lynch. O mesmo se aplica a Cage e àquela sua eterna cara de bebê chorão.

Em liberdade condicional, Sailor foge com Lula e partem, de carro em direção à Califórnia, se não me engano. Em um motel de estrada, cenas de sexo se misturam a alguns flashbacks como o de Sailor sendo assediado no banheiro por Marietta e de um “estranho” incêndio. Sailor veste a sua roupa preferida – casaco e botas de caubói manufaturados em couro de cobra – enquanto Lula veste a sua de periguete (essa palavra não constava na linguagem da época, mas cabe bem hoje ao seu jeito de vestir, meio “putinha”, “aberta para o crime”).

Dançam freneticamente, com direito a coreografias e luzes rubras. Num momento em que estão separados, um rapaz puxa Lula para o seu lado. Sailor, enciumado, parte para cima dele. O diálogo, que acontece antes dos seus murros certeiros contra o rapaz, é impagável:

— Você parece um palhaço nessa jaqueta estúpida.
— É uma jaqueta de couro de cobra: um símbolo da minha individualidade e da minha crença na liberdade pessoal, responde Sailor.

Sobre as Vier Letzte Lieder
Pelo título já é possível de saber que são as canções derradeiras de Richard Strauss. Pelo fato de ter permanecido na Alemanha durante a 2ª Guerra Mundial, e ser uma celebridade, com razão, teve seu nome associado ao hitlerismo. No mínimo, foi conivente, assim como tantas pessoas que viveram essas guerras. O mesmo aconteceu com o, então jovem, Herbert von Karajan, que se aproveitou da debandada de grandes músicos, contrários ao regime. Essa “conivência” deve ter sido mais funcional que ideológica. Era amigo do judeu Stefan Zweig (emigrou para o Brasil) e parece que não nutria a mínima simpatia por Joseph Goebbels, o “cérebro intelectual” do 3º Reich. 

Terminada a guerra e recluso, em “desgraça”, foi reconhecido por um militar que amante da música clássica. Foi uma sorte. Poderia ter sido diferente. Morreu em 1949. Se tivesse sido morto ou preso, não teríamos essas Quatro Últimas Canções. O mundo seria menor sem ela.

Na minha opinião a melhor interpretação de Vier Letzte Lieder é a de Elisabeth Schwarzkopf, com regência de George Szell. É evidente que nem todo mundo vai concordar. “Todo mundo” gravou. Tem registros bem antigos como a da wagneriana célebre, Kirsten Flagstad, com regência de Fürtwangler, duas lendas; essa é considerada a “grande” por muitos, em razão de dizerem que Strauss pensou nela como intérprete quando as compôs. Esses lieder são tão sublimes que até aceitam pequenos “desaforos”. De memória, lembro as de Montserrat Caballé (a que me “desvirginou”), de Kiri Te Kanawa (há um registro belíssimo em vídeo da apresentação e dos ensaios com Georg Solti, imperdível), Renée Fleming (ótima), Gundula Janowitz, Jessie Norman, Lucia Popp, Leontyne Price, bom, já deu, não?

Ouça a de Elisabeth Schwarzkopf. Deu para notar que sou fã incondicional dela, não? Tenho dois textos relacionados. Leia em http://bit.ly/uoO9Fp, e http://bit.ly/tmYMyr.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Love Me Tender, com Norah Jones

George Lucas inventou um sistema de som revolucionário para as salas de cinema, chamado THX. Nunca chegou ao Brasil em razão do custo elevado de instalação. E acabou não dando certo internacionalmente também, por uma dessas razões que a própria razão desconhece. Mas quem assistiu a algum filme em THX não esquece.

Laura Dern e Nicolas Cage em Coração Selvagem
O único que vi foi Coração Selvagem (Wild at Heart), de David Lynch. Lembro até hoje da “explosão” sonora da cabeça do fósforo na hora em que se acende. Quando surge a chama, ouvimos aquele som característico da pólvora na hora em que vira chama, superamplificado. No momento seguinte, salvo engano, entra uma das mais belas canções (lieder) de todos os tempos: Im abendrot, uma das quatro de Vier Letzte Lieder, de Richard Strauss.

Vi o filme numa sala de Paris com a Vania e o Marcio, que depois de mais de quinze anos morando lá, hoje, podem ser considerados franceses. Após terminada a sessão, tentamos pegar um táxi. Como estávamos em quatro, por uma dessas razões razoáveis apenas entre os taxistas franceses – recusam-se a levar mais que três passageiros (e não adianta argumentar) – e, no adiantado da hora, eram poucos nas ruas e os metrôs não circulavam mais, não nos restou outra opção senão voltarmos à pé. Paris é uma cidade bem menor que São Paulo. Mesmo assim, das proximidades da Galeria Lafayette até a Bastilha, não era um percurso deveras curto. A noite de setembro estava agradável e fomos nós, conversando e rindo. Paramos em um estabelecimento que encontramos aberto para comer e beber alguma coisa nas proximidades do Beaubourg. Seguimos pela Rue de Rivoli e por sua continuação, Rue Saint Antoine, até a Rue de Charenton. Já em casa, Marcio estava animado, cantando Love Me Tender. A Vania disse que ele tinha verdadeira paixão por essa música. Por coincidência, uma das cenas mais marcantes de Wild at Heart era justamente a de Sailor Ripley (Nicolas Cage) declarando seu amor por Lula (Laura Dern), quando sai da cadeia, cantando esse clássico de Elvis Presley. Para quem não viu o filme, Sailor era fanático pelo cantor, como o amigo Marcio.

Em todos os fins de ano passam, parte de dezembro e janeiro no Brasil. A Vania sempre lembra de me presentear com alguma coisa. Dessa vez, perguntou se queria o CD novo de Norah Jones. Nunca perguntou, sempre faz alguma surpresa, e dessa vez vem com a Norah? Tergiversei. Não sou o maior fã da filha de Ravi Shankar. Insistiu, dias depois, com um e-mail em que o título era “treat me like a fool....but love meeeeeeeeee”. Escreveu: Pena que tu não quer a Norah........ A bichinha canta o maix sexy LOVE ME que eu ja ouvi......... Velho Elvis tá se virando na tombe...............hê, hê....... E junto, enviou um link para eu ver o vídeo de Norah cantando Love Me Tender. E não é que eu gostei?

Veja a cena de Coração Selvagem em que Nicolas Cage canta Love Me Tender para Lula (Laura Dern)




Norah canata Love Me Tender:



Im abendrot, uma das Quatro Últimas Canções (Vier letzte lieder), de Richard Strauss, cantada pela americana Renee Fleming: