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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A batida de Dom Um Romão

Foto da capa de Hotmosphere (Pablo, 1976)
Quando entrou no Weather Report, de Joe Zawinul e Wayne Shorter, Dom Um Romão, no fim de 1971, era um veterano. Estava com 46 anos. Todo frequentador das noites cariocas o conhecia. Começou participando de orquestras de rádio ainda nos anos 1940, com o Copa Trio, em que era o baterista, tocou em muitas noites do Beco das Garrafas e na boate Vogue. Participou do álbum Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso (1958), tocou com Sergio Mendes e, como um dos membros de seu sexteto, o Bossa Rio, participou do lendário show no Carnegie Hall que apresentou a bossa nova aos americanos. O mesmo sexteto toca com Cannonball Adderley em seu disco “brasileiro” Cannonball’s Bossa Nova.

Dom Um fazia o diabo na bateria, misturando samba, bossa nova e jazz. Para Armando Pittigliani, influenciou todos os bateristas surgidos depois dele. Diz que “não há realmente um baterista jovem que não tenha um pouco de Dom Um no seu ‘jogo de pratos’, na sua acentuação do grande bombo, na marcação do contratempo no prato-de-pé e sobretudo naquele contra ritmo, com a baqueta esquerda cruzada sobre a caixa, que é, diga-se de passagem, um dos fortes do fabuloso drummer.” Alguns o chamavam de “Mefistófeles da Bateria”, pelo que fazia no instrumento e também pelas características faciais.

Em 1964, Romão gravou seu primeiro álbum, chamado Dom Um, como líder. Com arranjos de Waltel Blanco, com participações de JT Meirelles, Kaximbinho, Cipó, Jorginho e Paulo Moura, é uma aula .

Tendo participado de Flora Purim é MPB (RCA, 1965), Dom Um foi convidado pelo produtor e dono da Pablo Records a mudar-se para os EUA. Tocou com Stan Getz, Astrud Gilberto, participou também do famoso álbum de Tom Jobim com Frank Sinatra, excursionou pela Europa e fez parte do Brazil ’66, de Sérgio Mendes.

Acompanhando Flora Purim, Airto Moreira, pouco depois de ter mudado para os EUA, teve a sorte de ser apresentado a Miles Davis. Foi tão sortudo que é um dos que participa de Bitches Brew, , considerado o marco do jazz fusion. Dois outros membros regulares da banda, Joe Zawinul e Wayne Shorter, criaram o Weather Report e levaram Airto.

Airto participou do disco de estreia do Weather, mas tinha assumido cumprir uma agenda de shows com Miles Davis e preferiu sair. Dom Um Romão entrou na banda por sua recomendação. Ficou até meados de 1974.

Por conta de estar em uma banda tão importante, Romão chamou a atenção da gravadora Muse e lá gravou dois álbuns: Do Um Romão (1972) e Spirit of the Times (1973). Os dois têm mais ou menos as mesmas formações instrumentais e mesclam composições próprias, algumas de Dom Salvador, com quem tocara no início dos 1960, no Brasil, e de autores brasileiros como Edu Lobo, Milton Nascimento e Sivuca. São bons discos.


Ouça Ponteio, que está em Spirit of the Times.




Depois
Dom Um entrou para a superbanda Blood, Sweat & Tears, mudou-se para a Europa e montou a Dom Um Romão Quintet. Depois disso, não soube mais dele. Sei que morreu em 2005. Noutro dia, “descobri” um álbum chamado Rhythm Traveller, de 1998, produzido por Arnaldo DeSouteiro, gravado com músicos brasileiros. Interessante. Ainda ouço o seu primeiro solo, de 1964, para admirar o seu jeito único de tocar.

De Rhythm Traveller, muito boa é a versão para o clássico Mysterious Traveller. Como eu gostava dessa composição de Wayne Shorter! Acho que foi o último do Weather em que participou.

Ouça.



Ouca o seu primeiro, de 1964, com vários clássicos brasileiros. A batida em Telefone, de Menescal, é irresistível.




Ouça o primeiro álbum lançado pela Muse, de 1972.




Ouca Spirits of the Time na íntegra.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Algum Jaco Pastorius menos conhecido

A banda Weather Report já era bem conhecida e adorada antes da entrada de Jaco Pastorius. Em sua primeira formação, contava com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Miroslav Vitous, Airto Moreira e participações de Do Um Romão. Vitous saiu e em seu lugar entrou o Alphonso Johnson. Apenas no sexto disco (Black Market, 1976), ainda com Johnson na maioria das faixas, Pastorius participa de duas e é autor de Barbary Coast. É em Heavy Weather (1977) que, efetivamente, torna-se membro da banda. Permanece nela por mais três álbuns de estúdio e é o baixista da turnê mundial que resultou no duplo 8:30. O Brasil fez parte dessa excursão. Tive a felicidade de vê-los no Rio de Janeiro.

Com Heavy Weather, a banda ficou realmente popular, muito por conta de Jaco. Era um baixista diferenciado com seu Fender fretless. Fez escola. O história do baixo elétrico pode ser dividida em antes e depois dele. Surgiu uma legião de imitadores. Suas apresentações eram marcantes. Uma camada de talco era jogada no chão para que ele fizesse a sua coreografia. Sua figura magra, com uma bandana prendendo os longos cabelos ou toucas multicoloraidas, chamava a atenção mesmo.

Como onde tem muito cacique a coisa desanda, Jaco saiu. Victor Bailey o sucedeu. Era bom baixista, mas foi alertado por Zawinul para que não ousasse ser um novo Pastorius. Sua passagem deve ter traumatizado um pouco Zawinul e Shorter, apesar da popularidade adquirida com a sua entrada.

Pastorius é natural da Florida. Bem conhecido no estado, ele toca em algumas faixas do álbum Ira Sullivan. O veterano multinstrumentista – tocava flauta, saxofone e trompete –, natural de Washington D.C., fugiu do frio e mudou-se no início dos anos 1960 para Miami. Era presença constante da cena local, sempre tocando em clubes e bares de jazz. Foi assim que Ira conheceu os iniciantes Pat Metheny e Pastorius.


Ouça Portrait of Sal LaRosa, do álbum Ira Sullivan (Horizon, 1976).




Pat Metheny, quando gravou seu primeiro álbum solo, pela ECM, chamou o seu conterrâneo. Bright Size Life tornou-se um clássico. Pat já estava pronto desde o começo. Participara da banda de Gary Burton e logo chamou a atenção de Manfred Eicher. O disco é uma obra perfeita. .

Ouça a música-título.




Outra boa participação dele é com Paul Bley, Pat Metheny e Bruce Ditmas no álbum registrado em 1974. É a sua primeira gravação profissional, e foi lançado anos depois pela Improvising Artists com o título Jaco, aproveitando da fama ascendente do baixista.

Ouça Vashkar, a faixa de abertura.





Boa particpação de Jaco, no início da carreira, é no álbum Trilogue, do trombonista Albert Mangelsdorff. Veja-os em Trio Song.





Veja a íntegra do show, de onde o disco se origina. É um inusitado power trio, tendo Mangelsdorff como líder. O trombonista arrasa, como sempre. Foreign Fun é um dos destaques. É a terceira faixa.





Pastorius era um gênio, mas tinha um gênio do capeta, e tocava o diabo. Depois de sair do Weather Report, continuou a se apresentar em pequenos clubes e sua carreira entrou em declínio em razão do temperamento instável. Acabou entrando em uma briga e foi morto na porta de um clube. Tinha 35 anos.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sweetnighter, o disco funky do Weather Report

A imagem da contracapa de Sweetnighter
Quando Wayne Shorter e Joe Zawinul resolveram montar o Weather Report, já eram músicos respeitados e conhecidos. Tinham uma coisa em comum: participaram das formações de Miles Davis em épocas diferentes.

Zawinul estudou no Conservatório de Viena antes de emigrar para os EUA, em 1959, e entrar na Berklee School of Music de Boston. Apesar do aprendizado clássico, pelo jeito, seu interesse era pelo jazz. No início da carreira tocou com o trompetista Maynard Ferguson, acompanhou Dinah Washington, foi da banda de Cannonball Adderley e gravou um belo álbum com Ben Webster (Soulmates, Riverside, 1963) antes de entrar na banda de Miles Davis.

Shorter nasceu em Newark, região pobre de maioria negra, e formou-se na New York University. Tocou com Maynard Ferguson, também. Depois, entrou na banda de Art Blakey e rapidamente passou a desempenhar o papel de diretor musical. Entrou para a nova banda que Miles formou, com ele no saxofone, Herbie Hancock no piano, Ron Carter no contrabaixo e Tony Williams na bateria. Esse quinteto foi um dos mais perfeitos da história do jazz. Tudo o que gravaram são obras-primas. Paralelamente, Wayne Shorter lançou vários discos como líder pela Blue Note. Hancock fez o mesmo. Ambos, bons compositores, são autores de vários standards que estão registrados nesses discos.

Depois da dissolução do quinteto, com Miles partindo para as suas aventuras eletrônicas, é a vez de Joe Zawinul entrar na vida do trompetista. É de sua autoria uma das composições que representam essa passagem de Miles: In a Silent Way. É o compositor também de Pharaoh's Dance, faixa de abertura de Bitches Brew, álbum divisor de águas do jazz.

Miles é o responsável – ou o “irresponsável” por desvirtuar o gênero – da nova vertente do jazz, que ficou conhecida por vários nomes: jazz fusion, jazz-rock, jazz progressivo. É sempre difícil classificar novas linguagens; é como essa história de pós-moderno ser depois do contemporâneo. Zawinul, um apaixonado por eletrônica, não ficou muito tempo com Miles. Tinha luz própria e não podia ficar ficar eclipsado pela sombra do mestre.

Joe e Wayne haviam se encontrado em outras oportunidades e não foi quando estiveram com Miles. Foi lá no início, com outro trompetista: Maynard Ferguson. Joe gostava de explorar as sonoridades dos teclados eletrônicos. Wayne nunca abriu mão do som acústico do saxofone tenor e do soprano. Mas a combinação revelou-se perfeita. Formaram o Weather Report, que viria a se tornar a grande banda do jazz fusion.

Se Miles empreendia uma grande revolução com Bitches Brew, a dupla análogo-eletrônica representou um avanço na exploração do jazz eletrônico. Na primeira formação, contaram com o baixista Miroslav Vitous, Airto Moreira e o baterista Alphonso Mouzon.

I Sing the Body Electric, título tirado de poema de Walt Whitman e do conto de ficção científica de Ray Bradbury, é o segundo álbum. Airto e Mouzon saíram e entraram outro brasileiro – Do Um Romão – e Eric Gravatt. Das sete faixas, as três últimas são registros ao vivo de uma apresentação em Tóquio. Algumas participações especiais são… especiais. A melhor é a de Ralph Towner, um dos grandes virtuoses do violão clássico no jazz, em The Moors, composição de Wayne Shorter.

Os dois primeiros discos, bem experimentais. eram de uma riqueza sonora muito original. Tinha algo das experimentações de Miles em In a Silent Way, pelas ambiências criadas por Zawinul, agora, não submetidas ao crivo do trompetista. Já eram admirados, mas não conhecidos como quando agregaram Jaco Pastorius à banda.

À primeira vista, Sweetnighter (Columbia, 1973) parecia descaradamente comercial. Passado o susto, ficava despudoradamente bom. Os temas eram melódicos, menos abstratos e experimentais. Era um prenúncio do som que ficou como marca mais característica do Weather Report a partir de Black Market. O álbum entre Sweetnighter e este – Mysterious Traveller – ainda tema muito a ver com os dois primeiros.

O início de Sweetnighter é matador. Em Boogie Woogie Waltz, além do contrabaixo de Vitous, há o baixo elétrico de Andrew White. A percussão é de Do Um Romão e Muruga, e a bateria, de Hershell Dwellingham.

Ouça Boogie Woogie Waltz.





Manolete, a segunda, é uma composição de Shorter. Os solos do sax são acompanhados por belas linhas de baixo. Ouça.




Adiós, de Zawinul, tem um pouco da atmosfera de suas outras composições.




Em 125th Street Congress, de Zawinul também, retomam os elementos funkies de Boogie Woogie Waltz, novamente com dois baixos, um elétrico e outro, acústico, e percussão de Do Um Romão e Muruga.




Will, a única composição de Miroslav Vitous, é um belo tema com ele no baixo elétrico, com Andrew White no corne inglês. É outro bom momento; menos funky e mais melódico.




A última é Non-Stop Home. Ouça. Com dois bateristas (Eric Gravatt e Herschell Dwellingham), apenas o baixo elétrico de Andrew White, sintetizadores pilotados por Zawinul, é um típica composição de Shorter, com ele no soprano.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Gustavo Pinheiro e o Art Ensemble of Chicago que não vimos

Eram raras as apresentações de músicos de jazz no Brasil antes da criação dos festivais. Mesmo assim, músicos do quilate de Miles Davis e Bill Evans estiveram por aqui. No I Festival São Paulo-Montreux, em 1978, em uma só leva vieram Benny Carter, Dizzy Gillespie, Frank Rosolino, Harry Sweets Edison, Zoot Sims, Milt Jackson, Jimmie Rowles, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine, Ray Brown, Mickey Rocker, George Duke, John McLaughlin, Hermeto Pascoal, Helio Delmiro, Luiz Eça, Etta James, Raul de Souza, Marcio Montarroyos, Stan Getz e Ahmad Jamal. Depois disso, entramos no primeiro mundo da música.

Em 1980, a antiga capital do Brasil montou o seu Rio Jazz Monterrey Festival. E as atrações não ficavam nada a dever à edição paulista de Montreux. Constavam da lista Weather Report, considerada a melhor banda do chamado jazz fusion, o “iniciante” Pat Metheny, o ex-pianista de John Coltrane, McCoy Tyner, e uma das mais conhecidas formações da avant-garde, o Art Ensemble of Chicago. Era um a programação menos mainstream do que a de São Paulo.

Não que a experiência de ver Gillespie, Frank Rosolino ou o pianista Ahmad Jamal, venerado por Miles Davis, não tivesse sido sublime. Aqui entra o Gustavo Pinheiro.

Meu amigo Domingos Darsie estudava arquitetura em Mogi das Cruzes. Por ele, conheci o Guga. Logo, por conta de gostos comuns – charuto e jazz –, ficamos amigos. Tínhamos duas paixões em comum: Ben Webster e Coleman Hawkins. Ficávamos ouvindo os discos que gravaram pelo selo Verve identificando os solos de cada um. O Guga era a única pessoa conhecida que possuía um Selmer Mark VI, o rei dos saxofones. Para a sua infelicidade, todo mundo queria “tocar” um pouco no Selmer. Ele colocava uma palheta Vandoren mais usada e deixava, fazendo cara de poucos amigos.

Ouça Rosita, com Ben Webster e Coleman Hawkins.




Ao sabermos do festival que aconteceria no Rio, combinamos de ir. O Domingos era uma peça chave na história: apesar de detestar pop e jazz e ter uma paixão doente por música erudita tinha que topar em ir conosco. Sua tia era dona de um pequeno quarto e sala na rua Barata Ribeiro. Bom, mas éramos três: eu, o Guga e o “dono”. No quarto havia uma cama de casal e um sofá na sala. O Domingos já foi falando que a cama de casal era dele. Como disse, era o “dono”. De três, passamos para cinco. A Marcia G, colega de turma dos dois na faculdade, estava no Rio e decidiu ficar conosco. A Marcia conhecia o Pipoca, diretor de TV dos shows musicais da TV Cultura, que não tinha onde se hospedar. Imagine cinco em 30 metros quadrados, se tanto. Mas tudo valia para ver o Weather Report no seu auge, com Wayne Shorter, Joe Zawinul, Jaco Pastorius e Pater Erskine. Outra grande atração aguardada com ansiedade era o Art Ensemble of Chicago.

O Rio de Janeiro era (é) uma festa. O festival aconteceu no Maracanãzinho. A acústica era péssima. Shows mais pesados como a do Weather Report, tudo bem, ouvia-se. O de McCoy Tyner, um dos que aguardávamos com expectativa, foi um desastre. Não se ouvia nada. A maioria dos que estavam lá não estavam nem um pouco interessados em ver o grande pianista das melhores formações de John Coltrane. Ouvia-se mais aquele burburinho de muita gente falando alto. Aqueles paulistas branquelos queriam ouvir música. Mas compensou pelo número de gente bonita e bronzeada. Os patins estavam na moda. E as meninas deslizavam seus pares de pernas pelo Maracanãzinho. Nem precisava de música.


Pat Metheny e Weather Report
Zezé Motta subiu ao palco para apresentar um “gato” (na opinião dela, claro). Era o Pat Metheny. O quase garoto de pouco mais de vinte anos já era um sucesso, conhecido até no Brasil, em razão de terem sido lançados alguns itens da ECM. O álbum mais “roqueiro” dele – American Garage – tinha acabado de ser lançado. E foi sucesso mundial. Ficou conhecido como um dos guitarristas da banda de Gary Burton. O primeiro solo – Bright Size Life –, justamente, com Pastorius no baixo, hoje, é considerado um clássico. (sobre esse álbum, leia: http://bit.ly/1b8NRAH)

Ouça American Garage, de Pat Metheny.




O Rio foi uma das cidades que fez parte da turnê do Weather Report e resultou no álbum duplo 8:30. Com Pastorius, a apresentação foi antológica, como era de se esperar. Leia em http://bit.ly/18QHIDn.

Veja o solo de Jaco Pastorius no baixo Fender fretless. Foi um dos pontos altos do Festival do Rio.




Art Ensemble of Chicago

Adicionar legenda
A AACM – Association for the Advancement of Creative Musicians – é uma organização criada em Chicago pelo pianista Muhal Richard Abrams, Jodie Christian, Steve McCall e Phil Cohran. Uma verdadeira constelação do jazz moderno e do avant garde é egressa da associação. Passaram por lá Jack DeJohnette, Leroy Jenkins, Chico Freeman, Anthony Braxton e Wadada Leo Smith. Duas bandas importantes surgiram lá: o Air (Henry Threadgill, Fred Hopkins, Steve McCall) e o Art Ensemble of Chicago (Lester Bowie, Roscoe Mitchell, Joseph Jarman, Famodou Don Moye, Malachi Favors).

Pouco antes do Festival tinham lançado Nice Guys, do AEC. Era um som de vanguarda mas sem a aridez de um Peter Brötzmann ou um Cecil Taylor. Era avant garde com humor, interessante. Diziam que suas apresentações eram acontecimentos. Roscoe Mitchell era o mais discreto. o trumpetista Lester Bowie apresentava-se invariavelmente vestindo um jaleco branco, iguais aos dos enfermeiros, e os três restantes vestiam roupas de inspiração africana e pintavam seus rostos. 

Dias antes ficamos sabendo que o Art Ensemble havia cancelado a vinda para o Rio, para nossa frustração. Estávamos ávidos por vê-los. Fora isso, a viagem ao Rio foi muito boa.

Ouça Nice Guys.



Veja um trecho de uma apresentação do AEC, de 1981.







quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Essa é pra quem gostava do Weather Report

Joe Zawinul, um dos criadores do Weather Report
O Joe em questão de Posting Joe é Joe Zawinul. O austríaco de sangue cigano começou no acordeão e foi para o piano, ainda criança. Estudou no Conservatório de Viena. Ganhou bolsa para estudar na Berklee School of Music. Ficou pouco. Caiu na estrada rápido. Tocou com Cannonball Adderley, acompanhou Ella Fitzgerald e Dinah Washington. Gravou um disco com o saxofonista Ben Webster e como solista, estreou na gravadora Atlantic. Entre o jazz e o erudito, ou o que foi chamado naquele tempo de “third stream”, ou no que se designa agora como “crossover”, sua música não negava as raízes européias.

Tempos depois passou a tocar com Miles Davis e tornou-se cúmplice da mais nova transformação do trompetista. In a Silent Way, álbum que representa a transição e o fim do grande quinteto com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams, tem a participação de Joe como compositor do tema título,

O radio.string.quartet.vienna, depois de produzir um álbum em homenagem à Mahavishnu Orchestra (leia http://bit.ly/1345Bon), agora faz um tributo a Joe Zawinul e também à banda Weather Report, que liderou com Wayne Shorter. É curioso que uma formação essencialmente acústica como um quarteto de cordas tenha escolhido, justamente, duas bandas bem eletrônicas. Em apresentação ao vivo, tocam alguns clássicos como Birdland, Freezing Fire, Cannonball, Black Market e Volcano for Fire. O destaque, no entanto, é mesmo In a Silent Way, tema que é a passagem de Miles Davis para o jazz eletrônico e que vai desembocar no clássico Bitches Brew.

Ouça In a Silent Way, com o radio.string.quartet.vienna.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Volcano for Hire.



Ouça Volcano for Hire, com o Weather Report.


Veja o teaser do álbum Posting Joe.



Sobre Joe Zawinul, leia http://bit.ly/1348fuj

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Minha primeira vez com Jaco Pastorius

Pastorius empunha seu Fender Jazz Bass
Antes de entrar na banda de Joe Zawinul e Wayne Shorter – o Weather Report –, em 1976, Jaco Pastorius já era conhecido dos colegas músicos. Dizem que Pastorius, em uma apresentação do Weather Report, em Miami – o baixista nasceu em Fort Lauderdale, Flórida –, abordou Zawinul e lhe falou de que havia gostado, mas esperava mais, que estava faltando “alguma coisa”; e se apresentou como o melhor baixista do mundo. Na insistência, fez com que chegasse até Zawinul uma fita demo. O resto é história. Mais tarde, com os acontecimentos posteriores, ficou público que Pastorius era bipolar, e como acontece com usuários de drogas, cocaína principalmente, era megalomaníaco e um tanto “sem noção”. Teve fim inglório: levou uma surra de um leão de chácara em uma boate da Flórida e morreu em decorrência de uma hemorragia cerebral. Tinha 36 anos. Louco como andava, a carreira também tinha desandado (sobre isso, leia em http://bit.ly/vczRcR). O responsável por sua morte, Luc Havan, ficou quatro meses preso; foi solto por bom comportamento. Pelo menos, ao contrário de muitos usuários de cocaína que cheiram para se sentirem poderosos, “criativos” e “inteligentes”, Jaco era gênio e não precisava disso para ser “melhor”.

Pastorius entrou no meio das gravações do disco Black Market. Bastou. Suas composições e intervenções no baixo o consagraram. Fazia o diabo com seu Fender Jazz Bass sem trastes. A primeira vez que o ouvi em disco foi no disco Ira Sullivan (Horizon, 1976). Ira Sullivan – toca trumpete, flugelhorn, saxofone e flauta –, apesar de pouco conhecido, é um tremendo músico. A aversão por viagens foi empecilho: baseou-se na Flórida e pouco saiu de lá desde então (creio que, atualmente, está aposentado, pois faz muito tempo que não ouço falar dele). O fato de tocar com frequência nos clubes locais deve tê-lo feito “trombar” com o, ainda jovem, Pastorius. Em 1974, estava fazendo parte do quinteto de Ira. No disco lançado pela subsidiária da A&M Records, o baixista participa de apenas uma faixa: Portrait of Sal La Rosa. Foi o suficiente para perceber que se estava diante de um músico diferenciado.

Em 1974, foi lançado um disco pela Improvising Arists em que, sem título, apenas trazia os nomes de seus participantes: Paul Bley, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Bruce Ditmas. Era, essencialmente, um disco do pianista Paul Bley; todas as composições eram, ou dele, ou de Carla Bley que, por um tempo foi sua mulher.

O grande disco anterior a 1976 é Bright Size Life (ECM, 1975), primeiro disco solo de Pat Metheny. Esse é um clássico, em vários sentidos. Pat começou muito cedo. Antes de completar 20 anos estava na banda do vibrafonista Gary Burton como segundo guitarrista (o primeiro era Mick Goodrick). Era tão bom que chamou atenção do chefão da ECM, Manfred Eicher. Em Bright Size Life teve como sidemen Jaco Pastorius e o baterista Bob Moses. Nem parecia disco de estreante de tão bom que era. Metheny nasceu pronto, assim como Pastorius. Por meio desse disco ocorreu meu segundo contato com o som do baixista.

A primeira e única vez que vi Pastorius tocando aconteceu num longínquo ano em um festival de jazz no Ginásio do Maracanãzinho, Rio de Janeiro, em 1980. O som era péssimo e o público carioca queria só diversão, ouvir era o de menos. Para se ter uma ideia, McCoy Tyner se apresentou, e o som era tão ruim que ninguém deu a mínima para o grande mestre do piano; foi deprimente. Outra atração foi Pat Metheny e sua banda. Lembro que os “avant-garde” Art Ensemble of Chicago eram outro destaque; na última hora, cancelaram: decepção. A apresentação mais impactante mesmo foi a do Weather Report. Ao lado dos mestres Wayne Shorter e Joe Zawinul, Jaco Pastorius foi uma atração à parte. Com uma fita prendendo-lhe os longos cabelos, parecia um índio. Passaram algo como um talco no chão para facilitar-lhe os movimentos. Estava ligado em uma tomada de 220 volts; não parava quieto e mexia com os dedos da mão direita a toda hora, dando a impressão de que estavam doloridos pela força com que dedilhava as cordas. O ponto alto foi um longo solo em que tocava um trecho de Portrait of Jenny. Inesquecível. Quem viveu isso não esquecerá nunca.

Leia também “Joni Mitchell e o jazz”: http://bit.ly/j141Y4

Ouça Pastorius em Portrait of Sal LaRosa.



Ouça e preste atenção no solo de Pastorius em Midwestern Nights Dream, a quinta faixa de Bright Size Life.