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quinta-feira, 5 de julho de 2018

Jazzmeia Horn é a cantora revelação do ano

Cantoras surgem aos borbotões. Destacar-se no meio de uma multidão não é fácil. Considerando-se que ouvimos belas vozes, afinadas, aos montes, boas na média, o diferencial é importante, até em atributos extra musicais, como a beleza, ou até a feiura.

No “66th Annual Critics Poll”, que acaba de sair, pela Downbeat com data de agosto (sai com um mês de antecedência, o que nunca entendi), o grande destaque é uma cantora. Cécile McLorin Salvant foi considerada a melhor em seu mister e emplacou o álbum duplo “Dreams and Daggers” (MackAvenue 2017), como o melhor do ano, empatado com “Happy Song” (Anzic 2017), da brilhante clarinetista e saxofonista Anat Cohen.


Se for por diferencial, Salvant é campeã: usa óculos, de cores variadas, às vezes brancos, vermelhos ou azuis, feitos especialmente, mais para gordinha, seus vestidos são coloridos, denotando ótimo gosto. Bem, nem precisava: é a melhor cantora da atualidade. É tão evidente que recebeu 282 votos e a segunda, a ótima Lizz Wright, 79.

Bom, mas o post de hoje é sobre outra cantora: Jazzmeia Horn. Novinha, com 27 anos completos, vencedora do Thelonious Monk Institute International Jazz Competition de 2015, maior revelador de novos talentos vocais, tendo estreado com “A Social Call” (Concord Jazz 2017), é a “Rising Female Vocalist” do ano, pela Downbeat, com quase o dobro de votos sobre a segunda, Dominique Eade, aliás, que não é tão “rising star” mais.

Horn pode ser comparada a Salvant. É de uma beleza africana exuberante e canta muito. Diferenciais, além da beleza? O nome, por exemplo. Não é nome artístico; é de registro. Possivelmente, o pai ou a mãe, ou quem o tenha pensado, estivesse a prever o futuro de Jazzmeia.

A começar pelo nome do álbum, a primeira influência de Horn é Betty Carter. Outras canções, como “Tight”, são as evidências. E ela, menos exageradamente — graças a deus —, é muito boa nos scats, que tão bem caracterizam as cantoras de jazz. Outra referência, naturalmente, é Sarah Vaughan, e, curiosamente, a limpidez de sua voz faz lembrar sua quase contemporânea Cécile McLorin Salvant.

Veja Jazzmeia Horn, em “Tight”.




Dentre os bons números de “A Social Call”, várias estão disponibilizadas no YouTube. Ouça  a sublime “The Peacocks”, de Jimmy Rowles.




Fugindo um pouco do jazz, ouça “I’m Going Down”, do mestre do soul Norman Whitfield.


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Os adeuses de Ray Charles e Betty Carter

Ray e Betty Carter
Everytime We Say Goodbye um daqueles clássicos inesquecíveis, mais uma obra-prima de Cole Porter.

Por gostar de canções dramáticas, amo Everytime We Say Goodbye. Cada despedida é um pedaço seu que morre. Amar é um estado de exceção e a dor de quem vê seu amado se despedir é o “eu morro um pouco” da letra.

Mesmo quando ouço essa canção apenas tocada, não deixo de pensar na letra: “Toda vez que nos despedimos, eu morro um pouco/ Toda vez que nos despedimos, fico um pouco a pensar/ Por que os deuses lá em cima/ Pensam tão pouco em mim e deixam que você vá./ Quando você está perto, sinto o ar da primavera em volta/ Posso ouvir uma cotovia ao longe que começa a cantar/ Não há canção de amor mais linda, mas que estranha a mudança de um acorde de maior para menor,/ Toda vez que nos despedimos.” O amor é egoísta, por natureza: “Por que os deuses lá em cima/ Pensam tão pouco em mim e deixam que você vá.”

Pois, pensei nisso outro dia enquanto ouvia Everytime We Say Goodbye tocado por Arturo Sandoval em A Time for Love, belíssimo CD lançado em 2010. Comentei sobre esse CD lançado em 2010 em http://bit.ly/VvMdf5. Dizem que a beleza – ou Deus – está nos detalhes. O detalhe na canção que finaliza o disco é a elegância do piano de Kenny Barron em uma das poucas peças de câmara (é um quarteto de jazz) em arranjos orquestrais de Jorge Calandrelli.

Entre vocais e instrumentais que estão catalogados na minha CDteca, os destaques naturais são as de John Coltrane em My Favorite Things, de Bill Evans e de Sonny Rollins.

A maioria esmagadora, no entanto, é de vocalistas e é difícil destacar qual é a melhor. É difícil escolher entre Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Irene Krall, Diana Krall, Julie London, June Christy e Karrin Allyson. Nos últimos tempos, a minha preferida tem sido a de uma intérprete menos conhecida: Norma Winstone, em Distances (ECM 2008). Quem gosta do trompetista Kenny Wheeler a conhece bem.

Dentre as masculinas, uma das boas é a de Chet Baker em Diane, disco em duo com o pianista Paul Bley, e outra, é a de Jimmy Scott em All The Way. Mesmo assim, não posso deixar de citar Kurt Elling e Bobby Short.

Mas bom mesmo é de de Ray Charles e Betty Carter em registro de 1961. É uma pérola. Nessa época, Betty ainda não tinha se tornado “Betty Bebop”, a cantora que mais tarde adorava se alongar em scats, às vezes, maçantes. É a que está disponibilizada. Depois, tem Arturo Sandoval.

Everytime We Say Goodbye com Ray Charles e Betty Carter.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


A de Arturo Sandoval.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Tosco, demasiadamente tosco Betty Carter cantando em português

Betty Carter esteve no Brasil em 1980 pela primeira vez
Em relação à Carol Welsman (assunto da segunda-feira, 19: http://bit.ly/iKv3Ey), seu “accent” em português é quase perfeito; chega a surpreender. Valeu conhecer Oscar Castro Neves, radicado nos EUA desde os tempos da associação com Sergio Mendes, nos anos 1960. Textos sobre intérpretes cantando em português têm sido recorrentes nesse blogue. Stacey Kent e Karrin Allyson não passam vergonha cantando em nossa língua em alguma casa de espetáculos brasileira

Referi-me aos “casos” Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald (http://bit.ly/krNb49; leia sobre Ella em http://bit.ly/mimlrz). Fazem parte de um outro tempo e ninguém estava muito preocupado em dar atenção maior sobre esse detalhe. E, afirmo: é (ou era) um detalhe que não faz menor diferença em algumas interpretações, fariam delas, melhor, igualmente. Basta lembrar o Ne me quitte pas cantado por Nina Simone. É um clássico, sem dúvida; cantado em bom francês teria sido melhor ainda. Das mais experientes, a que passa menos vergonha é Dianne Reeves. Mas essa não vale: Reeves fez parte da banda de Sergio Mendes nos anos 1980.

Dos anos 1960 até meados da década de 1990, reinaram, praticamente, sem concorrentes o trio Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Carmen McRae. Eram excepcionais e gravaram com regularidade. A outra que poderia ter sido a “quarta mosqueteira” seria a branca Anita O’Day. Excepcional, a mania de ingerir uma garrafa de vodca por dia deve ter atrapalhado a carreira, se compararmos ao trio das “certinhas”. A última junkie teria sido mesmo Billie Holiday, pelo menos, publicamente.

Betty Carter não ficou tão conhecida como o “trio”, contudo era genial. O que atrapalhou um pouco foi ser ela mais dada a improvisos “bebopísticos”, a scats menos palatáveis que os de Ella. Mas, com certeza, era tão boa quanto; a prova é o número de vezes em que foi considerada a melhor cantora de jazz pela crítica a partir do fim dos anos 1960. Pela crítica, bem dito; pelo público médio, menos. É até explicável; não era cantora de fazer concessões.

Em 1955, jovenzinha, gravou pela Epic, Meet Betty Carter and Ray Bryant, uma coleção de standards de fazer cair o queixo. Em um mesmo LP (na década de 1950 os LPs de 12” em 33 rpm substituíam os discos em 78 rpm), gravou interpretações irrepreensíveis e clássicas de Moonlight in Vermont, Thou Swell, I Could Write a Book, The Way You Look Tonight, Can’t We Be Friends, e as definitivas Gone With the Wind e Tell Him I Said Hello (essa, espetacular, pouco conhecida e pouco cantada).

Pela gravadora ABC-Paramount, em 1961, outro clássico – Ray Charles and Betty Carter – com arranjos maravilhosos de Marty Paich. Desse disco, se não são as melhores, estão entre as “dez mais” as músicas Everytime We Say Goodbye, o meddley Goodbye/We’ll Be Together Again, e Alone Together.

Apesar dessas gravações clássicas, Betty Bebop (alusão à Betty Boop), como foi chamada por Lionel Hampton, consagrou-se mesmo a partir de alguns registros ao vivo lançados por selos independentes e, posteriormente, pelo selo próprio, a Bet-Car, que seria absorvida pela major Verve Records, no início dos anos 1970.

Gravando em selo próprio, teve a liberdade de escolher um repertório menos comercial e assim pôde desenvolver com autonomia seu estilo muito pessoal de interpretação. Alternando alguns clássicos do cancioneiro americano, apresentou composições de sua lavra e também de autores menos conhecidos. Esses discos ganharam a crítica e um público mais inclinado à linguagem mais puramente jazzísticas. São dessa época The Audience with Betty Carter e The Betty Carter Album. Já como contratada da Verve, gravou prolificamente até a morte. Esses discos com interpretações que fogem bastante dos temas originais – pelo menos em relação a clássicos como Body and Soul, My Favorite Things, por exemplo – em derivações improvisativas cheias de scats, não são para todos os gostos. Assim mesmo, é impossível discordar da crítica: é uma das grandes intérpretes do jazz.

Dos discos de Betty na Verve me faltava I’m Yours, You’re Mine, de 1996. Aproveitando uma oferta, comprei. É nesse disco que ouvi uma das mais estranhas interpretações de Inútil Paisagem (Useless Landscape) cantadas na nossa língua pátria. É tão estranho – tosco diria – que achei que Betty cantava no javanês de Lima Barreto. Ouça-a como curiosidade.



Para você não ficar com má impressão dela, escute a maravilhosa Everytime We Say Goodbye, com Ray Charles.



Ouça também The Man I Love.




Farei uma breve pausa até meados de julho. Até lá