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| Betty Carter esteve no Brasil em 1980 pela primeira vez |
Referi-me aos “casos” Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald (http://bit.ly/krNb49; leia sobre Ella em http://bit.ly/mimlrz). Fazem parte de um outro tempo e ninguém estava muito preocupado em dar atenção maior sobre esse detalhe. E, afirmo: é (ou era) um detalhe que não faz menor diferença em algumas interpretações, fariam delas, melhor, igualmente. Basta lembrar o Ne me quitte pas cantado por Nina Simone. É um clássico, sem dúvida; cantado em bom francês teria sido melhor ainda. Das mais experientes, a que passa menos vergonha é Dianne Reeves. Mas essa não vale: Reeves fez parte da banda de Sergio Mendes nos anos 1980.
Dos anos 1960 até meados da década de 1990, reinaram, praticamente, sem concorrentes o trio Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Carmen McRae. Eram excepcionais e gravaram com regularidade. A outra que poderia ter sido a “quarta mosqueteira” seria a branca Anita O’Day. Excepcional, a mania de ingerir uma garrafa de vodca por dia deve ter atrapalhado a carreira, se compararmos ao trio das “certinhas”. A última junkie teria sido mesmo Billie Holiday, pelo menos, publicamente.
Betty Carter não ficou tão conhecida como o “trio”, contudo era genial. O que atrapalhou um pouco foi ser ela mais dada a improvisos “bebopísticos”, a scats menos palatáveis que os de Ella. Mas, com certeza, era tão boa quanto; a prova é o número de vezes em que foi considerada a melhor cantora de jazz pela crítica a partir do fim dos anos 1960. Pela crítica, bem dito; pelo público médio, menos. É até explicável; não era cantora de fazer concessões.
Em 1955, jovenzinha, gravou pela Epic, Meet Betty Carter and Ray Bryant, uma coleção de standards de fazer cair o queixo. Em um mesmo LP (na década de 1950 os LPs de 12” em 33 rpm substituíam os discos em 78 rpm), gravou interpretações irrepreensíveis e clássicas de Moonlight in Vermont, Thou Swell, I Could Write a Book, The Way You Look Tonight, Can’t We Be Friends, e as definitivas Gone With the Wind e Tell Him I Said Hello (essa, espetacular, pouco conhecida e pouco cantada).
Pela gravadora ABC-Paramount, em 1961, outro clássico – Ray Charles and Betty Carter – com arranjos maravilhosos de Marty Paich. Desse disco, se não são as melhores, estão entre as “dez mais” as músicas Everytime We Say Goodbye, o meddley Goodbye/We’ll Be Together Again, e Alone Together.
Apesar dessas gravações clássicas, Betty Bebop (alusão à Betty Boop), como foi chamada por Lionel Hampton, consagrou-se mesmo a partir de alguns registros ao vivo lançados por selos independentes e, posteriormente, pelo selo próprio, a Bet-Car, que seria absorvida pela major Verve Records, no início dos anos 1970.
Gravando em selo próprio, teve a liberdade de escolher um repertório menos comercial e assim pôde desenvolver com autonomia seu estilo muito pessoal de interpretação. Alternando alguns clássicos do cancioneiro americano, apresentou composições de sua lavra e também de autores menos conhecidos. Esses discos ganharam a crítica e um público mais inclinado à linguagem mais puramente jazzísticas. São dessa época The Audience with Betty Carter e The Betty Carter Album. Já como contratada da Verve, gravou prolificamente até a morte. Esses discos com interpretações que fogem bastante dos temas originais – pelo menos em relação a clássicos como Body and Soul, My Favorite Things, por exemplo – em derivações improvisativas cheias de scats, não são para todos os gostos. Assim mesmo, é impossível discordar da crítica: é uma das grandes intérpretes do jazz.
Dos discos de Betty na Verve me faltava I’m Yours, You’re Mine, de 1996. Aproveitando uma oferta, comprei. É nesse disco que ouvi uma das mais estranhas interpretações de Inútil Paisagem (Useless Landscape) cantadas na nossa língua pátria. É tão estranho – tosco diria – que achei que Betty cantava no javanês de Lima Barreto. Ouça-a como curiosidade.
Para você não ficar com má impressão dela, escute a maravilhosa Everytime We Say Goodbye, com Ray Charles.
Ouça também The Man I Love.
Farei uma breve pausa até meados de julho. Até lá

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