A mania de listas dos melhores ou dos preferidos há muito existe – desde que a Humanidade é Humanidade, talvez; quando Nick Hornby lançou Alta Fidelidade, muito se falou – isso dentre os que leram, decerto – da personagem que fazia lista de tudo: músicas preferidas, poll de ex-namoradas, por exemplo. Listas de melhores do ano são a coisa mais comum, e vende. Quem não gosta?
A conhecida revista Downbeat faz duas por ano: a dos leitores é divulgada na revista de dezembro, e a dos críticos, em agosto. Pois, é dela que comento a seguir.
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| O tricoroado Jason Moran |
O “campeão” do ano é o pianista Jason Moran. É a “bola da vez”. Além de ter o álbum Ten (Blue Note, 2010) como melhor do ano, foi considerado o “artista do ano” e o “melhor pianista”, à frente de Keith Jarrett, Brad Mehldau, Fred Hersch, Hank Jones e Kenny Barron, respectivamente. Dos cinco, quatro dos meus preferidos, estão citados. Como diz o ditado popular – “gosto não se discute, apenas se lamenta” – prefiro-os a Moran. Isso não significa absolutamente nada, se considerarmos que os críticos devem conhecer mais música do que eu, pois esta é a profissão deles.
Mesmo assim, entre os discos que conheço de Moran, acho Ten o melhor. Imagino que deve ter pesado, pelo menos diante da crítica, o ecletismo desse pianista de apenas 36 anos: seus interesses não se restringem apenas ao jazz; não faz o gênero “jazz bom é jazz acústico”; toca instrumentos elétricos – às vezes inserindo sons bem estranhos e que não combinam, na minha opinião –, grava compositores relacionados à música erudita, como Conlon Nancarrow (Study nº 6, em Ten), absorve influências do hiphop, compõe para espetáculos de dança e, recentemente, desenvolveu com a cantora-compositora Ndegcocello (nascido Michelle Lynn Johnson) uma performance musical baseada em temas de Fats Waller (Moran toca piano e Fender Rhodes usando uma máscara feita em papier mâché).
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| Ten foi considerado o melhor do ano |
Com seus parceiros Bandwagon (Tarus Mateen no baixo e Nasheet Waits na bateria), o som produzido é vigoroso. Apesar de, naturalmente, o piano se destacar, o baixo e a bateria não são meros coadjuvantes. É um som coeso de uma formação que tem alguns anos e diferencia-se por fugir dos moldes mais tradicionais de “cada um tem seu momento solo”. As interpretações de Moran são angulosas, com o piano caminhando por linhas sinuosas e acordes poderosos. Uma característica que sobressai, principalmente como membro da banda do saxofonista e flautista Charles Lloyd, é seu lado lírico. Em Ten, essa faceta é evidenciada na composição Pas de deux - Line Ballet, lindíssima, e uma demonstração de seu talento. É natural que nos discos em que é o líder procure imprimir uma marca. É onde “meu gosto” não bate bem com o tipo de som que produz, mesmo considerando-o grande pianista. O que me incomoda é um certo “excesso de piano”; acho um tanto sufocante. Silêncios e pausas dão contraste e respiro, e é isso que sinto falta quando ele toca como líder.
Ouça Jason Moran interpretando Thelonious Monk (Crepuscule with Nellie). O estilo sincopado de Monk é replicado em mudanças de andamento abruptas e poucos silêncios.
Não quero, de modo nenhum, fazer uma crítica em relação aos álbuns escolhidos, mas somente fazer algumas observações. Boa parte dos discos nomeados, não os conheço. Procuro ouvir o que me atrai e posso apenas dizer alguma coisa sobre estes. Consequentemente, é um juízo bem pessoal.
O que ficou em segundo é Bird Songs, de Joe Lovano e sua banda Us Five. Conheço o primeiro CD gravado com essa formação e posso dizer que, como de costume, esse prolífico saxofonista mantém um alto nível.
O terceiro é Chamber Music Society, por coincidência, da baixista do Us Five, Esperanza Spalding. Na minha opinião – mais uma vez, aquela questão do “gosto” –, não consigo entender a supervalorização da crítica em relação a essa excelente baixista e cantora “mais ou menos” – opinião pessoal, ressalto. Nunca colocaria esse álbum e muito menos o anterior – Esperanza (2008) – entre os “dez mais”. Como disse, é uma bela baixista, e nem porque grava nosso glorioso Milton Nascimento (os brasileiros têm motivos de sobra para achá-la genial: além de Milton, canta Samba em Prelúdio, imortalizada pela atriz-cantora Odette Lara e composta por Vinícius de Moraes e Baden Powell, num português perfeito), considero-a uma boa cantora mas, boa baixista, é. Sua figura, com aquele cabelão “à la Angela Davis”, a faz uma figura carismática, sem dúvida. Apesar desses poréns, acho que Esperanza está fadada a ter um futuro brilhante.
Ouça Esperanza Spalding cantando Samba em Prelúdio.
Outros entre os “dez mais” da revista Downbeat que conheço são Jasmine, belo duo de Keith Jarrett e Charlie Haden (sobre esse CD, leia em http://bit.ly/nuooCB), e Highway Rider (Nonesuch, 2010), de Brad Mehldau. Sou fã desse pianista desde o primeiro CD que ouvi (Introducing Brad Mehldau, WB 1995), mas não acho que o classificado como sétimo melhor do ano esteja entre seus melhores.
Além dos dez melhores, estão listados em tipos menores e sem descrição, mais onze CDs. Para constar, Solo, de Vijay Iyer (Act 2010), ficou em 18º. Falei dele em http://bit.ly/qTI1Ia. Na minha opinião, esse CD é tão bom quanto Ten, de Jason Moran; merecia estar entre os dez.
A lista
1. Jason Moran, Ten
2. Joe Lovano Us Five, Bird Songs
3. Esperanza Saplding, Chamber Music Society
4. Rudresh Mahanthappa & Bunky Green, Apex
5. Keith Jarrett, Charlie Haden, Jasmine
6. James Moody, Moody 4B
7. Brad Mehldau, Highway Rider
8. Mary Halvorson Quintet, Saturn Sings
9. William Parker, I Plan to Stay a Believer: The Inside Songs of Curtis Mayfield
10. Danilo Perez, Providence


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