quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O que Miles Davis fazia na véspera de Natal de 1954

Thelonious Monk e Miles Davis
“Embora o jazz moderno esteja conosco apenas desde os anos 1940, os destaques atuais são evidentes e duvido que a história futura do jazz empalideça seu brilho. Uma grande performance de jazz está sempre dentro de uma tradição e uma coisa intemporal, independente da época em que foi executada. Alguns críticos de jazz dizem que pode ser uma coisa passageira e que devemos esperar séculos para ver se sobrevivem como um Bach ou Beethoven. Sem entrar no mérito de que discordo, diria que os próximos dois séculos tendem a se mover duas vezes mais rápido em termos de evolução cultural, assim como os dois séculos que os antecederam e o status de toda música, como a conhecemos, pode ser muito diferente do que é no presente. Tudo o que podemos fazer ao julgar os méritos relativos de uma performance de jazz é a nossa experiência nesse idioma. Os solos gravados de Lois Armstrong de trinta anos atrás são declarações puras e poderosas hoje, e pelas mesmas razões, o Miles de três anos atrás será significativo daqui a trinta anos, consequentemente.”

Ira Glitter foi profético ao escrever estas linhas. Até hoje, a música que Miles e outros como Thelonious Monk, Charlie Parker e Bud Powell continuam a soar modernas e contemporâneas. Na pródiga década de 1950, era comum ouvirmos músicos geniais juntos em um palco ou nos estúdios. Era Parker com Dizz

Quase Natal

No dia 24 de dezembro de 1954, Miles Davis, em vez de estar a fazer compras ou se preparando para se fantasiar de Papai Noel, estava em New Jersey, no lendário estúdio de Rudy van Gelder, gravando, e nada mais nada menos com músicos estelares como Thelonious Monk, Milt Jackson, Percy Heath e Kenny Clarke. Na seção, que pouco imagino se foi até a noite, foram registradas Bags Groove (Milt Jackson), Swing Spring (Miles Davis), Bemsha Swing (Thelonious Monk, Denzil Best), e The Man I Love (George e Ira Gershwin). As duas primeiras foram lançadas em Miles Davis All Star, volume 1 e as outras duas com mesmo título, no volume 2. Saíram em LPs de 10 polegadas, formato comum à época. Com o advento dos LPs de 12 polegadas, foram relançadas juntando outras sessões com outros músicos. Em CD, as duas do volume 1, incluindo um alternate take está em Bags Groove, e as restantes em Miles Davis and the Modern Jazz Giants. 

A sessão ocorrida na véspera do Natal pode ser considerada histórica, não apenas pelo encontro desses gigantes, mas porque também foi a única oportunidade em que Miles e Thelonious gravaram juntos. Conta-se que os dois não se entenderam em uma passagem se Miles deveria ser acompanhado apenas pela bateria e contrabaixo, com ou sem o piano. Dizem que o trompetista partiu para cima de Monk. Miles desmentiu. Seu argumento foi a de que Monk era muito maior que ele. De qualquer modo, a discussão deve ter acontecido e foi ríspida. Outra história que se conta é que Miles tinha operado a garganta e não poderia falar muito. Por causa da discussão, perdeu a voz.

Com ou sem violência física, as gravações estão aí mostrando esse encontro genial, e na véspera de Natal. É um belo presente para a humanidade.

Ouça o take 1 de Bags Groove.


Ouça o take 1 de My Man’s Gone Now.



Um feliz Natal e um grande ano novo. Volto no início de 2016.