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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Várias maneiras de cantar Caetano

A capa do tributo a Caetano Veloso
Ninguém está imune de ser “cantado” pelos outros. Não poderia faltar o disco “tributo” a Caetano Veloso. Virou septuagenário. O povo do marketing adora uma efeméride. Como é o melhor intérprete de si mesmo, a saída é a opção pela originalidade. Em A Tribute to Caetano Veloso, encontramos instrumentações diferentes e originais. Ouvindo-se algumas, a vontade maior é correr e ouvir no original mesmo… na voz do compositor.

A primeira do Tribute é uma das melhores. You Don’t Know Me possui trechos em inglês e em português. O inglês é cantado perfeitamente e o português, um pouco hilário em algumas partes. Isso, contudo não é ponto negativo porque é cantada por uma das melhores bandas da atualidade, o The Magic Numbers. Em tudo o que tocam, as tornam preciosas. Eles são muito bons mesmo. Mucama vira “mequema”, cama vira “quema” – pra rimar não podia ser de outro jeito –, “sabatana” vira “sabadana”, “ave maria” vira “êve mar ia”. You Don’t Know Me, a primeira de um dos melhores LPs do baiano cosmopolita – Transa – é um festival de colagens, com citações de Zé do Norte, Edu Lobo, Luiz Gonzaga. Bem antes dos samples, Veloso se “apropriava” de canções alheias. Ele já era um transcriador transgressor e transcendental há muito tempo.

O tributo é semi-estrangeiro. Não são tantos os ianques, que é como a esquerda latino-americana gostava de chamá-los. Tem o cientologista – “religião” de Tom Cruise, John Travolta e Chick Corea – Beck, o neo hippie “mezzo” americano, “mezzo” venezuelano Devendra Banhart e a quase paulistana (morou em SP, no edifício Copan, em 2004) Chryssie Hynde. No tempo em que ficou por aqui, fez uma turnê com Moreno, Domenico e Kassin. Aliás, é com eles que canta The Empty Boat. Começa com uma guitarra à la David Gilmour e Hynde é boa como sempre. É outro destaque. É um Caetano com sabor Pink Floyd.

São boas também as interpretações dos “hermanos”, aqui separados. Marcelo Camelo canta um interessante É de Manhã (nem tanto quanto a de Maria Bethânia e a de Leny Andrade: leia em http://bit.ly/VAMlwH), e Rodrigo Amarante, em dupla com Banhart, faz uma versão de Quem Me Dera, instrumentalmente sofisticada. Os “hermanos” possuem algo em comum no DNA: escolheram canções do início da carreira de Caetano.

O quase brasileiro, o uruguaio Jorge Drexler, entoa em quase perfeito português, Fora da Ordem. Os brasileiros Momo (Marcelo Frota), Qinho, Tulipa Ruiz, Céu, Luisa Maita, Mariana Aydar e Sergio Dias não fazem feio, mas são versões descartáveis. É aquilo que disse: você sai correndo para ouvir no original. Seu Jorge, em Peter Gast, é exceção, mais em razão de Toninho Horta e Arismar do Espírito Santo o acompanharem. Discretos e elegantes, valorizam a voz gutural e cool de Seu Jorge.

O lado “étnico” ou “world music” cabe à portuguesa Ana Moura e ao espanhol Miguel Poveda. Ela canta Janelas Abertas nº 2. Sua dramaticidade (“percorrer correndo corredores em silêncio/ Perder as paredes aparentes do edifício/ […] Na sala receber o beijo frio em minha boca”) combina bem com o cantar fadista. A Força Estranha com o cantor flamenco é interessante. Deveriam ter convidado Diego El Cigala. Ficaria muito melhor, mais dramática e a “força estranha” teria sido mais estranha ainda.

Ouça You Don’t Know Me, com The Magic Numbers.




Veja Chryssie Hynde cantando The Empty Boat, com Moreno, Domenico e Kassin em Buenos Aires. Essa interpretação é diferente da presente no Tributo.




Ouça É de Manhã, com Marcelo Camelo.




Eclipse Oculto, com CéU.




Fora da Ordem, com Jorge Drexler.




quinta-feira, 12 de abril de 2012

A minha preferida do último álbum da CéU

CéU na capa
Subitamente CéU tinha virado o “talk of the town”, pelo menos em um círculo de pessoas e formadores de opinião. Não resisti e fui a uma apresentação dela no Grazie a Dio, em São Paulo. O lugar é pequeno e não gostei da equalização do som, mas notei que a moça tinha presença e era muito afinada. Mas o que mais existe são cantoras afinadas. Para se sobressair é necessário mais que uma bela fachada e uma voz afinada. É preciso algum diferencial, e esse diferencial não é facilmente percebível. Às vezes, é um detalhe difícil de definir, quando não se tem uma voz tão única como a de uma Cassia Eller ou de uma Maria Bethânia.

Do primeiro CD, adoro seu Concrete Jungle, de Bob Marley. É um balanço reggae personalizado, filtrado por outras influências. Tem algo específico que me atrai e não consigo definir. Mas essa especificidade está presente em muitas das músicas cantadas por CéU e posso dizer que essa “coisa indefinível” é a razão pela qual gosto dela.

Vagarosa… ah, talvez essa palavra se encaixe um pouco na “coisa indefinível” que me atrai tanto, uma certa malemolência, uma “preguiça”, os sons que se encadeiam naturalmente em ritmos que me levam a algum “lugar” prazeroso. Ouvindo Cangote, a segunda do seu segundo CD, percebo que Céu adora reggae e relê a sua batida, mas de um jeito mais leve, incorpora o “modus” dos backing vocals dos jamaicanos, se bem que as vozes são dela mesma – são várias CéUs acompanhando a CéU solista. O samba não podia faltar, mas CéU é mais samba no primeiro álbum e menos nos posteriores.

Compro seu Caravana Sereia Bloom. Não difere muito dos outros. Penso na CéU como um corpo único, como sendo esse terceiro disco mais um órgão que se soma aos outros. Depois de ouvir umas cinco vezes (é o que faço normalmente; ouvir várias vezes os discos que compro; posso nunca mais botar a mão neles, mas, gostando ou não gostando, essa é a minha forma de gravar na minha mente e ver se valerá a pena ouvir em outras ocasiões), as minhas preferidas são Retrovisor (órgão elétrico – tocado por ela – e vozes dobradas, batidas da bateria e marcação de baixo para uma guitarra meio viajante antes da repetição de “Pode vir me contar das coisas que/ pensei em conhecer em ti”) e Ffree, curtíssima, uma pequena pérola de um minuto e sete segundos.

A maioria das composições são de CéU, algumas de Lucas Santtana, e uma de Nelson Cavaquinho (Palhaço) em bela releitura.

Ouça Retrovisor.