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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A primeira vez de Miroslav Vitous com John Surman

Em um dos posts anteriores comentei sobre o impacto da criação do selo ECM, por Manfred Eicher. Foi tão significativo que, se não me engano, a PolyGram, apressou-se em lançar alguns títulos no Brasil. Assim, pudemos conhecer músicos hoje consagrados, como Pat Metheny, Gary Burton, John Surman, Jan Garbarek, Carla Bley, Steve Swallow e muitos outros.

Um dos músicos virou um caso de amor, de minha parte; dele, com certeza, não. Depois de décadas, alimentado por essa paixão, pude vê-lo ao vivo em uma noite fria de São Paulo, no Teatro Sesi-SP, eu mais uns gatos pingados, 50 ou 60 espectadores. Era um dia chuvoso, além de gélido, fora que o show foi pouco divulgado. John Surman veio para divulgar “Invisible Threads” (ECM, 2028), com o brasileiro Nelson Ayres e o vibrafonista americano, radicado em Oslo, Noruega, Rob Waring. Dei uma de tiete, puxei um papo envergonhado depois do show e ainda aproveitei para tirar uma foto com ele.

Foram dois os LPs com participação de Surman lançados no Brasil: “Upon Reflection” (1980), solo dele em overdubs nos sopros e teclados, e “First Meeting” (ECM 1980), de Miroslav Vitous, com ele, o pianista Kenny Kirkland e Jack DeJohnette na bateria. “Miroslav Vitous Group” (1981) foi o segundo, com a mesma formação, e ainda um terceiro: “Jounrey’s End” (1983)). Neste, John Taylor substitui Kirkland.

John Surman, na minha opinião, é o melhor no sax barítono e na clarineta baixo de todos os tempos. Menos presente na cena musical, hoje, morando em Oslo, perdeu o posto de melhor saxofonista barítono, que manteve por décadas, pela revista Downbeat. O terceiro instrumento no qual se destaca é o sax soprano, além da competência em criar climas sonoros nos teclados eletrônicos. Seu estilo é inconfundível. Por essa razão, logo identifiquei onde o tinha ouvido antes: em “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin. Comentei isso com ele na noite em que apresentou-se em São Paulo. Disse que muitos de seus fãs falam o mesmo. Sua presença é marcante neste álbum. No ano em que saiu “Extrapolation” já tinha lançado na Grã Bretanha seu primeiro disco como líder.

First meeting. É a primeira reunião de Miroslav Vitous e John Surman. Ao piano, o talentoso Kenny Kirkland — quem conhece a obra de Sting sabe que foi membro de sua banda, junto com outro músico do jazz, Branford Marsalis — e Jack DeJohnette na bateria. Todas as composições são de Vitous, com exceção da música-título, uma criação coletiva.

Pelo começo, iniciada com o piano de Kenny Kirkland, “Silver Lake” é uma preparação ao que ouviremos. É um número com um colorido excepcional, e solos bem distribuídos: o piano discreto mas essencial, solos dramáticos de Vitous com o arco, Surman no saxofone soprano e a bateria politonal do grande DeJohnette. O breve solo de Kirkland no final da faixa é uma preciosidade. Pena que tenha morrido tão cedo, em consequência do consumo de drogas ilícitas.

“Beautiful Place to”, bem melancólica, sem a bateria, é inteira com solo de Surman no soprano e Vitous tocando com arco em uníssono em vários trechos, sobre acordes discretos de Kirkland. A próxima, “Trees”, não entra na minha seleção das preferidas. 

“Cycle” é a primeira em que Surman toca clarineta baixo. O início é com ele e o, mais uma vez, o belíssimo piano de Kirkland. Vitous e DeJohnette entram logo depois. O tcheco é um mestre no arco. Tem um estilo único, inconfundível. DeJohnette também tem um estilo original. Por tocar piano também — e bem — sua capacidade de criar sonoridades na bateria o diferencia da maioria dos bateristas. Outros que têm essa capacidade de produzir sons polifônicos por meio de suas baquetas são Paul Motian e Thomas Strønen.

A seguir vem a música título. Destaca-se aqui o sax soprano de Surman nos solos. A seguinte, sem dúvida, é um dos destaques. “Concerto in Three Parts” é um solo de Vitous. É, com certeza, um dos que melhor tira partido do arco no contrabaixo. “You Make Me So Happy” é uma boa conclusão para esse primeiro encontro desses grandes músicos.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Terje Rypdal, Miroslav Vitous e Jack De Johnette

Jack DeJonhette, Miroslav Vitous e Jack DeJohnette (esq. para a direita)
 

Logo no início da década de 1970, começaram a surgir menções a uma gravadora alemã chamada ECM. Tendo lançado o primeiro disco em 1969 — “Free at Last”, do pianista Mal Waldron —, Manfred Eicher causava um pequena revolução no mundo fonográfico. Primeiro: não era um selo americano, mas gravava americanos, além de europeus, evidentemente. 

O ano de 1975 foi o da consagração da ECM ou quando o mundo a descobriu. “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, foi o álbum solo mais vendido da história no jazz. Além de Jarrett, Eicher trouxe Chick Corea para o seu selo e acreditou em um jovem talento, o guitarrista Pat Metheny, que estreou tocando na banda de Gary Burton.

Um dos grandes feitos do alemão foi dar espaço aos músicos do continente europeu, outrossim. Uma coisa que deu certo foi a de juntar músicos de seu plantel, que nunca tinham se reunido antes. Foi assim que Jarrett passou a ter seu quarteto “versão européia”, com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen, além do americano, composto por Dewey Redman, Charle Haden e Paul Motian.

Essas formações “móveis” eram como as cirandas brasileiras: Paul Bley gravava com John Surman, que gravava com Miroslav Vitous, que gravava com Jack DeJohnette, que gravava com Keith Jarrett, que gravava com Charlie Haden, que gravava com Don Cherry, que gravava com Naná Vasconcelos, que gravava com Jan Garbarek, que gravava com Egberto Gismonti e, assim por diante.

Desses grupos transitórios, um dos meus preferidos foi o que reuniu Terje Rypdal, Miroslav Vitous e Jack DeJohnette. O sucesso da ECM ecoou no Brasil e o disco dos três, intitulado apenas com os nomes deles foi um dos que saiu em versão nacional, não me lembro se na primeira ou segunda leva de lançamentos. Assim tivemos contatos com a música que seu criador usou como slogan “o mais belo som depois do silêncio”. 

No álbum em que tocaram juntos pela primeira vez, de 1979, duas composições são de Rypdal, duas de Vitous e as duas últimas, dos três. Os destaques são “Den Forste Sne” (Rypdal), “Believer” (Vitous) e Seasons (Rypdal, Vitous, DeJohnette). A combinação do som da guitarra tensa e inttensa combina muito bem com o estilo meio dramático, em alternâncias abruptas de andamento. Jack DeJohnette é um daqueles bateristas que se adequa em qualquer formação.

Em 1981 reuniram-se novamente e resultou no álbum “To Be Continued”, não tão bom quanto o primeiro, mas com dois títulos excepcionais: “Maya” e ‘Toplue, Votter & Skyerf”, ambas de Rypdal. Neste, o norueguês, além da guitarra toca flauta, Vitous, o contrabaixo elétrico, e Jack DeJonhette, vocais, na última faixa.

Ouça os destaques nessa playlist.


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

John Surman, Nelson Ayres, Marlui Miranda

John Surman, Marlui e Caíto Marcondes

Na noite de 1º de agosto, a melhor opção seria ficar em casa. Chuva, frio e a perspectiva de muito trânsito eram os melhores argumentos. Mas iria acontecer a única apresentação de John Surman, Nelson Ayres e Rob Waring em São Paulo, no teatro Sesi.

Não tenho a certeza se foi na época em que ganhou uma bolsa de estudos pela “The John Simon Guggenheim Memorial Foundation”, em 1986, que Marlui Miranda conheceu Jack DeJohnette. Acho, pelo que soube na única vez em que conversei com ela.

DeJohnette ficara encantado com o álbum “Txai”, de Milton Nascimento, e lembrava-se de seus vocais na faixa “Nozani”. O contato serviu para que, depois, fosse convidada para participar da formação que se chamou The Ripple Effect. Um pouco fora do universo do jazz, o projeto era o de unir a música eletrônica, a improvisação com o universo da world music. Ao baterista, a banda contou com Foday Musa Suso tocando kora, instrumento africano de 21 cordas, os produtores Ben Surman e Big Al e Marlui. Surgiu assim o álbum “Hybrids” (2005). Título perfeito: eletrônica, dubs que nos remetem ao reggae, sons tribais, por meio dos vocalises de Marlui, e ritmos africanos. John Surman, pai de Ben, participa de algumas faixas. Tanto ele como Jack tinham tocado juntos inúmeras vezes. “The Amazing Adventures of Simon Simonn” (1981), em que ambos se dividem em vários instrumentos, é um dos grandes discos lançados pela ECM. Foi quando Marlui e John devem ter se conhecido. Tinham algo em comum: a pesquisa e exploração da música de suas origens, ela pela indígena, e ele, pela celta.

O Brasil desconhece o Brasil. As pesquisas com a música dos índios, desenvolvida desde a década de 1970, mereceu reconhecimento internacional. Além da bolsa de estudos de The John Simon Gugenheim Memorial Foundation, foi professora visitante na Chicago University e na Darmouth College, artista residente na Indiana University, além de ter sido agraciada com o prêmio da Academia Alemã de Crítica (SchallplattenKritik) em 1996 pelo CD “IHU, Todos os Sons”. Atualmente, faz doutorado na ECA-USP.

Em 2013, Marlui gravou “Fala de Bicho, Fala de Gente” (Selo Sesc), acompanhada por Nelson Ayres ao piano, Rodolfo Stroeter no contrabaixo, Caíto Marcondes na percussão e John Surman no saxofone e clarineta. A distância física entre Oslo e São Paulo não foi empecilho para que Surman e Marlui trabalharem em parceria os arranjos.

Ouça o CD na íntegra.


 

Não foi a primeira vez de Surman no Brasil. Em 1991, por ocasião de um seminário organizado pela UnB contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, apresentou-se com Marlui e, acho que deve ter sido quando conheceu Fortaleza, que o inspirou a compor “Pitanga Pitomba”, incluída em “Invisible Threads”, seu álbum mais recente, lançado no início pela ECM, em janeiro deste ano.

Uma coisa leva à outra. Marlui conheceu Jack DeJohnette, e assim conheceu John Surman, que ao vir gravar com Marlui, conheceu Nelson Ayres. Tempos depois, o inglês ligou de Oslo convidando o brasileiro a participar das gravações de um novo disco. Com o vibrafononista americano Rob Waring, há anos morando em Oslo, formou-se o trio de “Invisible Threads”. Como explicou Ayres no show em São Paulo, o conceito do álbum difere do padrão do jazz, em que os músicos vão alternando os solos. O título – “costuras invisíveis” – explica a estrutura do álbum. O diálogo entre os músicos são tecidos a três mãos.

Fiz um playlist em que estão incluídas as faixas de “Invisible Threads”.


 

Na noite fria de 1º de agosto, porque Marlui conheceu Jack, e assim, conheceu John, que conheceu Nelson, pude ver o meu ídolo pela primeira vez.

quinta-feira, 8 de março de 2018

As grandes novidades da ECM, em 2018, mas antes…

Enquanto as majors , como diria um sambista, nem despertaram ao raiar do novo ano, a ECM está pisando fundo no acelerador. Nem se inicia o terceiro mês do ano e temos novos álbuns de grandes músicos como John Surman, Andy Sheppard, Norma Winstone e Bobo Stenson, bem conhecidos por quem acompanha a gravadora de Manfred Eicher. Fundada em 1969, é ainda um selo inovador. O alemão não dorme no ponto.

Ainda, como diria um locutor de futebol, no “apagar das luzes de 2017”, saíram quatro  álbuns que, se não fazem o gosto mais popular, deve-se reconhecê-los pela qualidade e variedade. São eles:
Anouar Brahem – Blue Maqams
Maciej Obara Quartet – Unloved
Django Bates’ Belovèd - The Study of Touch
Jon Balke - Nahnou Houm

O tunisiano Brahem, mestre no oud, similar ao alaúde, toca com Djando Bates, Dave Holland e Jack DeJohnette. É o tipo de som que não é para todos. Este, até pelos músicos que tocam com ele, é menos melancólico do que a maioria de seus discos.

Assista ao vídeo promocional.




Eicher gosta de fazer troca-troca com o seu plantel. O mesmo Bates aparece em “The Study of Touch”. O inglês, que fisionomicamente lembra vagamente Flea, o baixista do Hot Chili Pepppers, gravou dois álbuns com a banda First House, pelo selo, e algumas participações de outros músicos. Não é meu pianista preferido.

Assista ao vídeo promocional.




O tecladista e percussionista Jon Balke é outro bem conhecido dos “ecmemaníacos”. Gravou mais de uma dezena de álbuns por esse selo. A estreia na ECM foi fazendo parte do combo do baixista Arild Andersen em “Clouds in My Head”. Seu nome está associado a várias bandas, cada qual a seguir uma direção: Masqualero, com Arild Anderson e Jon Christensen, Magnetic North Orchestra, Batagraf e Siwan. Em comum, é seu gosto pela música étnica, principalmente pelos ritmos africanos, árabes e a andalusa, calcada na tradição moura, de quando dominaram a Península Ibérica.

Seu mais recente é “Nahnou Houm”, vai pela seara da música espanhola, com a formação que ele nomeia como Siwan. No disco de 2009, cujo título foi esse, contou com Amina Alaoui. A marroquina é o ponto fora da curva. Depois de “Siwan” (2009), gravou como líder “Arco Íris” (2011). Em “Nahnou Houm”, um dos músicos é iraniano, outro é turco, e os outros, noruegueses contrrâneos dele, e a a voz é da argelina Mona Boutchebak. É menos interessante que o de 2009, o que não quer dizer que não seja bom. Mas é meio monótono.

Ouça “Castigo”., de Balke.




Deixei “Unloved”, de Maciej Obara, porque é o melhor dos quatro. Em sua estreia, o polonês não faz feio. Para quem gosta do “som ECM”, é um prato cheio. É bem o estilo. Obara prioriza o melódico ao uptempo. Provavelmente gravará outros pela ECM. Quem chama a atenção é o pianista. Quase certeza que Dominik Wania, polonês também, ganhará a chance de ter seu álbum solo. Ele é muito bom.

Veja o promocional de “Unloved”.




quinta-feira, 6 de julho de 2017

A lista dos melhores álbuns do ano na Downbeat, segundo a crítica

Até hoje não entendo direito sobre a correspondência das datas que estão impressas nas revistas e a de quando é disponibilizada. Quando assinava a Downbeat, várias décadas atrás, elas vinham pelo correio e, como demoravam, essas datas coincidiam mais ou menos. Hoje, com a assinatura digital, recebo o link delas com mais de um mês de antecedência. Exemplo: no dia 25, recebi a notificação de que tinha disponível a edição de agosto. Estranho, não.

Pois, agosto, além de ser o mês do cachorro louco, é o de quando a Downbeat publica o seu “Annual Critics Poll”, sendo a de 2017, a sua 65ª. Como de costume, listo os dez mais bem votados, pela ordem, e algumas observações sobre outros que ficaram um pouco atrás.

1. Wadada Leo Smith, “America’s National Parks” (Cunneiform)
2. Henry Threadgill, “Old Locks and Irregular Verbs” (PI)
3. Fred Hersch, “Sunday Night at the Vanguard” (Palmetto)
4. Jack DeJohnette, Ravi Coltrane, Matthew Garrison, “In Movement” (ECM)
5. Nels Cline, “Lovers” (Blue Note)
6. Sonny Rollins, “Holding the Stage: Road Shows vol. 4” (Doxy/Okeh)
7. Gregory Porter, “Take Me to the Alley” (Blue Note)
8. Matt Wilson’s Big Happy Family, “Beginning of a Memory” (Palmetto)
9. Andrew Cyrille Quartet, “Declaration of Musical Independence” (ECM)
10. Branford Marsalis Quartet feat. Kurt Elling, “Upward Spiral” (Marsalis Music/Okeh)

Mesmo sendo resultado de seres que, teoricamente, são os bambans, quase nunca bate com o gosto da patuleia. Mais que natural. Neste ano, porém, a concordância com a quase totalidade, bate com a de um membro desse grupo: eu.

O rastafarian Wadada
Mais vanguarda, melhores
Natural que aqueles álbuns mais “cabeça”, ou seja, menos povão, tendam a liderar as listas. Afinal, é o crème de la crème que está escolhendo os melhores, e os melhores dos melhores estão elencando os melhores. Tanto que os dois primeiros são os mais “vanguarda” dentre os dez. Um terceiro, de outro nome ligado à vanguarda, ficou em nono: “Declaration of Musical Independence”, do baterista Andrew Cyrille. Aliás, poderia estar entre os cinco, facilmente. O ex-membro do fabuloso Air, do também Henry Threadgill, é um dos veteranos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians).

Leo Smith começou e passou a ser conhecido fazendo parte da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), grupo de vanguarda de Chicago. O nome é bem pretensioso. Tenho um pouco de reservas por isso até hoje. Apesar de tudo, impressionante o número de bons músicos que revelou: Anthony Braxton, Muhal Richard Abrams, Leroy Jenkins, Roscoe Mitchell, Steve McCall, George Lewis, Jack DeJohnette, Amina Claudine Meyers, Lester Bowie, Chico Freeman, Famoudou Don Moye e outros. É uma verdadeira seleção alemã, com direito a bons reservas.

Leo Smith nem era o mais prestigiado no tempo em que Braxton era uma das estrelas da cena avant garde. Agora veterano e depois de convertido à seita rastafari, incorporando o “Wadada” ao antigo nome, atualmente, é um dos mais incensados pela crítica. Gravou uma avalanche de discos, todos, sem exceção, elogiados: “Ten Freedom Summers” (2012), segundo melhor do 61st Annual Critics Poll, da Downbeat, “The Great Lake Suites” (2014), quarto melhor de 2015, no mesmo poll, “Celestial Weather” (2015), 17º no de 2016, e agora, primeiro, com “America’s National Park”. Merece? Se não em primeiro, entre os dez. Gosto é gosto, como diria um amigo. Nunca seria o meu primeiro.

Ouça trecho de “America’s National Park”



Outro que a cada lançamento está presente entre os melhores é Henry Threadgill. Era genial com o trio Air, e continuou com suas várias formações posteriores. É um dos músicos mais originais do jazz. É aquele que melhor tira partido de contrastes sonoros. O registro agudo ou médio do saxofone alto e da flauta é combinado com os mais graves, como do trombone e a tuba; em vez do contrabaixo, gosta de usar o violoncelo e a presença de guitarristas “diferentes”, como Brandon Ross e Liberty Ellman, resultam em algo bem original.

Depois do Air, montou as bandas Make a Move, Very Very Circus e a Zoid. A de “Old Locks and Irregular Verbs” é a Ensemble Double Up. Não toca no álbum; é apenas autor e arranjador. Em seu lugar, são dois saxofones alto (Roman Filiu e Curtis MacDonald), dois pianistas (Jason Moran e David Virelles), Christopher Hoffman no cello, José Davila na tuba e Craig Weinrib na bateria. Alto nível. A minha fase preferida é a da época do Make a Move.

Ouça a “Part IV”, faixa final.



Mainstream ou, quase
O álbum mais “fácil” da lista é o de Fred Hersch; foi gravado ao vivo no clube Village Vanguard, Nova York. Fred é acompanhado por John Hébert e Eric McPherson. Particularmente, acho que tem vários pianistas mais interessantes que ele, e “Sunday Night at the Village” é apenas outro bom disco no formato trio.

“In Movement”, de Jack DeJohnette, com Ravi Coltrane, Matthew Garrison, seria o meu preferido do ano. É brilhante. Funciona como uma espécie de tributo a John Coltrane. DeJohnette chegou a tocar com o saxofonista, Matthew é filho de Jimmy Garrison, e Ravi é filho do grande mestre.

Ouça “Serpentine Fire”.




Nels Cline é o exemplo do músico eclético. Irmão gêmeo do baterista Alex Cline, muitos o conhecem como membro da banda Wilco, mas Nels começou no jazz. Nos últimos anos, tem aparecido bastante nas publicações especializadas no gênero graças aos bons álbuns que tem lançado. Antes do duplo “Lovers”, saiu um duo com Julian Lage (“Room”, 2014), e “Initiate” e “Macroscope”, como The Nels Cline Singers.

Ouça o standard “Glad to Be Unhappy”, em versão bem interessante, diferente daquela que você deve ter ouvido com Billie Holiday e Frank Sinatra.




Sonny Rollins, com “Holding the Stage”, quarto da série “Road Shows”, e Gregory Porter, com “Take Me to the Alley” vêm em seguida. O primeiro é uma seleção de registros das turnês daquele que é considerado um dos melhores de todos os tempos no sax tenor. É raspa de tacho do veterano músico. Está entre os dez pela reverência dos críticos aos velhinhos. 

A tendência dos cantores que têm surgido nos últimos anos é a de distanciarem-se bastante do mainstream. José James, Theo Bleckman e Gregory Porter são os melhores exemplos. É uma tendência. James e Porter vão pelo caminho da tradição negra da música americana, abarcando o gospel, o rhythm’n’blues, soul, hip hop, tudo com o sabor ou sabedoria de mesclá-los. Bleckman segue por outra seara: é branco e alemão.

Veja Porter em “Take Me to the Alley”.



Na onda dos bateristas que gravam como líderes, Matt Wilson é um dos destaques da atualidade. Tem mais de uma dezena de títulos gravados, quase todos pelo selo Palmetto. Não é apenas baterista. É compositor de talento como demonstra em seus discos. “An Attitude for Gratitude”, de 2012, foi o último antes de “Beginning of a Memory”. Formou a Matt Wilson’s Big Happy Family para a gravação deste. Acaba de sair “Music Inspired by the Poetry of Carl Sandburg” com a nova formação, agora, Matt Wilson’s Honey and Salt.

Em décimo – para mim estaria entre os cinco melhores – os críticos elegeram “Upward Spiral”, de Branford Marsalis, “featuring” Kurt Elling. Como emergiu para a fama depois do irmão Wynton, sofreu um pouco pela comparação, mas, depois de todo esse tempo, nem é mais preciso se afirmar; é de fato um dos melhores saxofonistas da atualidade, tanto no soprano como no tenor. Elling, para mim, continua a ser o melhor cantor de jazz, apesar de ter perdido o posto, depois de quinze anos, justamente, para Gregory Porter. Ninguém consegue ser unanimidade nesse mundo tão pulverizado.

Elling estraçalha em “A Practical Arrangements”, de Sting. Nem é preciso dizer sobre o sax de Marsalis. Confira.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Morre Arthur Blythe

Tem coisas que marcam. Até um simples disco. No meu caso, foi a primeira vez em que ouvi “Special Edition” (ECM, 1980). Dentre as “14 Mais” desta minha vida, é uma delas. Vários de meus ídolos estavam nesse álbum, presencialmente ou não: Zoot Sims, Eric Dolphy, John Coltrane e Jack DeJohnette, o líder dessa edição especial. Admirava David Murray desde “Low Class Conspiracy”, lançado em 1976, que conheci por meio da amiga Lu, que acabava de voltar dos Estados Unidos com uma dezena de LPs. O contraste com o som mais bojudo do sax tenor e o da clarineta baixo era o alto de Arthur Blythe. Minhas antenas se direcionaram a ele, que até então, não conhecia.

“One for Eric” é um dos destaques do álbum “Special Edition”.



Acho que o primeiro LP que comprei dele foi “In the Tradition” (Columbia, 1978), lançado no Brasil. Os “tradition” eram “Jitterburg Waltz” (Fats Waller), “In a Sentimental Mood” (Duke Ellington), “Caravan” (Juan Tizol), e outro, mais recente, a clássica balada “Naima” (John Coltrane. As duas restantes são de Blythe. Sidemen de respeito: Stanley Cowell, Fred Hopkins e Steve McCall; os dois últimos, com Henry Threadgill, formavam outro trio matador, o Air.

Ouça “Jitterburg Waltz”.



Mas o álbum que realmente me fez gostar dele foi “Illusions” (Columbia, 1980). Todos os temas são de sua autoria. O maior valor está na instrumentação, bem diferente, com marcações da tuba de Bob Stewart, às vezes, substituindo o contrabaixo, o violoncelo de Abdul Waduh, em três faixas, e a guitarra de James Blood Ulmer, como sempre, surpreendente. Outros bons momentos acontecem com Fred Hopkins ao contrabaixo, como em “Miss Nancy”, a bateria de Steve McCall e o piano de John Hicks. São todos músicos de primeira, o que faz uma boa diferença.

Blythe era um grande baladista, como se percebe em “My Son Ra”.



Alguns músicos como Abdul Waduh, Bob Stewart, que participaram de vários álbuns de Blythe, e outros, como Hamiet Bluiett, Lester Bowie, Chico Freeman e Famoudou Don Moye, demonstravam uma preferência dele pelo jazz avant-garde. É uma razão para que não tenha ficado tão conhecido como outros altoístas.

Com o tempo, deixei de acompanhar melhor a carreira de Blythe, sem nunca ter deixado de ouví-lo em alguns discos sob seu nome ou em outros como quando passou a ser um dos membros do World Saxophone Quartet, ou do Roots, onde tocou com outras feras do saxofone, como Chico Freeman e Sam Rivers. Dentre as minhas recomendações, incluo “Stablemates” (1993), “Saying Something” (1995).

Ouça a clássica “Stolen Moments”, de Oliver Nelson.




Desde 2005, Blythe estava com o mal de Parkinson, o que acabou por obrigá-lo a se afastar da música. Seus amigos até fizeram uma campanha de arrecadação de fundos para o tratamento da doença. Agora, em 27 de março, faleceu, com 76 anos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

As multifases do polirrítimico Jack DeJohnette

Jack e seu arsenal percussionístico
Tal como foi dito em outro post (O tempo em movimento com Jack DeJohnette), Jack DeJohnette nasceu em Chicago e iniciou-se musicalmente na cena vanguardista dessa cidade que é um dos grandes centros do jazz e do blues. Foi para lá que Louis Armstrong se mudou em 1922, para tocar com King Oliver na Creole Jazz Band. A partir daí, tornou-se um dos lugares preferidos dos músicos.

Aos 74 anos, completados em agosto último, é ainda um dos melhores bateristas do mundo. E o melhor, continua a nos surpreender. Basta dizer que seus últimos dois álbuns, “Made in Chicago” (ECM 2015), com a ‘velha” vanguarda, que atende pelos nomes de Muhal Richard Abrams, Henry Threadgill, Roscoe Mitchell e Larry Gray, e o mais recente “In Movement” (ECM 2016), com os jovens Matthew Garrison e Ravi Coltrane, ambos filhos dos geniais, respectivamente, Jimmy Garrison e John Coltrane, demonstram que sempre esteve na ponta da evolução do jazz. Não é fácil. São mais de 50 anos como profissional.

Quando criança, estudou piano clássico com professores em casa e depois no Chicago Conservatory of Music. Entrou na cena musical como pianista e baterista. Teve os horizontes ampliados a partir do contato com músicos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), o mais importante centro da vanguarda do jazz.

Passou pouco tempo na banda de Charles Lloyd, a mesma que teve outro membro em início de carreira e, como ele, genial. Por obra do destino, os dois, DeJohnette e Keith Jarrett, com o baixista Gary Peacock, no futuro, iriam formar um dos trios mais consagrados e longevos.

Os caminhos de Keith e Jack foram se cruzando em vários momentos. Tocaram com Miles Davis nos anos 1960 e depois partiram para brilhantes carreiras solo. O primeiro lançou seus primeiros discos pelos selos Atlantic e Impulse. Jack lançou, em 1968, seu primeiro como líder: “The Jack DeJohnette Complex”, pela Milestone, e logo depois, “Have You Heard” (1970). Passou para a Prestige e lá saíram “The Sorcerer” (1974) e “Cosmic Chicken” (1975).

Os dois passaram a gravar também pelo selo ECM. Jarrett lança seu primeiro LP em 1971: “Facing You”. No ano seguinte, com DeJohnette, em duo, gravam “Ruta and Daytia”. Se não me engano, é a última vez que toca algum instrumento eletrônico. Aqui, desdobra-se no piano acústico, elétrico, flauta e órgão. Jack toca bateria e vários instrumentos de percussão. Não foi um disco que teve tanta receptividade, mas é muito bom, principalmente, por ser bem experimental e ter a percussão como protagonista.

Ouça “You Know, You Know”, uma das faixas mais interessantes, com Keith ao piano elétrico.




Primeiros na ECM
Depois desse álbum, DeJohnette participa de “Timeless”, de John Abercrombie. Grava mais alguns com o guitarrista como membro da banda Gateway.

Em seu primeiro como líder, na ECM, “Untitled” (1976), sua banda Directions conta com John Abercrombie, seu companheiro na Gateway, Warren Bernhardt nos teclados, Alex Foster nos saxes soprano e tenor, e Mike Richmond no contrabaixo. A maioria das composições ou é de DeJohnette sozinho ou em parceria. Há poucos bateristas que compõem, comparados a outros instrumentistas, mas Jack é um caso à parte, por ter aprendido a tocar piano, além de arranhar no saxofone. É por isso também que a sua bateria apresenta um colorido tonal. Manfred Eicher conseguiu imprimir uma marca, que até ficou conhecida como “ECM sound”. “Untitled” não foge à regra, e é uma grande estreia de Jack nessa gravadora.

Um grande tema é “The Vikings Are Coming”. Ouça.




Jack participou de vários álbuns de outros do cast da gravadora, como Kenny Wheeler, Bill Connors, Gary Peacock e Terje Rypdal, dentre outros. Com o seu Directions, lançou “New Rags” (1977).

Ouça “Seasons”, do brilhante álbum em que o baterista toca com Miroslav Vitous e a guitarra impressionante de Terje Rypdal. Esse álbum, lançado em 1979, é uma de suas grandes participações.




Novas direções
Com nova formação – Lester bowie no trompete, Eddie Gomez no baixo, e o mesmo Abercrombie na guitarra –, lançou o álbum “New Directions” (1978). Seria ainda lançado uma ao vivo dessa banda, em 1979, o “New Directions in Europe”.

Ouça “Silver Hollow”, com DeJohnette ao piano, em composição própria. O trompete é de Lester Bowie.




É de 1980 o melhor disco de Jack DeJohnette, na minha opinião. Fiquei chocado quando ouvi pela primeira vez. Deixou de ser Directions e montou a Special Edition, com músicos mais ligados à avant garde: David Murray no sax tenor e na clarineta baixo, Arthur Blythe no sax alto, Peter Warren no baixo e violoncelo, e Jack, an bateria, piano e melódica. Duas das composições são de John Coltrane (“Central Park West” e “India”), e as três restantes, de sua lavra: “One for Eric”, “Zoot Suite” e “Journey to the Twin Planet”. As referências, ou homenagens, são claras. A primeira, para Eric Dolphy, precocemente falecido, um gênio no sax alto, flauta e clarineta baixo; a segunda, para Zoot Sims.

Ouça a genial “One for Eric”.



“India”, de John Coltrane, é outro destaque, com Johnette ao piano, no início. Atenção ao solo de David Murray na clarineta baixo e de Arthur Blythe no sax alto.



Como Jack DeJohnette’s Special Edition, lançou mais dois álbuns de estúdio – “Tin Can Alley” (1981) e “Album Album” (1984) – pela ECM, igualmente bons, mas não como o primeiro. Também, seria demais, porque é um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos. Com formações diferentes, o comum é o contraste entre instrumentos de sopro mais agudos e mais graves. Em “Tin Can Alley”, Chico Freeman toca sax tenor, e John Purcell o alto e o barítono, além dos dois na flauta. No seguinte, são três: Purcell no alto e no soprano, David Murray no tenor, e Howard Johnson na tuba e no sax barítono. Pela ordem, o primeiro é o melhor, o último é o segundo, e “Tin Can Alley”, o menos bom. Em “Album Album”, temos uma outro tema genial, que vale o disco inteiro.

É “Ahmad The Terrible”. outra referência a um grande músico. Ouça. Os saxes são maravilhosos.




O outro caminho
Para quem imaginava que DeJohnette e Keith Jarrett não mais se encontrariam, engano. Lançaram “Standards 1”, pela ECM, em 1983, com Gary Peacock no contrabaixo e estava formado um dos trios mais longevos da história. São cerca de 20 álbuns lançados pela ECM. O último, se não me engano, é “Somewhere”, de 2009. Nada impede que voltem a gravar juntos. Vamos esperar.

Septuagenário, Jack não para. O último álbum lançado é coisa fina, como se dizia antigamente. Foi comentado neste blogue. O link está no primeiro parágrafo.

terça-feira, 28 de junho de 2016

O tempo em movimento com Jack DeJohnette

Matthew Garrison, Ravi Coltrane e Jack DeJohnette
Há muito tempo, tive um dilema singular. Quem era o melhor: Jack DeJohnette ou Tony Williams? Não era uma escolha científica do tipo “quem é mais rápido?”. É um tanto bobo esse tipo de questão. É algo como discutir se Sophia Loren teria sido mais bonita que Claudia Cardinale quando no auge de suas belezas.

Se me perguntarem hoje, diria que o meu preferido é Jack DeJohnette, por uma razão bem simples: está vivo e continua na ativa. Infelizmente, Tony, apesar de dois anos mais novo que Jack, morreu cedo; aos 52 anos teve um ataque cardíaco após uma cirurgia de vesícula. Vivo, estaria tão na ativa quanto Jack, com certeza. Como este, sempre procurou ir além, explorando outros gêneros. Tocou até no Public Image Ltd., de John Lydon – Johnny Rotten, nos tempos dos Sex Pistols. Foi também um dos pioneiros do fusion jazz, com a Lifetime.

Brevemente, Jack
DeJohnette tem seu início ligado à cena do jazz de Chicago. É o berço da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), organização que em sua origem tem nomes da avant garde como Henry Threadgill, Muhal Abrahms e Roscoe Mitchell. Tocou na banda de Charles Lloyd. Saiu logo. Não era o que queria. Foi baterista de Abbey Lincoln, Jackie McLean e Bill Evans antes de entrar na banda de Miles Davis.

O destino aproxima Jack dos Coltranes e Garrisons
Mais de acordo com alguém que tem raízes na cena de Chicago, antes de Lloyd, tocou com Sun Ra e com John Coltrane. Foram apenas três vezes, na nova banda que o saxofonista montara com a mulher Alice Coltrane; era o segundo baterista; o primeiro era Rashied Ali. Dessas sessões de 1966, descobriram recentemente uma foto de Jack com John e Jimmy Garrison. Por uma dessas conjunções do destino, Ravi, filho de John, e Matthew, filho de Jimmy, estão tocando com aquele mesmo Jack, cinquenta anos depois.

Mais que os elos profissionais, existem os pessoais entre Matthew Garrison e Jack. Depois da morte de Coltrane, Jimmy entrou em depressão e tentou o suicídio. Nunca mais tocou pois na tentativa houve o comprometimento dos tendões. Morreu com 42 anos. Matt tinha cinco. Passou a infãncia com a mãe na Itália. Aos 18 anos teria de voltar aos Estados Unidos para fazer o serviço militar. Afilhado de DeJohnette, foi morar com ele e Lydia, sua mulher, em Woodstock. Mais tarde, entrou na Berklee College of Music.

Ravi Coltrane estudou no California Institute of Arts. Em 1991, Ravi e Matt tocaram juntos pela primeira vez com DeJohnette em uma jam improvisada em Woodstock na sua festa de aniversário, na qual também estavam Betty Carter, Kenny Burrell e Al Foster.

Os filhos de John Coltrane e de Jimmy Garrison, em razão das ligações familiares, tinham anteriormente recebido propostas de tocarem juntos. Mas isso só iria acontecer quando se juntaram a Jack e não por alguma sugestão de alguma gravadora ou produtor. Aconteceu porque talvez estivesse escrito nas estrelas que um dia as peças se encaixariam. Foi como o baterista afirmou em matéria da Downbeat (junho 2016): “Mas quando você combina a música com as conexões pessoais, o espiritual, o emocional, conexões históricas e familiares, ela passa a ter uma característica completamente diferente.”

Em movimento

O trio reuniu-se em fevereiro de 2013. Apresentaram-se em festivais e clubes. Houve uma primeira conversa com Manfred Eicher em Nova York, mas nada ficou definido. O produtor não queria que o álbum fosse um registro ao vivo, pois o anterior de Jack, Made in Chicago, fora. De 2013 até a gravação de In Movement, o período foi de muita experimentação em improvisos grupais. Quando entraram no estúdio para gravar, a banda estava madura e com o repertório mais definido.

A referência à John Coltrane não está somente pela participação de Ravi e de Matthew. A primeira faixa é a emblemática Alabama, composta por Coltrane depois do ataque da Klu Klux Klan a uma igreja batista, neste estado, causando a morte de quatro pessoas. Outra é a música Rashied, homenagem ao baterista de Coltrane. Os “Jimmys” de Two Jimmys são Jimi Hendrix e Jimmy Garrison, pai de Matthew. Duas composições são de Jack: Soulful Ballad e Lydia, que é o nome de sua mulher. Completam o álbum a música título, Blue in Green, jazz standard de Miles Davis e Bill Evans, e Serpentine Fire, da banda Earth, Wind and Fire. Os destaques são as duas últimas. O clássico de Davis tem um belo solo de Ravi, e em Serpentine Fire, o baixo elétrico de Matthew faz a diferença, sem contar a atuação de Ravi no saxofone soprano.

Com 73 anos, há mais de 50 anos como músico profissional e o velho Jack continua como um dos protagonistas da música. Participou da revolução fusion de Miles Davis e é o baterista de um dos trios mais longevos da história do jazz, com Keith Jarrett e Gary Peacock. Além das baquetas é um craque ao piano. Por conta disso, tem uma das baterias mais melódicas e poucos têm a sua versatilidade.

Assista ao vídeo promocional do álbum.



Como foi dito, no período anterior à feitura do álbum, o som do trio estava bem experimental. Veja-os em Lusanne, Suiça, em show de 2014.




Veja também o trio tocndo Wise One, no Blue Note de Milão.