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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Charles Bradley, a outra descoberta da Daptone Records

Capa de Victim of Love, de Charles Bradley
Junte uma seção de metais e uma boa voz negra (sem preconceito, por favor). Está aí uma fórmula para se replicar o som de luminares do soul e do rhythm’ n’ blues como Sam Cooke, Arthur Conley, Sly Stone, Wilson Pickett, Al Green, Otis Redding e James Brown, com boas chances de se fazer sucesso, pelo menos, em clubes e barzinhos. Se o cara for bom, as chances de gravar e conseguir certa projeção são boas. Foi mais ou menos o que aconteceu com Charles Bradley.

Victim of Love é o segundo álbum do cantor lançado pela Daptone. Essa gravadora ganhou notoriedade por ter lançado Sharon Jones. O sucesso de Sharon e da gravadora, por sua vez, se deve ao fato dos Dap-Kings, banda de apoio dela, terem participado de gravações de Amy Winehouse.

O caso de Bradley é bem parecido com o de Jones: iniciaram suas carreiras tardiamente. Ela foi até carcereira (leia em http://bit.ly/19gxnVR), antes de ser descoberta. Ele está com 65 anos agora e Victim of Love é o segundo lançado pela Daptone. Antes de ser “descoberto”, tocava em uma banda chamada Black Velvet, mas muito antes, foi aquele garoto criado nas ruas, que se drogava, cheirava cola e dormia em qualquer lugar, inclusive na rua. Sorte da Daptone, temporariamente sem Sharon, que se recupera de uma cirurgia por conta de um câncer nas vias biliares, para levantar um dinheirinho. E sorte de Charles.

Quando tinha 18 anos, assistiu a uma apresentação de James Brown e aquilo mudou a sua vida: queria ser igual a ele. Demorou mas chegou lá. Deve estar curtindo a vida adoidado com o sucesso inesperado. Bradley não deve dançar como seu ídolo, mas os “uhs” que entremeia nas inerpretações são bem semelhantes. Outra influência evidente é a de Otis Redding. Em alguns momentos sua voz lembra a visceralidade do autor de Sittin’ on the Dock of the Bay. (sobre Redding, leia xxx).

Alguns críticos estão botando Bradley nas alturas celestes. Menos, né! Tem uma voz muito boa, mas não a ponto de ombrear a de seus ídolos. O povo adora uma descoberta. Foi assim com Sharon também. A Daptone tem se especializado em lançar intérpretes e bandas que remetem aos sons dos anos 1960. Legal, mas soa um pouco déjà vu. Funciona, no entanto. Esse tipo de música faz sucesso até hoje, mesmo entre a juventude atual. Veja-se o caso de Joss Stone, que vendeu quase um milhão de The Soul Sessions nos EUA e mais de um milhão do seguinte Mind, Body & Soul, lançados quando mal passava dos 16 anos de idade.

Uma coisa surpreendente em Bradley e Jones é a consistência interpretativa, mesmo tendo “estreado” tão tarde. É um detalhe que faz com que, às vezes, se supervalorize esses cantores. Entra no script de que o que é bom, um dia é descoberto. Independente de serem superestimados, são bons de verdade. É só não dizer que estão no mesmo patamar de James Brown e Otis Redding.


Ouça Bradley cantando Why Is It So Hard.




No Time for Dreamin’.




Ouça o disco todo aqui. Algumas cançnoes são muito boas, como Let Love Stand a Chance, a instrumental Dusty Love e Through the Storm.


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O caminho difícil de Sharon Jones

Quando James Brown morreu, disseram 
que seu corpo tinha desaparecido do túmulo
Se dizem que este mundo é pequeno – e, realmente, são surpreendentes coincidências do destino –, imagine-se um encontro de James Brown preso por ter dado uma surra na sua mulher com a carcereira Sharon Jones. Brown está morto e, sabe-se lá se perdoado pelos pecados cometidos na terra, e Jones não trabalha mais na cadeia. Mas o encontro dos dois teria resultado num belo som.

Coisas do destino, minha nega
Jones nasceu em 1956 e quem a ouviu ou acaba de conhecê-la, achará estranho nunca ter ouvido falar dela antes, se é tão boa cantora. Como muitas pessoas pobres de ascendência negra, cresceu frequentando e cantando em corais de igrejas. E como tantas outras de sua idade, cresceu ouvindo músicas lançadas pelas gravadoras Stax e Motown, tendo como ídolos James Brown, Otis Redding e Sam Cooke.

Para não sair tanto do script, quis ser cantora. Além de cantar na igreja, fez backing vocals para diversos intérpretes. Mas quando imaginou que poderia gravar discos sob seu nome, ouviu coisas como “você é muito negra e gorda” ou “você não é bonita” etc.

O tempo foi passando e notou que aquilo de tornar-se cantora não era para ela. Foi pegar no pesado e, pelo seu porte físico, quem sabe, poderia trabalhar na polícia. Passou no teste e virou carcereira de uma penitenciária em Nova York (nascera na Geórgia, mas cedo mudara para essa cidade). Depois, ainda, trabalhou de segurança de carro-forte do tradicional Wells Fargo Bank.

Nem todos os Daps são negros
Gabriel Roth e Philip Lehman eram donos de um selo francês, a Pure Records. Em 1996, para o álbum que estavam gravando com o cantor soul Lee Fields, precisavam de três cantoras para os backing vocals. Uma delas era Sharon, que deixou os produtores impressionados com sua voz. Gravaram uma faixa apenas com ela intitulada Switchblade, que foi incluída em Soul Tequilla, disco da banda Soul Providers.

Sharon não caiu das nuvens. Tinha sido casada com um saxofonista componente do Soul Providers, que lembrou dela quando os produtores precisaram de vocalistas para os backings. Os donos da Pure resolveram montar uma nova gravadora nos EUA e chamaram-na de Desco. Dois membros da banda Mighty Imperials se juntaram ao Soul Providers e mudaram o nome para Dap-Kings, e a Desco  virou Daptones. Já como Sharon Jones & The Dap-Kings, gravaram dois álbuns, um em 2001 (Dap-Dippin’), e outro em 2005 (Naturally). Quando lançaram 100 Days, 100 Nights, em 2007, Sharon e a banda já eram muito prestigiadas por uma legião de fãs, bem como pela crítica especializada.

Não foi obra do acaso o som dos Dap-Kings chamar a atenção de Mick Ronson, produtor de Amy Winehouse. O som sessentista dessa banda não fazia feio comparado às que acompanharam Otis Redding, Wilson Pickett e outros reis do funk e do soul. Por obra do destino – ou das conjunções – Sharon Jones ficou conhecida, por tabela. Que eram os tais Dap-Kings. E assim cumpriu-se o destino de Jones, que quisera ser cantora e gravar um disco. Tardiamente, mas nunca é tarde. E quem a ouve, surpreende-se, pois parece que nasceu feita.

A primeira faixa do disco 2007, 100 Days, 100 Nights, é um aviso do que virá. A combinação dos sopros, trumpetes e saxes em riffs contagiantes e o sax-barítono fazendo o contraponto grave aos sons agudos é eletrizante. A voz vigorosa de Sharon tem personalidade e ela é a rainha. Até na pose da capa, com vestido dourado cintilante e sandálias idem, isso fica claro.

Com caras de homens maus, em costumes pretos e blusas vermelhas de gola olímpica, posam atrás de Sharon Jones que, mais uma vez, faz aquela pose de “eu posso”, altiva, queixo levantado, uma das pernas pouco a frente da outra, pouco mais gordinha do que no disco anterior, em I Learned The Hard Way. O título é perfeito para essa cantora que o destino e as circunstâncias revelaram. O disco é bom, mas não tão impactante como o anterior. Soa, às vezes déjà vu, lembrando ora Marvin Gaye; ora os Dap-Kings parecendo uma emulação da fabulosa banda que acompanhava Otis Redding. A música, no entanto, é uma realimentação do que já foi feito. As brancas Joss Stone e Amy Winehouse são exemplos. Mesmo assim, fazem boa música; que é o mais importante.

Ouça Money. Tem um pouco de Al Green, um pouco de Marvin Gaye. E daí? É da boa.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sharon Jones é para sorver aos poucos

Quem conhece Sharon Jones? Se você não a conhece, é explicável. Essa senhora de 54 anos trabalhou como carcereira e segurança de carro-forte antes de ficar conhecida como cantora. Mas vou falar dela em outro texto. Como aperitivo, ouça 100 Days, 100 Nights com Sharon e a excepcional The Dap-Kings. É do dsico com o mesmo nome, lançado em 2007. Depois lancou outro petardo: I Learned the Hard Way.