Fazem parte de longa tradição lançamentos de discos com temas natalinos na época das festas de final de ano. Não sei quando isso surgiu, mas o que parecia ser parte dos costumes de alguns países do hemisfério norte tornou-se habitual até no Brasil.
Tem-se notícia do disco lançado por Bing Crosby com a música White Christmas, em 1941. Fora composta pelo judeu russo Irving Berlin um ano antes.
Esse frisson por compras e festejos por um ano findado, em muitos casos, é motivo para deixar o sujeito deprimido. É quase impossível fugir desse clima; a não ser que você esteja embrenhado na floresta amazônica, sem um televisor ligado num raio de um quilômetro. Essa coisa de abraçar desconhecidos nas passagens de ano, então, é um tanto deprimente, não? Imaginei que esse costume era exclusivo dessa época. Engano. Fui a uma missa de sétimo dia numa igreja católica e, num certo momento, as pessoas se davam as mãos, cumprimentavam-se e abraçavam-se. Muito estranho esse mundo! Camufla-se o bem assim, como o mal.
Envolvido que estava com o clima natalino de Nova York – se você não está, a pessoa ao seu lado estará –, a pedidos de uma amiga brasileira, lembrei-me de fotografar a árvore montada no Rockefeller Center. As vitrines dos magazines e a iluminação das ruas são um espetáculo impossível de ser ignorado. Vá lá. Alguns são bem bonitos, mas nunca na vida pegaria o carro ou o metrô só para visitar um ponto com uma árvore de natal iluminada. É que é impossível não passar na frente do Rockefeller.
Diana Krall, vestida para o Natal
Menos comum é entrar em uma loja que venda CDs à procura de alguma coisa, um cedêzinho mais barato, aquele que você procurou em Frankfurt e encontrou em oferta na J&R. Comum mesmo é o espírito natalino. Até calcinhas, lingeries podem ter relação com Papai Noel. Não é diferente em megastores como Tower, Virgin e HMV, que existiam até alguns anos atrás. Numa dessas, vi um calendário do ano de 1999 no formato de CD (lembram-se; foi moda um tempo: o “jewel box” virava um porta-retratos) cujo tema era Diana Krall. Vinha um CD com três músicas de Natal. Comprei por Diana, não pelas músicas do disquinho.
Em novembro de 2005, Krall lançou o CD Christmas Album, com doze faixas. Esse é o seu verdadeiro disco de Natal. Have Yourself a Merry Little Christmas, o CD/ep que vinha junto do calendário continha apenas três músicas: Have Yourself a Merry Little Christmas, Christmas Time Is Here e Jingle Bells.
Nos rastros de Bing Crosby – ficou até um pouco estigmatizado por causa da gravação de White Christmas – vieram outros. Até Elvis Presley fez o seu. Mesmo caso é o de Tony Bennett. Nem todas as músicas relativas ao Natal têm aquele “toque jingle bells”. É ouvir e provar Diana cantando músicas de Natal (e até aprovar).
Algumas lâminas do calendário de 1999
Ouça The Christmas Song, composta por Mel Tormé e Robert Wells.
O título capcioso não serve para revelar algum segredo ou fato obscuro da vida de Diana Krall, e muito menos, do marido Elvis Costello. É claro que, não sendo Elvis um modelo de beleza, e Krall, bela e talentosa como é – muitos acham que poderia ter arrumado um homem mais “aprumado” –, o casal é alvo de fofocas e maledicências. Já se disse até que o casamento é de fachada (a exemplo da união de Tom Cruise e Nicole Kidman) e que os filhos gêmeos são de proveta.
Costello e Diana: um casal feliz
Existe gente que não o acha talentoso; mas, de fato, é. Costello participou de algumas pequenas “revoluções” da música. Passou pelo punk, country, folk, new wave, rockabilly, sempre adicionando alguma novidade. É autor de Shipbuilding e Almost Blue. Não precisava fazer mais nada. Elvis tem o “desassossego” dos grandes artistas, é um subversivo, enfim. Foi a Nashville e lá gravou um disco country (fãs e desafetos devem ter torcido o nariz), colaborou em disco do trumpetista cult Chet Baker, associou-se a intérpretes geniais como Robert Wyatt, gravou com Burt Bacharach (um escândalo; Elvis fazendo música easy listening?), gravou discos com uma das melhores mezzo-sopranos da atualidade –Anne Sofie von Otter –, compôs música para balé (Il Sogno), ambos pela mais prestigiada gravadora de música erudita, a Deutsche Grammophon. Não é pouco, não.
Faz parte dos meus roteiros turísticos entrar em lojas que vendem CDs e DVDs. Meio pobre, não? Quando se viaja, deve-se incluir visitas a museus, sítios arqueológicos, espetáculos de música, restaurantes etc. Minha pobreza de espírito e falta de refinamento cultural me empurram para o consumo, principalmente de discos. Quando vou a Nova York, passo por, pelo menos, duas lojas por dia. É uma pena que estejam desaparecendo. Terei de arrumar outras coisas para fazer. Ouvi muito dizerem que, se você vai a Nova York e não vê um musical da Broadway, efetivamente, você não foi a Nova York. Passei dessa fase e depois, acho os ingressos caríssimos. Quase dormi em Cats. Duas filas atrás um japonês roncava, virado de boca aberta para cima. Tive até inveja dele, mas como é que iria dizer aos amigos que tinha achado Cats chata? Aqueles efeitos de um helicóptero descendo em pleno palco ou um lustre descer a toda a velocidade não se sabe de onde, tudo isso não me impressiona. Prefiro passar horas no MoMA e no Metropolitan e depois passar numa Borders, Barnes & Noble, Rizzolli, J&R ou na minha preferida, a Jazz Record Center (sobre a loja, leia http://bit.ly/hYoeP5), que fica escondido num prédio no lado oeste da metrópole.
Pois, em Paris, em 1995, como não conhecia o La Défense, e não era a primeira vez que visitava a cidade, em razão dos clamores de meus companheiros arquitetos, fui até lá. É a parte “muderna” de Paris. Há um grande arco que, visualmente, “abriga” o velho Arco do Triunfo: dá uma linha reta que corre pela Champs Elisées. É a sede do mercado financeiro. Na frieza de sua arquitetura, encontrei uma loja Fnac. Enquanto remexia nas bancadas dos CDs, no setor de jazz, o som que tocavam naquela hora chamou-me a atenção. Fiquei curioso de saber quem era o pianista. Logo mais, ouço uma voz familiar. Era a de Diana Krall. Não tinha essa fama que tem agora. Diana era uma espécie de “segredo bem guardado” de alguns aficionados de jazz. Desde o primeiro que comprara – Only Trust Your Heart – a canadense chamou-me a atenção, pelo piano que lembrava Nat King Cole, pela beleza e pela voz.
Turn Up the Quiet foi lançado em 1996
Falo, no máximo umas vinte palavras em francês, todas relacionadas a comida. Na França, a amiga Vania deu algumas dicas. Uma delas era a de que sempre se usa artigo antes do substantivo. Por exemplo, se fosse pedir água, em vez de dizer “eau”, deveria dizer “l’eau”. Quem viu Pulp Fiction deve lembrar da cena em que John Travolta explica a Samuel L. Jackson que, para se pedir um Big Mac na França, deve-se dizer “Le” Big Mac. Hilariante. Graças a essa lição básica, em vez de pedir a Perrier, um pouco gasosa demais para o meu gosto, podia pedir a “l’eau Badoit, s'il vous plaît”, a minha preferida. Quando tinha de falar com ela, fui instruído a dizer ao telefone: “Vaniá, si vu plé”
Por conta da dificuldade em comunicar-me na língua de Flaubert e Proust, demorei-me uns dez minutos para tomar coragem e abordar um atendente. Solícito, mostrou-me o CD. Era de um pianista que não conhecia: Geoff Keezer (depois, descobri que possuía um disco de Art Blakey, em que tocava). Em inglês, disse-lhe que queria comprá-lo. Ele disse que não podia vender pois era uma amostra para os lojistas e iria estar disponibilizado apenas no começo de outubro. Era setembro e, em poucos dias voltaria ao Brasil. Saí frustrado da loja.
De volta ao Brasil, tempos depois, fui ter com o Odair – grande Odair!, a quem conhecia desde os tempos em que era gerente da melhor loja de discos importados entre os anos 1970 e 80, o Museu do Disco e nessa época, trabalhava numa loja próxima ao Colégio Dante Alighieri. Os catálogos ainda eram impressos (verdadeiros catataus em papel jornal) e não disponibilizados pela internet como hoje. Bom, resumindo, o disco foi lançado uns seis ou sete meses depois. Acho que foi o disco mais esperado daquele 1996.
É desse belo disco que você vai ouvir Love Dance, de Ivan Lins.
A voz da francesa Victoria Legrand (é sobrinha do compositor e pianista Michel Legrand) lembra um pouco a de Nico, a lendária cantora do Velvet Underground. A levada da bateria, o uso de teclados elétricos, e a guitarra de Alex Scally também remetem à banda americana. Os dois formam a banda Beach House. “Casa de praia”? Estranho nome para uma banda, não? Tem alguma coisa de nostálgico, de sons já ouvidos. O som é climático e lembra também os sons etéreos criados por Robin Guthrie, da banda Cocteau Twins.
A maioria das músicas são lentas, cadenciadas, quase dramáticas. Alguns classificam o som de Beach House como “dream pop”. Independente das classificações, é só começar a ouvir para se viciar e se querer mais.
Ouça e veja Heart of Chambers, do penúltimo CD, Devotion.