quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Aaron Parks arrasa em estreia na ECM

Aaron Parks, um craque no piano
O tal do James Farm não existe. Nem apóstrofe tem para que pensemos que pode ser a “fazenda do James”. O James são quatro pessoas: “J”, de Joshua Redman, “A”, de Aaron Parks, “M”, de Mat Penman, e “E”, de Eric Harland. O “s” fica por conta da imaginação.

O “A” [Aaron] tinha 18 anos quando passou a tocar na banda de Terence Blanchard. Quem ficou impressionado com o seu piano foi Kenny Barron. Não era pouco. Não lançou muita coisa como líder, no entanto, participou de shows e discos de Lage Lund, Kurt Rosenwinkel, Christian Scott, Ambrose Akinmusire, Mike Moreno, Kendrick Scott e a jovem cantora Gretchen Parlato. São todos mais ou menos jovens, como ele que, atualmente, tem 30 anos.

Lançou um (tanto estranho) CD no começo do ano, com Yeahwon Shin, chamado Lua Ya. São canções de ninar coreanas. Está explicado o “estranho”. Será “lua” uma palavra da língua de Yeahwon? Em português sabemos que existe. Explicação da pergunta: seu álbum anterior, chamado apenas Yeahwon (2010), é composto de nove músicas brasileiras, a maioria cantadas em português e conta com participações de Egberto Gismonti e Cyro Baptista.

O álbum que gravou com Yeahwon Shin foi seu primeiro trabalho pela ECM. Agora, acaba de ser lançado seu primeiro como líder por esta gravadora. Arborescence é um piano solo. À maneira de Keith Jarrett, a partir do “nada”, desenvolve os temas musicais. A comparação com o genial pianista é inevitável. Apesar de não ser verdadeira a afirmação de que tenha inventado o improviso “espontâneo”, depois de lançado o famoso Köln Concert (ECM 1975), essa forma ficou como que uma marca registrada.

Arborescence (ECM 2338)
Jarrett, quase sempre, prefere dividir os improvisos como Partes (I, II, III etc.). Não foi a opção de Parks. Todas as faixas têm nomes. Se partimos do princípio de que são temas “espontâneos”, somos levados a crer que os títulos são posteriores às gravações. “Desperto na Floresta” (Asleep in the Forest) é a primeira. Depois, são nomes um tanto abstratos, como Toward Awakening ou Past Presence.

O título Arborescence é perfeito. É uma palavra que consta nos nossos dicionários e “arborescer” significa “1. tornar-se árvore. 2. Crescer como a árvore; desenvolver-se” (Dicionário Aurélio). Perfeito. Os temas de improvisos “brotam” e Parks os desenvolve, construindo belas paisagens sonoras..

No solo, o instrumentista depara-se consigo mesmo. É uma viagem solitária, sem a “conversa” com um contrabaixo, uma saxofone ou bateria. Arborescence é o primeiro álbum de Parks nesse formato. Estávamos acostumados a ouví-lo em trios ou quartetos e nem se poderia imaginar que pudesse gravar um disco tão bom. É claro que Keith Jarrett tem seu estilo, ou mesmo Richie Beirach que, aproveitando a onda, andou gravando (bons) piano solo, e Parks tem o seu. Vai na tradicão da música modal, do aprendizado que passou pelos impressionistas como Debussy e Ravel, ou mesmo pelos românticos, mas conseguiu desenvolver linguagem própria, e, o rapaz tem apenas 30 anos. Promete. Arborescene – já estamos em novembro – é um dos melhores lançamentos do ano. Pode comprar sem vacilar.


Ouça Asleep in the Forest, a primeira do álbum.




Ouça In Pursuit. Preste atenção nos contrastes dos graves.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Veja Parks em um solo no YouTube.




Veja Aaron e Mike Moreno no clássico All the Things You Are.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Prazer, Ann Burton

Capa do álbum Blue Burton
Ann Burton, nascida Johanna Rafalowicz, em 1933, em Amsterdam, morreu em decorrência de um câncer de mama, em 1989. Vinte e poucos anos é tempo suficiente para esquecer-se de muitos e de muita coisa. Aliás, você sabe quem é Ann Burton? Daqui a poucos dias, 29 de novembro, faz 24 anos que morreu. Teria hoje, 80. Em meio a tantos de quem não se fala mais, Burton é estatística.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a família viveu fugindo e se esondendo em razão de serem de origem judaica. Terminada a guerra, os percalços de Johanna não terminaram: a mãe não queria de jeito nehum que tentasse a carreira de cantora. Trocou de nome. Virou Ann Burton e caiu na vida.

O disco que a tornou conhecida – o segundo –, emblematicamente, chama-se Blue Burton. Tinha 36 anos. No ano de seu lançamento, 1967, o mercado da música estava maciçamente dominada pelo rock’n’roll dos Rolling Stones e dos Beatles e foi o ano em que Jimi Hendrix lançava seu primeiro disco. Não era boa época para alguém se aventurar por algum outro gênero. Figurões como Count Basie e Duke Ellington sofriam para manter suas orquestras. Bem que gravaram temas “modernos”, mas não era bem o que o mercado queria.

Músicos que se apresentam nos EUA, naturalmente, tornam-se mais conhecidos. Não é o caso de Ann Burton. Apesar de sediar desde 1976 o North Sea Jazz Festival, um dos mais prestigiados na Europa, poucos músicos possuem projeção fora da Holanda. Duas cantoras se destacam: Rita Reyes, de quem escrevi em http://bit.ly/1bgO6tf, e Laura Fygi, que por ter morado um tempo no Uruguai, canta bem em espanhol e em português. Alguns tecladistas como Michiel Borstlap (gravou com o baterista Bill Brufford), Jasper van’t Hof, Misha Mengelberg e Jef Neve, são relativamente conhecidos fora do país em que nasceram..

Burton gravou regularmente até morrer, mas a discografia não chega a duas dezenas. Um dos mais conhecidos é Ballads & Burton, acompanhada por Louis van Dijk, seu pianista favorito. É uma boa amostra da voz de fundo triste, que lembra um pouco a da americana Irene Kral, morta precocemente também em decorrência de um câncer. Ballads & Burton foi lançado pela Sony holandesa em 1969 e é um belo disco de canções tristes, bem do jeito que eu gosto.

Se você procurar no YouTube, existem vários registros de Burton.

Ouça Bang Bang, de Ballads & Burton.



Ouça It Never Entered My Mind, do mesmo álbum.


Ouça The Shadow of Your Smile.


Ouça Try a Little Tenderness.