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quarta-feira, 14 de julho de 2021

Flagra

Semenova, a gigante de 2,13 m. 
Ao ler sobre uma mulher que faltou ao trabalho, alegando estar “doente”, ter sido demitida depois de ser vista na transmissão por TV festejando a vitória da Inglaterra sobre a Dinamarca, no estádio de Wembley, semifinal da Eurocopa 2021, lembrei-me de caso semelhante que aconteceu com  primo meu.

Aconteceu há quarenta anos. Em 1971, o Brasil sediou o 6º Campeonato Mundial de Basquete Feminino. Acho que foi a primeira transmissão ao vivo de jogos de basquete feminino no país. Um dos participantes era o Japão, que acabou ficando em 5º. O Brasil, com um time, cujos destaques eram Norminha, Marlene, Heleninha e Nilza, conseguiu o terceiro lugar, e a União Soviética da desengonçada gigante de 2,13 m, Uliana Semenova, imbatível, foi a campeã.

Como bom descendente de japoneses, meu primo, dois irmãos e amigos foram assistir ao embate entre Brasil e Japão, na fase final, que aconteceu no Ginásio do Ibirapuera, São Paulo. Eu, não tão fanático, nem lembro de ter visto o jogo, mas, provavelmente, a colônia em peso estava como os olhos fixos nos televisores a torcer pela seleção japonesa.

Meu primo nem tinha completado 15 anos na época, mas já fumava, claro que, escondido do meu tio. Ele era tão rígido com os filhos que, mesmo mais velhos, nunca fumaram na frente dele. Era medo, mas também, respeito, bem da educação japonesa, rígida.

O que era pouco provável aconteceu. Filmaram-nos vendo o jogo. Um deles era esse meu primo, com um cigarro na mão. Chegando em casa, meu tio, partidário que era adepto dos safanões como forma de educar, foi direto nele com a mão levantada quando chegaram de volta. Nem deu para desconfiar por que, só depois dos tabefes, e, muito menos, argumentar. Soube depois que aparecera na televisão com um cigarro na mão a torcer pela seleção japonesa.

domingo, 27 de junho de 2021

De jegue

Tenho uma admiração muito grande pelo meu lavador de carros, aliás, do meu e de muitos outros da redondeza. Trabalhava como empregado em um Lava-Carros que fica a três quarteirões da minha casa. Um dia, resolveu deixar de ser empregado. Comprou um fusquinha velho e, com um primo, passou a lavar carros a domicílio. Bom de papo, nordestino de boa conversa, “roubou” vários clientes. Em pouco tempo, eram tantos os que usavam de seus serviços que ambos, deixaram de pagar aluguel e compraram suas casas.

Raimundo, esse é o seu nome, é magro de voz forte. Da minha casa sei quando está por aqui. Enquanto lava, aspira e seca os automóveis, não para de falar, cumprimenta quem passa, conta piadas e é amigo de todo mundo. Aí, quando vejo que meu carro está necessitado de uma lavagem, vou lá falar com ele. Responde: “Agora não dá, pois tenho quatro carros programados para agora. Tem que agendar. Dá uma ligada marcando.”

Quando lava meu carro, fico conversando com ele. Gosto do sotaque e do modo como falam. Têm sempre uma resposta na ponta da língua. Adoro papear com eles. Em certa feita, dobrou a esquina uma Mercedes, cantando pneus. Freou perto de onde estávamos, com um sorriso que mostrava todos os dentes. Raimundo diz a ele: “Tá querendo se mostrar? Garanto que lá em Pernambuco você só pilotava jegue.” Quem dirigia era o manobrista de uma churrascaria perto de casa.

Lembrei da história ao ler que o presidente, em reação aos protestos de “Fora Bolsonaro”, “Genocida”, ao entrar em um avião, disse que os insatisfeitos deviam estar viajando de jegue e não de avião.

Tenho enorme respeito pelo Raimundo, um nordestino que veio para São Paulo e venceu, e nunca por um idiota capaz de dizer isso aos que o acham, isso mesmo, um idiota, imbecil, com falta total de empatia. Quer mesmo é que todos morram. Respeito mais os jegues e, por ele, não tenho nenhum.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Réguas diferentes

Em toda a minha infância nunca soube da existência de uma parte do boi: o filé mignon. Em Passos, MG, cidade em que morei até os 11 anos, quando se comia um bife, o normal era a alcatra ou o contra filé.

Um tempo depois de mudarmos para São Paulo, pela primeira vez na vida, soube que existia o filé mignon.

Minha mãe sempre foi partidária da participação de todos nas tarefas domésticas. Tornei-me o comprador oficial de carne. Até hoje, olhando para as peças em um açougue, reconheço cada corte. Se era carne moída, a escolha era o patinho, para os bifes a rolê, o coxão mole ou o duro. Os bifes do dia a dia eram sempre de alcatra. Minha mãe dizia: “Só compra alcatra se tiver passado do meio da peça.” A carne é mais dura no começo dela. Nesse caso, a instrução era para comprar contrafilé. É uma coisa que não esqueci.

Morando em São Paulo, ao descobrir da existência do filé mignon, fiquei com vontade de experimentar. Minha mãe, no entanto, mantinha-se irredutível. Continuava na alcatra. Seu argumento: “Filé mignon é uma carne sem graça, seca e é para banguelas.”Bom, pra que discutir com a mãe?

Deve ter demorado uns cinco anos para que eu pudesse comer filé mignon pela primeira vez. Ela, inexplicavelmente, mudou de opinião e os bifes quase diários mudaram para esse corte.

Comida de rico. Apesar da infância de sacrifícios, meu pai era de hábitos requintados. Por exemplo, jogava golfe. Quando minha irmã foi para a Escandinávia, deu-lhe dólares para que trouxesse caviar, salmão defumado e enguia defumada, que ocuparam dois terços de sua mala na volta. Na década de 1970, eram itens da mesa de ricos, o que não era o nosso caso. 

Sempre participei dos afazeres domésticos. Meu pai adorava fazer festas em nossa casa no bairro do Morumbi. Sobrava para minha mãe e sua auxiliar, a empregada doméstica da vez. No apuro, virei o terceiro auxiliar: batia maionese na mão, cortava cebola, picava alho e ficava a acompanhar o cozimento dos alimentos. Desse modo, adquiri uma certa habilidade com os utensílios domésticos e com a cozinha. 

Meu pai chegava sempre por volta das 19h. A mesa já estava sempre posta. A peça de salmão defumado era de respeito, uns 40 cm., assim como a enguia defumada. Eu era o cortador oficial. Todas as noites, fatiava o salmão em finíssimas lâminas e a enguia em rodelas de menos de um centímetro de espessura. Durante semanas, diariamente, foi o menu de jantar do meu pai. O resto da família, exceto eu, nunca foi chegado em coisas do mar.

Em um das vezes em que o menu incluía filé mignon, enquanto se esbaldava com o caviar — comia de colherada —, salmão e enguia defumada, veio com essa: “Vocês ficam comendo filé mignon… e nem imaginam o tanto de gente que não tem nem tem o que comer!” E nós, mudos, olhando para a cara dele, impávida, a deliciar-se com iguarias pouco comuns em mesas de comensais da classe média.

sábado, 24 de outubro de 2020

Flerte

Um termo que caiu em desuso é “flerte”, ou melhor, ninguém mais flerta. Um dos significados, segundo o dicionário Houaiss é “fazer a corte”. Nem “corte” é mais usado em nossos dias, pronunciado com o circunflexo e não com acentuação aguda, que significa outra coisa ainda.

Reencontrei com uma colega de faculdade que, por coincidência, morava no mesmo prédio de uma amiga íntima.

Dias depois, liguei para M, sua vizinha, e contei que tínhamos combinado de sair. Com a liberdade — ou liberalidade — das verdadeiras amigas, daquelas que dizem tudo sem receios, que te aconselham, e até te recriminam, disse: “Vai com calma! Ela é minha amiga e você não vai cair matando.” Bom, nunca fui de cair matando. Sou tímido. Sempre fui cuidadoso, até demais. 

Fiz o que ela disse. Saímos para jantar e conversamos muito. Eu a conhecia pouco. Estudamos na mesma turma por um semestre e sequer era da turma com quem andava. Lembrava bem dela porque era muito bonita.

Curiosa, M ligou-me no dia seguinte e perguntou como tinha sido o jantar. Disse que tínhamos combinado de sair novamente. Não satisfeita de ter me orientado do que fazer uma vez, deu-me os próximos passos. “Leve-a para jantar em um local mais perto da sua casa e depois você pode convidá-la para assistir a alguma ópera no seu telão. Sei que ela gosta muito. Mas você não vai cair matando em cima dela!”

Pois fiz tudo nos conformes. Coloquei a “Flauta Mágica”, do Mozart. Conversamos sobre a cenografia, sobre os cantores. Entendia de ópera mesmo. Bom, a história termina aqui. A partir desse dia, nunca mais permiti que minha amiga palpitasse sobre como devo agir nessas situações.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A morte e as 72 virgens

O uso de artefatos explosivos sempre foi a modalidade mais comum nos atentados perpetrados por movimentos considerados terroristas, como o dos bascos, do IRA e dos árabes Causaram muitos estragos e mortes no continente europeu. Eram deixados em logradouros públicos de grande circulação ou em automóveis estacionados e, em vários casos os alvos almejados eram figuras públicas adversárias consideradas inimigas ou adversárias desses movimentos separatistas.

Uma modalidade, porém, pode ser considerada exclusiva dos árabes: a dos homens-bomba. Haveria a promessa de que no Paraíso os mortos seriam recebidos por 72 virgens. Talvez seja por isso a prevalência de homens nessa modalidade, mas até como forma de despistar um ou outro atentado foi praticado por mulheres. Objetivamente, seria mais fácil disfarçar ou esconder as bombas sob as vestes femininas.

Minha quase chegada ao paraíso. Embarcamos bem cedo, do aeroporto de Cumbica, para Montevidéu. Foi minha última viagem em um Boeing-747, minha aeronave preferida. 

O hotel, meio antigo, ficava na avenida da praia, mas próxima da região central da cidade. Depois de andar bastante, de almoçarmos no Mercado, acabamos entrando em um shopping porque ela queria comprar um creme. Preferi dar uma explorada por outras lojas. Uns quinze minutos depois, voltei e ela continuava na loja. Preferi esperar no lado de fora, já um pouco impaciente e irritado com a demora, de cócoras, com as costas encostadas na parede. 

Quando a vi saindo, devo ter levantado rapidamente e ter tido uma queda abrupta de pressão. Desmaiei. Na queda, bati a cabeça com certa violência e foi essa a razão de ter recobrado os sentidos no instante seguinte. Ao abrir os olhos vi três jovens moças agachadas perguntando se eu estava bem. Ela, não sei se pelo susto, nem se abaixou. Vi seu rosto e de mais umas cinco pessoas em pé observando. Fui levado para a enfermaria do shopping. Disse que estava bem e saímos em pouco tempo. 

Mesmo em momentos graves, mantenho um certo senso de humor. “Achei que tinha morrido. Quando vi aquelas três belas garotas, achei que eram as primeiras virgens das 72 que me esperavam no paraíso”, disse. Ela ficou fula com a minha observação. Mas, passou. O resto da viagem foi deliciosa. Um dia volto a Montevidéu. Sem virgens.


Como música é vida, assista a um show da marroquina Amina Aloui, genial. Interpreta canções de raízes muçulmanas, em árabe, em espanhol e em português.

 
 
Quer saber mais sobre ela? Tem um texto no meu blog sobre ela: A viagem de Amina Alaoui


domingo, 13 de setembro de 2020

Buzina

A buzina, nos carros, existe para alertar o outro, seja um pedestre ou um outro veículo. Como qualquer invenção, mesmo sendo para o bem, pode achar o seu espaço para o mal. Se é lenda ou não, dizem que Santos Dumont morreu desgostoso ao perceber que sua invenção poderia ser uma poderosa arma para a guerra.

Estava chegando ao estacionamento em que deixava meu carro diariamente. Bem na entrada, um senhor estava parado a admirar um outdoor de uma pin-up da revista Playboy. Buzinei para que ele permitisse que eu entrasse no estacionamento. Nada. Buzinei novamente. Saí do carro para falar que ele precisava sair da frente. Descobri então que ele era surdo e mudo.

sábado, 12 de setembro de 2020

Carlos Conde e o 11 de setembro

O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.

Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.

Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
 
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.

Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.

Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.

Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.

No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.

Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sobre elegância e o meu casaco Samira

Dizem que a roupa que você usa representa o que você é. Não tenho alguma opinião formada sobre esse assunto. Com a pandemia, quando, se você tem alguma responsabilidade, não sai de casa, a não ser para comprar itens essenciais ou ir até a farmácia, a opção é o conforto. Óbvio que se você participa de uma “live”, por exemplo, não vai aparecer com uma camiseta velha e puída.

A elegância é um atributo intrínseco. Não adianta sair por aí com uma bolsa Hermès combinando com a sua roupa comprada na loja da Chanel. Quem é realmente elegante é vestindo uma camiseta Hering e um jeans sem marca.

Pois tive fases em que me preocupei mais e menos com os itens da minha indumentária. É um assunto que entra no terreno da frivolidade, vamos dizer. No início da adolescência aconteceram duas coisas: deixei de usar as roupas que minha mãe escolhia e passei a gostar de ler. Nessa rebeldia, em vez de calças Topeka, queria calças de alfaiate, sapatos de uma loja bem conhecida na época, a Spinelli. Meu interesse por literatura foi um batismo de fogo: Flaubert, Dostoiévsky, Hemingway e Vargas Llosa. Meio sem noção de quem eram, encarei-os, em nunca antes ter lido Monteiro Lobato, um completo desconhecido em Passos, MG, onde fiz o 1º grau. Nesse caldeirão, eram óleo e água, futilidade e cultura.

Mas foi passageiro. Enquanto lia avidamente o que aparecia na minha frente, deixei crescer o cabelo — afronta explícita à rigidez da educação paterna — e passei a usar túnicas indianas. Tinha uma calça de sarja cor de laranja, quase cenoura, que minha mãe odiava. Um dia,dei falta dela. Minha mãe tinha jogado no lixo. Na foto da minha matrícula na FAU-USP, meus cabelos eram longos e vestia uma túnica roxa, com fios dourados.

Ao sair da FAU, tive que mudar um pouco, para adequar-me aos lugares em que fui trabalhar. Mas o vestir não fazia parte das minhas principais preocupações.

Trabalhando com design gráfico, meus esforços iam em direção às artes plásticas. Tinha participado de uma coletiva de gravura no MAC-USP e do Salão Paulista de Arte de Santos e de São Paulo. Meu estúdio era em um dos quartos da casa dos meus pais. Lá passava as noites pintando e desenhando até a chegada do sono. 

Um amigo de minha irmã, imagino que, para impressionar a paquera, que cursava artes plásticas na FAAP-SP, resolveu trazê-la para conhecer o meu ateliê. Era uma moça muito chique. Vestia um jeans justíssimo e uma blusa fina de seda. Dentro do meu universo cotidiano, era a primeira mulher que eu conhecia que se maquiava e usava batom. O encontro foi bem formal. Afinal, pelo que imaginei, ela estava saindo com o amigo da minha irmã e devia ter algum interesse dele por ela.

Não lembro mais de como tudo aconteceu, porém, a história é que um mês depois, estávamos namorando. Era fim de inverno. Minha preocupação com o vestir era simplesmente funcional. Nos dias de frio usava um casaco de náilon creme que tinha herdado da minha irmã, da Samira, que não o queria mais e ia jogar fora. Detalhe: ela tinha 1,50 de altura, e eu, 1,70. Ficava um pouco justo, mas cumpria sua tarefa de deixar o meu corpo quente. 

Em uma das primeiras vezes em que saímos, usei o casaco. Imagine o contraste: ela chique, perfumada e super maquiada, e eu de Samira de náilon. O namoro firmava. Adivinhe qual foi a primeira coisa que ganhei de presente? Um casaco. A partir de então, resolvi me preocupar com o que vestir. É desse tempo a primeira camisa da Richards que comprei e também do meu primeiro paletó na Tweed, na época, uma referência na moda masculina.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Chifrada


Dona Luzia, isso mesmo, dona – era como a tratávamos – foi empregada da minha família por um bom tempo, por cinco anos talvez. Era alcoólatra, fumante inveterada, negra, de tez bem escura, cerca de 1,80 de altura, muito magra, sem nenhum atributo de beleza, digamos que era feia, bem feia. Mesmo assim, não lhe faltavam homens. Tinha borogodó. Com cerca de 40 anos, aparentava 60.
Na minha casa ninguém bebia. Meu pai tinha uma ou outra garrafa de whisky para os amigos, devidamente escondidos, porque dona Luzia era daquelas que bebia até perfume e loção de pós-barba. Meu pai a aturava, quase não a via. Minha mãe sempre foi compreensiva e bondosa. Inclusive, exigia que tratássemos qualquer um de nossos semelhantes com respeito, pobres ou ricos. Acho que, por isso, o ‘dona’
Luzia”.
Sendo alcoólatra, de vez em quando, nem conseguia levantar e dar conta das tarefas domésticas. Minha mãe nasceu pobre e nunca foi de fugir do batente. Cozinhava e até auxiliava dona Luzia, quando ela não se encontrava em suas melhores condições de trabalho.
Anualmente, dona Luzia viajava para a Bahia no período de suas férias. Em uma delas, passado um mês, não voltou. Desapareceu. Não tivemos mais notícia. Cerca de cinco meses depois, ressurgiu do nada. Minha mãe nunca deixaria alguém desamparado. Dona Luzia voltou a trabalhar conosco, sem que a outra fosse despedida.
Contou-nos que ficara hospitalizada. Tinha uma cicatriz bem visível na testa. Disse que estava em um descampado e nisso, perseguida por um touro, bateu de cara em uma cerca de arame farpado.
A única parente que dona Luzia tinha em São Paulo era uma sobrinha, que, de vez em quando, aparecia e a levava para passear em fins de semana. Enquanto se arrumava para sair, a sobrinha acabou contando o que realmente acontecera. Estava em um bar, bebendo, é claro, e engraçou-se com um rapaz. Só não contava que a sua mulher estava junto. As duas brigaram e dona Luzia acabou levando uma facada na testa. Aquela marca não foi em decorrência de ter tentado se livrar de uma chifrada.
 
(publicada em 3 de maio de 2020 no Facebook)

Olho de vidro

Dentre as empregadas domésticas que passaram pela casa da minha família, algumas se destacam por suas peculiaridades: dona Neusa, alcoólatra, que não voltou das férias por ter levado uma facada na testa, uma outra de peitos enormes que andava com um radinho de pilha encaixado no sutiã, uma pernambucana que dizia que era fácil de arrumar um matador por 200 reais, mas a de quem escrevo nesse momento, é por uma lembrança bem mais banal, mais ou menos banal.

Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.

Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.

Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”

sábado, 5 de setembro de 2020

Vinho envelhecido

Passado o período de experiência – três meses –, chegou o dia de ser apresentado ao futuro possível sogro, em grande estilo. Não sei se em grande estilo, mas com certo estilo. O lugar do encontro seria em um sítio distante uns cem quilômetros de São Paulo..

Saímos, programados de chegar perto da hora do almoço. Há sempre uma expectativa nesses encontros. O lugar era simples, despojado e agradável. Sentamos na varanda e perguntou-me se bebia algo. Educadamente, respondi que podia ser qualquer coisa. Fiquei sentado na varanda, observando a vegetação um pouco ressecada, ouvindo o som resultante do vento que atravessava uma plantação de eucaliptos à minha esquerda.

Logo veio “seo” José com uma taça de vinho e o depositou sobre a mesa ao lado da minha cadeira. Não era de muitas palavras. E eu, “abandonado”, com alguém que conhecera há poucos minutos, senti um certo constrangimento no ar. Mas, aprendi, com o tempo, a lidar melhor com essas situações. Hoje, se alguém puxar uma conversa, consigo falar sobre qualquer assunto, desde o mais banal, como futebol (que mal acompanho), sobre o tempo (é o quebra gelo mais habitual), e tenho um conhecimento além da média quando o assunto é música, literatura e artes plásticas.

Porém, não foi fácil achar assunto com ele. Era um sujeito calado e, se imperasse o silêncio por alguns minutos, principiava a cochilar. Era o primeiro encontro, afinal. Com um pouco de dificuldade, conversei sobre amenidades, tentando causar boa impressão.

Depois de mais ou menos meia hora, percebeu que eu mal tocara no vinho. O que me servira estava vinagre puro. Levantou-se e trouxe uma outra garrafa e outra taça. Experimentei. Mesma coisa. A marca era Gatão, bem popular no fim do século passado. Os vinhos da Península Ibérica não tinham a fama nem a reputação de hoje. Eram considerados de segunda, e eram mesmo, pelo menos os que vinham para o Brasil. A exceção eram os vinhos do Porto.

Chateado, disse: “Puxa, vou ter que jogar uma caixa inteira, que tinha comprado há quinze anos!” Com o convívio mais amiúde, descobri que tinha o hábito de comprar tudo em grandes quantidades. Chegou, em certa ocasião, a comprar um saco de um quilo de orégano, suficiente para abastecer um rede de pizzarias por mais de uma ano. Bom, mas essa é para uma outra história.